ESQUECERAM DE MIM 3 (1997)

(Home Alone 3)

2 Estrelas 

Videoteca do Beto #173

Dirigido por Raja Gosnell.

Elenco: Alex D. Linz, Olek Krupa, Rya Kihlstedt, Lenny von Dohlen, David Thornton, Scarlett Johansson, Haviland Morris, Kevin Kilner, Marian Seldes, Seth Smith e Christopher Curry.

Roteiro: John Hughes.

Produção: Hilton Green e John Hughes.

Esqueceram de Mim 3[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Se “Esqueceram de mim” era um filme que dependia exclusivamente da predisposição do espectador em aceitar sua premissa absurda para funcionar e “Esqueceram de mim 2” já apresentava um claro desgaste desta fórmula, imagine então o que acontece neste “Esqueceram de mim 3” que, além de apostar exatamente na mesma estrutura narrativa e nos mesmos elementos utilizados nos filmes anteriores, ainda se ressente da falta do carisma de Macaulay Culkin. Assim, se o longa anterior se salvava justamente por se apoiar no carisma do então jovem astro, este terceiro filme da franquia não consegue escapar do fracasso.

Escrito novamente por John Hughes, “Esqueceram de mim 3” tem início quando um grupo de criminosos escondem um valioso chip de computador dentro de um carrinho de brinquedo que, por acidente, acaba parando nas mãos do pequeno Alex (Alex D. Linz), um jovem que costuma ficar sozinho em casa durante o dia enquanto sua mãe (Haviland Morris) trabalha. Após descobrirem o paradeiro do chip, os ladrões terão que enfrentar as armadilhas do garoto para recuperar o importante objeto.

Ao contrário do que ocorria nos longas anteriores, “Esqueceram de mim 3” sugere uma narrativa mais sombria em seus minutos iniciais através da trama envolvendo o chip capaz de ativar um míssil, o que, convenhamos, está bem longe de ser uma premissa infantil. No entanto, engana-se quem pensa que isto significa um sopro de criatividade e uma tentativa de revigorar a fórmula que consagrou o primeiro filme da franquia, ainda que a fotografia de Julio Macat também seja claramente mais obscura, apostando em conjunto com os figurinos de Jodie Tillen em cores sem vida e ressaltando o predomínio da neve naquela época do ano de maneira mais ostensiva.

Contudo, os escorregões não passam tanto pelo aspecto visual, mas sim pelas derrapadas do roteiro de Hughes, que parece incapaz de inovar, apostando novamente numa narrativa que se passa na época do Natal, nos problemas entre o protagonista e a família e em coincidências difíceis de engolir, como a confusão pouco verossímil envolvendo sacolas iguais e a maneira como eles conseguem um voo de última hora para Chicago – ao menos o Papagaio que conversa normalmente é tão absurdo que chega a ser simpático. Por outro lado, a trilha sonora de Nick Glennie-Smith acertadamente mantém as músicas joviais e o tema principal da série, trazendo ainda uma empolgante composição que acompanha a preparação da defesa da casa, mantendo outra tradição da franquia.

Fotografia mais obscuraConfusão envolvendo sacolasPapagaioDa mesma forma, o diretor Raja Gosnell e seus montadores Malcolm Campbell, Bruce Green e David Rennie não conseguem evitar que a narrativa se torne arrastada, perdendo-se em alguns momentos ao investir, por exemplo, um longo tempo nas sequências em que o garoto chama a polícia e ninguém acredita nele. Ao menos, o diretor tem méritos por repetir uma estratégia adotada por Chris Columbus, apresentando alguns brinquedos de Alex (design de produção de Henry Bumstead) que serão essenciais no ato final, acertando também na empolgante sequência em que acompanhamos o carrinho do garoto através de uma câmera amarrada sobre ele, ainda que ocasionalmente tenhamos a sensação de que o brinquedo está sendo pilotado pelo MacGyver, conseguindo quebrar madeiras, correr mais que as pessoas e até mesmo pular as cercas entre as casas.

Garoto chama a políciaBrinquedos de AlexO carrinho do garotoEstes pequenos acertos não apagam, porém, sua falta de habilidade na direção de atores, o que permite que Olek Krupa, Rya Kihlstedt, Lenny von Dohlen e David Thornton encarnem seus ladrões, que teoricamente deveriam ser mais profissionais que os personagens de Pesci e Stern, de maneira extremamente caricata, em atuações que tentam soar mais perigosas, mas acabam sendo patéticas. Pra piorar, o menino Alex D. Linz não tem nem de perto o carisma de Culkin, ainda que seu personagem Alex consiga criar empatia com a mãe interpretada por Haviland Morris. Ela que também chega a irritar ao desconfiar constantemente do garoto por achar que tudo não passa de pura imaginação dele, mas esta é uma atitude justificável diante da falta de provas concretas e da fase da vida que ele está atravessando. Fechando o elenco, vale destacar a presença de Scarlet Johansson ainda bem jovem no papel de Molly, a irmã do protagonista.

PatéticosSem carismaEmpatiaAo menos, a melhor tradição da franquia é mantida e a tentativa de invadir a casa é mais uma vez repleta de momentos engraçados, apostando novamente no humor puramente físico para agradar. Só que, infelizmente, desta vez isto não é suficiente para salvar o filme do desastre. A fórmula muito desgastada de John Hughes já não colava mais.

Esqueceram de Mim 3 foto 2Texto publicado em 27 de Agosto de 2013 por Roberto Siqueira

COP LAND (1997)

(Cop Land)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #172

Dirigido por James Mangold.

Elenco: Sylvester Stallone, Harvey Keitel, Ray Liotta, Robert De Niro, Peter Berg, Janeane Garofalo, Robert Patrick, Michael Rapaport, Annabella Sciorra, Noah Emmerich, Cathy Moriarty, John Spencer, Frank Vincent, Malik Yoba e Arthur J. Nascarella.

Roteiro: James Mangold.

Produção: Cathy Konrad, Ezra Swerdlow e Cary Woods.

Cop Land[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Durante mais de uma década, Sylvester Stallone tornou-se mundialmente famoso por seus papéis em filmes de ação que exalavam testosterona e nos quais os personagens só conheciam um meio de resolver seus problemas. Assim, quando o astro aceitou participar deste ótimo “Cop Land”, pela primeira vez em muitos anos seus fãs tiveram a oportunidade de vê-lo num papel diferente do usual, num desafio interessante que se tornaria ainda mais complexo graças aos excepcionais atores que contracenariam com ele. O curioso é que o responsável pelo roteiro que cativou atores do calibre de Stallone, De Niro e Keitel foi o estreante James Mangold, responsável também pela direção deste eficiente thriller policial, injustamente ignorado pela crítica em seu lançamento.

A narrativa se passa na pequena cidade de Garrison, habitada majoritariamente por policiais que trabalham na vizinha Nova York durante o dia e voltam para suas famílias à noite. Tudo corre aparentemente bem até que o jovem Superboy (Michael Rapaport) se envolve num tiroteio e acaba assassinando dois criminosos, colocando em xeque a reputação da família, encabeçada por seu tio Ray (Harvey Keitel). Uma discussão entre policiais e paramédicos quanto às provas do crime leva o Tenente Moe Tilden (Robert De Niro) a investigar o local, até então administrado pelo pacato xerife Freddy (Sylvester Stallone).

Sob a aparente tranquilidade que paira na pequena Garrison, existe uma complexa rede de intrigas e corrupção que lentamente é revelada pelo bom roteiro de Mangold, repleto de personagens ambíguos que se tornam ainda mais interessantes graças ao bom desempenho do elenco em geral. Esta aura de mistério é reforçada já nos segundos iniciais de “Cop Land”, quando a câmera do diretor passeia pela cidade enquanto a narração sombria de Robert De Niro nos apresenta ao local e aos personagens. Conduzindo com paciência a narrativa, Mangold explora o potencial de seu elenco com inteligência, aplicando zooms que nos aproximam lentamente dos personagens e closes que buscam realçar suas expressões e reações nas calorosas discussões que permeiam a narrativa. Além disso, o diretor mostra talento na composição visual de algumas cenas, como no lindo plano em que Freddy contempla a bela ponte que liga Garrison à Nova York na noite do suposto suicídio de Superboy e na espetacular sequência do tiroteio final.

Passeia pela cidadeCalorosas discussõesEspetacular sequência do tiroteioÉ evidente que o ótimo trabalho do diretor de fotografia Eric Edwards é essencial neste aspecto, abusando de cores frias como o azul e explorando muito bem o visual predominantemente noturno de “Cop Land”, mergulhando os personagens nas sombras em diversos momentos para ilustrar o caráter nebuloso daquele grupo de pessoas misteriosas. Quem também tenta colaborar na criação desta atmosfera é Howard Shore, mas sua trilha sonora acaba exagerando no tom em alguns momentos, como na cena em que policiais discutem com paramédicos na ponte após o sumiço de Superboy, mas por outro lado Shore acerta em cheio na escolha das músicas que tocam no velho toca-discos de Freddy, refletindo muito bem seu estado de espírito melancólico em cenas belíssimas como aquela em que Liz (Annabella Sciorra) vai até sua casa para conversar com ele.

Cores frias como o azulPersonagens nas sombrasLiz vai até sua casaSurgindo barrigudo e movimentando-se lentamente, Stallone compõe um personagem muito interessante e bem distante dos vigorosos personagens de seus filmes de ação, numa atuação contida que confirma seu talento já demonstrado em “Rocky, um Lutador”. Observe como o ator fala sempre num tom de voz baixo, evita olhar diretamente para as pessoas e sempre parece acuado diante da presença marcante dos outros policiais, numa postura claramente defensiva e totalmente coerente com o personagem. Discreto como seu uniforme (figurinos de Ellen Lutter), Freddy parece perambular pela cidade, fechando os olhos para possíveis conflitos e evitando chamar a atenção; e até mesmo seu escritório bagunçado (design de produção de Lester Cohen) evidencia o quanto a frustração por não conseguir ser policial em Nova York afetou sua vida. Ele pouco se importa com o que acontece ao seu redor.

Barrigudo e movimentando-se lentamenteSempre parece acuadoDiscreto como seu uniformePor tudo isso, Freddy configura-se o xerife ideal para que Ray continue comandando a cidade e, com suas expressões marcantes, Keitel compõe um antagonista assustador, que parece capaz de fazer qualquer coisa para manter o controle do local idealizado e fundado por ele, criando um personagem corrupto e detestável, é verdade, mas que jamais soa caricato ou unidimensional graças ao desempenho do ator. Assim, por mais que aos nossos olhos suas atitudes soem absurdas, Ray acredita que está agindo corretamente – e, o que é mais importante, nós acreditamos nele, ainda que não concordemos com suas ações.

Antagonista assustadorCorrupto e detestávelAcredita que está agindo corretamenteQuem também merece destaque é Ray Liotta na pele de Figgsy, um dos poucos policiais em quem Freddy consegue confiar e que surge sempre agitado, num indício claro do quanto seu envolvimento naquele ambiente hostil o incomoda. Servindo como apoio para o xerife, Liotta destaca-se em dois momentos especiais. O primeiro no diálogo expositivo no bar que explica a origem da surdez de Freddy, a razão de seus traumas e sua ligação com a bela Liz, e o segundo após a morte de Mônica (Mel Gorham), quando surge devastado ao constatar que sua amada estava morta – e saberíamos depois que sua dor intensa tinha mais motivos do que poderíamos imaginar naquele instante. Finalmente, Robert De Niro impõe respeito logo em sua primeira participação (fisicamente falando, já que é dele o prólogo), com seu tom de voz firme e expressões marcantes dominando completamente uma discussão, tornando todos os outros frequentadores da sala em meros coadjuvantes. A escolha de De Niro é acertada, pois somente um ator com sua capacidade poderia tornar a importância do Tenente Moe na narrativa em algo crível com tão pouco tempo na tela, já que ele é vital na mudança de comportamento de Freddy que culminará na resolução da narrativa.

Origem da surdez de FreddySurge devastadoImportância do Tenente MoeAos poucos, vai tornando-se óbvio que Superboy não morreu naquela noite e, de maneira inteligente, o roteiro jamais tenta criar um desnecessário mistério envolvendo seu desaparecimento. Assim, o foco da narrativa vai mesmo para a mudança de Freddy, que lentamente desperta de seu sono profundo e passa a enxergar tudo que ocorre ao seu redor (ou a se importar com ele), nos levando ao sensacional acerto de contas que Mangold conduz em câmera lenta, nos permitindo acompanhar cada detalhe do feroz tiroteio como se estivéssemos ali, ao lado de Freddy – e o ótimo design de som também é muito importante neste momento, distorcendo nossa percepção sonora do ambiente e nos forçando a compartilhar o que o personagem, agora ferido na outra orelha, provavelmente ouve. Após a solução do caso, Freddy surge novamente na margem do rio diante da bela ponte, mas agora numa cena diurna, bem iluminada e que ilustra a limpeza promovida por ele no local.

Acerto de contasFeroz tiroteioFerido na outra orelhaRecheado com boas atuações e apostando numa trama envolvente, “Cop Land” é um thriller interessante, surpreendentemente conduzido por um diretor estreante, mas que já demonstrava talento desde seu trabalho inicial. E se já estávamos acostumados a ver De Niro e Keitel oferecendo atuações dramáticas de impacto, Stallone só comprovou o quanto sua carreira poderia ter sido ainda mais marcante caso suas escolhas fossem um pouco mais ousadas.

Cop Land foto 2Texto publicado em 20 de Agosto de 2013 por Roberto Siqueira

CONTATO (1997)

(Contact)

5 Estrelas 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #171

Dirigido por Robert Zemeckis.

Elenco: Jodie Foster, Matthew McConaughey, Jena Malone, David Morse, Tom Skerritt, James Woods, John Hurt, Angela Bassett, Rob Lowe, Jake Busey, William Fichtner, Sami Chester e Geoffrey Blake.

Roteiro: James V. Hart e Michael Goldenberg, baseado em romance de Carl Sagan e argumento de Ann Druyan.

Produção: Steve Starkey e Robert Zemeckis.

Contato[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Completamente esquecida com o passar dos anos, a obra-prima “Contato” é um dos pontos altos da excepcional carreira de Robert Zemeckis, abordando em sua narrativa envolvente temas complexos que podem render debates acalorados entre cientistas e religiosos. Sem jamais pender claramente para um lado ou para o outro, o longa estrelado por Jodie Foster tampouco foge de polêmicas e, apoiando-se no raciocínio lógico, espalha frases de efeito capazes de provocar reflexão nos dois lados, justamente por tratar o assunto com a seriedade e, o que é mais importante, a serenidade que ele merece. Como se não bastasse, ainda nos oferece uma protagonista tão complexa e fascinante quanto às próprias questões que levanta.

Baseado no livro homônimo de Carl Sagan e roteirizado com extrema competência por James V. Hart e Michael Goldenberg, “Contato” narra a história de Eleanor Arroway (Jodie Foster), uma astrônoma que descobre um sinal vindo do espaço com instruções para a construção de uma enorme máquina, que poderia possibilitar o contato com vida inteligente fora do planeta Terra. Disputando espaço com o também cientista David Drumlin (Tom Skerritt) e despertando o interesse amoroso do pastor Palmer Joss (Matthew McConaughey), Eleanor (ou Ellie) terá ainda que superar diversas barreiras políticas para conseguir realizar seu sonho e ser enviada na arriscada missão.

Introduzindo seus costumeiros movimentos de câmera estilizados desde a interessante abertura do filme, quando acompanhamos o som viajando pelo espaço (e pela história) através de um lento zoom out que dá a exata noção da nossa insignificância diante da magnitude do universo e ainda insere um conceito essencial para a compreensão de um momento chave da narrativa, Robert Zemeckis encontra em “Contato” a oportunidade ideal para comprovar sua habilidade não apenas na condução de narrativas envolventes, mas também na construção de uma atmosfera fascinante e na composição de cenas plasticamente belíssimas. Assim, não são raros os momentos capazes de encher nossos olhos, seja pela beleza da imagem, seja pelo apuro técnico, como no plano-sequência que acompanha Ellie chegando ao centro de controle após ouvir os sinais captados no espaço – que reflete com precisão a excitação dela e a urgência do momento – ou na triste sequência da morte do pai dela, captada com grande sensibilidade pela câmera lenta e pelos movimentos suaves do diretor, demonstrando respeito pela dor da personagem ao mesmo tempo em que frisa na mente do espectador uma passagem impactante que terá reflexos diretos no comportamento dela no futuro.

Som viajando pelo espaçoEllie chegando ao centro de controleMorte do pai delaObviamente, Zemeckis conta com sua equipe técnica neste processo, a começar pelo notável trabalho do diretor de fotografia Don Burgess, que investe num visual mais “clean”, quase asséptico em alguns momentos, mas que nem por isso deixa de abusar das luzes e cores quando necessário, como na psicodélica sequência da viagem da protagonista (voltaremos a ela em instantes). Da mesma forma, a montagem de Arthur Schmidt é crucial para que “Contato” mantenha um ritmo fluído, estabelecendo uma atmosfera tensa capaz de manter-nos interessados o tempo todo. Por sua vez, os aparatos científicos criativos e realistas concebidos pelo design de produção de Ed Verreaux e as roupas espaciais desenvolvidas pela figurinista Joanna Johnston ajudam na imersão do espectador na narrativa, enquanto a trilha sonora econômica de Alan Silvestri surge apenas em momentos especiais, como quando amplia a tensão no primeiro teste da máquina construída com base nas mensagens vindas do espaço.

Visual cleanPsicodélica sequência da viagemAparatos científicosE se o trabalho técnico é formidável, o elenco de “Contato” não fica atrás, apresentando um desempenho homogêneo e muito competente desde os primeiros minutos, quando acompanhamos o relacionamento da pequena Ellie vivida por Jena Malone com seu afável pai interpretado por David Morse. Na fase adulta, é Jodie Foster quem assume o papel da obstinada Ellie, comportando-se de maneira sempre racional, é verdade, mas sem ofuscar sua natureza agitada e questionadora, demonstrando em seu olhar a determinação da personagem na busca por evidências da existência de vida em outro planeta. Além de sua curiosidade natural como cientista, este comportamento encontra base também na trágica infância dela, já que é natural que alguém que perdeu a mãe no próprio parto e o pai aos nove anos de idade não queira estar só, ainda mais se considerarmos sua descrença na existência de um ser superior, um caminho sempre mais fácil e reconfortante para o ser humano.

Pequena EllieAfável paiObstinada EllieParadoxalmente, esta luta para provar que não estamos sozinhos no universo (“Seria um grande desperdício de espaço”, diz o pai dela) não significa, por exemplo, que ela queira constituir família – e o fato de não ter filhos nem marido só facilita sua decisão de largar tudo e correr atrás de seu sonho, o que não impede que ela se sinta apreensiva momentos antes de embarcar na jornada. Personagem intrigante e ambígua, Ellie destaca-se dos demais até mesmo nas roupas que veste, surgindo muitas vezes vestida de vermelho num ambiente dominado por cores sóbrias como azul e cinza. Inteligente e dona de um raciocínio lógico inabalável, ela mantém-se fiel (com o perdão do trocadilho) às suas convicções mesmo quando isto pode atrapalhar a realização de seu maior sonho.

ApreensivaMuitas vezes vestida de vermelhoRaciocínio lógico inabalávelQuem destoa do tom sério da maioria dos personagens é o religioso Joss, que surge como alguém mais relaxado e tranquilo na pele de Matthew McConaughey, mas que nem por isso deixa de se posicionar com firmeza quando necessário, como quando questiona David logo no primeiro contato numa festa. Ao contrário de Ellie, ele acredita em Deus, mas diferentemente de alguns fanáticos religiosos que cruzam a narrativa, mantém uma postura equilibrada na maioria das vezes, mostrando que é possível conviver pacificamente, mesmo com visões distintas de um tema tão misterioso. Inteligente, Joss tenta proteger Ellie dos riscos da missão, mas respeita a decisão dela por boa parte do tempo; e o fato de eles ficarem juntos logo de cara revela-se um grande acerto do roteiro, por permitir que o lado mais interessante da narrativa seja desenvolvido com tranquilidade ao invés de investir muito tempo no desenvolvimento do romance deles.

Religioso JossQuestiona David logo no primeiro contatoJuntos logo de caraFuncionando como um rival direto na luta de Ellie pela realização do sonho de ir para o espaço, o antagonista David Drumlin interpretado com sarcasmo por Tom Skerritt chega a nos irritar em certos instantes, como quando fala no lugar dela numa importante conferência para a imprensa – e a decepção no rosto de Foster neste instante é impactante, assim como chama à atenção a inteligência de Zemeckis na composição do plano que contrapõe os dois cientistas. No entanto, David revela alguma humanidade quando demonstra ter ciência do quanto sua escolha havia sido injusta, ainda que isto não amenize sua desgastada imagem diante dela. Quem também oferece um desempenho enérgico que cumpre seu papel mesmo distanciando o personagem da plateia é James Woods, que cria um Kitz ameaçador ao ponto de levar a protagonista as lágrimas no interrogatório final.

Antagonista DavidDecepção no rostoKitz ameaçadorMas nem só de inimigos vive Ellie e, entre seus amigos cientistas, vale destacar o simpático Kent de William Fichtner, que ilustra muito bem as dificuldades provocadas pela cegueira e, curiosamente, o quanto sua deficiência permitiu que ele desenvolvesse uma audição aguçada que, por sua vez, o auxilia muito no trabalho. E finalmente, vale mencionar a presença marcante de John Hurt como o excêntrico bilionário S.R.Hadden, que tem participação fundamental na narrativa e, como de costume, rouba a cena sempre que surge para salvar a protagonista (numa curiosa representação física do artifício narrativo conhecido como deus-ex-machina).

Sem se limitar ao aspecto visual e ao desenvolvimento dos personagens, Zemeckis extrai todo o potencial do excelente roteiro de “Contato”, narrando uma história fascinante tanto estruturalmente quanto tematicamente. Abusando da criatividade (o método empregado para decifrar a mensagem é sensacional), “Contato” traz ainda interessantes elementos para discussão. Observe, por exemplo, como os militares só pensam na possibilidade de conflito com os extraterrestres, assim como os políticos só pensam nas consequências que o vazamento de informações pode provocar em seus governos, esquecendo-se da importância daquelas descobertas na vida das pessoas em geral. No entanto, o debate central está no embate entre ciência e religião, notável ao longo de toda a narrativa.

Simpático KentExcêntrico bilionário S.R.HaddenMétodo empregado para decifrar a mensagemApós a descoberta de um sinal que poderia mudar os rumos da humanidade, multidões se dirigem ao local para explorar a descoberta de todas as formas, demonstrando o impacto daquela descoberta na sociedade e levantando diversos pontos interessantes para discussão e reflexão. Até que ponto nós queremos realmente saber a verdade? Caso seja religioso, você gostaria de saber, repentinamente, que tudo que ouviu desde a infância não passa de uma invenção? Não surpreende, portanto, o comportamento irracional de alguns fanáticos religiosos, assim como é compreensível (ainda que imperdoável) a atitude trágica de um líder religioso (Jake Busey) que quer impedir o progresso daquele experimento cientifico apenas para manter o controle de sua igreja sobre a sociedade.

Sociedade esta que, num país dominado pelo cristianismo como os EUA, demonstra um preconceito escancarado contra o ateísmo (o Brasil católico também), como fica evidente na avaliação de Ellie pela comissão, num dos raros momentos em que Joss deixa sua fé falar mais alto que a razão – e, na verdade, podemos interpretar a desprezível pergunta dele como uma tentativa, ainda que desesperada, de segurá-la, jogando-a contra a comissão e frustrando seu sonho, mas é mais provável que ele de fato quisesse se certificar da falta de fé dela no Divino, já que para os religiosos, não acreditar em Deus é praticamente um crime e não apenas uma questão de cunho pessoal.

Multidões se dirigem ao localAtitude trágica de um líder religiosoAvaliação de Ellie pela comissãoAssim, chegamos ao tenso momento em que o citado líder religioso tenta impedir a evolução dos testes, provocando a impressionante explosão da primeira máquina, na qual ficam evidentes os espetaculares trabalhos de design de som e efeitos visuais. Essencial no trabalho de Ellie e no filme em geral, o som destaca-se também em outros instantes, como quando a máquina começa a funcionar e podemos ouvir claramente cada parte daquela enorme estrutura se movimentando. Mas o grande momento de “Contato” é mesmo a espetacular viagem de Ellie pelo tempo/espaço, repleta de planos belíssimos que se apoiam nos efeitos visuais de tirar o fôlego para encantar a protagonista e a plateia (“Eles deveriam ter enviado um poeta”, diz ela). Nesta longa sequência, o olhar encantado dela reflete o nosso próprio olhar diante da magnitude do que vemos – e se Foster transmite muito bem a emoção da personagem em sua expressão tocante, Zemeckis confirma novamente sua capacidade de conduzir sequências visualmente complexas com uma facilidade assustadora.

Impressionante explosão da primeira máquinaViagem de Ellie pelo tempo espaçoPlanos belíssimosApós seu retorno, “Contato” traz ainda uma genial inversão de papéis, com a cientista tendo que provar algo sem ter nenhuma evidencia e a comissão formada majoritariamente por pessoas religiosas (ou, ao menos, que afirmam crer em Deus) assumindo o papel dos céticos, tão ligado aos cientistas. E com exceção de um único instante em que uma integrante do governo afirma que as gravações estáticas duraram 18 horas (talvez o único pecadilho do impecável roteiro), na maior parte do tempo o próprio espectador se questiona se ela realmente passou por aquela experiência ou se ela imaginou tudo aquilo. A resposta, como em quase tudo na vida, está dentro de cada um de nós. E justamente por isso é que não devemos assumir as nossas crenças como verdades universais.

Empolgante em todos os aspectos – narrativa, temática e visualmente -, “Contato” é competente tanto como entretenimento quanto pela capacidade de provocar profundas reflexões filosóficas e existenciais. No fim das contas, esta obra-prima de Robert Zemeckis mostra que é possível conviver pacificamente mesmo com visões tão distintas sobre o mesmo tema; e que cada um, à sua maneira, continuará buscando a verdade sobre os mistérios do universo.

Contato foto 2Texto publicado em 14 de Agosto de 2013 por Roberto Siqueira

BOOGIE NIGHTS – PRAZER SEM LIMITES (1997)

(Boogie Nights)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #170

Dirigido por Paul Thomas Anderson.

Elenco: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, Heather Graham, Don Cheadle, John C. Reilly, Luis Guzmán, William H. Macy, Alfred Molina, Philip Seymour Hoffman, Melora Walters, Thomas Jane, Philip Baker Hall e Joanna Gleason.

Roteiro: Paul Thomas Anderson.

Produção: Paul Thomas Anderson, Lloyd Levin, John Lyons e Joanne Sellar.

Boogie Nights – Prazer sem Limites[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Paul Thomas Anderson tinha apenas um filme no currículo quando “Boogie Nights – Prazer sem Limites” chegou aos cinemas, chamando a atenção não apenas pelos virtuosismos técnicos e narrativos do diretor/roteirista, mas também por seu elenco igualmente numeroso e talentoso. Abordando um universo nada convencional e trazendo inúmeros personagens interessantes, o longa sinalizava claramente que um grande diretor estava chegando para ficar, confirmando ainda o enorme talento de atores como Mark Wahlberg, Julianne Moore, John C. Reilly, William H. Macy e Philip Seymour Hoffman, além é claro do veterano Burt Reynolds.

Escrito pelo próprio Anderson, “Boogie Nights” narra a trajetória de ascensão e queda de Eddie Adams (Mark Wahlberg), um jovem que é descoberto pelo grande cineasta pornô Jack Horner (Burt Reynolds) e acaba se tornando o grande astro do meio, já sob o nome artístico de Dirk Diggler. Lá, ele conhece a famosa Amber Waves (Julianne Moore), uma das muitas pessoas extravagantes que frequentam as agitadas festas recheadas com muito álcool e cocaína, além é claro do próprio sexo. Mas esta vida de excessos obviamente não permitiria que eles saíssem ilesos daquilo tudo.

O primeiro grande desafio de “Boogie Nights” começa no próprio roteiro, que consegue a proeza de criar uma estrutura narrativa interessante e desenvolver bem seus muitos personagens através de linhas narrativas paralelas que eventualmente se cruzam durante a trama. Além disso, Anderson tem o mérito de criar empatia com a plateia mesmo num universo claramente distante da maioria dos espectadores e que normalmente é visto com reservas pelo público através de personagens que fogem de estereótipos e se tornam mais humanos aos nossos olhos graças também ao talento dos atores.

Mas se o roteiro chama a atenção, atrás das câmeras Anderson não fica atrás, dando um show de direção com seus movimentos elegantes como o belíssimo plano-sequência que passeia pelos personagens espalhados na casa noturna e nos ambienta àquele submundo logo na abertura do longa. Movimento de câmera sempre chamativo, o plano-sequência (que viria a se tornar uma marca registrada do diretor) surge em outros diversos momentos de “Boogie Nights”, como na primeira festa na casa de Jack e na excelente sequência em que acompanhamos a trajetória de Bill (William H. Macy) na noite em que ele mata sua mulher e se suicida. O diretor é competente também na utilização de técnicas mais simples, como os closes em objetos que muitas vezes enfatizam a sensibilidade aguçada daqueles personagens, os inúmeros planos que trazem o uso explícito de cocaína e ilustram a trajetória de autodestruição daquele grupo e os planos fechados que realçam o espanto das pessoas diante dos atributos físicos de Eddie que garantem seu sucesso na indústria pornográfica.

Passeia pelos personagensPrimeira festa na casa de JackNoite em que ele mata sua mulherContando com a ajuda do diretor de fotografia Robert Elswit, Anderson cria um universo colorido que, além de ilustrar a intensidade com que aquelas pessoas viviam e enxergavam o mundo, ainda mostra-se coerente com a época em que se passa à narrativa. No entanto, o diretor e seu diretor de fotografia são inteligentes o bastante para mudar este aspecto quando necessário, como na briga de Eddie com sua mãe em que os personagens surgem mergulhados nas sombras, ampliando a sensação sufocante do momento. Repare ainda como a imagem surge granulada em alguns instantes, especialmente quando vemos as filmagens dos controversos longas dirigidos por Jack – numa alusão a natureza “B” destas produções -, e compare com as cenas ultra coloridas e repletas de luzes na casa noturna e nas festas.

Briga de Eddie com sua mãeFilmagens dos controversos longasLuzes na casa noturnaColoridos também são os figurinos de Mark Bridges, que reforçam o visual bem anos 70, assim como a fantástica trilha sonora de Michael Penn é muito coerente com a época, com suas músicas animadas e chamativas. Realçando traços da personalidade de Eddie através da decoração de seu quarto repleto de pôsteres de carros, mulheres e Bruce Lee, o design de produção de Bob Ziembicki mantém a coerência na nova casa dele, com cômodos chamativos e nada discretos como o quarto oriental que escancara sua admiração pelo ícone das artes marciais, inteligentemente demonstrada anteriormente e que refletiria também em sua carreira como ator depois que ele viesse a ganhar poder e passasse a interferir na trama das produções.

Coloridos figurinosPôsteres de carros, mulheres e Bruce LeeQuarto orientalEssencial num filme com tantas linhas narrativas paralelas, a montagem de Dylan Tichenor consegue evitar que a narrativa se torne confusa, mantendo o espectador interessado no que acontece mesmo com tantos personagens e ainda nos brindando com elegantes transições como aquela que sai de Jack sentado na cadeira observando o desempenho de Eddie e vai para a mãe do garoto sentada na cadeira esperando sua chegada.

E já que falamos em desempenho, a grande atuação de praticamente todo o elenco de “Boogie Nights” dificulta muito a tarefa de apontar destaques. Mesmo atores com participações menores chamam a atenção, como é o caso de William H. Macy na pele de Bill, o pobre homem constantemente humilhado pela esposa que encontra uma maneira trágica de solucionar a situação. John C. Reilly confirma seu talento como o acelerado Reed e Philip Seymour Hoffman está excelente como o afeminado Scotty J., demonstrando com sutileza sua atração por Dirk através do olhar e da expressão corporal quanto está diante dele, destacando-se ainda na cena do carro novo em que tenta beijar o amigo a força e se arrepende logo em seguida.

Bill constantemente humilhado pela esposaAcelerado ReedAfeminado Scotty J.Entre os personagens com mais tempo em cena, Burt Reynolds tem presença marcante como o centrado Jack Horner, o cérebro que faz toda aquela engrenagem funcionar e que sonha em realizar um filme pornográfico significante, mas que tem dificuldade para compreender os caminhos que a indústria seguiria após tantos anos de sucesso. Quase sempre ao seu lado, Julianne Moore dá vida a doce e sensual Amber com muita competência, comovendo a plateia quando assume sua verdadeira identidade e demonstra o quanto Maggie sofre por não poder ver seu filho, especialmente na cena da audiência que culmina em seu choro devastador. Tanto ela quanto a Patinadora vivida por Heather Graham são pessoas carentes que encontram consolo uma na outra, mas Amber é mais complexa, exalando este lado terno e maternal com a mesma naturalidade com que lida com o vício em cocaína e o sexo profissional. E no centro de todo este turbilhão está Mark Wahlberg, que constrói o astro Dirk com precisão, passando do garoto simpático e carismático que conquista as pessoas em volta para um egocêntrico e nojento superstar de maneira convincente.

Centrado Jack HornerDoce e sensual AmberAstro DirkNum momento brilhante, Anderson expõe a decadência geral daquelas pessoas através de duas ações paralelas que dialogam entre si, com Jack e a Patinadora espancando um homem na rua exatamente da mesma forma que um grupo de jovens faz com Dirk, como se fosse um acerto de contas entre os pilares da discussão que levou a destruição da bem sucedida parceria entre eles – um momento, aliás, que exemplifica bem a violência gráfica que permeia a narrativa. Além disso, o diretor também brinda a plateia com cenas extremamente tensas, como o assalto à loja de Donut´s e especialmente a angustiante negociação na casa de um traficante, na qual a música alta, os explosivos e os próprios diálogos deixam personagens e plateia com os nervos à flor da pele. E finalmente, a conversa de Dirk com o espelho exatamente como fez Jake La Motta em “Touro Indomável” faz uma referência óbvia à outra trajetória de ascensão e queda.

Jack e a Patinadora espancando um homemGrupo de jovens agride DirkAssalto à loja de Donut´sApós tantas menções ao órgão sexual do garoto, Paul Thomas Anderson finalmente revela a razão de seu sucesso naquela indústria, numa cena explícita que poderia soar gratuita, mas que neste caso – com o perdão do trocadilho – se encaixa perfeitamente à narrativa. Mas se a superficialidade é algo inerente às produções pornográficas, “Boogie Nights” tem muito mais a dizer do que sua embalagem chamativa faz parecer, trazendo reflexões a respeito de questões delicadas como a dependência química e o abuso de menores, além de tratar os excessos dos personagens e suas consequências de maneira ambígua.

Se por um lado temos a maneira preconceituosa como a sociedade vê aquele mundo na audiência de Maggie e na tentativa frustrada de conseguir crédito para abrir uma loja de aparelhos de som de um ator pornô (Don Cheadle), por outro vemos como aquela vida de excessos pode realmente ser muito prejudicial – e o momento mais emblemático neste sentido é quando Maggie é acusada em juízo de usar drogas e prontamente nega, sabendo que a verdade neste caso só a afastaria ainda mais do filho. É como se “Boogie Nights” erguesse um painel com os prós (glamour, dinheiro, carrões, sexo fácil, festas) e contras (baixa escolaridade, preconceito, afastamento da família, dificuldade para sair do ramo, vício em drogas) deste complexo e desconhecido universo.

Angustiante negociação na casa de um traficanteTentativa frustrada de conseguir créditoMaggie é acusada em juízo de usar drogasClaramente influenciado por cineastas geniais como Martins Scorsese (no aspecto visual) e Robert Altman (na estrutura narrativa), Paul Thomas Anderson fincou de vez o pé na indústria de Hollywood com o belíssimo trabalho feito em “Boogie Nights”, demonstrando capacidade para conduzir um grande elenco e extrair excelentes atuações de praticamente todos eles. O resultado é um filme simultaneamente delicioso e sombrio, que aborda um segmento polêmico da indústria sem jamais soar panfletário ou careta, mas que nem por isso esconde os riscos que oferece para aqueles que decidem se aventurar nele.

Boogie Nights – Prazer sem Limites foto 2Texto publicado em 09 de Junho de 2013 por Roberto Siqueira

A VIDA É BELA (1997)

(La Vita è bella)

5 Estrelas 

Obra-Prima

Videoteca do Beto #169

Vencedores do Oscar #1998* (FILME ESTRANGEIRO)

* Estreou na Itália em 1997, mas só concorrereu ao Oscar em 1999, porque foi lançado comercialmente nos Estados Unidos apenas em 1998.

Dirigido por Roberto Benigni.

Elenco: Roberto Benigni, Nicoletta Braschi, Giorgio Cantarini, Giustino Durano, Sergio Bini Bustric, Marisa Paredes, Horst Buchholz, Lidia Alfonsi, Giuliana Lojodice, Amerigo Fontani, Pietro De Silva, Francesco Guzzo e Raffaella Lebboroni.

Roteiro: Vincenzo Cerami e Roberto Benigni.

Produção: Gianluigi Braschi e Elda Ferri. John M. Davis (versão dublada em inglês).

A Vida é Bela[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Conhecido no Brasil por ter vencido o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro num ano em que tínhamos um filme com possibilidades reais na disputa (o ótimo “Central do Brasil”, de Walter Sales), “A Vida é Bela” ganhou a antipatia de muitos brasileiros – e a performance exagerada de Roberto Benigni na cerimônia após vencer injustamente o Oscar de Melhor Ator não contribuiu em nada para melhorar esta situação. No entanto, misturar a premiação com a análise do filme é um erro que jamais devemos cometer, não apenas por fugir dos aspectos cinematográficos da obra como também por permitir que elementos superficiais interfiram neste processo e nos levem a cometer injustiças. Pois a verdade é que “A Vida é Bela” é um grande filme, digno de todos os elogios e prêmios que recebeu e capaz de levar as lágrimas o mais durão dos espectadores.

Escrito, estrelado e dirigido pelo próprio Roberto Benigni, “A Vida é Bela” evidencia sua atmosfera fabulesca desde os primeiros segundos quando uma voz solene (do próprio protagonista) anuncia que acompanharemos a história de Guido (Roberto Benigni), um homem de descendência judaica que vive no interior da Itália e acaba se apaixonando pela bela Dora (Nicoletta Braschi), a professora da escola local que, por sua vez, já era noiva de outro homem. Muitos anos mais tarde, ele e seu pequeno filho Giosué (Giorgio Cantarini) são levados para um campo de concentração nazista, o que leva Dora a pedir para seguir o mesmo destino. Afastado da amada e diante de um cenário terrível, ele passa a usar a imaginação para fazer o menino acreditar que tudo não passa de um jogo que premiará o vencedor com um verdadeiro tanque de guerra.

Claramente dividida em duas partes distintas, a narrativa de “A Vida é Bela” começa de maneira bem leve, com Benigni apostando alto no humor pastelão, mas sem jamais perder a mão e ultrapassar a linha do aceitável. Assim, ele consegue algo difícil, que é arrancar o riso da plateia com piadas inocentes que lembram muito o cinema do gênio Charles Chaplin. Não são poucas as cenas divertidas que permeiam a primeira metade do longa, destacando-se a sequência em que ele tenta entrar com uma petição pública para abrir uma livraria, o ensaio com seu tio sobre como ele deveria servir os clientes no restaurante do hotel e a engraçada apresentação dele para os alunos na escola.

Tenta entrar com uma petição públicaEnsaio com seu tioApresentação para os alunosAinda nesta etapa mágica em solo italiano, Benigni busca valorizar o belo centro histórico de Arezzo com seus planos amplos e a fotografia viva de Tonino Delli Colli, colaborador de Sergio Leone em seus melhores filmes e que aqui acerta na escolha lentes que realçam a arquitetura local. O trabalho deles é essencial ainda para que algumas cenas marcantes funcionem tão bem, como o lindo passeio romântico de Guido e Dora debaixo de chuva, a colorida e animada festa de noivado em que eles se beijam embaixo da mesa e o passeio de bicicleta do casal pela cidade.

Belo centro histórico de ArezzoLindo passeio romântico de Guido e DoraSe beijam embaixo da mesaTambém essencial nesta divisão da narrativa, a montagem de Simona Paggi nos presenteia com uma elipse muito elegante, quando após fugirem da festa montados num cavalo, Guido e Dora vão para a velha casa do tio dele e um longo plano das flores do jardim acompanhado pela voz de fundo que chama pelo menino Giosué indica a passagem do tempo. Este é também o primeiro passo para o ponto de virada da narrativa, que começa a ganhar forma quando Guido sai para andar pela cidade já completamente mudada, com o exercito alemão presente e placas que proíbem a entrada de judeus espalhadas por diversos comércios. Aqui temos também o primeiro indício da maneira criativa e tocante que Guido encontrará para amenizar os efeitos trágicos daqueles acontecimentos na vida de seu filho, quando ele explica para o menino porque judeus e cachorros não eram permitidos num determinado local.

Fogem montados num cavaloFlores do jardimExercito alemãoOutro elemento que ajuda a indicar esta mudança radical é a trilha sonora de Nicola Piovani, que adota um tema delicioso na primeira metade da narrativa e passa a usar um tema sombrio com mais frequência na segunda metade, raramente cedendo lugar ao tom alegre de antes. Antes disso, um acorde rápido indica o assalto à casa do tio de Guido, dando os primeiros sinais do futuro nebuloso que os aguardava, que seriam reforçados ainda pela invasão da casa e pela pintura do cavalo dele. E então, a trilha sombria e a casa revirada anunciam que Guido e Giosué foram levados pelos alemães, iniciando a etapa obscura de “A Vida é Bela”.

A partir daí, o visual alegre e vivo adotado por Delli Colli cede espaço para os tons mais carregados e as cores sem vida como cinza e marrom – e repare como o plano que mostra a chegada do trem ao campo de concentração é dominado pelas sombras, num indício claro da vida sufocante que eles teriam ali. Da mesma forma, o fantástico design de produção de Danilo Donati recria os campos de concentração com precisão e, auxiliado pelos figurinos dele próprio, nos transporta pra dentro daquele local – o que contrasta com o asséptico hotel em Arezzo, com suas paredes brancas e decoração leve.

Chegada do trem ao campo de concentraçãoCampos de concentraçãoAsséptico hotel em ArezzoNa chegada ao campo de concentração, Dora está vestida de vermelho, mas logo é obrigada a usar os opacos uniformes listrados, numa mudança que simboliza a alegria deixada na Itália e minada naquele local. Vivendo Dora de maneira encantadora, a atriz italiana Nicoletta Braschi oferece uma atuação tocante nos poucos momentos em que surge no campo de concentração, demonstrando sua dor por estar distante do marido e do filho e arrancando lágrimas da plateia na linda cena em que Guido coloca uma música italiana para tocar pra ela na janela. Aliás, mesmo num ambiente opressor e terrível como aquele, Benigni consegue nos presentear com cenas belíssimas, como aquela em que Guido e Giosué falam no sistema de som para que Dora possa ouvir – e repare a cor da roupa que ela segura nas mãos neste instante. Outro momento tocante ocorre no reencontro entre Guido e seu amigo alemão, o Dr. Lessing interpretado por Horst Buchholz, que neste instante consegue nos comover somente através da expressão de seu rosto, dizendo muito sem necessitar de palavras e mostrando o incômodo do médico ao ver o amigo naquela situação.

Dora vestida de vermelhoOpacos uniformesIncômodo do médicoTambém muito importante para o sucesso da narrativa, a atuação do menino Giorgio Cantarini é muito eficiente, com seu olhar cheio de vida e suas expressões inocentes conquistando o coração da plateia. Mas o grande destaque fica mesmo para o carismático Roberto Benigni, que com seu jeito espalhafatoso e suas expressões marcantes cria um personagem absolutamente adorável, seja na primeira parte em que luta para conquistar Dora (“Buongiorno, Principessa!”), seja na segunda, quando tenta proteger o filho daquele ambiente hostil apenas através do uso da imaginação. Tocando num tema universal como a relação entre pai e filho, Benigni acerta em cheio o coração do espectador, abusando da sensibilidade para criar momentos de uma pureza desconcertante, que ganham contornos ainda mais belos naquele cenário extremamente degradante.

Expressões inocentesBuongiorno, Principessa!Tenta proteger o filho“A Vida é Bela” traz ainda uma série de rimas narrativas interessantes, como quando Giosué não quer tomar banho no campo, assim como ele fazia na Itália – o que gera tensão na plateia, que a esta altura já sabe o que acontece nos “banhos”, ao passo em que Guido ainda não conhecia os procedimentos nazistas para dizimar as crianças. Na medida em que nos aproximamos do ato final, os momentos de tensão começam a ganhar mais espaço, chegando ao auge quando Giosué fala “Grazie” e chama a atenção de um soldado num jantar reservado para alemães. Mas nada que se compare ao assustador plano que traz uma pilha de judeus mortos, que dá a exata noção do tamanho do massacre ocorrido ali, funcionando como um choque de realidade para o espectador.

Giosué não quer tomar banhoGraziePilha de judeus mortosMarcado pelo visual sombrio, o tenso terceiro ato traz Guido tentando de tudo para salvar seu filho naquela trágica noite, enquanto os alemães tentam eliminar todos os prisioneiros após perderem a guerra. E após tanto horror, Benigni ainda encontra espaço para nos surpreender, nos fazendo rir e chorar no lindo momento em que Guido se despede do filho fingindo estar brincando com um soldado armado, segundos antes de ser assassinado pelo mesmo. O tanque de guerra e o reencontro com a mãe só tornam tudo um pouco menos dolorido para uma plateia certamente já sensibilizada e conquistada por tamanha pureza.

Guido se despede do filhoTanque de guerraReencontro com a mãeAbordando temas universais de maneira tão humana que fica quase impossível não se comover, “A Vida é Bela” é um trabalho memorável que traz a essência dos grandes filmes que o cinema italiano já foi capaz de produzir. Usando os fortes laços familiares como combustível para nos levar através de uma narrativa sombria, Benigni realizou um filme fantástico, repleto de magia e inocência mesmo num ambiente horrível como o da guerra.

A Vida é Bela foto 2Texto publicado em 01 de Junho de 2013 por Roberto Siqueira

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (1946)

(It’s a Wonderful Life)

5 Estrelas

 

Obra-Prima 

Filmes em Geral #107

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: James Stewart, Donna Reed, Thomas Mitchell, Lionel Barrymore, Henry Travers, Beulah Bondi, Frank Faylen, Ward Bond, Samuel S. Hinds, Todd Karns e H.B. Warner.

Roteiro: Frances Goodrich, Albert Hackett e Frank Capra, baseado em história de Philip Van Doren Stern.

Produção: Frank Capra.

A Felicidade não se Compra[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O otimismo e a exaltação do estilo de vida norte-americano são marcas registradas da filmografia de Frank Capra. Por vezes exagerado, o diretor ítalo-americano não hesitava um segundo antes de rechear seus longas com mensagens positivas e esperançosas, o que lhe garantiu uma carreira de sucesso numa época tão marcada por conflitos e até mesmo pela Segunda Guerra Mundial. No entanto, foi na obra-prima “A Felicidade não se Compra” que Capra conseguiu alcançar seu melhor resultado, equilibrando o riso e o drama com precisão e realizando um filme simplesmente encantador, capaz de inspirar gerações ao longo de décadas.

Baseado no conto “The Greatest Gift” de Philip Van Doren Stern, o roteiro escrito pelo próprio Capra ao lado de Frances Goodrich e Albert Hackett narra a vida de George Bailey (James Stewart), um jovem que queria deixar a cidade natal para estudar na universidade e depois viajar pelo mundo, mas que se vê obrigado a ficar e tocar os negócios da família após a morte do pai (Samuel S. Hinds). Após casar-se com a bela Mary Hatch (Donna Reed) e enfrentar credores como o cruel Sr. Potter (Lionel Barrymore) ao longo dos anos, George finalmente se vê numa situação muito complicada quando seu tio Billy (Thomas Mitchell) perde uma importante quantia que poderia levar o negócio a falência, o que faz George pensar no suicídio. Mas uma intervenção divina promete mudar o rumo desta história.

Capra nunca foi um diretor preocupado com a estilização da imagem. Seus filmes normalmente tinham um visual clássico, sem invencionismos e técnicas mais ousadas, limitando-se aos tradicionais planos americanos, closes e alguns raros planos gerais. Para ele, importava muito mais a história que seria contada do que o estilo visual. Em alguns casos, o diretor pesava demais a mão na abordagem sentimentalista (como no fraco “Adorável Vagabundo”), mas por outro lado, Capra sabia como poucos inserir o bom humor em suas narrativas, realizando filmes divertidos e marcantes (como o pioneiro “Aconteceu Naquela Noite”). Contudo, em nenhuma outra ocasião ele foi tão feliz como aqui.

Criando uma atmosfera natalina no início, Capra mantém o estilo discreto na movimentação da câmera, mas abusa da criatividade na construção da narrativa, como fica evidente desde a divertida conversa entre Deus, José e o anjo Clarence. Auxiliado pela montagem de Dimitri Tiomkin, Capra cria uma estrutura narrativa interessante, utilizando a conversa divina como ponto de partida para um enorme flashback que narra a vida do protagonista desde a infância até a noite de natal que abre o filme – e vale destacar o divertido momento em que Capra congela a imagem do adulto George para que Jose explique para Clarence o que aconteceu na vida dele. A ousadia do diretor não para por aí, já que a cena em que o Sr. Gower (H.B. Warner) bate na orelha do pequeno George traz uma carga de violência incomum para a época.

Mas este é um raro momento mais pesado numa narrativa predominantemente marcada pela leveza e pelo alto astral. Este espírito alegre pode ser notado em diversos momentos, como na recepção de Harry Bailey (Todd Karns) na estação de trem quatro anos depois que ele partiu para estudar no lugar do irmão, na divertida cena da dança numa festa que acaba num banho coletivo na piscina e no jantar de despedida de George em que ele e o irmão carregam a mãe (Beulah Bondi) nos braços. Mais interessante, no entanto, é a maneira como Capra equilibra este bom humor com momentos extremamente humanos, como a conversa entre pai e filho antes da suposta saída de George da cidade, que de tão sincera chega a comover.

A boa relação com os pais, aliás, é um reflexo de um traço marcante da personalidade de George, um homem que parece incapaz de pensar somente em si mesmo, ainda que tenha seus sonhos e tente correr atrás deles por diversas vezes. Somente esta benevolência já justificaria a simpatia do espectador pelo personagem, mas o enorme carisma de James Stewart torna a tarefa ainda mais fácil. Ao lado da encantadora e charmosa Donna Reed, que surge pela primeira vez num close que só realça sua beleza, Stewart oferece uma atuação vibrante, convencendo como o homem simples e de coração puro que enfrenta os credores para continuar oferecendo aos cidadãos locais a possibilidade de conquistar a casa própria. Juntos, George e Mary protagonizam cenas belíssimas como aquela em que ele promete laçar a lua e dar pra ela (num diálogo icônico imortalizado ao longo dos anos) ou a engraçada sequência que culmina com Mary nua num arbusto, que tem seu clima totalmente quebrado pela triste notícia do derrame que levou o pai de George a morte.

Conversa entre Deus, José e o anjoBanho coletivo na piscinaGeorge promete laçar a lua e dar pra elaIntercalando estes momentos doces com outros amargos, Capra reflete em sua fábula a própria situação do protagonista, um homem feliz na maior parte do tempo, mas que é levado pelos caminhos da vida a desistir de sonhos como estudar na universidade e viajar pelo mundo – algo simbolizado sutilmente pelos panfletos de viagem que ele joga fora. Poucos temas são mais humanos que a renúncia, algo que constantemente faz parte de nossas vidas. O próprio visual do longa reflete esta gangorra de sentimentos através do contraste entre os dias ensolarados e os chuvosos; e a própria chuva tem papel simbólico em muitos instantes, como no belo plano em que o casal acompanha pelo vidro molhado do carro a multidão que se forma em frente a empresa de George, indicando que mais uma vez ele deixaria seus sonhos de lado para ajudar as pessoas. Seguindo esta estratégia, a fotografia de Joseph Biroc e Joseph Walker lentamente abandona as cenas mais claras e iluminadas da primeira metade do filme para ceder lugar aos tons mais sombrios conforme a narrativa avança, chegando ao auge na assombrosa sequência em que George pensa em suicidar-se debaixo de neve.

“A Felicidade não se Compra” conta ainda com sua porção de cenas marcantes, como aquela em que George e Mary seguram um aparelho telefônico e acabam se beijando, numa cena típica do cinema clássico de Hollywood que funciona muito bem. Além dela, vale citar também a noite de núpcias preparada pelos amigos para o casal, numa decoração criativa que reforça o bom trabalho de direção de arte de Jack Okey. E finalmente, podemos citar a interessante explicação dada pelo protagonista sobre como funciona o crédito concedido por sua empresa para que as pessoas consigam comprar suas casas, num raciocínio que ainda hoje pode ser aplicado ao sistema bancário.

A escalada dramática do protagonista começa a ganhar força quando Potter tenta contratá-lo – e Stewart demonstra com precisão o conflito de sentimentos do personagem, que inicialmente se mostra surpreso e feliz com a proposta, mas depois percebe as reais intenções de Potter e se revolta. Mesmo se negando a aceitar a proposta, a possibilidade de oferecer uma vida melhor para sua família fica martelando em sua mente por um bom tempo. Assim, não nos surpreendemos quando ele explode e quase agride seu tio após descobrir que ele perdeu uma importante quantia em dinheiro, voltando transtornado para casa para chorar com os filhos no braço antes de maltratar sua amada esposa e as próprias crianças. Prestes a ser enviado para a cadeia por Potter, ele decide sair da casa e suicidar-se, numa cena que parte o coração da plateia.

Casal acompanha pelo vidro molhado do carroGeorge e Mary acabam se beijandoPotter tenta contratá-loEm seguida, o zoom que nos aproxima de seu rosto suado no bar praticamente nos permite sentir seu desespero. Bêbado, ele perambula pela cidade e a neve que cai só reforça o sentimento de angústia da plateia. E então chegamos à sequência mais genial do longa, quando o anjo Clarence finalmente entra em cena e mostra como seria a vida sem George, provocando reflexões não apenas no personagem, mas no próprio espectador. Sua alegria genuína quando “volta à vida” e ao lar é comovente, assim como a inesperada ajuda dos amigos e as doces palavras deixadas pelo anjo no livro: “Lembre-se, George: nenhum homem é um fracasso quando tem amigos”. Por isso, é quase inevitável chegar ao fim de “A Felicidade não se Compra” com o ânimo renovado e os olhos marejados.

Realizando um filme otimista como quase todos de sua longa carreira, Capra acertou em cheio neste “A Felicidade não se Compra”, uma obra-prima humana, sensível e capaz de lavar nossa alma e elevar nosso espírito como poucos filmes foram capazes até hoje.

A Felicidade não se Compra foto 2Texto publicado em 23 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU (1977)

(Close Encounters of the Third Kind)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #168

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Richard Dreyfuss, Bob Balaban, Teri Garr, François Truffaut, Melinda Dillon, J. Patrick McNamara, Warren J. Kemmerling, Cary Guffey e Roberts Blossom.

Roteiro: Steven Spielberg.

Produção: Julia Phillips e Michael Phillips.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após o sucesso avassalador de “Tubarão”, Steven Spielberg teria carta branca para tocar o projeto que quisesse. Não surpreende, portanto, que o próximo longa do diretor seja justamente aquele que marca sua primeira incursão num de seus gêneros favoritos. Contando novamente com Richard Dreyfuss no elenco e conseguindo ainda a participação de uma lenda do cinema francês (o diretor François Truffaut), Spielberg tinha tudo nas mãos para emplacar outro grande sucesso e, felizmente, ele não decepcionou. “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” é uma ficção científica cativante, que mantém seu encanto mesmo décadas após seu lançamento.

“Contatos Imediatos do Terceiro Grau” era um projeto tão pessoal que Spielberg não apenas dirigiu o filme como também se encarregou de escrever o roteiro, que tem início quando o tranquilo Roy (Dreyfuss) começa a ter visões de uma misteriosa montanha ao mesmo tempo em que presencia estranhas luzes cortarem o céu da pequena cidade em que vive no interior dos EUA. Obcecado pela estranha montanha, ele acaba se distanciando da família e, após ser abandonado, parte em busca de respostas. Em paralelo, o cientista Claude Lacombe (Truffaut) investiga a estranha aparição de um grupo de aviões desaparecidos há muitos anos, enquanto Jillian Guiler (Melinda Dillon) ganha destaque na mídia após afirmar que seu pequeno filho Barry (Cary Guffey) foi levado por uma nave espacial.

Com sua costumeira habilidade na construção de narrativas que misturam eventos grandiosos com dramas extremamente pessoais, Spielberg e seu montador Michael Kahn conduzem as três linhas narrativas de “Contatos Imediatos” num ritmo agradável, priorizando a trajetória de Roy sem jamais tornar os segmentos que acompanham Lacombe ou Jillian menos interessantes. Assim como ocorria em “Tubarão” (e, posteriormente, na maioria dos filmes de Spielberg), a ausência da figura paterna é um tema marcante, surgindo primeiro na casa do menino Barry, criado por uma mãe forte e solitária, e depois na própria trajetória de Roy, que larga mulher e filhos para ir atrás dos OVNI’s e acaba embarcando no disco voador com os extraterrestres. Apesar disto, este não será o tema central do longa, que concentra sua força nas imagens marcantes conseguidas com efeitos visuais extremamente eficientes e na sensação de encanto das pessoas diante do que veem – algo que o diretor faz questão de ressaltar em diversos momentos com planos que realçam o olhar de admiração dos personagens.

Efeitos visuais extremamente eficientesEncanto das pessoasOlhar de admiraçãoPara isto, Spielberg capricha na composição dos planos, como fica evidente desde o impressionante plano geral que mostra toda a cidade escurecendo após a queda da energia elétrica e, logicamente, no deslumbrante ato final. Além disso, o diretor usa sua câmera com habilidade para criar suspense, por exemplo, na cena em que a luz do farol de um carro atrás da caminhonete de Roy se movimenta para o lado quando este o ultrapassa e, minutos depois, outra luz também se movimenta, só que desta vez para cima, indicando para a plateia a presença de algo estranho. Repare ainda como o diretor sabe trabalhar muito bem a expectativa do espectador na cena em que acompanhamos os controladores de voo captando a presença dos OVNI’s e, especialmente, quando nos coloca dentro da casa junto com Barry e sua mãe, criando uma cena absolutamente tensa que culmina no impressionante plano em que ela sai correndo pra fora e vê as naves sumindo no horizonte distante com seu filho.

Cidade escurecendoCarro atrás da caminhonete de RoyDentro da casaObviamente, o diretor de fotografia Vilmos Zsigmond tem participação fundamental neste processo, trabalhando na maior parte do tempo com paletas claras e cenas diurnas que criam um contraste interessante com o espetacular visual do ato final, que se passa praticamente o tempo todo à noite, num cenário perfeito para o festival de cores e luzes que toma conta da tela após a chegada das espaçonaves. Quem também dá um show em “Contatos Imediatos” é o design de som, que se destaca logo de cara ao captar com precisão o barulho do vento e as vozes dos personagens na sequência que abre o longa no México. E finalmente, a trilha sonora do mestre John Williams é responsável por criar as cinco notas icônicas que estabelecem contato com os extraterrestres, além de servir também para aumentar a tensão em alguns momentos pontuais, como na chegada dos ET’s à casa de Barry.

Paletas clarasFestival de cores e luzesCinco notas icônicasEm outro momento bem conduzido por Spielberg, acompanhamos Roy conversando com a esposa por telefone e, no segundo plano, a imagem da montanha Devil’s Tower na televisão – e o próprio movimento de câmera que revela a montanha real é belíssimo. No entanto, “Contatos Imediatos” não se resume apenas ao apuro técnico, já que o diretor é competente também ao extrair boas atuações de praticamente todo o elenco, a começar pelo próprio Richard Dreyfuss, que demonstra a determinação do personagem através de suas expressões marcantes, evidenciando também o quanto sua vida foi afetada por aquele evento incomum – algo que sua esposa e seus filhos não demoram a perceber, o que os leva a deixar a casa (com razão) após um surto de loucura do pai. E se a esposa de Roy vivida por Teri Garr não ganha grande destaque, Melinda Dillon quase rouba a cena com seu desempenho envolvente na pele da desesperada mãe de Barry, comovendo pela maneira determinada com que parte em busca do filho.

Roy conversando com a esposa por telefoneExpressões marcantesDesesperada mãe de BarryApesar de serem impulsionados por motivações distintas (ela vai atrás do filho enquanto ele se distancia deles), Jillian e Roy compartilham a obstinação por algo que eles sequer têm certeza que vão conseguir encontrar, o que justifica a identificação dos personagens e, por consequência, conquista também a empatia da plateia. Assim como eles, nós não sabemos exatamente aonde a narrativa irá nos levar, mas aguardamos ansiosamente pelo contato que dá nome ao filme.

Inteligente, Spielberg constrói o clímax cuidadosamente, criando uma atmosfera perfeita e fazendo com que a plateia aguarde ansiosamente pelo contato com os extraterrestres através de planos belíssimos como aquele que mostra a montanha preparada para a chegada dos discos voadores. Quando o aguardado momento chega, o diretor segue uma linha diferente da maioria das obras relacionadas à invasão de alienígenas, nos apresentando seres pacíficos e interessados somente em comunicar-se com a raça humana. E isto acontece de maneira mágica, num espetáculo de luzes e sons que dificilmente é apagado da memória do espectador. Neste instante, os olhares fascinados dos personagens se confundem com os da própria plateia, maravilhada diante de tamanho espetáculo visual.

Montanha preparadaLuzes e sonsOlhares fascinadosConfirmando sua habilidade ímpar de construir narrativas absolutamente cativantes, Steven Spielberg se consolidava como um diretor com rara capacidade de agradar público e crítica, narrando histórias visualmente marcantes sem jamais deixar de se preocupar com o lado humano de seus personagens. Envolvente e espetaculoso, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” é um trabalho memorável na carreira de Spielberg, o que não deixa de ser um feito, considerando a filmografia deste aclamado diretor.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau foto 2Texto publicado em 14 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

AS DUAS FACES DE UM CRIME (1996)

(Primal Fear)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #167

Dirigido por Gregory Hoblit.

Elenco: Richard Gere, Edward Norton, Laura Linney, John Mahoney, Frances McDormand, Alfre Woodard, Terry O’Quinn, Andre Braugher, Steven Bauer, Joe Spano, Tony Plana, Maura Tierney e Jon Seda.

Roteiro: Steve Shagan e Ann Biderman, baseado em romance de William Diehl.

Produção: Gary Lucchesi.

As Duas Faces de um Crime[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após a desistência do então astro em ascensão Leonardo Di Caprio de participar de “As Duas Faces de um Crime”, os produtores do projeto passaram a procurar desesperadamente por alguém que pudesse encarnar o personagem chave da trama, chegando a testar mais de dois mil candidatos. Entre eles, um jovem desconhecido conseguiu se destacar de tal maneira que, após conseguir o disputado papel e ter o vídeo de seu teste circulando por toda Hollywood, ele acabou sendo contratado para trabalhar em mais dois filmes importantes daquele ano, dirigidos por ninguém menos que Woody Allen e Milos Forman. Obviamente, estamos falando do talentosíssimo Edward Norton.

A atuação ambígua de Norton é essencial para que “As Duas Faces de um Crime” funcione tão bem, mas o ótimo roteiro escrito por Steve Shagan e Ann Biderman (baseado em romance de William Diehl) também tem grandes méritos, com sua estrutura perfeita funcionando em diversas camadas e desenvolvendo muito bem este precioso personagem, além é claro de contar com reviravoltas atordoantes. A narrativa começa nos mostrando o assassinato de um conhecido Arcebispo de Chicago (Stanley Anderson) e a prisão quase imediata de um de seus coroinhas, o jovem Aaron Stampler (Edward Norton), que é encontrando todo ensanguentado numa ferrovia perto do local do crime. A cobertura midiática do evento chama a atenção do competente advogado Martin Vail (Richard Gere), que decide defender o rapaz sem cobrar nada, apenas pela exposição que teria no caso. Do outro lado, a promotora Janet Venable (Laura Linney), que já viveu um caso com Vail no passado, é contratada pelo estado para tentar a pena de morte.

Além de se destacar pela maneira envolvente com que constrói a relação entre o advogado de defesa e seu cliente, o corajoso roteiro aborda ainda a influencia da Igreja nos negócios do bairro e os crimes sexuais cometidos pelo Arcebispo, criando um complexo jogo de interesses que só prende ainda mais nossa atenção. Por isso, talvez o único escorregão do inteligente roteiro seja o desnecessário caso entre Vail e Janet, que além de não colaborar em nada para o andamento da narrativa, acaba tirando o foco da ação principal sempre que as provocações entre eles ganham espaço na tela.

Relação entre o advogado de defesa e seu clienteCrimes sexuaisDesnecessário casoAuxiliado pela montagem de David Rosenbloom, o diretor Gregory Hoblit conduz a narrativa de maneira fluida, intercalando o trabalho no escritório de Vail, os duelos verbais entre ele e Janet, as conversas com Stampler, sua análise psiquiátrica e as audiências no tribunal, que ganham mais foco somente no empolgante terceiro ato. Até lá, o diretor demonstra habilidade na construção de uma atmosfera tensa e misteriosa, trabalhando em pequenos detalhes que ajudam a confundir o espectador. Mostrando Stampler rapidamente durante a apresentação do coral de coroinhas, Hoblit inicialmente nos faz acreditar que ele é mesmo o assassino, intercalando as fortes imagens do assassinato com planos rápidos de sua fuga alucinada da polícia. No entanto, observe como na prisão o diretor engrandece Vail e diminui Stampler na tela durante as primeiras conversas, o que, somado às expressões vulneráveis de Norton, força nossa identificação com o personagem e faz com que a plateia realmente acredite em sua inocência.

Imagens do assassinatoFuga alucinada da políciaExpressões vulneráveisCompetente também na direção de atores, Hoblit evita distrair nossa atenção com invencionismos, realçando as fortes atuações de seu elenco. Repare, por exemplo, como a câmera se aproxima lentamente do rosto dos personagens conforme os diálogos evoluem, como na primeira conversa entre Vail e Stampler e em muitos outros diálogos, num movimento discreto que jamais chama a atenção para si. Da mesma forma, a fotografia de Michael Chapman cria um mundo acinzentado que realça a frieza necessária na profissão dos advogados – e descobriremos mais tarde que esta frieza remete também ao próprio Stampler -, assim como o design de produção de Jeannine Claudia Oppewall, que concebe ambientes simétricos e organizados como o escritório de Vail e os tribunais. Até por isso, nos raros momentos em que o visual foge ao padrão, o espectador sente claramente o que o diretor pretende transmitir, como na conversa entre Vail e um repórter num bar, onde os tons avermelhados que predominam na cena indicam o inferno astral vivido pelo personagem após a descoberta da suposta doença de Stampler.

Mundo acinzentadoAmbientes simétricosInferno astralEssencial num filme de tribunal onde os argumentos dos advogados precisam ser captados com clareza, o design de som ainda se destaca em sequências especiais, como no próprio assassinato do Arcebispo, no qual um cidadão escuta da rua os violentos golpes desferidos contra ele, e especialmente numa das audiências, onde as vozes de um interessante debate entre os advogados se sobrepõem às imagens da chegada deles ao tribunal. E fechando os destaques da parte técnica, a trilha sonora discreta de James Newton Howard sublinha muito bem momentos especiais, como quando indica a mudança de comportamento de Stampler segundos antes de sua primeira transformação através de uma nota sombria que lentamente ganha força, destoando deste tom discreto somente durante a acelerada perseguição de Alex (Jon Seda) pelas ruas.

Bem vestido e com um corte de cabelo impecável, Richard Gere encarna Vail como um advogado extremamente competente e, por isso, autoconfiante ao ponto de dizer que a única verdade que interessa é aquela em que ele acredita. Com um sorriso falso e um olhar penetrante, o ator faz bem o papel do advogado dissimulado, que faz tudo que está ao seu alcance para defender seus clientes, mantendo ainda um bom relacionamento com eles fora do tribunal, como atesta sua conversa com o traficante Joey Pinero (Steven Bauer). Assumindo inicialmente uma postura dominante que se reflete nas cores fortes de seus ternos (figurinos de Betsy Cox), o advogado lentamente vai sendo domado por seu cliente, o que cria uma confusão momentânea em sua mente tão acostumada a controlar este tipo de situação, refletida até mesmo na falta de cor de seus ternos no segundo ato. Quando finalmente compreende o que se passa com Stampler, Gere volta a adotar uma postura confiante e os ternos escuros novamente aparecem.

Advogado extremamente competenteSorriso falsoPostura dominanteIgualmente confiante profissionalmente, a Janet interpretada por Laura Linney se sai bem nos embates diante do ardiloso Vail, mantendo uma postura firme também fora do âmbito profissional ante as investidas nada elegantes do ex-amante. Vivendo a personagem de maneira centrada e inteligente, Linney confere credibilidade aos julgamentos, fazendo com que a plateia realmente acredite que ela será capaz de vencer Vail e conseguir a condenação de Stampler. Outra presença feminina marcante é a de Frances McDormand, que está serena como a psiquiatra Molly, transmitindo a tranquilidade esperada em sua profissão e demonstrando segurança diante dos fortes questionamentos da promotora Janet no tribunal (numa atuação minimalista que, por contraste, realça sua qualidade como atriz quando comparada a determinada policial Marge, que ela viveu naquele mesmo ano em Fargo”). Fechando o elenco secundário, vale citar o ameaçador John Shaughnessy interpretado por John Mahoney.

Janet postura firmeCentrada e inteligentePsiquiatra MollyE chegamos então ao grande responsável pelo sucesso de “As Duas Faces de um Crime”. Em seu papel de estreia no cinema, Edward Norton entrega uma atuação assombrosa, encarnando duas personalidades tão distintas de maneira mais do que convincente na pele do acusado Stampler. Enquanto o tímido Aaron surge com uma notável gagueira, um tom de voz baixo e evita olhar diretamente para as pessoas, seu alter-ego Roy é exatamente o oposto, surgindo confiante com sua voz firme, o olhar ameaçador e a postura corporal imponente e agressiva. Observe, por exemplo, como sua expressão ameaçadora no primeiro lapso diante da Dra. Molly se contrapõe diretamente ao seu olhar assustado durante as audiências no tribunal. Assim, quando Roy finalmente surge em cena, Norton complementa sua transformação de maneira sensacional, atacando Vail violentamente e se impondo com incrível firmeza, numa postura diametralmente oposta ao reprimido Aaron.

Tímido AaronRoy é exatamente o opostoPrimeiro lapsoSó que “As Duas Faces de um Crime” ainda nos reserva outra reviravolta em seus instantes finais. Preparando cuidadosamente seu explosivo terceiro ato durante toda a narrativa, Hoblit nos leva ao julgamento final e ao esperado depoimento da Dra. Molly, seguido pelo interrogatório do próprio suspeito, no qual os advogados alcançarão o ápice de suas estratégias cuidadosamente elaboradas. Incluindo planos rápidos das mãos ansiosas de Aaron durante o interrogatório, o diretor e seu montador aceleram a sequência através de planos cada vez mais curtos que só ampliam a tensão, nos permitindo antecipar o iminente ataque de fúria do acusado, que inevitavelmente acontece e deixa todos atônitos. Desta forma, o espectador termina a cena pensando que sabe mais do que a maioria dos personagens, só que quando Stampler finalmente revela seu truque para Vail, o choque torna-se inevitável tanto para o advogado quanto para a plateia. Como ilustram os planos finais em plongè que o diminuem em cena, Vail deixa o tribunal completamente desolado por constatar que aquele jovem aparentemente inofensivo foi capaz de enganá-lo durante tanto tempo.

Mãos ansiosas de AaronIminente ataque de fúriaStampler finalmente revela seu truqueQuem não se importa por ter sido enganado é o espectador, que deixa a projeção totalmente atordoado e completamente satisfeito com o que acabou de assistir. Contando com um bom elenco e uma atuação simplesmente fantástica de Edward Norton, “As Duas Faces de um Crime” é um grande filme, que vai além dos tribunais e nos faz refletir sobre até que ponto a primeira impressão é realmente a que fica. Ao menos, a impressão de que este é um dos melhores filmes da década de 90 continua intacta.

As Duas Faces de um Crime foto 2Texto publicado em 29 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

ESQUECERAM DE MIM 2 – PERDIDO EM NOVA YORK (1992)

(Home Alone 2: Lost in New York)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #166

 

Dirigido por Chris Columbus.

Elenco: Macaulay Culkin, Joe Pesci, Daniel Stern, Catherine O’Hara, Brenda Fricker, John Heard, Devin Ratray, Hillary Wolf, Maureen Elisabeth Shay, Kieran Culkin, Tim Curry, Dana Ivey, Rob Schneider, Eddie Bracken, Ally Sheedy e Chris Columbus.

Roteiro: John Hughes.

Produção: John Hughes.

Esqueceram de Mim 2[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O primeiro “Esqueceram de mim” é um filme que depende essencialmente da predisposição do espectador em embarcar em sua premissa absurda para funcionar, mas que por outro lado diverte bastante aqueles que se deixam levar por sua narrativa leve através da sádica estratégia do pequeno Kevin para defender sua casa. Este mesmo raciocínio pode ser aplicado na sequência “Esqueceram de mim 2 – Perdido em Nova York”, que, lançada somente dois anos após o primeiro filme, aposta exatamente na mesma estrutura narrativa para funcionar, alterando apenas pequenos detalhes que pouco interferem no objetivo final. Assim, se por um lado temos a oportunidade de dar algumas gargalhadas com as novas peripécias de Kevin, por outro temos a constante sensação de estarmos assistindo ao mesmo filme novamente.

Também escrito e produzido por John Hughes, “Esqueceram de mim 2” tem inicio quando a família McAllister se prepara para passar o natal na Flórida. Assim como ocorreu no natal anterior, eles perdem a hora, mas desta vez o pequeno Kevin (Macaulay Culkin) está junto com eles na van que sai desesperada para o Aeroporto. Só que ao chegar ao terminal de embarque, Kevin se perde de seu pai (John Heard) e acaba embarcando acidentalmente num voo para Nova York, onde ele aproveita para se hospedar num hotel renomado, já que está com o cartão de crédito de seu pai. O problema é que Harry (Joe Pesci) e Marv (Daniel Stern), exatamente os mesmos bandidos que tentaram invadir sua casa antes, também estão na cidade após fugirem da prisão.

Como podemos notar, Hughes não hesita em abusar das coincidências para criar a mesma situação que proporcionou os melhores momentos de “Esqueceram de mim”. Assim, mais uma vez temos a casa tumultuada na véspera da viagem (captada com os mesmos movimentos de câmera agitados de Chris Columbus), a mesma época do ano e os mesmos conflitos entre o pequeno Kevin e sua problemática família – especialmente com o irritante Buzz. Ao menos, estas repetições também geram algumas divertidas rimas narrativas com o primeiro longa, como quando a família assiste “A Felicidade não se compra” em versão dublada no hotel. Porém, basta raciocinar um pouquinho para que a inevitável pergunta surja: Que pais deixariam o filho para trás duas vezes? Ou seja, a premissa desta continuação é ainda mais ridícula que a do filme anterior, mas se você conseguir superar isto e embarcar na história será parcialmente recompensado por alguns bons momentos.

Casa tumultuadaConflitosFamília assiste “A Felicidade não se compra”Ciente disto, Columbus aposta outra vez numa abordagem descontraída e se sai bem em alguns momentos particularmente inspirados, como quando os próprios pais de Kevin fazem piada com a situação (“Está virando uma tradição da família”), evidenciando que ao menos o longa não se leva a serio e quer apenas nos divertir – o que até funciona, mas não serve como desculpa para perdoar seus claros equívocos narrativos. O diretor acerta também quando revela que Kevin está no veículo antes de sair da casa, numa subversão de expectativa interessante que quebra pela primeira vez a sensação de estarmos vendo “mais do mesmo”.

Pais fazem piada com a situaçãoKevin está no veículoChegada do garoto ao hotelEnxergando a história como uma fábula, o diretor realça o deslumbramento de Kevin através do tom de cenas como a da chegada do garoto ao hotel e seu passeio de limusine comendo pizza – algo que também ocorria no primeiro filme, já que, nas duas situações, o protagonista vive uma situação desejada por muitas crianças (ficar sozinho em casa e viajar sem a companhia dos pais). Também repetindo o que fizera antes, Columbus procura espalhar dicas importantes no primeiro ato que serão importantes durante a narrativa, como num plano detalhe de um rádio relógio com a hora alterada e nas cenas em que busca destacar o gravador de Kevin. Finalmente, o diretor ainda emprega interessantes movimentos de câmera, como quando acompanha uma espécie de telefone sem fio na descoberta de que Kevin não está com a família, criando também planos divertidos como aquele em que uma estátua indica o caminho que o menino deve seguir.

Passeio de limusine comendo pizzaRádio relógioEstátua indica o caminhoMas isto não seria suficiente para salvar “Esqueceram de mim 2” do fracasso, até porque o trabalho técnico da equipe liderada por Columbus limita-se a repetir as mesmas estratégias do primeiro filme, o que pode ser interpretado como algo coerente, mas acaba reforçando a sensação de “mais do mesmo”. Assim, a trilha sonora do ótimo John Williams outra vez utiliza composições agitadas, como aquela que acompanha todos acordando atrasados; a fotografia de Julio Macat novamente prioriza cores quentes no início – que, aliás, permitem a composição de belos planos da cidade de Nova York -, mudando para um tom sombrio na medida em que a narrativa avança (repare como o parque parece assustador à noite); e, finalmente, se os coloridos figurinos de Jay Hurley mais uma vez reforçam o clima agradável pretendido por Columbus, por outro lado à escolha da mesma roupa para o pai de Kevin e o homem que se parece com ele no Aeroporto, que obviamente tenta justificar a confusão do garoto, acaba soando forçada demais. Ou seja, tudo muito adequado, mas parecido demais com o que já tínhamos visto.

Cores quentesParque parece assustadorMesma roupaSeguindo a saga, novamente temos um trecho de um filme sendo usado para assustar personagens, mas apesar da falta de originalidade, a cena em que Kevin assusta os funcionários do hotel é ótima e ilustra o que “Esqueceram de mim 2” tem de melhor: o bom humor. E neste aspecto, assim como na direção de atores, Columbus faz um bom trabalho, extraindo gargalhadas da plateia em sequências inspiradas que contam com a montagem de Raja Gosnell para funcionar, como quando a mãe de Kevin diz que ele não sabe usar cartão de crédito e, em seguida, o vemos usando seu cartão VISA no hotel. Gosnell, aliás, cria também algumas transições bem elegantes, como no “boa noite” à distancia de Kevin e sua mãe ou quando o sorriso de uma animação e do Concierge do hotel (Tim Curry) se misturam logo após este descobrir que o cartão usado por Kevin tinha sido denunciado na polícia.

Trecho de um filmeSorriso da animaçãoSorriso do Concierge do hotelNo elenco, Devin Ratray continua chato como Buzz, mas ao menos temos alguns personagens novos e interessantes, como a moradora de rua vivida por Brenda Fricker, que tem exatamente a mesma função do homem da neve no filme anterior e, assim como ocorria com o personagem interpretado por Roberts Blossom, também rouba a cena numa conversa com o pequeno protagonista – aliás, nesta bela cena temos um raro momento de crítica social (“As pessoas não me querem na cidade deles”). Temos também o Concierge do hotel interpretado por Tim Curry que, com seu jeito levemente afeminado, consegue provocar o riso da plateia, além da adorável participação de Eddie Bracken como o Sr. Duncan, o simpático dono da loja de brinquedos, e do conhecido e nada talentoso Rob Schneider, que vive Cedric.

Moradora de ruaConciergeSimpático dono da loja de brinquedosE chegamos então ao sádico Kevin, novamente interpretado pelo carismático Macaulay Culkin, que carrega a narrativa com grande desenvoltura e facilidade, sentindo-se ainda mais à vontade no papel, como notamos, por exemplo, em sua conversa com uma recepcionista logo na chegada ao hotel. Vivendo um dos sonhos de qualquer garoto, ele se esbalda num quarto repleto de guloseimas e sai para passear sozinho pelas ruas de Nova York, mas o aparecimento dos bandidos que tentaram roubar sua casa traz novamente a tona sua faceta sarcástica, escondida sob seu rosto angelical. Ainda criança, mas claramente mais desenvolvido, Culkin baseia sua atuação muito mais nos diálogos do que nas caretas que marcaram o primeiro filme – e que aqui só surgem com quase uma hora de projeção. Finalmente, o desempenho divertido do garoto é essencial para que o reencontro com os bandidos funcione.

Sádico KevinConversa com a recepcionistaCaretasEncurtando a sequência de preparação da defesa da casa, Columbus ganha tempo para explorar o que o primeiro filme tinha de melhor, criando outra hilária tentativa de invasão dos ladrões, repleta de gags engraçadas e momentos inspirados que se baseiam puramente no humor pastelão, como na cena dos tijolos atirados por Kevin no pobre Marv – este humor físico, aliás, está presente desde o princípio na cena do canto das crianças no coral de natal. Desta vez vagando por em Nova York após fugirem da prisão (que coincidência, não?), os ladrões estúpidos vividos por Pesci e Stern jamais soam ameaçadores, o que, somado ao que já vimos no filme anterior, faz com que a plateia jamais tema pelo destino de Kevin. Ao menos, os atores mais uma vez não hesitam e se entregam ao humor físico sem reservas.

Tijolos atirados por KevinLadrões estúpidosReencontro de Kevin com a moradora de ruaApós o festival de gargalhadas, “Esqueceram de mim 2” chega ao seu final repleto de clichês, com a redenção de Buzz e o reencontro de Kevin com a moradora de rua, que ao menos emociona pela simplicidade de ambos. Além disso, a piada da conta do hotel encerra o filme com o astral lá em cima, o que é ótimo.

Apesar de seus inúmeros problemas, “Esqueceram de mim 2” ainda consegue nos divertir graças ao enorme carisma de seu protagonista e à engraçada sequência de defesa da casa. Por outro lado, a constante repetição de elementos usados no primeiro filme já evidenciava que a franquia poderia muito bem terminar por ali. E se você observar quantas vezes eu utilizei expressões como “novamente”, “outra vez” e “mais uma vez” neste texto, talvez concorde comigo. Ou simplesmente me considere um péssimo escritor.

Esqueceram de Mim 2 foto 2Texto publicado em 22 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

ALADDIN (1992)

(Aladdin)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #165

Dirigido por Ron Clements e John Musker.

Elenco: Vozes de Scott Weinger, Linda Larkin, Robin Williams, Bruce Adler, Douglas Seale, Gilbert Gottfried, Frank Welker, Jonathan Freeman, Brad Kane e Lea Salonga.

Roteiro: Ron Clements, John Musker, Ted Elliott e Terry Rossio.

Produção: Ron Clements e John Musker.

Aladdin[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após atravessar décadas numa crise criativa que praticamente extinguiu as animações do estúdio, a Disney voltou a emplacar um sucesso com “A Pequena Sereia”, em 1989, e conseguiu a primeira indicação ao Oscar de Melhor Filme para uma animação com “A Bela e a Fera” dois anos depois. Diante deste cenário positivo, chegava aos cinemas a megaprodução “Aladdin”, que repetiria o sucesso de seus antecessores nas bilheterias e consolidaria de vez a ressurreição do estúdio, apostando novamente na mistura de canções marcantes, bom humor e uma clássica história de amor.

Escrito pelos diretores Ron Clements e John Musker ao lado de Ted Elliott e Terry Rossio, “Aladdin” nos leva ao fantástico mundo árabe onde a bela Princesa Jasmine (voz de Linda Larkin) precisa se casar para manter a tradição das terras de Agrabah, onde seu pai é o Sultão (voz de Douglas Seale). Interessado no posto, o conselheiro do Sultão conhecido como Jafar (voz de Jonathan Freeman) descobre que o pobre Aladdin (voz de Scott Weinger) é o único que pode entrar numa misteriosa caverna no deserto e recuperar uma lâmpada mágica, onde adormece um Gênio (voz de Robin Williams) que pode realizar até três desejos daquele que o despertar.

Como de costume, os animadores da Disney confirmam seu talento na criação de imagens belíssimas e permitem aos diretores Clements e Musker nos levarem pelo deslumbrante deserto árabe, com seu céu rosado e as típicas casas sem telhado nos transportando pra dentro da romântica Arábia dos contos clássicos. Pintados em cores quentes como o amarelo, o vermelho e o roxo, os cenários de “Aladdin” são um espetáculo a parte, um verdadeiro deleite para os olhos do espectador dentre os quais vale destacar a sinistra caverna que guarda a lâmpada e seu impressionante interior, além do lindo palácio onde vive Jasmine.

Romântica ArábiaSinistra cavernaLindo palácioAlém do visual arrebatador, “Aladdin” traz ainda um leve rompimento com o estilo narrativo clássico da Disney ao inserir ousadias de linguagem incomuns na filmografia do estúdio, como quando a câmera bate no rosto do comerciante/narrador (voz de Bruce Adler) logo na abertura. É verdade que a trilha sonora incessante continua lá, assim como as tradicionais musicais que permeiam a narrativa, mas ao menos as músicas compostas por Alan Menken mantém a jovialidade que consagrou “A Pequena Sereia”, como fica evidente na agitada canção de apresentação de Aladdin ou no sensacional número musical protagonizado pelo Gênio.

Câmera bate no rosto do narradorApresentação de AladdinNúmero musical protagonizado pelo GênioPor outro lado, a estrutura narrativa de “Aladdin” não traz nenhuma novidade e segue o padrão clássico das histórias de amor, com a Princesa rica se apaixonando pelo pobre protagonista, que deverá superar grandes desafios para finalmente conquistá-la. Mas isto não prejudica em nada a qualidade do longa, já que os diretores conduzem a narrativa com uma leveza desconcertante, jamais permitindo que ela se torne enfadonha. Além disso, o carisma dos personagens faz com que a plateia se identifique com eles e embarque nesta aventura.

Quando Jafar afirma que precisa encontrar o diamante bruto que pode entrar na caverna e resgatar a lâmpada, um corte seco do montador H. Lee Peterson nos leva até Aladdin, que surge fugindo dos guardas no mercado ao lado de seu fiel macaco Abu (voz de Frank Welker), evidenciando desde então a origem humilde do personagem, que sobrevive dos pequenos furtos que comete na feira da cidade. Divertido e vulnerável, Aladdin carrega alguns dos ingredientes básicos para criar empatia com a plateia, o que é essencial para que o espectador torça por seu sucesso. Assim, quando ele se apaixona por Jasmine, nós já estamos dispostos a acompanhar sua jornada até o fim, por maiores que sejam os obstáculos que surgem diante dele. E neste trajeto reside uma das principais mensagens do longa, que é a importância de assumir quem você é, já que tanto Aladdin quanto Jasmine passam por dificuldades quando tentam ser pessoas diferentes.

Fugindo dos guardasFiel macaco AbuDivertido e vulnerávelApresentada num zoom rápido que nos leva pelo mercado e revela sua aproximação de Aladdin, a encantadora Jasmine confirma a tendência de fortalecer as personagens femininas do estúdio apresentada antes em “A Pequena Sereia” e “A Bela e a Fera”, mostrando-se corajosa para enfrentar seu bondoso, porém facilmente manipulável pai e o cruel Jafar quando necessário, tendo participação ativa ainda no tenso terceiro ato que marca o confronto entre o protagonista e o grande vilão. Vestido com cores fortes como o preto e o vermelho, Jafar é o típico vilão caricatural da Disney, sempre empunhando um cajado em formato de cobra e com um olhar penetrante que busca assustar o público infantil.

Encantadora JasmineBondoso paiJafar o típico vilãoNo entanto, o personagem mais carismático de “Aladdin” é mesmo o divertido Gênio que ganha vida através da marcante voz de Robin Williams, com suas falas rápidas e seu jeito espalhafatoso conquistando o espectador assim que ele entra em cena. Dono de tiradas engraçadíssimas e um coração enorme, o Gênio ainda encontra espaço para nos emocionar ao falar sobre a solidão que enfrenta ao viver sozinho na lâmpada, num dos raros momentos melodramáticos de uma narrativa marcada pelo bom humor.

Divertido GênioJeito espalhafatosoTiradas engraçadíssimasAs piadas, aliás, surgem em profusão em “Aladdin”, seja em gags envolvendo a origem do nariz quebrado da Esfinge, seja na utilização de objetos distantes da realidade daquele ambiente (como carros) ou até mesmo na rápida referencia a “Pinocchio”, quando o Gênio diz que Aladdin está mentindo – e eu juro que vi o Gênio usar o rosto de Jack Nicholson quando falava sobre como Aladdin deveria cortejar Jasmine. Por outro lado, tanto o macaco Abu quanto o papagaio Iago (voz de Gilbert Gottfried) deveriam funcionar como alivio cômico, mas são raros os momentos realmente inspirados envolvendo estes personagens.

Origem do nariz quebrado da EsfingeReferencia a PinocchioRosto de Jack NicholsonO que não são raras em “Aladdin” são as grandes cenas, como a sensacional fuga da caverna após o herói encontrar a lâmpada, o lindo voo no tapete mágico de Aladdin e Jasmine embalado pela ainda mais bela música tema “A whole new world” e o empolgante terceiro ato em que Jafar assume o reino, repleto de imagens surreais e dominado por tons avermelhados que conferem uma aura infernal a sequência até que uma jogada inteligente do protagonista coloque as coisas no lugar e garanta o final feliz.

Sensacional fuga da cavernaLindo vooJafar assume o reinoMais leve e engraçado que as tradicionais animações Disney, “Aladdin” é uma boa diversão que se apoia no visual impactante e no carisma de seus personagens para funcionar e, felizmente, faz isto muito bem. Se não tem a genialidade que origina o nome de seu mais carismático personagem, ao menos esbanja o bom humor que tão bem caracteriza o prisioneiro da lâmpada mágica.

Aladdin foto 2Texto publicado em 14 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira