CINEMA PARADISO (1988)

(Nuovo Cinema Paradiso)

 

Videoteca do Beto #52

Vencedores do Oscar #1988 (FILME ESTRANGEIRO)

Dirigido por Giuseppe Tornatore.

Elenco: Philippe Noiret, Jacques Perrin, Salvatore Cascio, Marco Leonardi, Antonella Attili, Enzo Cannavale, Isa Danieli, Leo Gullotta, Pupella Maggio, Agnese Nano, Leopoldo Trieste, Roberta Lina, Nino Terzo, Brigitte Fossey, Tano Cimarosa e Nicola Di Pinto.

Roteiro: Giuseppe Tornatore.

Produção: Mino Barbera, Franco Cristaldi e Giovana Romagnoli.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A história da linda amizade entre um garoto órfão de pai e um projecionista de cinema sem filhos se mistura à própria história do cinema italiano, nesta linda homenagem do diretor Giuseppe Tornatore ao cinema de uma forma geral, que espalhou lágrimas de cinéfilos por todo o mundo em 1988. Auxiliado por uma das mais lindas trilhas sonoras de um gênio e por atuações sensíveis e tocantes, “Cinema Paradiso” é uma realização única e incrivelmente emocionante.

Alguns anos depois do final da Segunda Guerra Mundial e antes da chegada da televisão, uma pequena cidade da Sicília, na Itália, foi o palco de uma grande amizade entre Salvatore “Totó” (Jacques Perrin), um garoto apaixonado por cinema, e Alfredo (Philippe Noiret), o projecionista do cinema local conhecido como “Cinema Paradiso”. As lembranças desta amizade marcante, provocadas pela notícia da morte de Alfredo, tomam conta dos pensamentos do agora bem sucedido cineasta Salvatore, que se prepara para voltar à cidade natal após trinta anos.

O diretor Giuseppe Tornatore conduz “Cinema Paradiso” com extrema elegância, através de belos movimentos de câmera, como um travelling que se inicia no crochê abandonado pela mãe de Salvatore (Antonella Attili, jovem, e Pupella Maggio, idosa) quando este finalmente retorna pra casa, passa pela janela e pelo taxi, até finalmente encontrar o rapaz abraçando sua mãe. Tornatore, aliás, abusa dos travellings e panorâmicas, explorando com competência as lindas paisagens da bela Itália, auxiliado pela direção de fotografia de Blasco Giurato. O diretor também conduz muito bem a tensa seqüência do incêndio no Cinema Paradiso, iniciada exatamente quando um tiro seria disparado no filme que passava. Em seguida, a pergunta “quem irá reconstruir o Cinema Paradiso?” é respondida com outro movimento de câmera, que aponta o napolitano vencedor da loteria. E ele realmente ergue o “Novo Cinema Paradiso”, dando inicio a uma nova fase no cinema da cidade, agora comandado por Totó, já que Alfredo foi gravemente ferido no incêndio e perdeu a visão. Em outro momento, um movimento simples, porém muito simbólico, acontece quando Salvatore tem a confirmação da morte do pai. Observe como Tornatore leva a câmera até um pôster de “…E o Vento Levou”, numa clara alusão à semelhança física entre o pai dele e Clark Gable que Alfredo havia comentado antes. Finalmente, Tornatore também utiliza o zoom na bela cena em que Alfredo conta a história do soldado que prometeu aguardar por cem dias pela amada, e que refletirá em outra linda seqüência entre Salvatore e sua paixão Elena (Agnese Nano).

Giuseppe Tornatore também demonstra muita competência na condução dos atores, a começar pela dupla que conduz a narrativa formada por Totó e Alfredo, mas interpretada por quatro atores diferentes. A relação de amizade entre eles se inicia com as discussões sobre a presença do garoto na sala de projeção e caminha até o mais puro sentimento de respeito e carinho que acompanha ambos por toda a vida. Para transmitir esta sensação, é essencial que exista química entre os personagens, e felizmente Philippe Noiret consegue estabelecer esta química com todos os atores que interpretam Totó em suas três fases, com destaque especial para a infância, vivida por Salvatore Cascio. O início da amizade entre Alfredo e o menino Totó é o que determina a empatia do público com a dupla. Também interpretam Salvatore os atores Marco Leonardi, na adolescência, e Jacques Perrin, já na fase adulta e responsável por momentos emocionantes do longa. Ao ouvir a notícia da morte de Alfredo, o já adulto Salvatore finge não ser nada demais, mas quando vira para o lado na cama, seu semblante demonstra claramente a importância daquele nome e o impacto da notícia. A chuva e o rosto triste mergulhado nas sombras deixam claro para o espectador que se trata de alguém realmente marcante. Com a ausência do pai, claramente sentida pelo garoto, é em Alfredo que Totó enxerga a figura paterna, e por isso o menino se apega àquela figura aparentemente ranzinza, mas encantadora em sua essência e com enorme coração. Ao mesmo tempo, Alfredo adota Salvatore como o filho que não teve e mesmo que inconscientemente, eles se completam. É compreensível, portanto, que vivendo numa pequena cidade italiana no período do pós-guerra, ainda sem televisão e órfão de pai, o menino enxergue no escuro do cinema (e na companhia de Alfredo) a oportunidade de fugir da realidade e viver um mundo de sonhos. Sua vida começou a mudar definitivamente quando ajudou Alfredo numa prova e conseguiu o direito de freqüentar a cabine de projeção. A partir dali, viveu um período mágico em sua vida. Já a vida de Alfredo mudaria completamente após a tragédia do incêndio no antigo Cinema Paradiso. Impossibilitado de fazer aquilo que mais amava, ele passa a ter ainda mais sensibilidade para perceber o mundo à sua volta. E a atuação de Philippe Noiret cresce ainda mais quando Alfredo fica cego, transmitindo ainda mais emoção e expondo com competência os sentimentos do personagem, como num sorriso que ele solta ao pressentir que Totó vai ver Elena dentro da igreja. A importância de Antonio na vida de Salvatore fica ainda mais evidente quando vemos este pedir para que ele “fique longe” e “não volte mais!”. Antonio entendia que ele poderia conseguir muito mais na vida indo para a cidade grande (“O mundo é seu!”), o que demonstra um amor verdadeiro, que não é egoísta e prefere a felicidade de Totó ao invés de mantê-lo preso ao seu lado – e no fundo, ele sabia que se pedisse, Totó ficaria. O rapaz cumpriu a promessa, ficando trinta anos sem voltar à cidade, e em sua volta, é visto com muito respeito por todos, realizando o sonho de Alfredo – e até mesmo a composição visual de Tornatore demonstra isto, filmando Salvatore de baixo pra cima, demonstrando grandeza.

A linda estória narrada conta também com o ótimo roteiro do próprio Giuseppe Tornatore, que abusa da metalingüística, fazendo diversas referências ao próprio cinema. Além disso, utilizando um linguajar despojado e com muitos palavrões (típico dos italianos), constrói de forma bastante consistente a amizade entre Totó e Alfredo, apresentando também os bastidores do trabalho de projeção dos filmes e revelando a paixão de ambos pelo cinema. O fascínio das pessoas pelo cinema, aliás, é notável durante toda a narrativa. Elas deixam compromissos para trás, brigam, aguardam por horas na porta, tudo para ver um bom filme. Interessante notar também o sorriso no rosto das crianças ao ver os filmes do gênio Charles Chaplin. Além disso, o roteiro explora muito bem o bom humor, como no engraçado método de censura do padre Adelfio (Leopoldo Trieste) para os filmes exibidos no Cinema Paradiso, onde todas as cenas de beijo são cortadas, provocando verdadeiros saltos na projeção que causam a imediata reação da platéia. Por outro lado, quando finalmente assistem uma cena de beijo, a reação de espanto e alegria é enorme. Outro momento de bom humor acontece quando Alfredo projeta um filme numa casa e o morador sai para ver a razão daquele alvoroço. Repare também como alguém grita que “a praça é nossa” durante a tentativa de cobrar ingresso, provocando a imediata reação do louco da praça, que responde com sua frase característica “a praça é minha!”.

Tecnicamente “Cinema Paradiso” também tem qualidades, a começar pela boa montagem de Mario Morra. Observe, por exemplo, o salto de muitos anos na narrativa durante uma conversa entre Totó e Alfredo e a elegante seqüência em que uma bicicleta vai e volta com os filmes na garupa, demonstrando o sacrifício daquelas pessoas para não deixar o público esperando dentro do cinema. A trilha sonora do gênio Ennio Morricone é um capítulo à parte. Absolutamente linda, a nostálgica trilha se confunde com o clima de saudade de todo o longa. O deleite visual fica por conta da boa direção de fotografia de Blasco Giurato, que explora a beleza das locações italianas, se contrapondo muito bem ao excelente uso da luz e das sombras nas cenas dentro do Cinema Paradiso. Já a direção de arte de Andrea Crisanti capricha na tipicamente italiana cidade de Giancaldo, com a praça central e as ruas de pedras. Além disso, podemos observar o bom trabalho de Crisanti no interior abandonado do Cinema Paradiso. E finalmente, merece destaque a ótima maquiagem de Maurizio Trani, notável em diversos personagens quando Totó retorna para a cidade.

A sensibilidade de Tornatore também brinda o espectador com algumas seqüências incrivelmente belas, como o primeiro beijo de Totó e Elena, auxiliado pela maravilhosa trilha sonora e pelos clarões da chuva que cai. Outro momento tocante acontece quando Salvatore retorna ao Cinema Paradiso. Os pequenos detalhes encontrados no abandonado cinema, como a boca do Leão de onde eram projetadas as imagens, são extremamente importantes pra ele, afinal de contas, fazem parte das lembranças de uma fase importante de sua vida. A vida é feita destas pequenas memórias e o longa retrata muito bem isto. Em outra cena, o choro das pessoas ao ver uma parte da história da cidade e da vida delas ir embora junto com a implosão do Cinema Paradiso é de cortar o coração. Difícil segurar as lágrimas. Assim como é praticamente impossível segurar as lágrimas na belíssima seqüência final, quando Totó assiste ao “filme proibido” deixado de presente por Alfredo, com pedaços de cenas de beijo de grandes filmes da história do cinema italiano.

“Cinema Paradiso” é uma linda homenagem à magia do cinema e por isso, encanta aos cinéfilos de forma singular. Além disso, quando vemos a estrutura do cinema sendo demolida, seguida pela emocionante seqüência final em que Salvatore finalmente vê os pedaços de filmes cortados por Alfredo, sentimos uma mistura de emoções, pois sabemos que ali está se despedindo não apenas o Cinema Paradiso, mas também uma fase áurea do cinema italiano, marcante para muitos cinéfilos e que entrou para a história como um dos melhores períodos da sétima arte. Por isso tudo, “Cinema Paradiso” comove, abordando temas universais de forma singela e inesquecível.

Texto publicado em 30 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

OS INTOCÁVEIS (1987)

(The Untouchables)

 

Videoteca do Beto #51

Dirigido por Brian De Palma.

Elenco: Kevin Costner, Robert De Niro, Sean Connery, Charles Martin Smith, Andy Garcia, Richard Bradford, Jack Kehoe, Brad Sullivan, Billy Drago, Patricia Clarkson e Peter Aylward.

Roteiro: David Mamet, baseado em livro de Oscar Fraley, Eliot Ness e Paul Robsky.

Produção: Art Linson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O estilo marcante e o visual refinado de Brian De Palma aparecem com força total neste tradicional confronto entre o bem e o mal, que conta como o agente do tesouro Eliot Ness conseguiu combater e prender o poderoso Al Capone, em pleno período da lei seca, na Chicago dos anos trinta. O ritmo empolgante, o impressionante visual e as marcantes atuações fazem de “Os Intocáveis” um filme muito interessante, que trouxe de volta os bons filmes de gângster ao cenário de Hollywood.

Nos anos trinta, a lei seca impedia o comércio de bebidas alcoólicas em Chicago, o que não quer dizer que este comércio não existia. Com praticamente todos os poderosos no bolso, Al Capone (Robert De Niro) mandava e desmandava na cidade. É quando o jovem agente Eliot Ness (Kevin Costner) é contratado para acabar com o reinado do terror e da corrupção e, ao lado do guarda de rua Jim Malone (Sean Connery), do contador Oscar Wallace (Charles Martin Smith) e do novato policial Giuseppe Petri (Andy Garcia), forma uma equipe de homens corajosos e incorruptíveis, conhecida como “os intocáveis”.

O trabalho técnico merece grande destaque em “Os Intocáveis”, conseguindo ambientar perfeitamente o espectador à época. A começar pela magnífica recriação da Chicago dos anos trinta, resultado do trabalho em conjunto da excelente Direção de Arte de William A. Elliott e dos figurinos de Giorgio Armani e Marilyn Vance. Desde os charmosos carros, passando pelo interior dos ambientes – como o luxuoso hotel Lexington onde Capone se hospeda – até os elegantes ternos, sobretudos e chapéus, a sensação é de estarmos em outra época. O toque final no apurado visual vem da boa direção de fotografia de Stephen H. Burum, que utiliza cores dessaturadas freqüentemente, lembrando em diversos momentos imagens antigas de jornal. Além disso, Burum também utiliza um tom vermelho, que remete ao sangrento destino de Malone, quando sua surpreendente fonte é revelada – Mike (Richard Bradford) – e diz que ele é um homem morto. Pra completar o grande trabalho técnico, ainda nos créditos iniciais que aparecem sob o reflexo da sombra do nome do filme, podemos notar a qualidade da empolgante trilha sonora do ótimo Ennio Morriconne, que apresenta diversas variações interessantes durante o longa. Repare como a trilha indica tensão quando Ness, antes de invadir o primeiro depósito, vê um homem suspeito e se aproxima dele, somente para descobrir que era um repórter. Já após a frustrada batida, quando o desolado agente sai vagando triste pelas ruas até chegar à ponte, a trilha melancólica indica a tristeza dele. Finalmente, quando “os intocáveis” conseguem a primeira batida com sucesso, a trilha triunfal eleva ainda mais o grande momento.

Além do trabalho técnico, De Palma precisou contar também com um elenco afiado, pois a empatia do público com o quarteto principal é essencial para que “Os Intocáveis” funcione. Felizmente, o elenco corresponde. A começar por Sean Connery, numa atuação excepcional, notável desde a primeira aparição na ponte, quando tem seu primeiro contato com Eliot Ness, até sua terrível morte, onde transmite perfeitamente a dor de Malone, massacrado pelos tiros e mal conseguindo falar com Ness antes de seu último suspiro. Quem também está muito bem é Kevin Costner, no papel do correto Eliot Ness. Determinado em prender Al Capone, Ness é um personagem complexo, que tenta cumprir a lei, mas sabe que apesar de não querer, poderá ter que usar métodos que a própria lei proíbe para cumprir seu objetivo. Afinal, Malone foi bem claro com ele no interessante diálogo dentro da Igreja (“Você quer pegar Capone? É assim que se pega Capone: ele puxa uma faca e você, uma arma. Ele manda um dos seus para o hospital, e você manda um dos dele pra cova”). Mas Ness não consegue conviver tranquilamente com este violento ambiente, ficando claramente desconfortável quando mata um dos gângsteres de Capone. Por outro lado, sabe da enorme responsabilidade que tem nas costas, e o peso de sua missão fica evidente quando conversa com a mãe da garota morta na explosão do bar – e Costner é competente ao transmitir a angústia e preocupação do personagem neste momento. O ator também se mostra muito solto no papel, por exemplo, quando questiona ironicamente no meio da rua e com as mãos na cintura o novo amigo Malone (“Porque está me ajudando?”). A química entre os dois amigos, aliás, é essencial para a empatia do público e ambos têm sucesso absoluto. Repare como, após ficar transtornado por matar um homem, Ness rapidamente se reanima com as palavras diretas de Malone. Neste momento, aliás, Malone comprova sua astúcia ao utilizar um homem morto como elemento chave para conseguir a informação que precisava de um gângster capturado.O terceiro integrante da exemplar equipe é muito bem apresentado ao espectador, demonstrando sua habilidade com a arma na mão e sua forte personalidade ao confrontar sem medo o veterano Malone. Mas Andy Garcia, se não compromete, também não consegue grande destaque na pele do exímio atirador Stone (ou Giuseppe Petri). Finalmente, o quarto integrante do grupo é Oscar Wallace, interpretado por Charles Martin Smith, que se sai bem no papel do contador que cai de pára-quedas na missão e acaba tendo papel fundamental, ainda que saia cedo de cena. Seu melhor momento acontece quando, depois de sair atirando em tudo que vê pela frente, encosta num barril onde a bebida jorra e, após olhar para os lados e confirmar que ninguém está vendo, toma uns goles do líquido proibido. Finalmente, a razão da existência desta equipe de homens honestos é justificada pela marcante presença de Robert De Niro como o poderoso Al Capone, impondo respeito toda vez que entra em cena (De Palma acentua seu poder ao filmá-lo constantemente em ângulo baixo). Seu cinismo exala na tensa seqüência em que fala sobre beisebol e trabalho em equipe, momentos antes de espancar com o taco de beisebol um dos integrantes da máfia, numa cena extremamente violenta. Em dois momentos, De Niro tem um duelo direto com Costner e ambos transmitem muita segurança no que falam. No primeiro deles, Ness, inconformado com a morte de Wallace, invade o hotel Lexington e chama Capone pra briga. No segundo, Capone, derrotado nos tribunais, é provocado por Ness e precisa de alguns capangas para segurá-lo, tamanha a fúria que sentia. Fechando os destaques do elenco, Patricia Clarkson vive a serena esposa de Eliot Ness, se transformando na estrutura familiar que ele precisa para desempenhar sua função com sucesso.

“Os Intocáveis” conta também com o bom roteiro de David Mamet que, além da boa construção dos personagens, é repleto de frases marcantes, como a citada orientação de Malone sobre como se faz para pegar Capone e as polêmicas declarações do poderoso mafioso. Além disso, a montagem de Gerald B. Greenberg e Bill Pankow mantêm a narrativa num ritmo ágil, permitindo, por exemplo, que o espectador saiba quem são os personagens principais, quais são as suas motivações e o que está em jogo de forma rápida e direta, além de colaborar decisivamente na melhor cena do filme, dentro da estação de trem. E finalmente, chegamos a Brian De Palma. Diretor com grande apreço pelo visual estilizado, permite que o espectador note sua inventividade logo no primeiro plano, quando vemos em plongèe (filmado por cima) o poderoso Al Capone rodeado de jornalistas numa barbearia dizendo que “existe violência em Chicago, mas não vem de mim”. Em seguida, um lento travelling nos leva à porta de um bar onde uma pequena garota está entrando. A recusa do dono do bar em comprar cerveja contrabandeada, a presença da pequena garota e uma suspeita maleta “esquecida” por um gângster são os ingredientes de um início explosivo, que desmente logo de cara as palavras de Capone. O espectador sabe, a partir deste instante, do que o mafioso é capaz. Por isso, quando um gângster ameaça a família de Ness na porta da casa dele, o desespero do agente ao subir as escadas é compartilhado com o espectador, que leva um pequeno susto ao ver a cama vazia, acalmando-se com o movimento de câmera para a direita que mostra a filha dele. O diretor, aliás, abusa dos movimentos “não convencionais”, como a câmera que circula a mesa com os quatro intocáveis ou o travelling que sai da janela onde Ness e Wallace conversam sobre o imposto de Capone e revela que eles estão num avião. Em outro momento, a câmera funciona como o ponto de vista do invasor da casa de Malone, deixando o espectador grudado na cadeira até o violento desfecho da cena. De Palma é competente também na condução de seqüências espetaculares, como o flagra na divisa entre os EUA e Canadá, onde – embalada pela ótima trilha sonora – a montagem alterna muito bem entre os diversos planos, tornando a seqüência ainda mais empolgante. E, obviamente, demonstra seu talento na melhor cena do longa, durante a espetacular seqüência na estação de trem (uma bela homenagem a “O Encouraçado Potemkin”, de 1925). A câmera lenta mostra em detalhes o show orquestrado por De Palma, com o carrinho do bebê lentamente descendo as escadarias enquanto os gângsteres trocam tiros com Ness e Petri, num balé perfeito que é puro cinema.

Apesar do clima tenso, “Os Intocáveis” não é carregado dramaticamente. Mesmo assim, não deixa de ter cenas extremamente tocantes e tristes, como a morte de Wallace, que escancara de vez a corrupção da polícia de Chicago, e a atordoante morte de Jim Malone. Por outro lado, as empolgantes intervenções do grupo no tráfico de bebidas e o grande final garantem a sensação de satisfação ao espectador. A seqüência final, aliás, não poderia ser menos do que sensacional, iniciando quando Ness, agora poderoso após conseguir o julgamento, aparece gigante na tela ao sair da côrte (De Palma também utiliza um ângulo que o engrandece na tela). O inteligente roteiro utiliza o fósforo (“1634 Rancine”) como forma de indicar para Ness quem matou Malone (num artifício chamado pista e recompensa, que normalmente agrada muito ao espectador), dando início a outra ótima perseguição, ainda que tenha pequenos exageros (Ness erra um tiro a meio metro). E novamente, o estilo marcante de Brian De Palma aparece, quando após empurrar Nitti (Billy Drago), a câmera faz um movimento interessante buscando Ness em cima do prédio. O empolgante final, com a troca do júri e a prisão de Capone, completa a perfeita conclusão da narrativa.

Impecável tecnicamente, “Os Intocáveis” conta de maneira muito interessante como o poderoso Al Capone viu seu império cair diante do determinado agente Eliot Ness. O refinado estilo visual de seu diretor e suas grandes atuações fazem com que este seja um grande momento do cinema nos anos oitenta, explorando de maneira divertida um gênero normalmente mais pesado e mesmo assim, conseguindo sucesso absoluto.

Texto publicado em 25 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

O ÚLTIMO IMPERADOR (1987)

(The Last Emperor)

 

Videoteca do Beto #50

Vencedores do Oscar #1987

Dirigido por Bernardo Bertolucci.

Elenco: John Lone, Joan Chen, Peter O’Toole, Ying Ruocheng, Victor Wong, Dennis Dun, Ryiuchi Sakamoto, Maggie Han, Ric Young, Vivian Wu, Cary-Hiroyuki Tagawa, Jade Go, Henry O, Richard Vuu, Tsou Tijger e Tao Wu.

Roteiro: Mark People e Bernardo Bertolucci.

Produção: Jeremy Thomas.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“O Último Imperador” é um deleite visual, enriquecido pelos fatos históricos que narra e pelo belo estudo de personagem que traz. O diretor Bernardo Bertolucci conta a trajetória de Pu Yi, o último imperador da China, que acompanhou praticamente de camarote durante toda sua vida as diversas etapas fundamentais da história recente chinesa, dentre elas o fim da dinastia Ching e a instauração da primeira república chinesa (de Sun Ya-Sem), a invasão japonesa, a II Guerra Mundial e finalmente, a fundação da República Popular da China. Durante este processo, aprendeu que a primeira etapa de sua vida nada mais era do que uma prisão de luxo e viu crescer dentro de si a sede pelo poder, chegando ao fundo do poço quando participou da ocupação japonesa em sua terra natal – quando foi transformado em imperador-marionete da Manchúria – fato este que resultou em sua prisão como traidor da nação.

Aos três anos de idade, Pu Yi (John Lone) foi declarado Imperador da China e passou a viver enclausurado na Cidade Proibida até ser deposto pelo governo revolucionário, já com 24 anos, quando finalmente pode conhecer o mundo fora daqueles muros. Passou então a buscar obsessivamente o poder, chegando ao ponto de colaborar com a invasão japonesa da Manchúria, em troca de ser nomeado Imperador da região. Capturado por soviéticos, foi devolvido à China e feito prisioneiro político, sendo libertado somente no fim de seus dias.

Bernardo Bertolucci conduz com competência a longa trajetória de Pu Yi, criando belíssimos planos, como toda a linda cerimônia de nomeação de Pu Yi como Imperador, ainda com 3 anos de idade. O diretor também faz interessantes movimentos de câmera, como o lento travelling que passa pelo Imperador prostrado no chão ao tentar escutar de onde vem o barulho, sobe até o alto dos telhados e volta para Johnson (Peter O’Toole), momentos antes do jovem Pu Yi dizer que aprova o protesto dos estudantes lá fora. Bertolucci alterna com competência entre os muitos closes no rosto do imperador, realçando suas reações, e os planos gerais que demonstram a qualidade do trabalho técnico do longa, explorando muito bem a beleza das locações, como a própria arquitetura da Cidade Proibida. Repare como no plano em que Pu Yi se deita com suas duas mulheres, o lençol é tomado pelas cores quentes e o fogo daqueles corpos lentamente se mistura ao fogo dos depósitos. Finalmente, um pequeno travelling chama a atenção, quando o velho Pu Yi, ao lado de dezenas de bicicletas, olha fixamente para algo que é revelado segundos depois pelo movimento de câmera de Bertolucci, simbolizando uma nova etapa na vida dos chineses, já invadidos pelas famosas bicicletas que enchem as ruas de Pequim.

Bertolucci assina também o roteiro (auxiliado por Mark People), misturando importantes fatos históricos do período em que se passa a narrativa aos significativos efeitos provocados em Pu Yi por sua infância trágica, ainda que luxuosa, que fizeram do jovem imperador um refém do poder e do conforto pelo resto de sua vida. Desta forma, os fatos históricos servem como pano de fundo para um interessante estudo de personagem. O único escorregão acontece na forma maniqueísta com que retrata os japoneses, que parecem ser todos gananciosos e cruéis (“A Ásia nos pertence!”). Bertolucci divide ainda a narrativa em dois períodos. O primeiro deles se inicia com a chegada dos prisioneiros na fronteira entre Rússia e China e aborda a vida do Imperador Pu Yi após sua prisão, enquanto o segundo mostra sua trajetória como imperador desde os três anos de idade até o momento em que foi capturado pelos russos quando fugia para o Japão.

O apuro técnico de “O Último Imperador” é espetacular. Observe a caprichada Direção de Arte do trio Maria-Teresa Barbasso, Gianni Giovagnoni e Gianni Silvestre, responsável pelo notável contraste entre o luxo da vida do Imperador dentro da cidade proibida e a sofrida vida dentro da prisão. A direção de fotografia de Vittorio Storaro é esplêndida, claramente refletindo a divisão da narrativa através da cor que predomina na tela. Durante toda a seqüência na prisão o verde é a cor predominante, adotando um tom frio e obscuro que simboliza a esperança praticamente morta dentro do imperador, que tenta até mesmo o suicídio. O vermelho chinês predomina toda a trajetória do imperador até seu encontro com os japoneses, simbolizando a influência das tradições chinesas em sua vida, aprisionado na Cidade Proibida. A partir do momento em que inicia sua relação com os japoneses, o azul passa a predominar a tela, simbolizando a frieza de Pu Yi ao “vender” sua terra natal em troca do possível poder que finalmente poderia desfrutar, já que até então, Pu Yi havia sido o ator principal de uma peça sem platéia. Também se destacam os impecáveis figurinos de James Acheson, que recriam com precisão as luxuosas roupas chinesas tanto do imperador, como da imperatriz e de praticamente todos os integrantes da Cidade Proibida, criando um interessante contraponto com os uniformes sem vida da prisão que refletem a tristeza daqueles homens condenados. A montagem de Gabriella Cristiani faz uma interessante transição no tempo durante a visita da mãe de Pu Yi, ao dizer que faz sete anos que ele não vê sua mãe. Também transita elegantemente entre as duas narrativas, como quando Pu Yi diz aos seus interrogadores que queria reformas e em seguida, vemos a cena em que ele corta seu cabelo. A evolução da infância e adolescência de Pu Yi também segue num bom ritmo, conseguindo mostrar diversos fatos marcantes sem jamais soar cansativo. O problema do trabalho de Cristiani aparece na etapa final da narrativa, onde parece estender demais algumas cenas, como a passeata em que Pu Yi tenta ajudar um conhecido da prisão, que é encerrada por uma dança desnecessária de garotas chinesas. Este pequeno problema acaba tornando o filme mais longo que o necessário, mas nada que comprometa o excelente resultado final da obra. Também merece destaque a maquiagem no velho Pu Yi e a trilha sonora tipicamente chinesa que ambienta perfeitamente o espectador.

As fortes e rígidas tradições chinesas tem presença marcante no longa, como podemos perceber no momento em que o jovem Imperador necessita de óculos (“Imperadores não usam óculos!”), no método de escolha da Imperatriz e até mesmo nos cabelos de Pu Yi. Esta rigidez provoca ainda mais o sentimento de revolta no garoto, que começa a se rebelar quando ouve a manifestação de estudantes (“Os estudantes estão certos. Eu também estou bravo!”), e que resulta na quebra total dos costumes chineses por parte dele (“Se eu fosse monarca, mudaria tudo. É humilhante não poder escolher”, referindo-se a escolha de sua esposa). Pu Yi passa a usar óculos e corta o cabelo, numa cena que arranca sorrisos sutis de Johnson, dele próprio e da Imperatriz. Por outro lado, o choque cultural começa a atrapalhar a relação do trio quando estes entram em contato com os costumes do ocidente e a consorte (Vivian Wu) se revolta, dizendo que quer o divórcio. Na infância perdida (“Nunca vi outra criança”), seus únicos momentos de diversão se resumiam às brincadeiras com os eunucos, o que explica sua enorme alegria ao correr pela cidade com o irmão mais novo. Quando pergunta ao tutor se George Washington tem um carro (“Eu queria ter um carro”), Pu Yi começa a mostrar interesse pelo mundo lá fora, ratificado pelo seu deslumbre diante dos carros – que contrastam com os camelos que aparecem no plano anterior – momentos antes de deixar pela primeira vez a Cidade Proibida. Personagem central da narrativa, Pu Yi é interpretado por quatro atores diferentes. O primeiro deles é Richard Vuu, ainda quando Pu Yi era uma criança de três anos. Tsou Tijger, o segundo, vive a infância do imperador. Extremamente caricato, claramente é o mais fraco de todos. Já a terceira fase de sua vida é interpretada com competência por Tao Wu. Nesta importante fase, Pu Yi começa a se rebelar de verdade e Tao Wu transmite o sentimento de revolta do jovem com precisão, além de demonstrar com sutileza sua felicidade ao despir o rosto da esposa pela primeira vez e ver que se tratava de uma bela jovem. O mesmo sorriso sutil aparece como sinal de rebeldia quando corta seu cabelo diante dos eunucos. Finalmente, John Lone é o melhor de todos interpretando a fase adulta de Pu Yi. Seu olhar determinado, a fala confiante e o ar superior dão o tom do ditador que Pu Yi pensava ser. Nesta etapa de sua vida, já era um homem totalmente dominado e fascinado pelo poder, como fica evidente quando diz que irá construir seu próprio país ao falar da invasão da Manchúria. Observe como até mesmo na prisão Pu Yi ainda se sente poderoso, mandando e desmandando até o momento em que é obrigado a fazer as tarefas e aceitar sua nova realidade. Sua esposa, interpretada corretamente por Joan Chen, se cansa da sede de poder de Pu Yi e expõe todo seu sentimento de desgosto ao comer ópio na festa de comemoração do domínio japonês sobre a Manchúria. Com a amargura que toma conta de sua consciência, ela inicia seu triste processo de decadência, consolidado quando tem seu bebê misteriosamente morto e é levada pelos japoneses, retornando algum tempo depois, totalmente degradada fisicamente. Finalmente, o excelente Peter O’Toole tem uma atuação de destaque como o sóbrio tutor britânico Flemming Johnson. Elegante, sempre com a voz firme e a fala pausada, transmite uma tranqüilidade incrível quando está em cena, servindo como ponto de equilíbrio para a criação daquele jovem solitário. Destaque para sua reação espontânea quando Pu Yi pergunta por que ele nunca foi casado.

Em dois momentos cruciais da narrativa, Pu Yi se sente impotente em frente aos portões que se fecham. Mesmo com todo o poder que pensava ter, ele não era capaz de sair do local em que estava. Primeiro, o jovem sai pedalando sua bicicleta para ver sua mãe morta e se depara com os portões da Cidade Proibida. Suas tentativas frustradas de ordenar a abertura dos portões escancaram seu falso poder. Posteriormente, Pu Yi se reencontrará com esta situação quando corre para evitar a saída de sua esposa numa ambulância, mas da mesma forma, é impedido em frente aos enormes portões da embaixada japonesa. A realidade é escancarada de vez no triste final, quando o último imperador chinês volta ao local onde foi “consagrado” e aprisionado, agora como um turista comum que paga normalmente pelos ingressos. Sua visita aos interiores da Cidade Proibida é repleta de nostalgia, e a bela cena final, com a guia de turismo dando informações sobre o local e sobre Pu Yi, encerra corretamente a narrativa.

Esplêndido em todos os aspectos técnicos, que resultam num visual absolutamente deslumbrante, “O Último Imperador” entrega ainda uma narrativa interessante, que utiliza os fatos históricos para nos mostrar a vida do trágico Pu Yi de forma bastante humana e tocante. Dirigido com competência por Bertolucci, o longa demonstra os efeitos da triste infância em toda sua vida, onde não passou de uma marionete de luxo, sem jamais chegar a ocupar um lugar de verdadeira importância entre os poderosos da época. Felizmente, o tempo se encarregou de reservar-lhe um lugar de respeito na história chinesa.

Texto publicado em 23 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

MÁQUINA MORTÍFERA (1987)

(Lethal Weapon)

 

Videoteca do Beto #49

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Mel Gibson, Danny Glover, Gary Busey, Mitch Ryan, Tom Atkins, Darlene Love, Traci Wolfe, Jackie Swanson, Damon Hines e Ebonie Smith.

Roteiro: Shane Black.

Produção: Richard Donner e Joel Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Misturar elementos de ação e comédia é algo sempre bem vindo, pois estes dois gêneros costumam casar muito bem quando a junção é realizada corretamente, ainda mais em filmes policiais. Felizmente, Richard Donner acertou a mão neste primeiro longa da marcante e divertida série estrelada por Mel Gibson e Danny Glover, que viria ainda a ter três continuações de boa qualidade. Repleto de realistas e empolgantes cenas de ação, guiadas por um roteiro inteligente e recheado de bom humor, “Máquina Mortífera” é diversão garantida e, mais importante, de ótima qualidade.

Roger Murtaugh (Danny Glover), um policial à beira da aposentadoria e responsável pela investigação de um misterioso suicídio de uma garota, é obrigado a aceitar seu novo e ensandecido parceiro de trabalho chamado Martin Riggs (Mel Gibson). A investigação da dupla levará a um perigoso grupo de ex-militares do Vietnã que comanda o tráfico de drogas local, ao mesmo tempo em que servirá para consolidar a amizade entre eles.

O travelling inicial de “Máquina Mortífera” nos leva ao apartamento de Amanda Hunsaker (Jackie Swanson) ao som da animada música natalina “Jingle Bells”. Ao entrar no apartamento, porém, a realidade é bem diferente da alegria que o natal traz. A jovem loira, drogada e aparentemente fora de si, caminha até a sacada aonde sua vida chegará ao fim. A chocante cena da queda é muito bem realizada por Donner, que mostra o impacto de forma bastante realista, encerrando a seqüência com um impressionante plano feito de dentro do carro atingido. O diretor também capricha nas sensacionais seqüências de ação, com destaque para a explosão de uma casa, a invasão de uma mansão e, principalmente, toda a seqüência final, que se inicia com a pesada tortura aos policiais (observe as dolorosas reações de Riggs e Murtaugh) e só termina na luta entre Riggs e Joshua (Gary Busey, em atuação apenas razoável) em frente à casa de Roger. Apesar de exagerada, a luta final é belíssima visualmente, acentuada pela fotografia obscura, a chuva e a câmera agitada que alterna closes (realçando a dor dos personagens) e planos distantes, que permitem apreciar os elaborados golpes desferidos. Em outro momento, logo após o seqüestro de Rianne (Traci Wolfe), Donner cria um belo plano onde Roger e Riggs conversam em frente à árvore de natal. Observe como o diretor de fotografia Stephen Goldblatt utiliza o forte domínio do tom vermelho na cena, ilustrando visualmente o inferno astral da dupla naquele momento. Finalmente, na tensa e espetacular seqüência do deserto, Donner inicia e termina com um travelling, ambientando o espectador ao local. Observe como a excelente montagem de Stuart Baird garante um ritmo empolgante à cena sem jamais soar confusa. Baird, aliás, mantém a narrativa ágil e o ritmo empolgante durante todo o tempo, o que é essencial em um filme de ação.

A empatia que “Máquina Mortífera” provoca no espectador se deve em grande parte ao fato dos dois policiais serem pessoas comuns, com muitos problemas e completamente vulneráveis. Além disso, obviamente as atuações de Danny Glover e Mel Gibson colaboram bastante. A dinâmica da dupla é impressionante e os atores estão à vontade em seus papéis. Observe como Riggs cantarola durante a sessão de tiro ao alvo enquanto acerta todos os tiros, provocando espanto em Roger, ao passo que o amigo demonstra firmeza ao confrontar o trauma de Riggs quando é preciso. A verdadeira amizade aparece nos momentos alegres e tristes. A excelente introdução dos personagens situa muito bem o espectador na trama. Logo de cara, sabemos que Murtaugh enfrenta problemas com sua idade através de sua reação às piadas da família em seu aniversário, reforçada pela frase “Estou velho demais para isso”, repetida seguidas vezes durante o longa. Também sabemos, logo em sua primeira aparição, que Riggs é uma pessoa largada na vida, vivendo em um trailer e parecendo não ligar muito pra bagunça que o cerca (na realidade, esta bagunça reflete seu estado psicológico, revelando o bom trabalho de direção de arte). Vale ressaltar também que ter participado da guerra do Vietnã talvez seja o único ponto em comum entre os dois policiais. Enquanto um busca a calmaria da aposentadoria e tem uma família estável, o outro procura a morte de todas as formas após ter a sua família destruída, o que faz dele um perigo constante pra todos que cruzam seu caminho. Na impressionante cena em que Riggs coloca a arma na cabeça e na boca, fica evidente a razão de sua dor – e Gibson transmite muito bem este sentimento, chorando e lutando contra a vontade de largar tudo e deixar esta vida. O roteiro espalha evidências ao longo da narrativa, mas jamais dá muitas explicações sobre o drama de Riggs, o que é elegante e correto. As imagens falam mais que as palavras.

Mas o longa dirigido por Richard Donner não é perfeito. Os vilões jamais soam ameaçadores, talvez pelas fracas atuações de praticamente todos eles. Além disso, a primeira negociação entre Riggs e os traficantes, apesar de engraçada, é pouco verossímil. Dificilmente traficantes negociariam drogas ao ar livre, em plena luz do dia, em local de fácil acesso e totalmente desarmados como este três fizeram. O que atenua um pouco estes problemas é o fato do longa ser bastante voltado para o bom humor, fazendo com que esta cena, por exemplo, não soe tão deslocada na narrativa. O bom roteiro de Shane Black não resiste ao clichê “os dois se odeiam inicialmente e viram grandes amigos com o tempo”. Mas com exceção deste pecado, é bem amarrado e utiliza muito bem o mundo do tráfico de drogas como pano de fundo para a ação, chegando inclusive a mostrar as conseqüências graves do tráfico na sociedade logo no inicio, com a morte de Amanda. Além disso, utiliza inteligentemente o bom humor, tornando a narrativa mais leve e descontraída. Destaque para o inusitado (e cômico) método de Riggs para evitar um suicídio, os engraçados olhares entre Rianne e Riggs vigiados por Murtaugh durante um jantar e o diálogo dos dois amigos em cima de um barco, que marca também o momento em que a amizade se consolida de verdade. Os diálogos, aliás, evidenciam o entrosamento da dupla, como podemos notar também quando eles vão de carro até uma mansão.

“Máquina Mortífera” conta ainda com a deliciosa trilha sonora de Eric Clapton e Michael Kamen, que utiliza elementos de jazz durante o cotidiano da dupla e adota um tom pesado e tenso no deserto, oposto às notas rápidas utilizadas nas perseguições. Além disso, o longa inicia e termina com canções de natal (“Jingle Bells” e “I’ll be home for Christmas”), já que a depressão que muitas pessoas sentem nesta época tem muita influência na narrativa. Depressão, aliás, é a palavra que define muito bem Martin Riggs. Felizmente, o aparecimento de uma grande amizade amenizou os efeitos desta doença em sua vida, como fica evidente no momento em que Riggs entrega a “bala especial” nas mãos de Rianne, como um presente de natal para o amigo Roger.

Em resumo, “Máquina Mortífera” é um bom filme policial, que mistura doses corretas de ação, humor e suspense, e ainda encontra espaço para mostrar, mesmo que de forma superficial, os efeitos de uma doença que ataca muitas pessoas nos dias de hoje. Bem dirigido por Richard Donner, conta também com a força da entrosada dupla principal, extremamente dinâmica e responsável direta pela empatia do espectador. As maravilhosas seqüências de ação são a cereja no bolo deste filme que tem seus defeitos, mas garante a diversão sem ofender a inteligência da platéia.

Texto publicado em 14 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

DIRTY DANCING – RITMO QUENTE (1987)

(Dirty Dancing)

 

Videoteca do Beto #48

Dirigido por Emile Ardolino.

Elenco: Patrick Swayze, Jennifer Grey, Jerry Orbach, Cynthia Rhodes, Jack Weston, Jane Brucker, Kelly Bishop, Lonny Price, Max Cantor, Charles “Honi” Coles, Neal Jones e Wayne Knight.

Roteiro: Eleanor Bergstein.

Produção: Linda Gottlieb.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A seqüência final de “Dirty Dancing – Ritmo Quente” dá ao espectador uma sensação de satisfação plena com o que viu. A bela coreografia, a música empolgante e a boa performance dos atores conferem aos últimos minutos do longa dirigido por Emile Ardolino um status que infelizmente o restante da narrativa faz questão de derrubar, graças à um roteiro falho, pouco criativo e que, por muitas vezes, ignora a inteligência do espectador. Por outro lado, o filme nos brinda com maravilhosas canções durante toda a projeção e seu final extremamente empolgante parece apagar da memória de muitos espectadores as falhas que o roteiro apresenta.

Durante uma viagem da família para um resort em Catskills, a jovem Frances Houseman, conhecida como Baby (Jennifer Grey), conhece o dançarino Johnny Castle (Patrick Swayze), por quem se apaixona perdidamente. Ao mesmo tempo, Penny Johnson (Cynthia Rhodes), a parceira de dança de Johnny, se envolve com o garçom Robbie Gould (Max Cantor) e engravida, fazendo com que Baby se ofereça para aprender a dançar e substituir Penny, o que desagrada totalmente seu pai, o Dr. Jake Houseman (Jerry Orbach), que pensa ser Johnny o responsável pela gravidez da garota.

Os grandes destaques de “Dirty Dancing” são inegavelmente a dança e a trilha sonora. Os números muito bem coreografados, que contam com o talento de Swayze para dançar, são realmente espetaculares. Desde os ensaios até as duas apresentações oficiais, podemos notar a qualidade do trabalho dos atores neste sentido. Durante os ensaios também podemos observar o trabalho apenas razoável do diretor Emile Ardolino, por exemplo, quando cria planos dos pés de Baby, demonstrando a dificuldade da garota em seguir os ensinamentos de Johnny, ou quando ela e Penny ensaiam ao som de “Hungry Eyes”, onde o plano inicia nos pés e vai subindo lentamente, até deixar as duas moças nas laterais com Johnny sentado ao fundo e no meio do plano, apenas observando o desenvolvimento do ensaio, simbolizando o quanto Johnny estava envolvido com aquelas duas garotas, obviamente, por razões diferentes. Em outro momento, o diálogo que precede a sensual dança seguida por sexo entre Baby e Johnny é repleto de closes, enfatizando a paixão do casal. A excepcional trilha sonora, repleta de músicas deliciosas e empolgantes, complementa perfeitamente as cenas de dança em “Dirty Dancing”, além de pontuar momentos importantes da trama, como quando Johnny começa a se apaixonar por Baby. Fechando a parte técnica, a fotografia alegre e cheia de cores de Jeff Jur e a montagem ágil de Peter C. Frank criam o clima perfeito para atrair o público jovem.

Obviamente, os atores são extremamente importantes para que os números de dança funcionem. E felizmente, o elenco não decepciona, conseguindo bom desempenho até mesmo nas cenas dramáticas, que por outro lado, são claramente prejudicadas pelo fraco roteiro de Eleanor Bergstein. Patrick Swayze tem uma atuação bastante convincente como o dançarino Johnny, destacando-se, obviamente, nas seqüências em que dança. Mas o ator consegue convencer também nos momentos dramáticos, como na discussão que tem com Baby durante os ensaios, quando ela, por sinal, também reage muito bem (“Estou salvando sua pele!”). Em outro momento, o ator demonstra a emoção do renegado Johnny ao dizer que jamais sentiu que Baby tivesse vontade de contar ao pai sobre a relação dos dois. A baixa estima do dançarino fica ainda mais evidente quando diz que sonhou que o pai dela o havia aceitado. Swayze chega até mesmo a cantar uma das músicas do longa, a bela “She is like the wind”, demonstrando que de fato o filme é dele. Jennifer Grey, por sua vez, vive Baby com extremo carisma e charme. Observe como a atriz disfarça olhando para o alto quando Johnny olha pra ela após conversar com a oferecida Vivian. Minutos depois, ela sorri satisfeita ao ver seu amado dispensar a mulher sem pensar duas vezes. Baby demonstra interesse por Johnny através do olhar assim que o vê, e principalmente quando se preocupa com o que fala pra ele no primeiro contato entre os dois (“Eu trouxe as melancias…”). Graças ao bom desempenho dos atores, o casal Baby e Johnny tem uma excelente química, o que ajuda a criar empatia com o espectador, como fica nítido durantes os ensaios da dupla, especialmente nas cenas em cima do tronco de uma árvore e dentro de um rio, onde evidentemente a paixão começa a florescer também no coração de Johnny (e observe como a trilha sonora pontua bem o momento, tocando a música tema lentamente no piano). A primeira apresentação em público do casal é um aperitivo para o grande final. Observe como Swayze demonstra segurança no olhar, guiando Baby o tempo todo, e Grey também transmite, através do olhar ansioso, o nervosismo da jovem antes da dança, que vai lentamente sendo transformado em confiança nos braços do parceiro.

No restante do elenco, Jane Brucker vive Lisa Houseman de forma detestavelmente unidimensional, dando a sensação de que sua razão de existir é discordar da irmã. Já Jerry Orbach atua muito bem como o ambíguo Dr. Jake Houseman. Inicialmente cheio de carinho pra dar à filha Baby, o médico muda radicalmente ao perceber seu envolvimento com o dançarino Johnny. Sua divisão de sentimentos fica evidente em dois momentos. No primeiro deles, Jake volta atrás na decisão de ir embora do acampamento após os apelos da esposa e da filha Lisa, algo que normalmente não aconteceria com um pai rígido como ele. E no segundo e mais tocante momento, Orbach expressa com competência o sofrimento de Jake ao ver Baby chorando, o que arranca lágrimas do médico também. E finalmente, Cynthia Rhodes demonstra muito bem o drama de Penny quando fica grávida, transmitindo sofrimento através de seu choro e do olhar triste. O problema é que o roteiro falho trata a questão de forma absurdamente superficial, tornando a amarga e difícil decisão de abortar um bebê (algo que jamais aprovo, mas isto é outra questão) em algo simples. A dor que Penny sente se refere apenas ao fato do médico ser um “açougueiro” e jamais retrata o sofrimento que se espera de alguém que interrompeu uma vida.

E é exatamente no roteiro que reside a grande falha de “Dirty Dancing”. Observe como o festival de clichês se inicia logo no primeiro encontro do casal principal, quando Johnny trata Baby muito mal, questionando a origem dos 250 dólares que ela trouxe e dizendo que a garota jamais conseguiria dançar no lugar de Penny (o que obviamente acontecerá). Também impressiona a facilidade com que Baby consegue os tais 250 dólares com o pai, como se fosse uma quantia irrisória solicitada para comprar sorvetes. Dando continuidade a mediocridade, o conflito entre Johnny e o Dr. Houseman jamais convence, soando como um artifício forçado do roteiro para criar a costumeira dificuldade que os casais românticos precisam superar para viver suas paixões. Parece que Eleanor Bergstein entende que as pessoas são incapazes de se comunicar ou explicar os mal-entendidos, criando uma série de situações absurdas para gerar conflito entre os personagens. Afinal de contas, por que Baby desiste de contar a verdade sobre a gravidez de Penny ao pai logo após a primeira tentativa? Porque Johnny, já que estava de saída, simplesmente não conta a verdade para o médico, preferindo aceitar a injusta culpa pela gravidez da dançarina? Porque Lisa jamais se esforça em ouvir o que a irmã tem pra falar a respeito de Robbie, deixando para descobrir a verdade somente próximo do final do filme? Da mesma forma, Bergstein deixa a descoberta de Jake sobre Robbie para os últimos momentos do longa, como se isto fosse necessário para a excelente seqüência final. E pior, mesmo sabendo que foi Robbie quem engravidou Penny, Jake ameaça levantar-se ao ouvir o discurso de Johnny ao lado de Baby no palco (“Sente-se, Jake”, diz sua esposa), como se este falasse mal de sua filha, quando na verdade fazia elogios à garota. E até mesmo na única vez em que o roteiro permite que algum personagem diga a verdade e evite novos problemas – quando Baby diz que Johnny não roubou as carteiras porque estava com ela e decepciona seu pai – Bergstein não resiste ao suspense barato, adiando por alguns segundos a revelação (“Eu sei que ele não roubou”. “E como sabe?” “Não posso dizer…”).

Misturando a mediocridade do roteiro com o talento dos atores para a dança, “Dirty Dancing” caminha para o final dando a sensação de que nada demais acontecerá. E de fato não acontece, mas mesmo assim, o longa surpreendentemente consegue agradar, mostrando o que o espectador já esperava, mas de forma bastante interessante. O final clichê é óbvio e previsível, mas confesso que é absolutamente fascinante ver os dois dançando no encerramento, graças à excelente química do casal, à ótima performance de ambos dançando (especialmente Swayze) e, claro, à maravilhosa trilha sonora, embalada pela excelente música tema “I’ve had the time of my life”. Observe também como o bom trabalho de som capta muito bem a reação do público aos passos inspirados da dupla, o que dá um clima ainda mais alegre para a cena, realçado pela fotografia em tons de rosa de Jeff Jur. O espectador se sente absolutamente satisfeito com o desfecho da narrativa, o que não pode servir como desculpa para que este aceite o restante dela.

Bastante falho ao criar inúmeras situações desnecessárias para justificar os conflitos que levam ao extasiante final, “Dirty Dancing” se salva pelas ótimas e muito bem coreografadas seqüências de dança e pelo grande desempenho da dupla principal, além da excelente qualidade da trilha sonora. Infelizmente, isto não é suficiente para conferir ao filme dirigido por Emile Ardolino uma avaliação melhor do que razoável. Felizmente, por outro lado, a seqüência final tem qualidade suficiente para evitar que o filme seja avaliado como um desastre.

Texto publicado em 11 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

CORAÇÃO SATÂNICO (1987)

(Angel Heart)

 

Videoteca do Beto #47

Dirigido por Alan Parker.

Elenco: Mickey Rourke, Robert De Niro, Lisa Bonet, Charlotte Rampling, Brownie McGhee, Stocker Fontelieu, Michael Higgins, Elizabeth Whitcraft, Eliott Keener, Katheleen Wilhoite e George Buck.

Roteiro: Alan Parker, baseado em livro de William Hjortsberg.

Produção: Elliot Kastner e Alan Marshall.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Profundamente perturbador, “Coração Satânico” jamais apela para a trilha sonora ou monstros repugnantes que saltam na tela como forma de provocar o medo no espectador. Seu mérito está no excelente roteiro e na firmeza com que Alan Parker conduz a narrativa, utilizando sua categoria como diretor para criar um visual cheio de estilo, levando o espectador a descobrir junto com o protagonista o trágico destino que este inevitavelmente encontrará. Durante esta intrigante jornada, seremos envolvidos por um clima sombrio e macabro, repleto de imagens chocantes e, o que é melhor, presenteados com um final incrivelmente surpreendente.

Em 1955, na cidade de Nova York, o detetive particular Harry Angel (Mickey Rourke) é contratado pelo misterioso cliente Louis Cyphre (Robert De Niro) para encontrar um cantor, conhecido como Johnny Favorite, que sumiu há doze anos. O problema é que quanto mais se aprofunda na investigação, mais confuso Harry fica, envolvendo-se com pessoas estranhas, que curiosamente morrem logo após entrar em contato com ele. Nesta jornada, Harry conhecerá um mundo místico e encontrará um caminho sem volta.

Desde o início sombrio, numa rua suja em que um gato olha o corpo de um homem morto, a obscura e excelente fotografia (Direção de Michael Seresin) cria um ambiente sombrio e macabro, que se estenderá por toda a narrativa. Observe a quantidade de vezes em que a cena é iluminada apenas pelo vão existente nos ventiladores, que aparecem constantemente e remetem ao momento em que Johnny rouba a vida de Harry dentro de um hotel, como se fizessem questão de lembrá-lo de algo que ele aparentemente esqueceu. Além disso, sempre que aparecem, os ventiladores tem a função narrativa de indicar o próximo assassinato. A ótima direção de arte de Armin Ganz e Kristi Zea transporta o espectador para o ano de 1955, através do visual sujo da cidade, dos carros velhos e das casas antigas, além é claro de contar com os ótimos figurinos de Aude Bronson-Howard e a excelente trilha sonora de Trevor Jones que abusa do blues, música típica do período e da região de New Orleans. Todo este bom trabalho técnico auxilia o diretor Alan Parker na criação de cenas absolutamente marcantes e de um impacto visual incrível, com destaque para o macabro ritual envolvendo dança e a morte de uma galinha, e para a cena de sexo entre Harry e Epiphany Proudfoot (Lisa Bonet), banhada pela água da chuva que se transforma em sangue e repleta de imagens aterrorizantes. Além destas cenas, vale ressaltar que todas as mortes também são bastante realistas e comprovam o cuidado com o visual por parte do diretor.

Mas “Coração Satânico” também é um filme de atores. E que atores. O excelente Mickey Rourke oferece uma atuação sutil em diversos momentos e extremamente visceral em outros, demonstrando sua enorme capacidade de interpretação. Um dos melhores atores de sua geração, o minimalista Rourke demonstra em seus sorrisos, olhares desconfiados e pequenos gestos (como quando joga sal por cima do ombro quando conversa com Louis) o cuidado que teve ao compor o personagem. Rourke está bem solto no papel e transmite com perfeição ao espectador a angústia de Harry na busca pelo cantor desaparecido. Sua explosão final ao saber da verdade, quando chora de raiva e reflete no olhar a dúvida e perplexidade com o que ouve, só ratifica a qualidade da grande atuação de Rourke. Já Robert De Niro tem uma atuação bastante misteriosa, olhando sempre com firmeza para o detetive e dando dicas de sua verdadeira identidade. Desde sua primeira aparição, demonstra seu talento criando um Louis Cyphre completamente sombrio e enigmático. Suas unhas enormes, sua roupa preta e o ar superior soam completamente coerentes com o personagem, ainda mais quando sua verdadeira identidade é revelada. O grande ator também demonstra talento no único momento em que existe espaço para o humor – mesmo que de forma irônica – quando diz sorrindo para Harry “olhar o linguajar” dentro de uma igreja.

É interessante notar também como as dicas do final surpreendente são espalhadas por todo o excelente roteiro do próprio Alan Parker (baseado em livro de William Hjortsberg), como o fato de todas as pessoas morrerem ao se envolver com Harry. Repare como Louis Cyphre (em inglês, junte os nomes e terá o som de Lúcifer) se diz estrangeiro (ora, o inferno não fica nos EUA até que se prove o contrário) e ironicamente se apresenta em cima de uma igreja, dizendo que seu contrato com Johnny Favorite seria executado somente após a morte dele e afirmando ter ajudado em sua carreira, o que é bastante lógico e coerente. Em outro momento, ele diz que em algumas tribos o ovo simboliza a alma e em seguida devora o ovo, simbolizando o que faria com a alma de Harry no futuro. Mesmo assim, o inteligente roteiro é sutil o suficiente para não permitir que o espectador descubra a verdadeira identidade de Harry até o espetacular momento em que é revelada. Até mesmo o próprio Harry vive uma série de situações que sinalizam seu destino, como quando descobre um altar macabro dentro da Igreja onde conheceu Louis. Observe também como as crianças e os animais (especialmente os frangos, mas também os cachorros) não gostam de Harry, talvez por enxergar sua verdadeira e nada bela natureza. As crianças choram ao vê-lo, enquanto os animais atacam.

O ambiente sombrio em que a trama se passa mais parece pertencer a um pesadelo, onde todas as ações tomadas pelo protagonista parecem levar a um novo caminho, ainda mais tortuoso que o anterior. A cada descoberta de Harry o espectador fica ainda mais intrigado e se vê ansioso pela resolução da investigação. Quanto mais próximo da verdade o detetive chega, mais temeroso o espectador se torna, praticamente pressentindo o trágico destino de Harry Angel. E a revelação final, irônica e absolutamente nocauteante, é de uma genialidade impar, daquelas que dá vontade de ver o filme novamente assim que os créditos começam a aparecer na tela, enquanto Harry desce pelo elevador e vai de encontro ao seu inferno particular.

Utilizando um ambiente sombrio e uma cidade ainda mais tenebrosa como pano de fundo para uma narrativa inteligente e surpreendente, que mistura elementos místicos à tradicional estrutura dos thrillers de suspense, e contando ainda com dois dos maiores atores de sua geração em grandes atuações, o diretor Alan Parker brinda o espectador com um trabalho fantástico, que merece ser apreciado nos mínimos detalhes. E felizmente, o diretor, ao menos pelo que se sabe, não precisou vender sua alma para conseguir este feito.

Texto publicado em 06 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

TOP GUN – ASES INDOMÁVEIS (1986)

(Top Gun)

 

Videoteca do Beto #46

Dirigido por Tony Scott.

Elenco: Tom Cruise, Kelly McGillis, Val Kilmer, Anthony Edwards, Tom Skerritt, Meg Ryan, Michael Ironside, John Stockwell, Barry Tubb, Rick Rossovich, Tim Robbins, Clarence Gilyard Jr., Whip Hubley e James Tolkan.

Roteiro: Jim Cash e Jack Epps Jr..

Produção: Jerry Bruckheimer e Don Simpson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Tony Scott escolheu a dedo o roteiro de “Top Gun – Ases Indomáveis”, sabendo que teria em mãos a oportunidade perfeita de fazer fama e arrecadar milhões em bilheteria. Explorando muitos clichês, o longa nada mais é do que uma estória comum feita para alçar ao sucesso o na época jovem e ascendente Tom Cruise. E Scott é hábil nesta tarefa, utilizando todos os recursos que podia para não falhar. O resultado é um filme convencional, que não deixa ter momentos interessantes – principalmente quando explora as ótimas seqüências aéreas – mas jamais alcança um resultado expressivo ou memorável.

Pete Mitchell, conhecido como Maverick (Tom Cruise), é um jovem e promissor piloto de caça que, ao lado de seu grande amigo Nick “Goose” Bradshaw (Anthony Edwards), ingressa na Academia Aérea norte-americana, especializada em desenvolver os melhores pilotos e conhecida como Top Gun. Ao chegar lá, se envolve com a bela instrutora Charlotte Blackwood (Kelly McGillis) ao mesmo tempo em que enfrenta um duelo particular com outro excepcional piloto, conhecido como Iceman (Val Kilmer).

Como podemos perceber, “Top Gun” parece ter apenas um propósito: alçar o então candidato a astro de Hollywood Tom Cruise ao estrelato e, conseqüentemente, arrecadar milhões nas bilheterias. E o roteiro nada criativo, escrito por Jim Cash e Jack Epps Jr., explora diversos clichês sem nenhum pudor para alcançar seu objetivo. Temos o jovem galã e promissor que, devido ao trauma do passado relacionado à morte do pai, não tem medo e nem juízo, mas que por outro lado, é incrivelmente bom no que faz. Temos também a garota (no caso uma mulher mais madura) que obviamente se envolverá com o mocinho e o antagonista chato, que parece existir somente para gerar conflito com o protagonista sem aparente justificativa, e que obviamente, ficará amigo dele no previsível final. Finalmente, temos as músicas joviais e românticas da bela trilha sonora de Harold Faltermeyer, que ficam grudadas na memória do espectador, fazendo-o lembrar do filme sempre que as escuta (e na época a romântica “Take my breath away”, do grupo Berlin, foi tocada exaustivamente nas rádios). Somente para reforçar o argumento, repare as inúmeras vezes em que Scott utiliza o close em Tom Cruise, freqüentemente de óculos escuros, alternando com planos americanos (da cintura pra cima) do astro sem camisa, claramente explorando o carisma (e os músculos) do jovem ator para atrair o público feminino, como fica evidente na cena do jogo de vôlei, que nada mais é do que puro exibicionismo dos jovens galãs. Até mesmo a tensa e triste morte de Goose não escapa ao clichê da morte do melhor amigo que serve como ponto de virada na vida do protagonista, simbolizada perfeitamente na cena em que Maverick joga as cinzas do parceiro no mar. E nem mesmo o treinamento dos pilotos soa convincente, jamais transmitindo a esperada dificuldade que um piloto deveria enfrentar para alcançar o nível de excelência exigido numa profissão como esta.

Mas “Top Gun” também tem seus pontos positivos, começando pelo excelente trabalho de som, perceptível principalmente nas sensacionais seqüências aéreas, captando perfeitamente o barulho dos aviões rasgando o céu. A boa montagem de Chris Lebenzon e Billy Weber colabora nestas seqüências empolgantes, onde o diretor Tony Scott cria belos planos, auxiliado também pela direção de fotografia de Jeffrey L. Kimball e pelos efeitos visuais. O diretor abusa do lindo visual durante os vôos, aproveitando o universo de belas imagens que o céu proporciona para filmar de ângulos interessantes como a frente, a asa e a cauda dos aviões. Em outro momento, Scott dá um close em Cruise quando este fala do falecido pai, realçando a tristeza em seu rosto ao pensar na misteriosa morte dele. Tom Cruise, aliás, que tem boa atuação, demonstrando a costumeira energia na pele do rebelde Maverick, apesar de abusar dos intermináveis sorrisos (obviamente, buscando se afirmar como galã). Repare como ele sorri levemente ao ouvir que vai para a escola especial “Top Gun”, pois sabia que aquela era a oportunidade da sua vida de provar a qualidade que tinha como piloto, além de poder enfrentar o passado traumático. Seu desempenho cresce na parte final, após perder o amigo e partir para superar o trauma da perda enigmática de seu pai. Mas infelizmente, o roteiro previsível não exige muito do elenco. Goose, interpretado por Anthony Edwards, é um bonachão infantil que tem a única função de provocar o riso forçado no espectador e a maioria de seus fracos diálogos com Maverick não empolga, como quando falam sobre o Mig invertido. Val Kilmer está caricato e exagerado na pele do unidimensional Tom Kazanski, o “Iceman”, que só tem dois momentos humanos durante toda a narrativa. O primeiro é quando respeita a dor de Maverick por perder o amigo (“Sinto por Goose”) e o segundo é o previsível final, quando finalmente reconhece a qualidade do rival. Kelly McGillis vive a madura Charlotte e tem seus bons momentos, como quando diz para Cruise que não quis deixar a relação entre eles atrapalhar a profissão dela (“Não quero que saibam que me apaixonei por você”). Sua Charlotte, apesar de estar completamente apaixonada, é bastante consciente de que assumir aquela paixão poderia comprometer seu desempenho como instrutora da equipe. Tom Skerritt está excelente como o inteligente comandante Mike “Viper” Metcalf, que sabe muito bem onde Maverick pode chegar e luta para extrair o melhor do garoto. E finalmente, Meg Ryan rouba a cena nos poucos minutos em que aparece, vivendo a esposa de Goose, Carole Bradshaw. Totalmente solta e despojada, é claramente a melhor atuação do longa, transmitindo ainda muita emoção quando perde o marido. É com ela em cena que Goose e Maverick vivem um de seus melhores momentos, quando cantam juntos ao piano.

Quando Maverick se aproxima de Charlotte e canta, auxiliado por todos no bar, a canção “You’ve lost that loving feeling”, o longa de Tony Scott parece empolgar. A empolgação aumenta nas maravilhosas seqüências protagonizadas pelos caças que cortam o céu em alta velocidade. Mas infelizmente, quando a ação se passa no chão, não consegue sucesso, se limitando a uma narrativa comum e desinteressante. Não há problemas em utilizar os clichês, afinal de contas eles não se tornaram clichês à toa. O problema é a forma como estes são utilizados, e infelizmente neste caso o resultado pouco criativo não agrada, sendo salvo somente pelas seqüências aéreas citadas.

“Top Gun” não deixa nenhuma mensagem importante ou reflexão, não conta com um roteiro criativo e sequer recicla velhos clichês. Tony Scott prefere seguir o caminho contrário, abusando de fórmulas e receitas para alcançar o sucesso de bilheteria. Por isso, explora as cenas de ação envolvendo os caças para atrair o público masculino e do romance envolvendo o galã da época para atrair o público feminino. No fim das contas, o diretor conseguiu alcançar seu objetivo, mas infelizmente não conseguiu nada mais do que isso. Ao contrário dos poderosos aviões que vemos em todo o filme, “Top Gun – Ases Indomáveis” jamais alça vôos maiores.

Texto publicado em 15 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

PLATOON (1986)

(Platoon)

 

Videoteca do Beto #45

Vencedores do Oscar #1986

Dirigido por Oliver Stone.

Elenco: Tom Berenger, Willem Dafoe, Charlie Sheen, Forest Whitaker, Francesco Quinn, John C. McGinley, Richard Edson, Kevin Dillon, Reggie Johnson, Keith David, Johnny Depp, David Neidorf, Mark Moses, Chris Pedersen, Tony Todd, Corkey Ford, Dale Dye e Oliver Stone.

Roteiro: Oliver Stone.

Produção: Arnold Kopelson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Antes mesmo de suas primeiras imagens, “Platoon”, maravilhoso e verdadeiro retrato do que foi a guerra do Vietnã dirigido por Oliver Stone, deixa claro uma das grandes perdas da guerra. A frase bíblica “Jovem, regozija-te na juventude” faz questão de reforçar que a juventude e a inocência que ela carrega são deixadas no combate, independente da sobrevivência ou não daqueles jovens que são enviados para o fronte.

O jovem e idealista Chris (Charlie Sheen), insatisfeito com a vida comum que seus pais queriam que vivesse, decide se tornar voluntário na guerra do Vietnã e defender seu país como o pai e o avô fizeram em outras guerras. Mas aos poucos, a convivência com o pelotão liderado por Barnes (Tom Berenger) e Elias (Willem Dafoe) e a terrível violência sem sentido da guerra vão alterando completamente sua visão do mundo.

Oliver Stone dirige “Platoon” com conhecimento de causa, já que o diretor é um ex-combatente da guerra do Vietnã. Não à toa, o excelente roteiro escrito por ele próprio escancara os conflitos internos do pelotão, jamais sendo ufanista ou maniqueísta e fazendo questão de mostrar os norte-americanos como seres humanos normais, que cometem erros e acertos e chegam até mesmo a ser cruéis em determinados momentos, como na chocante cena em que atacam uma aldeia. Stone utiliza ainda o inteligente artifício de expor os pensamentos de Chris através das cartas que envia para a avó, fazendo com que o espectador saiba o que ele pensa sem que a narração soe falsa ou deslocada. Repare como os pensamentos cessam subitamente a partir do momento em que Chris deixa de enviar as cartas, pois o jovem percebe que aquilo não fazia mais sentido e corta sua ligação com o mundo exterior.

Stone é ainda mais competente na direção, utilizando a câmera panorâmica com freqüência para ambientar o espectador dentro da hostil selva que o pelotão vai desbravando e alternando o movimento com closes das folhas e árvores, fazendo com que o incômodo seja praticamente palpável ao caminhar pela mata. Colabora na ambientação o excepcional trabalho de som, perfeito desde os pequenos insetos, cigarras e pés estalando folhas no chão até os muitos tiros e bombas explodindo durante os combates. Aliás, o diretor também mostra sua competência nestas seqüências de combate – auxiliado pela boa montagem de Claire Simpson – alternando o close no rosto dos angustiados soldados com planos que demonstram o ponto de vista deles, buscando desesperadamente encontrar o inimigo entre as brechas da floresta e ao mesmo tempo, tentando se proteger dos ataques. Neste sentido, vale destacar o tenso primeiro contato entre o pelotão e os vietnamitas, extremamente bem dirigido por Stone, deixando o espectador lado a lado com Chris, que está distante de sua arma e das granadas, enquanto nota a aproximação dos nativos disfarçados com galhos de árvore presos aos capacetes. Outro grande momento é a triste seqüência da queima da aldeia, exemplificando perfeitamente a insanidade da guerra. “Platoon” também é extremamente realista na forma como retrata os feridos em combate, não aliviando em nada o desagradável resultado de toda aquela carnificina. Finalmente, é importante ressaltar a excelente direção de fotografia de Robert Richardson, que adota um tom obscuro e torna ainda mais sombrias as cenas noturnas, e que mesmo durante o dia, onde destaca a cor verde, mantém a paleta escura refletindo o clima melancólico do longa.

Inconformado por saber que somente os jovens da base da pirâmide social eram enviados para a guerra, Chris decide abandonar os estudos e tornar-se voluntário, o que faz um companheiro de Vietnã questionar sua sanidade (“Só sendo rico para pensar assim”. “Os ricos pisam nos pobres. Sempre foi assim e sempre será”). Mas infelizmente, a inocência é mesmo a primeira vítima da guerra. Jovem de boa formação e idealista, Chris percebe durante sua passagem pelo Vietnã que “defender o país” não é algo tão nobre assim. Charlie Sheen retrata com precisão a gradual transformação de Chris, que chega até mesmo a perder a cabeça quando atira em um deficiente físico vietnamita para fazê-lo dançar, mas se redime momentos depois ao interromper um estupro coletivo de garotas nativas. Esta cena, vale lembrar, contém uma pequena pérola do roteiro, que capta muito bem a mensagem anti-bélica do filme, quando um dos soldados questiona “Você é homossexual? Ela é uma vietnamita!”, e Chris responde: “Ela é um ser humano!”. No reencontro entre Barnes e Chris, logo após a morte de Elias, Sheen demonstra com o olhar sua raiva, explodindo segundos depois contra o sargento vivido por Berenger (“A verdade está no olhar”). Tom Berenger, aliás, que é o grande destaque do longa, com uma atuação firme e assustadora, que atinge seus melhores momentos na rígida discussão que tem com o sargento Elias e na seqüência em que escuta alguns soldados falando em matá-lo (“Estão falando em matar?”), onde com o olhar firme, questiona a fuga da realidade daquele grupo (“Vocês fumam pra fugir da realidade? Eu sou a realidade”). O seco sargento Barnes é um homem transformado pela guerra, alguém que acredita cegamente que está agindo de forma correta, mesmo que para isto tenha que matar pessoas inocentes. Sua personificação do terror chega ao auge no plano em que se prepara para matar Chris. Ironicamente, Barnes falha e acaba sendo vítima do garoto, que por sua vez, completa ali sua total transformação.

Willem Dafoe também se destaca como o sargento Elias, que após tanto tempo em serviço, simplesmente perdeu a motivação e já não mais acredita na finalidade de tudo aquilo, como deixa claro em um diálogo que tem com Chris. Neste mesmo diálogo, Elias reflete também a perda da inocência do povo americano, simbolizada historicamente no conflito do Vietnã (“Já maltratamos tantos outros povos. Acho que agora chegou a nossa vez”). Além da citada discussão com Barnes, em que Dafoe também se destaca, um plano em especial merece ser citado em sua atuação. Segundos antes de ser baleado pelo sargento rival, o incrédulo Elias muda o olhar e pressente o ataque, e Stone – através de um close em seus olhos – capta o momento inspirado de Dafoe com precisão. Surpreendentemente, Elias sobrevive, somente para morrer depois num ataque em massa dos vietnamitas, em outro plano de grande impacto acompanhado pela melancólica trilha sonora de Georges Delerue. Completam o elenco, entre outros, Forest Whitaker e Johnny Depp (em papéis menores), além do próprio Oliver Stone, que faz uma pequena participação já na seqüência final.

Por tudo isto, “Platoon” pode ser considerado um retrato fiel do que foi a guerra do Vietnã, exposto por alguém que esteve lá dentro de fato, e por isso, sabe como ninguém os efeitos causados pelo conflito na mente do ser humano. Retratada também com competência em outros grandes filmes, como Apocalypse Now (de Francis Ford Coppola), esta guerra parece ser mesmo a ferida aberta no país mais poderoso do mundo atualmente. Ou pelo menos era, até o fatídico dia 11 de Setembro de 2001, que curiosamente, gerou novos conflitos envolvendo os Estados Unidos da América, e provavelmente, gerará novos “Oliver Stone” no futuro.

“Platoon” revela a visão peculiar de Oliver Stone sobre o confronto mais marcante na vida dos norte-americanos. Mas as marcas deixadas no povo, por mais profundas que sejam, não se comparam às marcas deixadas nos combatentes que sobreviveram e levaram consigo aquelas tristes memórias. Os dois momentos marcantes da passagem de Chris pelo Vietnã – a morte de Elias e a saída do Vietnã – acontecem em sobrevôos idênticos, acompanhados pela mesma melancólica trilha sonora. E no segundo vôo, a imagem dos corpos jogados no enorme buraco é simplesmente perturbadora. Nas palavras finais dele, “a guerra acabou, mas aquelas imagens ficarão pra sempre em sua memória”. E ficarão também na memória do espectador, assim como o competente filme dirigido por Oliver Stone.

Texto publicado em 13 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

APOCALYPSE NOW (1979)

(Apocalypse Now) 

 

 

Videoteca do Beto #44

Dirigido por Francis Ford Coppola.

Elenco: Marlon Brando, Robert Duvall, Martin Sheen, Frederic Forrest, Albert Hall, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Dennis Hopper, G.D. Spradlin, Harrison Ford, Jerry Ziesmer, Scott Glen e Francis Ford Coppola (Diretor de TV). 

Roteiro: Francis Ford Coppola e John Milius, baseado no romance “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad. 

Produção: Francis Ford Coppola. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não bastasse ter dirigido as obras-primas “O Poderoso Chefão” e “O Poderoso Chefão: Parte II”, o que já garantiu seu nome na história do cinema para sempre, Francis Ford Coppola ainda viria a dirigir e produzir em 1979 “Apocalypse Now”, maravilhoso estudo sobre a ambigüidade do ser humano e os irreparáveis efeitos causados pela guerra em sua mente. Repleto de cenas memoráveis e atuações marcantes, o longa consegue ser mais do que um libelo anti-guerra, explorando a fundo os limites da loucura e do poder, e mostrando ainda como é curta a distância e frágil a linha que separa a racionalidade da irracionalidade dentro do ser humano.

Após voltar do Vietnã, o capitão Benjamin Willard (Martin Sheen) é convocado pelas Forças Especiais do Exército para a secreta missão de encontrar e matar o coronel Walter Kurtz (Marlon Brando) que, segundo as autoridades do exército norte americano, enlouqueceu e passou a agir de maneira absolutamente incompreensível na selva do Camboja. Durante esta viagem o capitão Willard descobrirá, através dos horrores da guerra e de seu efeito alucinatório, que a distância entre o que se julga racional e irracional não é tão grande quanto imaginamos.

Logo no início de “Apocalypse Now” somos apresentados ao clima alucinante do longa, através das imagens de bombardeios na selva ao som da música “The End”, do The Doors. Em seguida, as imagens de um ventilador e de uma hélice de helicóptero se misturam, refletindo o pensamento do capitão Willard, que deseja desesperadamente voltar para a selva por não saber mais conviver em sociedade. Encontrado em meio a uma crise de alcoolismo, onde inclusive se fere ao quebrar um espelho, ele vê no convite das Forças Especiais do Exército (repare a pequena participação de Harrison Ford, que se consagraria um astro dois anos depois) a oportunidade de regressar ao combate, sem saber que ao aceitar o convite, viveria uma experiência que mudaria sua vida para sempre.

Coppola (que faz uma ponta no filme como o diretor de TV) dirige “Apocalypse Now” com extrema elegância, criando planos e seqüências absolutamente inesquecíveis, como o ataque aéreo a uma aldeia vietnamita na beira da praia, ao som de “A Cavalgada das Valquírias”, de Wagner, e a cena em que jatos espalham napalm na selva. Além disso, o diretor consegue criar seqüências incrivelmente realistas durante os combates, fazendo com que o espectador se sinta dentro do conflito e permitindo que ele viaje pelo horror da guerra ao lado de Willard. Observe, por exemplo, os excepcionais planos aéreos durante um ataque dos helicópteros, intercalados com imagens de crianças brincando na aldeia, deixando clara a crueldade daquele ataque, escancarada quando estas pequenas crianças correm pra se esconder. Coppola ainda explora ao máximo as lindas paisagens da região para compor imagens impactantes, como no impressionante ataque dos nativos ao barco do capitão Willard, logo após uma fumaça rosa ser espalhada pelo ar. O diretor também cria momentos de suspense, provocando grande susto na cena do ataque do tigre, que arranca do Chefe (Frederic Forrest) as mais profundas verdades (e arranca também qualquer um da cadeira), e cenas tocantes, como quando Clean (Laurence Fishburne, muito jovem e em boa atuação) morre ao lado do gravador em que ouvia a voz de sua mãe.

O extremo realismo alcançado em “Apocalypse Now” é mérito também da excepcional qualidade do trabalho técnico da equipe. Durante o surfe de um soldado no rio, a fotografia dourada (direção de Vittorio Storaro) reflete a alegria do jovem naquele momento. Por outro lado, nas cenas de combate Storaro adota um tom mais dessaturado, dominado pelo verde musgo, o amarelo e o marrom, refletindo a vida difícil e pouco colorida da guerra. O som é espetacular, captando a hélice dos helicópteros, os tiros, as bombas que explodem e até mesmo os pequenos insetos dentro da mata, e o constante barulho dos helicópteros na primeira metade do longa colaboram para o perfeito clima de guerra, assim como a competente direção de arte de Angelo P. Graham, perceptível nos equipamentos e barcos do exército americano, e os figurinos de Charles E. James. Pra finalizar, a bela trilha sonora do trio Carmine Coppola, Francis Ford Coppola e Mickey Hart adota um tom misterioso, com batidas secas durante a subida do rio, totalmente oposto aos temas da abertura, do ataque à aldeia e do encerramento, embalados pelas clássicas e belas canções do grupo The Doors e pela música clássica de Richard Wagner.

Mas nem só de competência técnica vive um grande filme. E as marcantes atuações de “Apocalypse Now” começam com Robert Duvall, que está sensacional como o Tenente Kilgore, demonstrando firmeza com sua voz imponente e seu olhar determinado, mas demonstrando também liderança na forma como conduz seus soldados. Kilgore parece não temer nada, ou simplesmente achar que não tem mais nada a perder, encontrando tempo até mesmo para incentivar o surfe no meio de um ataque, o que leva o capitão Willard a fazer sérias reflexões sobre a maneira como seu país está encarando aquele conflito. A marcante seqüência em que diz que o cheio do napalm simboliza vitória é captada com precisão pela câmera que se aproxima lentamente de seu rosto através de um zoom, realçando a grande atuação de Duvall. Martin Sheen está muito bem na pele do capitão Willard. Desde a narração convincente (repleta de questionamentos e reflexões), passando pela determinação do personagem em encontrar o coronel Kurtz e chegando ao apoteótico final de sua trajetória, podemos notar a qualidade do trabalho de Sheen. As reflexões de Willard aumentam ao ver os soldados fumando maconha e se embebedando com freqüência, e ele tem certeza de que está tudo errado quando presencia o show das garotas da revista Playboy em pleno Vietnã. (“Os vietcongues não se divertem. Nas horas vagas, comem arroz frito e ratos”). Dennis Hopper está espetacular como o agitado fotógrafo que se tornou um admirador de Kurtz. Sua fala rápida, seu gaguejar e sua respiração ofegante demonstram a ansiedade do personagem, que não consegue parar de falar, tamanha a empolgação que sente ao encontrar o capitão Willard. E finalmente, a lenda Marlon Brando dispensa comentários como o misterioso coronel Kurtz. Completamente devastado pelo horror da guerra, o entorpecido coronel Kurtz é alguém cego pelo poder. A construção de seu mito é lenta e cuidadosamente conduzida pela narrativa, levando Willard (e o espectador) constantemente a questionar quais seriam suas reais motivações. Brando expressa a encarnação do poder que seu personagem representa de forma magnífica, através de seu olhar superior e intimidante. Suas falas, repletas de simbolismos e reflexões, criam seqüências hipnóticas e inesquecíveis. Observe como seu rosto é revelado lentamente, como se estivéssemos cuidadosamente sendo preparados para estar diante de um deus. Até mesmo a forma como Coppola filma o personagem demonstra isto, deixando-o praticamente inacessível, submerso nas sombras e mais parecido com um espírito ou uma divindade (Kurtz muito provavelmente se considerava como tal). É então que, ao se deparar com o mito, as reflexões de Willard começam a ganhar ainda mais forma. Afinal de contas, quem está realmente louco: Kurtz, seus comandantes ou todos eles? A resposta pode estar nas inúmeras frases espalhadas pelo excelente roteiro do próprio Coppola, dentre as quais podemos citar: “Acusar um homem de homicídio neste lugar era a coisa mais absurda que se podia imaginar”, “No coração de todo homem há um conflito entre o racional e o irracional, entre o bem e o mal e nem sempre é o bem que sai vencedor” e “Um dia esta guerra vai acabar. Para os garotos do barco, está bom. Eles não querem nada mais do que encontrar um caminho para casa. O problema é que eu já voltei e sei que aquele lugar não existe mais”.

“Apocalypse Now” é o marco cinematográfico de um efeito importante ocorrido na cultura americana logo após a guerra do Vietnã: a perda da inocência. A guerra do Vietnã deixou claro para os cidadãos norte-americanos que não existia o lado bom e o lado mau da história. O cidadão deixou de ver seu país com ingenuidade e o longa de Coppola representa esta etapa na história do cinema. A seqüência final em que a montagem (crédito para Lisa Fruchtman, Gerald B. Greenberg, Richard Marks, Walter Murch e Randy Thom) coloca imagens do ataque de Willard à Kurtz simultaneamente ao ataque dos nativos a um animal simboliza perfeitamente uma das grandes discussões que o filme propõe: será mesmo o ser humano tão racional? O que nos diferencia dos animais é a capacidade de raciocinar, mas o que estamos fazendo com ela? Nas palavras finais do coronel Kurtz, “o horror” que a guerra proporciona é o exemplo perfeito de que a racionalidade do homem nem sempre vence seus impulsos primitivos e irracionais. O poder e a loucura caminham próximos e podem deixar o homem cego.

Dirigido magistralmente por um gênio do cinema, interpretado de forma magnífica por um elenco de peso e contando ainda com um apurado e maravilhoso trabalho técnico, “Apocalypse Now” transcende e muito o gênero “filme de guerra”, levantando inúmeras questões sobre a natureza cruel do homem, os resultados trágicos de sua busca pelo poder e os efeitos irreversíveis do horror da guerra. E o melhor de tudo é que “Apocalypse Now” jamais responde diretamente as questões que levanta, deixando o espectador refletir sobre tudo o que viu e chegar às suas próprias conclusões, o que é sempre admirável. Após assistir esta obra-prima de Francis Ford Coppola, o espectador tem a sensação de que, independente de seu resultado final, a guerra não tem vencedores.

Texto publicado em 09 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

BARRY LYNDON (1975)

(Barry Lyndon)

 

Videoteca do Beto #43

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Ryan O’Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee, Hardy Kruger, Steven Berkoff, Leon Vitali, Gay Hamilton, Leonard Rossiter, Marie Kean, Murray Melvin, Frank Middlemass, André Morell, David Morley e Diana Koerner.

Roteiro: Stanley Kubrick, baseado em livro de William Makepeace Thackeray.

Produção: Stanley Kubrick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“Barry Lyndon” é acima de tudo um deleite visual. A recriação perfeita de época nos faz ter a exata sensação de que estamos realmente testemunhando aquele período da história da humanidade. Não bastasse isso, o filme ainda traz um belo estudo de personagem, mostrando em detalhes e sem pressa a trajetória de um simples jovem irlandês que alcança o topo da sociedade inglesa. Novamente o gênio Stanley Kubrick brinda o espectador com uma obra maravilhosa, que retrata como poucas o período em que se passa a narrativa e cria imagens que poderiam tranquilamente ser vendidas como quadros valiosos.

Barry (Ryan O’Neal) é um jovem irlandês aventureiro que é obrigado a deixar seu país após vencer um duelo armado, em pleno século XVIII. Nesta trajetória, passa por diversos obstáculos até alcançar a alta sociedade inglesa e tornar-se, através de um casamento com uma viúva local, um dos nobres da região. Mas seu destino não será feito apenas de glórias.

O visual magnífico de “Barry Lyndon” é resultado de um trabalho técnico impecável, comandado com firmeza por Stanley Kubrick, que utilizou quadros daquele período como inspiração. Os figurinos detalhados e idênticos aos utilizados no século XVIII (mérito de Milena Canonero e Ulla-Britt Söderlund), a detalhada e precisa direção de arte de Roy Walker, que recria desde o interior dos castelos aos pequenos detalhes como a arma utilizada nos duelos, e a fotografia deslumbrante de John Alcott, que explora as lindas paisagens e capta com precisão os ambientes internos iluminados somente à luz de velas (graças a uma lente especial feita para a Nasa) são os responsáveis diretos pelo deslumbrante visual do longa. É claro que os enquadramentos milimétricos de Kubrick e seu habitual perfeccionismo estão diretamente ligados ao esplendor visual que deleita os olhos dos espectadores. Até mesmo o zoom utilizado exaustivamente pelo diretor em “Barry Lyndon” é importante, pois nos entrega lentamente aos belíssimos planos, como se fossem verdadeiros quadros renascentistas. Estas obras de arte em movimento parecem praticamente vivas e precisam ser apreciadas lentamente e o zoom nos permite contemplar cada detalhe, como se estivéssemos realmente vendo uma pintura. Pra completar, a maquiagem retrata exatamente os costumes dos homens e mulheres da época, como podemos notar, por exemplo, durante os jogos de cartas ou nos encontros da alta sociedade inglesa, e a bela trilha sonora de Leonardo Rosenman e The Chieftains utiliza flautas e piano para compor melodias clássicas que nos ambientam ainda mais ao período medieval.

Mas “Barry Lyndon” não vive apenas das belíssimas imagens que possui. O roteiro cheio de estilo do próprio Kubrick (baseado em livro de William Makepeace Thackeray) é ácido – quando na voz do narrador – e repleto de diálogos maravilhosos – quando nas vozes dos personagens. Além disso, mostra com competência como era o jogo de interesses na época para aumentar o nível social e as posses da família, como podemos perceber logo no inicio através do casamento arranjado de Nora (Gay Hamilton) e John Quin (Leonard Rossiter) e, posteriormente, com o casamento de Barry e Lady Lyndon (Marisa Berenson). Outra curiosa característica do roteiro é não fazer questão de surpreender o espectador, revelando detalhes importantes com considerável antecedência através do misterioso narrador, que avisa, por exemplo, a futura morte de Bryan (David Morley) e, desta forma, prepara o espectador para o que virá a acontecer, evitando o melodrama. Observe que até mesmo os capítulos revelam o destino de Barry nas duas vezes em que aparecem. A narração, aliás, é um dos destaques do longa, repleta de frases irônicas e satíricas, como quando o narrador explica que o casal Lyndon passa a viver separado para que a mãe cuide das crianças enquanto Barry se encarrega dos prazeres do mundo. O bom humor também se mostra presente nas criativas formas em que Barry encontra para escapar das diversas situações em que se envolve, como quando acidentalmente se depara com os uniformes de dois líderes homossexuais do exército britânico ou quando se passa pelo Chevalier (Patrick Magee) para fugir de Berlim e do exército da Prússia.

Além do humor refinado, Kubrick também faz em “Barry Lyndon” um minucioso estudo de personagem. A transição de um jovem idealista e correto para um homem interesseiro e grosseiro é extremamente lenta e quase imperceptível, graças ao ritmo empregado à narrativa. Desta forma, mal percebemos que Barry sofre tamanha transformação, até porque o personagem jamais é retratado como uma pessoa boa ou má, como a mensagem final faz questão de reforçar. Mesmo quando se mostra um péssimo marido e um homem violento, especialmente contra seu enteado, Barry também demonstra qualidades que o aproximam do espectador, como o fato de ser um excelente pai. A montagem de Tony Lawson é diretamente responsável por manter este ritmo lento e contemplativo do filme, que apropriadamente permite ao espectador se deliciar com as belíssimas imagens que vê. Nem por isso deixa de conduzir a narrativa por muitos anos sem jamais soar episódica (a não ser pela divisão em capítulos), como podemos notar no salto sutil de oito anos da infância de Lorde Bullingdon (Leon Vitali) para a infância de Bryan Lyndon.

A tensa seqüência da saída de Barry da Irlanda, que inicia quando ele atira vinho em John e termina com o tenso duelo armado, é também o inicio da caminhada do jovem irlandês rumo à alta sociedade inglesa. Nesta trajetória, vamos lutar junto com ele e viver cada aventura ao lado do jovem Barry. Observe como Kubrick nos joga dentro da luta quando ele enfrenta um soldado no exército. A câmera agitada, o som dos socos e o barulho das pessoas em volta criam um clima muito real na cena. Interessante notar também como a acidez já citada é ainda mais perceptível nesta fase da vida de Barry, como quando o narrador diz que as razões da guerra não precisam ser explicadas, a não ser por filósofos ou historiadores. Na realidade, este trecho é uma crítica a insanidade da guerra. (“É bom sonhar com uma guerra gloriosa em uma poltrona em casa. Outra coisa é participar dela.”). E se o espectador se sente dentro da narrativa é também por causa do bom nível das atuações. Ryan O’Neal vive Barry Lyndon com sutileza, mantendo um ar misterioso e compenetrado em sua obsessão por alcançar a alta sociedade. Barry é esperto, jamais deixando de tomar o caminho que lhe seja vantajoso, mesmo que tenha que se rebaixar para isso, como quando aceita ser voluntário no exército da Prússia. O’Neal consegue transmitir emoção também nas cenas dramáticas, como em seu choro emotivo ao perder seu padrinho, e principalmente quando perde o filho Bryan. E os destaques não param por aí. Desde o momento em que a troca de olhares entre Barry e Lady Lyndon indica o interesse da moça, Marisa Berenson mostra sua qualidade como atriz, ampliada posteriormente com o crescente sofrimento que a personagem terá de enfrentar, e alcançando seu ponto alto na perda de Bryan e em sua tentativa de suicídio. No restante do eficiente elenco, destacam-se Leon Vitali como Lorde Bullingdon e Frank Middlemass como Sir Charles Lyndon.

O ataque furioso de Barry Lyndon ao jovem Lorde Bullingdon, captado com precisão por Kubrick, desencadeia todas as desgraças que se abatem sobre a vida dele. O eminente título inglês que conseguiria se perde, assim como a estabilidade da família. Pra piorar as coisas de vez, ao presentear seu amado filho, Barry acaba sofrendo a maior perda de sua vida. A tocante cena da despedida de Bryan inicia a seqüência final onde a vida de Barry Lyndon tomará seu destino trágico e deprimente. O reencontro com Bullingdon só fechará este ciclo cruel na vida do irlandês. E seu final, sozinho, pobre e debilitado, não condiz com a interessante vida que ele teve.

Não contente em criar uma visão assustadora do futuro em “Laranja Mecânica” e em possibilitar inúmeras interpretações para o destino da humanidade em “2001, uma odisséia no Espaço”, Stanley Kubrick decidiu também olhar para o passado e fazer um retrato minucioso e absolutamente deslumbrante do século XVIII neste magnífico “Barry Lyndon”. Repleto de planos capazes de tirar o fôlego de qualquer um, este grande trabalho do genial diretor também brinda o espectador com uma intrigante estória, que acompanha a trajetória de um jovem sonhador até sua completa transformação naquilo que mais odiava. E nem por isso podemos dizer que ele era uma má pessoa, pois era apenas um ser humano, com defeitos e virtudes. Exatamente como o diretor de “Barry Lyndon”, chato, perfeccionista, mas dono de um talento assombroso, capaz de deixar na historia do cinema tantas obras marcantes. E Barry Lyndon é mais uma delas.

Texto publicado em 04 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira