APOCALYPSE NOW (1979)

(Apocalypse Now) 

 

 

Videoteca do Beto #44

Dirigido por Francis Ford Coppola.

Elenco: Marlon Brando, Robert Duvall, Martin Sheen, Frederic Forrest, Albert Hall, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Dennis Hopper, G.D. Spradlin, Harrison Ford, Jerry Ziesmer, Scott Glen e Francis Ford Coppola (Diretor de TV). 

Roteiro: Francis Ford Coppola e John Milius, baseado no romance “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad. 

Produção: Francis Ford Coppola. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não bastasse ter dirigido as obras-primas “O Poderoso Chefão” e “O Poderoso Chefão: Parte II”, o que já garantiu seu nome na história do cinema para sempre, Francis Ford Coppola ainda viria a dirigir e produzir em 1979 “Apocalypse Now”, maravilhoso estudo sobre a ambigüidade do ser humano e os irreparáveis efeitos causados pela guerra em sua mente. Repleto de cenas memoráveis e atuações marcantes, o longa consegue ser mais do que um libelo anti-guerra, explorando a fundo os limites da loucura e do poder, e mostrando ainda como é curta a distância e frágil a linha que separa a racionalidade da irracionalidade dentro do ser humano.

Após voltar do Vietnã, o capitão Benjamin Willard (Martin Sheen) é convocado pelas Forças Especiais do Exército para a secreta missão de encontrar e matar o coronel Walter Kurtz (Marlon Brando) que, segundo as autoridades do exército norte americano, enlouqueceu e passou a agir de maneira absolutamente incompreensível na selva do Camboja. Durante esta viagem o capitão Willard descobrirá, através dos horrores da guerra e de seu efeito alucinatório, que a distância entre o que se julga racional e irracional não é tão grande quanto imaginamos.

Logo no início de “Apocalypse Now” somos apresentados ao clima alucinante do longa, através das imagens de bombardeios na selva ao som da música “The End”, do The Doors. Em seguida, as imagens de um ventilador e de uma hélice de helicóptero se misturam, refletindo o pensamento do capitão Willard, que deseja desesperadamente voltar para a selva por não saber mais conviver em sociedade. Encontrado em meio a uma crise de alcoolismo, onde inclusive se fere ao quebrar um espelho, ele vê no convite das Forças Especiais do Exército (repare a pequena participação de Harrison Ford, que se consagraria um astro dois anos depois) a oportunidade de regressar ao combate, sem saber que ao aceitar o convite, viveria uma experiência que mudaria sua vida para sempre.

Coppola (que faz uma ponta no filme como o diretor de TV) dirige “Apocalypse Now” com extrema elegância, criando planos e seqüências absolutamente inesquecíveis, como o ataque aéreo a uma aldeia vietnamita na beira da praia, ao som de “A Cavalgada das Valquírias”, de Wagner, e a cena em que jatos espalham napalm na selva. Além disso, o diretor consegue criar seqüências incrivelmente realistas durante os combates, fazendo com que o espectador se sinta dentro do conflito e permitindo que ele viaje pelo horror da guerra ao lado de Willard. Observe, por exemplo, os excepcionais planos aéreos durante um ataque dos helicópteros, intercalados com imagens de crianças brincando na aldeia, deixando clara a crueldade daquele ataque, escancarada quando estas pequenas crianças correm pra se esconder. Coppola ainda explora ao máximo as lindas paisagens da região para compor imagens impactantes, como no impressionante ataque dos nativos ao barco do capitão Willard, logo após uma fumaça rosa ser espalhada pelo ar. O diretor também cria momentos de suspense, provocando grande susto na cena do ataque do tigre, que arranca do Chefe (Frederic Forrest) as mais profundas verdades (e arranca também qualquer um da cadeira), e cenas tocantes, como quando Clean (Laurence Fishburne, muito jovem e em boa atuação) morre ao lado do gravador em que ouvia a voz de sua mãe.

O extremo realismo alcançado em “Apocalypse Now” é mérito também da excepcional qualidade do trabalho técnico da equipe. Durante o surfe de um soldado no rio, a fotografia dourada (direção de Vittorio Storaro) reflete a alegria do jovem naquele momento. Por outro lado, nas cenas de combate Storaro adota um tom mais dessaturado, dominado pelo verde musgo, o amarelo e o marrom, refletindo a vida difícil e pouco colorida da guerra. O som é espetacular, captando a hélice dos helicópteros, os tiros, as bombas que explodem e até mesmo os pequenos insetos dentro da mata, e o constante barulho dos helicópteros na primeira metade do longa colaboram para o perfeito clima de guerra, assim como a competente direção de arte de Angelo P. Graham, perceptível nos equipamentos e barcos do exército americano, e os figurinos de Charles E. James. Pra finalizar, a bela trilha sonora do trio Carmine Coppola, Francis Ford Coppola e Mickey Hart adota um tom misterioso, com batidas secas durante a subida do rio, totalmente oposto aos temas da abertura, do ataque à aldeia e do encerramento, embalados pelas clássicas e belas canções do grupo The Doors e pela música clássica de Richard Wagner.

Mas nem só de competência técnica vive um grande filme. E as marcantes atuações de “Apocalypse Now” começam com Robert Duvall, que está sensacional como o Tenente Kilgore, demonstrando firmeza com sua voz imponente e seu olhar determinado, mas demonstrando também liderança na forma como conduz seus soldados. Kilgore parece não temer nada, ou simplesmente achar que não tem mais nada a perder, encontrando tempo até mesmo para incentivar o surfe no meio de um ataque, o que leva o capitão Willard a fazer sérias reflexões sobre a maneira como seu país está encarando aquele conflito. A marcante seqüência em que diz que o cheio do napalm simboliza vitória é captada com precisão pela câmera que se aproxima lentamente de seu rosto através de um zoom, realçando a grande atuação de Duvall. Martin Sheen está muito bem na pele do capitão Willard. Desde a narração convincente (repleta de questionamentos e reflexões), passando pela determinação do personagem em encontrar o coronel Kurtz e chegando ao apoteótico final de sua trajetória, podemos notar a qualidade do trabalho de Sheen. As reflexões de Willard aumentam ao ver os soldados fumando maconha e se embebedando com freqüência, e ele tem certeza de que está tudo errado quando presencia o show das garotas da revista Playboy em pleno Vietnã. (“Os vietcongues não se divertem. Nas horas vagas, comem arroz frito e ratos”). Dennis Hopper está espetacular como o agitado fotógrafo que se tornou um admirador de Kurtz. Sua fala rápida, seu gaguejar e sua respiração ofegante demonstram a ansiedade do personagem, que não consegue parar de falar, tamanha a empolgação que sente ao encontrar o capitão Willard. E finalmente, a lenda Marlon Brando dispensa comentários como o misterioso coronel Kurtz. Completamente devastado pelo horror da guerra, o entorpecido coronel Kurtz é alguém cego pelo poder. A construção de seu mito é lenta e cuidadosamente conduzida pela narrativa, levando Willard (e o espectador) constantemente a questionar quais seriam suas reais motivações. Brando expressa a encarnação do poder que seu personagem representa de forma magnífica, através de seu olhar superior e intimidante. Suas falas, repletas de simbolismos e reflexões, criam seqüências hipnóticas e inesquecíveis. Observe como seu rosto é revelado lentamente, como se estivéssemos cuidadosamente sendo preparados para estar diante de um deus. Até mesmo a forma como Coppola filma o personagem demonstra isto, deixando-o praticamente inacessível, submerso nas sombras e mais parecido com um espírito ou uma divindade (Kurtz muito provavelmente se considerava como tal). É então que, ao se deparar com o mito, as reflexões de Willard começam a ganhar ainda mais forma. Afinal de contas, quem está realmente louco: Kurtz, seus comandantes ou todos eles? A resposta pode estar nas inúmeras frases espalhadas pelo excelente roteiro do próprio Coppola, dentre as quais podemos citar: “Acusar um homem de homicídio neste lugar era a coisa mais absurda que se podia imaginar”, “No coração de todo homem há um conflito entre o racional e o irracional, entre o bem e o mal e nem sempre é o bem que sai vencedor” e “Um dia esta guerra vai acabar. Para os garotos do barco, está bom. Eles não querem nada mais do que encontrar um caminho para casa. O problema é que eu já voltei e sei que aquele lugar não existe mais”.

“Apocalypse Now” é o marco cinematográfico de um efeito importante ocorrido na cultura americana logo após a guerra do Vietnã: a perda da inocência. A guerra do Vietnã deixou claro para os cidadãos norte-americanos que não existia o lado bom e o lado mau da história. O cidadão deixou de ver seu país com ingenuidade e o longa de Coppola representa esta etapa na história do cinema. A seqüência final em que a montagem (crédito para Lisa Fruchtman, Gerald B. Greenberg, Richard Marks, Walter Murch e Randy Thom) coloca imagens do ataque de Willard à Kurtz simultaneamente ao ataque dos nativos a um animal simboliza perfeitamente uma das grandes discussões que o filme propõe: será mesmo o ser humano tão racional? O que nos diferencia dos animais é a capacidade de raciocinar, mas o que estamos fazendo com ela? Nas palavras finais do coronel Kurtz, “o horror” que a guerra proporciona é o exemplo perfeito de que a racionalidade do homem nem sempre vence seus impulsos primitivos e irracionais. O poder e a loucura caminham próximos e podem deixar o homem cego.

Dirigido magistralmente por um gênio do cinema, interpretado de forma magnífica por um elenco de peso e contando ainda com um apurado e maravilhoso trabalho técnico, “Apocalypse Now” transcende e muito o gênero “filme de guerra”, levantando inúmeras questões sobre a natureza cruel do homem, os resultados trágicos de sua busca pelo poder e os efeitos irreversíveis do horror da guerra. E o melhor de tudo é que “Apocalypse Now” jamais responde diretamente as questões que levanta, deixando o espectador refletir sobre tudo o que viu e chegar às suas próprias conclusões, o que é sempre admirável. Após assistir esta obra-prima de Francis Ford Coppola, o espectador tem a sensação de que, independente de seu resultado final, a guerra não tem vencedores.

Texto publicado em 09 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

Novos Trailers

Veja o trailer dos 5 principais candidatos ao OSCAR 2010 clicando aqui.

Veja também trailers / cenas dos filmes com crítica divulgada na Videoteca do Beto até 1979 clicando aqui. Até o final da semana todos os trailers / cenas de filmes com crítica divulgada na Videoteca do Beto estarão disponíveis.

Espero que estejam curtindo a novidade. Em breve tem mais.

Um grande abraço.

Texto publicado em 08 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

Áudio e vídeo

Dando seqüência às novidades do Cinema & Debate em 2010, inauguro hoje a página “Trailers / Cenas”, onde sempre deixarei pelo menos dois vídeos com trailers ou com cenas de filmes que gosto muito. Para conferir, basta clicar no link “Trailers / Cenas” ao lado direito da página principal do blog.

Além dos vídeos, passarei também a incluir links de áudio das trilhas que gosto, como fiz hoje na enquete que divulguei tempos atrás sobre qual é a sua trilha sonora favorita (para ver a enquete, clique aqui).

Espero que gostem das novidades.

Um grande abraço.

Texto publicado em 05 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

BARRY LYNDON (1975)

(Barry Lyndon)

 

Videoteca do Beto #43

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Ryan O’Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee, Hardy Kruger, Steven Berkoff, Leon Vitali, Gay Hamilton, Leonard Rossiter, Marie Kean, Murray Melvin, Frank Middlemass, André Morell, David Morley e Diana Koerner.

Roteiro: Stanley Kubrick, baseado em livro de William Makepeace Thackeray.

Produção: Stanley Kubrick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“Barry Lyndon” é acima de tudo um deleite visual. A recriação perfeita de época nos faz ter a exata sensação de que estamos realmente testemunhando aquele período da história da humanidade. Não bastasse isso, o filme ainda traz um belo estudo de personagem, mostrando em detalhes e sem pressa a trajetória de um simples jovem irlandês que alcança o topo da sociedade inglesa. Novamente o gênio Stanley Kubrick brinda o espectador com uma obra maravilhosa, que retrata como poucas o período em que se passa a narrativa e cria imagens que poderiam tranquilamente ser vendidas como quadros valiosos.

Barry (Ryan O’Neal) é um jovem irlandês aventureiro que é obrigado a deixar seu país após vencer um duelo armado, em pleno século XVIII. Nesta trajetória, passa por diversos obstáculos até alcançar a alta sociedade inglesa e tornar-se, através de um casamento com uma viúva local, um dos nobres da região. Mas seu destino não será feito apenas de glórias.

O visual magnífico de “Barry Lyndon” é resultado de um trabalho técnico impecável, comandado com firmeza por Stanley Kubrick, que utilizou quadros daquele período como inspiração. Os figurinos detalhados e idênticos aos utilizados no século XVIII (mérito de Milena Canonero e Ulla-Britt Söderlund), a detalhada e precisa direção de arte de Roy Walker, que recria desde o interior dos castelos aos pequenos detalhes como a arma utilizada nos duelos, e a fotografia deslumbrante de John Alcott, que explora as lindas paisagens e capta com precisão os ambientes internos iluminados somente à luz de velas (graças a uma lente especial feita para a Nasa) são os responsáveis diretos pelo deslumbrante visual do longa. É claro que os enquadramentos milimétricos de Kubrick e seu habitual perfeccionismo estão diretamente ligados ao esplendor visual que deleita os olhos dos espectadores. Até mesmo o zoom utilizado exaustivamente pelo diretor em “Barry Lyndon” é importante, pois nos entrega lentamente aos belíssimos planos, como se fossem verdadeiros quadros renascentistas. Estas obras de arte em movimento parecem praticamente vivas e precisam ser apreciadas lentamente e o zoom nos permite contemplar cada detalhe, como se estivéssemos realmente vendo uma pintura. Pra completar, a maquiagem retrata exatamente os costumes dos homens e mulheres da época, como podemos notar, por exemplo, durante os jogos de cartas ou nos encontros da alta sociedade inglesa, e a bela trilha sonora de Leonardo Rosenman e The Chieftains utiliza flautas e piano para compor melodias clássicas que nos ambientam ainda mais ao período medieval.

Mas “Barry Lyndon” não vive apenas das belíssimas imagens que possui. O roteiro cheio de estilo do próprio Kubrick (baseado em livro de William Makepeace Thackeray) é ácido – quando na voz do narrador – e repleto de diálogos maravilhosos – quando nas vozes dos personagens. Além disso, mostra com competência como era o jogo de interesses na época para aumentar o nível social e as posses da família, como podemos perceber logo no inicio através do casamento arranjado de Nora (Gay Hamilton) e John Quin (Leonard Rossiter) e, posteriormente, com o casamento de Barry e Lady Lyndon (Marisa Berenson). Outra curiosa característica do roteiro é não fazer questão de surpreender o espectador, revelando detalhes importantes com considerável antecedência através do misterioso narrador, que avisa, por exemplo, a futura morte de Bryan (David Morley) e, desta forma, prepara o espectador para o que virá a acontecer, evitando o melodrama. Observe que até mesmo os capítulos revelam o destino de Barry nas duas vezes em que aparecem. A narração, aliás, é um dos destaques do longa, repleta de frases irônicas e satíricas, como quando o narrador explica que o casal Lyndon passa a viver separado para que a mãe cuide das crianças enquanto Barry se encarrega dos prazeres do mundo. O bom humor também se mostra presente nas criativas formas em que Barry encontra para escapar das diversas situações em que se envolve, como quando acidentalmente se depara com os uniformes de dois líderes homossexuais do exército britânico ou quando se passa pelo Chevalier (Patrick Magee) para fugir de Berlim e do exército da Prússia.

Além do humor refinado, Kubrick também faz em “Barry Lyndon” um minucioso estudo de personagem. A transição de um jovem idealista e correto para um homem interesseiro e grosseiro é extremamente lenta e quase imperceptível, graças ao ritmo empregado à narrativa. Desta forma, mal percebemos que Barry sofre tamanha transformação, até porque o personagem jamais é retratado como uma pessoa boa ou má, como a mensagem final faz questão de reforçar. Mesmo quando se mostra um péssimo marido e um homem violento, especialmente contra seu enteado, Barry também demonstra qualidades que o aproximam do espectador, como o fato de ser um excelente pai. A montagem de Tony Lawson é diretamente responsável por manter este ritmo lento e contemplativo do filme, que apropriadamente permite ao espectador se deliciar com as belíssimas imagens que vê. Nem por isso deixa de conduzir a narrativa por muitos anos sem jamais soar episódica (a não ser pela divisão em capítulos), como podemos notar no salto sutil de oito anos da infância de Lorde Bullingdon (Leon Vitali) para a infância de Bryan Lyndon.

A tensa seqüência da saída de Barry da Irlanda, que inicia quando ele atira vinho em John e termina com o tenso duelo armado, é também o inicio da caminhada do jovem irlandês rumo à alta sociedade inglesa. Nesta trajetória, vamos lutar junto com ele e viver cada aventura ao lado do jovem Barry. Observe como Kubrick nos joga dentro da luta quando ele enfrenta um soldado no exército. A câmera agitada, o som dos socos e o barulho das pessoas em volta criam um clima muito real na cena. Interessante notar também como a acidez já citada é ainda mais perceptível nesta fase da vida de Barry, como quando o narrador diz que as razões da guerra não precisam ser explicadas, a não ser por filósofos ou historiadores. Na realidade, este trecho é uma crítica a insanidade da guerra. (“É bom sonhar com uma guerra gloriosa em uma poltrona em casa. Outra coisa é participar dela.”). E se o espectador se sente dentro da narrativa é também por causa do bom nível das atuações. Ryan O’Neal vive Barry Lyndon com sutileza, mantendo um ar misterioso e compenetrado em sua obsessão por alcançar a alta sociedade. Barry é esperto, jamais deixando de tomar o caminho que lhe seja vantajoso, mesmo que tenha que se rebaixar para isso, como quando aceita ser voluntário no exército da Prússia. O’Neal consegue transmitir emoção também nas cenas dramáticas, como em seu choro emotivo ao perder seu padrinho, e principalmente quando perde o filho Bryan. E os destaques não param por aí. Desde o momento em que a troca de olhares entre Barry e Lady Lyndon indica o interesse da moça, Marisa Berenson mostra sua qualidade como atriz, ampliada posteriormente com o crescente sofrimento que a personagem terá de enfrentar, e alcançando seu ponto alto na perda de Bryan e em sua tentativa de suicídio. No restante do eficiente elenco, destacam-se Leon Vitali como Lorde Bullingdon e Frank Middlemass como Sir Charles Lyndon.

O ataque furioso de Barry Lyndon ao jovem Lorde Bullingdon, captado com precisão por Kubrick, desencadeia todas as desgraças que se abatem sobre a vida dele. O eminente título inglês que conseguiria se perde, assim como a estabilidade da família. Pra piorar as coisas de vez, ao presentear seu amado filho, Barry acaba sofrendo a maior perda de sua vida. A tocante cena da despedida de Bryan inicia a seqüência final onde a vida de Barry Lyndon tomará seu destino trágico e deprimente. O reencontro com Bullingdon só fechará este ciclo cruel na vida do irlandês. E seu final, sozinho, pobre e debilitado, não condiz com a interessante vida que ele teve.

Não contente em criar uma visão assustadora do futuro em “Laranja Mecânica” e em possibilitar inúmeras interpretações para o destino da humanidade em “2001, uma odisséia no Espaço”, Stanley Kubrick decidiu também olhar para o passado e fazer um retrato minucioso e absolutamente deslumbrante do século XVIII neste magnífico “Barry Lyndon”. Repleto de planos capazes de tirar o fôlego de qualquer um, este grande trabalho do genial diretor também brinda o espectador com uma intrigante estória, que acompanha a trajetória de um jovem sonhador até sua completa transformação naquilo que mais odiava. E nem por isso podemos dizer que ele era uma má pessoa, pois era apenas um ser humano, com defeitos e virtudes. Exatamente como o diretor de “Barry Lyndon”, chato, perfeccionista, mas dono de um talento assombroso, capaz de deixar na historia do cinema tantas obras marcantes. E Barry Lyndon é mais uma delas.

Texto publicado em 04 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

O BEBÊ DE ROSEMARY (1968)

(Rosemary’s Baby)

 

Videoteca do Beto #42

Dirigido por Roman Polanski.

Elenco: Mia Farrow, John Cassavetes, Ruth Gordon, Sidney Blackmer, Maurice Evans, Ralph Bellamy, Victoria Vetri, Patsy Kelly, Elisha Cook Jr., Emmaline Henry, Charles Grodin, Hanna Landy, Phil Leeds, Marianne Gordon e Tony Curtis. 

Roteiro: Roman Polanski, baseado em livro de Ira Levin. 

Produção: William Castle e Dona Holloway. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando escrevi sobre “O Iluminado”, clássico do suspense dirigido por Stanley Kubrick, afirmei que a utilização de crianças como elemento chave do suspense é um artifício interessante, já que são teoricamente inofensivas, e por isso, quando envolvidas no suspense aumentam consideravelmente o medo provocado no espectador. Sendo assim, o que dizer então da utilização de um bebê que ainda se encontra no ventre de sua mãe? A aterrorizante busca pela verdade de uma mulher grávida que pensa ter sido vitima de bruxaria é o fio condutor deste excelente “O Bebê de Rosemary”, dirigido pelo ótimo Roman Polanski.

O jovem casal Guy (John Cassavetes) e Rosemary (Mia Farrow) se muda para um prédio antigo e ao chegar lá, se depara com vizinhos estranhos, porém muito receptivos. Algum tempo depois, Rosemary engravida e passa a ter estranhas visões, ao mesmo tempo em que seu marido, de forma suspeita, começa a se envolver cada vez mais com estes vizinhos, despertando dúvidas assustadoras em Rosemary.

Logo no elegante travelling inicial, Roman Polanski nos joga pra dentro do prédio onde toda a ação acontecerá. Em seguida, através das histórias contadas para o casal por Hutch (Maurice Evans) sobre o edifício para o qual eles estão se mudando, o diretor começa a criar o clima ideal para o suspense, aumentando gradualmente a expectativa no espectador. Quando Guy e Rosemary finalmente se mudam para o edifício e conhecem o casal de idosos Minnie Castlevet (Ruth Gordon) e Roman Castlevet (Sidney Blackmer), somos lentamente apresentados a diversos indícios que levantam dúvida sobre a idoneidade dos Castlevet. Muito receptivos, e até mesmo intrometidos, eles se mostram pessoas ao mesmo tempo encantadoras e assustadoras. A conversa sobre religião, logo no primeiro jantar na casa deles, é o primeiro claro sinal que reforçará os pensamentos futuros de Rosemary sobre bruxaria. Muitos outros indícios viriam com o passar do tempo, como o suicídio de Terry (Victoria Vetri), a moça que vivia com os Castlevet e, principalmente, o amuleto que é dado para Rosemary (e que pertencia a Terry), despertando desconfiança pelo mau cheiro e pela misteriosa erva que carrega dentro. Outro claro indicativo acontece quando, logo após conversar com Roman a respeito da dificuldade para conseguir um importante papel numa peça e ouvir “Tenho certeza de que os conseguirá” como resposta, o ator contratado fica cego e Guy é escolhido seu substituto. Finalmente, vale observar também como durante os pesadelos de Rosemary podemos escutar a mesma estranha reza, vinda do apartamento dos Castlevet, que antecedeu a morte de Terry. Seria apenas coincidência? Finalmente, a frase dita por Roman assim que soube da gravidez dela (“1966, o ano um!”) colabora ainda mais para os pensamentos da moça.

E que pensamentos são estes? Ora, Rosemary, na noite em que fica grávida, é assolada por visões no mínimo preocupantes. A composição da perturbadora cena em que o bebê é gerado é perfeita, repleta de imagens distorcidas que lembram um pesadelo. A mistura confusa – com o teto da Capela Sistina (símbolo católico), pessoas conhecidas e outras jamais vistas por Rosemary, um porão escuro com uma lareira que remete ao inferno, uma cama e a imagem da besta – acaba gerando dúvida sobre a realidade ou não destas imagens. Seria um pesadelo ou realmente aconteceu? Coincidentemente, após as conversas entre Guy e Roman, o ator começa a ter sucesso na carreira, ao mesmo momento em que finalmente deseja ter um bebê. A dúvida e a desconfiança começam a perambular pela mente da moça. Mas acertadamente, o excelente roteiro do próprio Polanski (baseado em livro de Ira Levin) não deixa claro se Rosemary realmente passou por tudo aquilo ou se ela está enlouquecendo. Como durante a gravidez é normal que as mulheres fiquem mais sensíveis, esta segunda possibilidade é plausível. Repare que nos momentos cruciais da narrativa – como a própria a noite em que o bebê é gerado – jamais podemos ter certeza se ela está tendo um pesadelo ou se o que vemos é realidade. Até mesmo os pequenos detalhes colaboram para criar esta dúvida, como o fato de Rosemary não comer todo o mousse de chocolate e os arranhões em seu corpo no dia seguinte ao “pesadelo”. Para os adeptos da teoria maligna de Rosemary, até mesmo a cor vermelha da roupa dela naquela noite pode simbolizar a união inconsciente com o demônio, o que revela uma escolha inteligente de Anthea Sylbert, responsável pelos figurinos. A trilha sonora de Christopher Komeda lembra uma canção de ninar, apresentando muitas variações do mesmo tema durante o filme. Já a Direção de Fotografia de William A. Fraker envolve os personagens em ambientes sombrios, além de trabalhar bem no contraste entre os apartamentos de Rosemary (claro e limpo) e dos Castlevet (bagunçado e escuro), revelando também o bom trabalho de Direção de Arte de Joel Schiller. Quando Rosemary e Guy fazem amor pela primeira vez no filme, Fraker mergulha os dois na completa escuridão, talvez refletindo o tortuoso caminho que ela seguiria na próxima vez em que os dois se relacionassem sexualmente.

Explorando muito bem a constante dúvida que o espectador sente ao testemunhar a busca de Rosemary pela verdade, Polanski acerta também na escolha do elenco, fundamental para o sucesso da trama. A atuação de Mia Farrow é muito boa, deixando as dúvidas e receios de Rosemary transparecer em seu semblante. Frágil e desconfiada, sua interpretação colabora com este sentimento ambíguo que o espectador sente durante praticamente todo o longa e sua determinação em defender seu bebê é tocante. As rezas estranhas escutadas através da parede e os quadros retirados quando Rosemary visita os Castlevet aumentam sua desconfiança, reforçada ainda pelo fato de Roman dizer que já viajou o mundo inteiro (“Diga um lugar e direi se já estive lá”), já que um bruxo não pode ficar muito tempo no mesmo local arriscando ser descoberto. O Guy de John Cassavetes é uma pessoa misteriosa. Bem humorado, como notamos quando faz piada sobre plantação de maconha e sobre os espíritos de duas irmãs no apartamento, ele mantém uma boa química com Rosemary no início. Por outro lado, seu fracasso profissional começa a afastá-lo da esposa, e curiosamente, aproximá-lo do casal de idosos, colaborando para a desconfiança de Rosemary. Observe como os dois reagem de maneira fria à gravidez, já refletindo o afastamento do casal. A alegria dela é contida, porém perceptível, ao passo em que Guy, apesar de feliz, não demonstra a empolgação esperada de um pai. Por outro lado, repare como ele corre para contar aos Castlevet assim que sabe da notícia da gravidez, gerando ainda mais desconfiança na garota. Finalmente, o fantástico casal Castlevet é interpretado por Ruth Gordon e Sidney Blackmer, com destaque para a belíssima atuação de Gordon como Minnie Castlevet. Intrometida e falastrona, ela nos deixa constantemente na dúvida sobre suas reais intenções enquanto faz amizade com o casal, fazendo com que o espectador jamais saiba se Minnie realmente é uma bruxa ou se simplesmente gosta deles. Ao mesmo tempo em que é receptiva e calorosa com Guy e Rosemary, a Sra. Castlevet demonstra um suspeito interesse no primeiro bebê da moça, ao dizer repetidas vezes que ela é jovem e com certeza vai ter “muitos” bebês ainda.

A descoberta lenta e tensa dos sinais – novamente, mérito do ótimo roteiro – leva Rosemary a procurar ajuda com outro médico. Porém, o diagnostico dele de que ela está delirando nos devolve a dúvida. E agora? Estaria ela realmente imaginando tudo aquilo ou seria um complô generalizado contra a indefesa garota? A excelente seqüência final em que Rosemary descobre toda a verdade, entrando pelos fundos do armário de sua casa com uma faca na mão, é esplendidamente bem conduzida por Polanski. Lentamente somos apresentados aos detalhes da casa, como os quadros sinistros e o berço negro, que confirmam a teoria de Rosemary. E o grande clímax acontece quando Rosemary finalmente se encontra com o filho, retirado de seus braços antes mesmo que ela pudesse ver seu rosto. O choque é tão grande que ela não consegue conter o espanto – e Mia Farrow dá um show nesta cena. Entretanto, após o susto e as conversas com Guy e Roman, ela volta ao berço e olha para o filho com os olhos encantados de mãe. E a dúvida volta: estaria ela ainda delirando quando entrou no local ou teria se conformado com a realidade? Eu fico com a segunda opção. Ainda assim, vale ressaltar que o longa jamais mostra o bebê de Rosemary, o que permite diversas interpretações diferentes e abre espaço para a imaginação do espectador fluir.

Extremamente bem conduzido, de forma a gerar pensamentos ambíguos em cada espectador, “O Bebê de Rosemary” revela-se um excelente filme de terror que não utiliza cenas violentas como forma de assustar o espectador. Polanski cria uma situação aterrorizante, capaz de causar pânico sem a necessidade de utilizar recursos artificiais como a trilha sonora para isto. É a situação em que os personagens estão envolvidos que causa temor, o que é muito mais interessante. A dúvida gerada em torno dos pensamentos e visões de Rosemary e a ambigüidade de sua atitude final elevam ainda mais a qualidade da obra. Por isso, independente de qual seja sua interpretação final, o espectador ficará satisfeito com o que viu. 

Texto publicado em 03 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

OSCAR 2010 – Lista de Indicados

Dia cheio. Lista de indicados ao OSCAR e estréia da nova (e última) temporada de Lost nos Estados Unidos (no Brasil, somente no próximo dia 09 de Fevereiro, pela AXN). Conforme esperado, “Guerra ao Terror” e “Avatar”, com nove indicações cada, lideram a corrida pelo Oscar, seguidos de perto por “Bastardos Inglórios”, com oito indicações. “Amor sem Escalas” ficou um pouco pra trás, mas ainda sim garantiu seis indicações. Vou procurar assistir pelo menos os dez indicados ao prêmio de Melhor Filme antes da cerimônia e até lá vou divulgar minhas observações e palpites. Até agora, assisti “Guerra ao Terror” e gostei bastante.

Segue a lista completa de indicados ao Oscar 2010:

Melhor filme

Avatar

Um sonho possível

Distrito 9

Educação

Guerra ao terror

Bastardos inglórios

Preciosa                  

Um homem sério

Up – Altas aventuras

Amor sem escalas

Melhor direção
James Cameron, Avatar
Kathryn Bigelow, Guerra ao terror
Quentin Tarantino, Bastardos inglórios
Lee Daniels, Preciosa
Jason Reitman, Amor sem escalas

Melhor ator
Jeff Bridges, Coração louco
George Clooney, Amor sem escalas
Colin Firth, A single man
Morgan Freeman, Invictus
Jeremy Renner, Guerra ao terror

Melhor ator coadjuvante
Matt Damon, Invictus
Woody Harrelson, The messenger
Christopher Plummer, The last station
Stanley Tucci, Um olhar do paraíso
Christoph Waltz, Bastardos inglórios

Melhor atriz
Sandra Bullock, Um sonho possível
Helen Mirren, The last station
Carey Mulligan, Educação
Gabourey Sidibe, Preciosa
Meryl Streep, Julie & Julia

Melhor atriz coadjuvante
Penélope Cruz, Nine
Vera Farmiga, Amor sem escalas
Maggie Gyllenhaal, Coração louco
Anna Kendrick, Amor sem escalas
Mo’Nique, Preciosa

Melhor animação
Coraline
O fantástico Sr. Raposo
A princesa e o sapo
O segredo de Kells
Up – Altas aventuras

Melhor filme estrangeiro
Ajami (Israel)
El secreto de sus ojos (Argentina)
The milk of sorrow (Peru)
Un prophète (França)
A fita branca (Alemanha)

Melhor direção de arte
Avatar
O mundo imaginário do Dr. Parnassus
Nine
Sherlock Holmes
The young Victoria

Melhor fotografia
Avatar
Harry Potter e o enigma do príncipe
Guerra ao terror
Bastardos inglórios
A fita branca

Melhor figurino
Bright star
Coco antes de Chanel
O mundo imaginário do Dr. Parnassus
Nine
The young Victoria

Melhor montagem
Avatar
Distrito 9
Guerra ao terror
Bastardos inglórios
Preciosa

Melhor maquiagem
Il Divo
Star trek
The young Victoria

Melhor trilha sonora
Avatar
O fantástico Sr. Raposo
Guerra ao terror
Sherlock Holmes
Up – Altas aventuras

Melhor canção
Almost there, A princesa e o sapo
Down in New Orleans, A princesa e o sapo
Loin de Paname, Paris 36
Take it all, Nine
The weary kind, Crazy heart

Melhor roteiro original
Guerra ao terror
Bastardos inglórios
The messenger
Um homem sério
Up – Altas aventuras

Melhor roteiro adaptado
Distrito 9
Educação
In the loop
Preciosa
Amor sem escalas

Melhores efeitos visuais
Avatar
Distrito 9
Star trek

Melhor som
Avatar
Guerra ao terror
Bastardos inglórios
Star trek
Transformers: A vingança dos derrotados

Melhor edição de som
Avatar
Guerra ao terror
Bastardos inglórios
Star trek
Up – Altas aventuras

Melhor documentário
Burma VJ
The cove
Food, Inc.
The most dangerous man in America: Daniel Ellsberg and the Pentagon papers
Which way home

Melhor documentário em curta-metragem
China’s unnatural disaster: The tears of Sichuan province
The last campaign of governor Booth Gardner
The last truck: Closing of a GM Plant
Music by Prudence
Rabbit à la Berlin

Melhor curta-metragem
The door
Instead of Abracadabra
Kavi
Miracle fish
The new tenants 

Melhor curta-metragem de animação
French roast
Granny O’Grimm’s Sleeping Beauty
The lady and reaper
Logorama
A matter of loaf and death 

Agora fica a pergunta: Quem será o grande vencedor do Oscar 2010?

Um abraço e bom debate.

Texto publicado em 02 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (1967)

(The Graduate)

 

Videoteca do Beto #41

Dirigido por Mike Nichols.

Elenco: Anne Bancroft, Dustin Hoffman, Katharine Ross, William Daniels, Murray Hamilton, Elizabeth Wilson, Brian Avery, Walter Brooke, Norman Fell, Alice Ghostley e Richard Dreyfuss.

Roteiro: Calder Willingham e Buck Henry, baseado em livro de Charles Webb.

Produção: Mike Nichols e Lawrence Turman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O momento de transição da juventude para a vida adulta é o fio condutor desta deliciosa e importante comédia dirigida por Mike Nichols, que teve papel fundamental na história do cinema na época de seu lançamento ao abordar um tema corajoso para o período. Extremamente bem conduzido por Nichols, “A primeira noite de um homem” ainda foi responsável pelo lançamento de uma dos grandes atores de Hollywood, o talentoso Dustin Hoffman, se estabelecendo como uma comédia de humor refinado, capaz de causar grande empatia com o público em geral.

Após se formar na faculdade, Benjamin Braddock (Dustin Hoffman) retorna para casa, completamente indeciso quanto ao seu futuro. Em meio à festa de recepção, uma amiga de meia-idade de seus pais (Anne Bancroft) pede para que o garoto a leve pra casa, somente para seduzi-lo assim que eles chegam à residência. Os problemas só aumentam quando Benjamin se interessa pela filha dela, a bela Elaine Robinson (Katharine Ross).

Para entender corretamente o papel histórico de “A primeira noite de um homem” é preciso contextualizar seu lançamento. O cinema vivia em 1967 o fim da era dos grandes estúdios. O público ansiava por filmes mais baratos, que retratassem a realidade e focassem em personagens de carne e osso, ao invés dos politicamente corretos seres humanos da era anterior de Hollywood. Ou seja, personagens que tivessem dúvidas, dilemas e que enfrentassem dificuldades, o que causaria a empatia e a identificação com o espectador. E o longa de Mike Nichols atendia perfeitamente este anseio geral. O roteiro inventivo de Calder Willingham e Buck Henry (baseado em livro de Charles Webb) explora muito bem os inúmeros problemas criados pelo envolvimento entre o jovem Benjamin e a Sra. Robinson, provocando diversas situações inusitadas. Aproveita ainda as inúmeras possibilidades que a situação oferece para fazer excelentes piadas, como quando a Sra. Robinson pergunta se Benjamin não se esqueceu de nada e ele responde que gostaria de agradecê-la pelo que está fazendo, somente para ouvir em seguida: “O número do quarto. Eu preciso saber”. Existem muitos outros momentos bem humorados que vale a pena citar, como a cena em que Elaine sugere o Hotel Taft e Benjamin quase bate o carro, seguida pela engraçada seqüência em que os funcionários do Hotel cumprimentam o rapaz (“Olá Sr. Gladstone!”). Além disso, o roteiro aborda um tema comum à maioria dos jovens: a dúvida e o medo que sentimos quando deixamos os estudos para finalmente entrar na vida adulta. Pra completar, a empatia que o filme provoca no público se consolida através da deliciosa trilha sonora de Dave Grusin e Paul Simon, repleta de músicas leves e marcantes, que chegam até mesmo a ter um tom melancólico.

Entre o elenco, vale destacar a maravilhosa atuação de Dustin Hoffman. Na época com trinta anos, mas vivendo um personagem com vinte e um, Hoffman demonstra muito bem o nervosismo e a tensão de Benjamin através da respiração ofegante e do olhar nunca fixo. Repare sua empolgação quando ouve a Sra. Robinson contar que Elaine foi concebida em um Ford (“Um Ford!”). Anne Bancroft também tem uma excelente atuação como a madura e decidida Sra. Robinson. Ciente da inexperiência do rapaz, ela não economiza nos artifícios para seduzi-lo e consegue o que deseja. Vale observar a perfeita composição da personagem, através da sexy voz rouca, dos olhares nada tímidos e dos sensuais movimentos femininos, como as passadas de mão no cabelo. Fechando os destaques principais, Katharine Ross vive Elaine com bastante charme, além de transmitir com competência o dilema vivido pela garota, que ama Benjamin, mas não sabe como lidar com a estranha situação que o relacionamento envolve. Vale citar ainda Murray Hamilton como o inocente Sr. Robinson, que leva muito tempo até perceber o caso existente entre sua esposa e o jovem rapaz, comprometendo (como era de se esperar) a intenção das duas famílias de casar Benjamin e Elaine.

Tecnicamente, “A primeira noite de um homem” também é bastante eficiente. A começar pela direção de fotografia de Robert Surtees, que reflete o estado psicológico de Benjamin, por exemplo, quando está em paz consigo mesmo na piscina, através de um visual colorido e iluminado, onde os raios do sol refletem na água e transmitem uma sensação de tranqüilidade, que era exatamente o que ele sentia no momento. Sam O’Steen, por sua vez, quase rouba a cena com sua espetacular montagem, que cria momentos absolutamente inesquecíveis, como os vários clipes que aparecem durante o longa, além da interessante transição da piscina para o quarto de Hotel onde Benjamin está com a Sra. Robinson, que demonstra a passagem de muitos meses na vida deles (“Nos encontramos há meses e nunca conversamos”). Quando Benjamin vive sua primeira experiência sexual, o belo clipe e a linda trilha sonora simbolizam muito bem este importante momento na vida daquele jovem. Em seguida, o close em seu olhar fixo para a TV confirma: aquele é um momento de extrema satisfação e realização pessoal.

E finalmente chegamos ao grande destaque do longa. A impecável direção de Mike Nichols é perceptível logo nas primeiras cenas, quando o diretor utiliza muitos closes no rosto de Hoffman e dos convidados, demonstrando como o rapaz se sentia intimidado naquele ambiente, sufocado pelas pessoas à sua volta. Na casa dos Robinson, Nichols cria o plano em que Benjamin diz célebre frase “Sra. Robinson, você está tentando me seduzir!”, e a concepção visual da cena é perfeita, com as pernas dela envolvendo o rapaz completamente, como se estivesse arrastando-o para sua armadilha sexual. Mas a criatividade de Nichols não para por aí. Observe a forma criativa com que o diretor nos mostra as sensações de Benjamin quando está com a roupa de mergulhador, até mesmo contando com o som para indicar a respiração dele, claramente embaraçado com a situação. Repare sua inteligência ao compor o plano em que Benjamin conta a verdade para Elaine, onde tudo é indicado através dos olhares, sem a necessidade de dizer qualquer palavra. Em outro momento, quando Benjamin vai até a universidade atrás de Elaine, o zoom out o diminui em cena, demonstrando visualmente sua fraqueza naquele instante, além de indicar o quanto ele estava perdido no meio daquelas pessoas. Novamente o momento é acompanhado de um belo clipe e de uma linda canção. Mais adiante, Nichols reforça sua criatividade no plano em que observamos a angústia de Elaine ao perceber que Benjamin, em segundo plano e do lado de fora do ônibus, corre para alcançá-la. Finalmente, repare como o diretor ilustra sensações e sentimentos através de pequenos detalhes, como no momento em que Benjamin está se barbeando e faz uma pequena pausa com uma pergunta de sua mãe, demonstrando seu desconforto com aquela situação. Esta percepção do diretor se torna ainda mais evidente nos momentos de tristeza de Benjamin, quando o rapaz procura olhar para o aquário, como se fosse um daqueles peixes, triste por estar preso em uma situação sem saída. Curiosamente, nos momentos felizes ele normalmente está relaxado dentro da piscina, como se Benjamin estivesse se adaptando à nova realidade e se conformando com ela.

O final engraçado e alto astral fecha muito bem esta comédia leve que aborda um tema corajoso para a época, onde os filmes não costumavam demonstrar os problemas normalmente enfrentados pelas pessoas. A sensação de bem estar predomina no espectador, que acompanha o drama do jovem garoto e sofre junto com ele até o alegre desfecho da narrativa. Mérito da excelente direção de Nichols, das ótimas atuações do elenco e do belo roteiro. Por tudo isso, adicionado ainda ao contexto histórico e a importância que teve em seu lançamento, “A primeira noite de um homem” se confirma como uma deliciosa comédia, extremamente inteligente e agradavelmente próxima da realidade.

Texto publicado em 31 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

SPARTACUS (1960)

(Spartacus)

 

Videoteca do Beto #40

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Kirk Douglas, Laurence Olivier, Peter Ustinov, Jean Simmons, Charles Laughton, Tony Curtis, John Gavin, Nina Foch, John Ireland, Herbert Lom, John Dall, Charles McGraw, Joanna Barnes, Harold Stone, Woody Strode e Peter Brocco.

Roteiro: Dalton Trumbo, baseado em livro de Howard Fast.

Produção: Edward Lewis.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Extremamente atraente visualmente, o épico de Stanley Kubrick “Spartacus” é também um drama bastante humano sobre a luta de um escravo contra a opressão do imponente império Romano. Mesmo sem a costumeira liberdade artística que conseguiria alguns anos depois, Kubrick consegue realizar um excelente trabalho, construindo seqüências maravilhosas e narrando uma história extremamente cativante com a habitual competência.

Um escravo chamado Spartacus (Kirk Douglas), condenado à morte por morder um guarda, é comprado por um agente de gladiadores e levado para ser treinado como tal. Ao ser colocado na arena para servir de espetáculo para dois casais romanos e ser poupado por seu oponente, Spartacus vê crescer dentro de si a fúria contra o império romano, que explode de vez quando sua amada Varinia (Jean Simmons) é vendida e levada para Roma. Sua revolta rapidamente se transforma numa verdadeira rebelião contra Roma, que tomará proporções épicas e terminará de forma trágica para a maioria dos envolvidos.

Os gladiadores em “Spartacus” eram homens treinados somente para matar. Seus corpos esculpidos eram capazes de impressionar as mulheres romanas, arrancando sorrisos e olhares nada discretos por parte delas. Por outro lado, estes homens intuitivamente não estabeleciam relações de amizade entre si, pois sabiam que um dia poderiam ter que se enfrentar na arena. Exatamente quando descobre esta particularidade, Spartacus acaba mudando o conceito, e o gladiador que o contestou numa conversa sobre o assunto é justamente aquele que não consegue matá-lo na arena, mesmo com o oponente completamente dominado, justamente por causa da pequena conexão criada entre eles. Esta conexão se transforma então num sentimento muito maior, existente entre todos os gladiadores e escravos, quando Spartacus, ao ver sua amada ser vendida e levada para Roma, inicia sua rebelião.

Como podemos perceber, o bom roteiro de Dalton Trumbo (baseado em livro de Howard Fast) é repleto de momentos extremamente marcantes, como a emocionante frase repetida por todos os prisioneiros (“Eu sou Spartacus!”), após a sangrenta batalha entre romanos e escravos. Além disso, é dono de uma coragem ímpar para sua época, como podemos notar no diálogo entre Crassus (Laurence Olivier) e Antoninus (Tony Curtis) sobre ostras e caracóis, claramente contendo um subtexto homossexual (lembre-se, o filme é de 1960). O jogo de interesses pelo poder também é muito bem retratado no longa, reforçando a qualidade do roteiro de Trumbo. Notável também é o resultado alcançado pela direção de fotografia de Russell Metty (supervisionada tão de perto por Kubrick que Metty pediu para não ser creditado), que destaca cores áridas na primeira parte do filme (marrom, amarelo e bege) refletindo o clima quente e seco em que os escravos viviam, e posteriormente, alterna de cores fortes nas belas planícies para o mergulho nas sombras dentro dos ambientes pouco iluminados da época. O bom trabalho de montagem de Robert Lawrence alterna com consistência entre as seqüências de ação (treinamento, guerra), romance (Spartacus e Varinia) e até mesmo as sutilezas políticas nos bastidores do senado romano. Além disso, a montagem cria um grande momento quando os dois líderes (Spartacus e Crassus) estão discursando para os seus seguidores. A perfeita ambientação à época do império romano se consolida através da boa direção de arte de Eric Orbom e dos belos figurinos da dupla Valles e Bill Thomas, tornando aquele universo bastante crível. A bela trilha sonora de Alex North completa o ótimo trabalho técnico, alternando entre momentos leves e sentimentalistas (quando a cena envolve Varinia) e acordes rápidos e fortes (durante o treinamento), alcançando seu ápice durante a batalha final, em tom triunfal.

Mas Spartacus não é apenas um esplendor técnico. As atuações mantém o bom nível do longa, a começar por Kirk Douglas, que encarna Spartacus, o escravo que virou líder da rebelião, com grande vigor. Sua firmeza na condução de milhares de pessoas demonstra seu extinto nato de liderança, e Douglas é competente ao transmitir a firmeza necessária ao personagem. O ator também se mostra competente nos momentos sutis, como quando diz que Antoninus tem grande valor e que ele tem sede de saber (“Um animal aprende a lutar, mas recitar coisas bonitas… Sou livre e não sei ler, quero aprender tudo. Quero saber de onde vem o vento…”). Nas palavras de Varinia, Spartacus era forte o suficiente para ser fraco, demonstrando sentimentos e se mostrando alguém bastante humano, como fica claro quando tem a oportunidade de salvar sua pele e da sua família, mas ao invés disso, manda embora quem fez a oferta, extremamente ofendido pela idéia de deixar os outros escravos para trás. Além disso, o romance entre Spartacus e Varinia só é verossímil devido à excelente química do casal. O interesse de Spartacus por Varinia era verdadeiro (“Eles a machucaram?”), e ela sente isto. A paixão nasce quando ele a trata como uma pessoa, uma mulher de verdade, e não uma escrava sexual que está ali para servi-lo. Esta paixão será o estopim da revolta de Spartacus, que iniciará sua luta contra Roma no momento em que ver Varinia deixar os portões da cidade. Jean Simmons é a parceira ideal para Douglas, vivendo Varinia com sensualidade e sensibilidade. Seus grandes momentos acontecem justamente quando contracena com o escravo, criando empatia com o espectador, como em seu reencontro com Spartacus após ser levada para Roma, o momento em que conta que está grávida e a triste despedida do casal.

Completando o elenco, Charles McGraw é bem firme como Marcellus, o ex-gladiador que agora é treinador (“Teria o visual de Maximus, de Gladiador, sido inspirado nele?”). Peter Ustinov também está muito bem como o esperto agente de escravos Lentulus Batiatus. Repare como ao pressentir que o local estava em ebulição, ele foge sem pestanejar, largando tudo para trás, momentos antes da rebelião se consumar. Charles Laughton tem uma grande atuação como o senador Gracchus, que faz questão de deixar bem claro qual é o único meio de se manter vivo no sujo universo do senado romano (“Em Roma, a dignidade encurta a vida mais que a doença”). E finalmente, Laurence Olivier cria um Marcus Crassus absolutamente temível, alternando repentinamente seu senso de humor, por exemplo, quando está com Varinia. Sua crueldade fica evidente quando finalmente chega ao poder. Sua sede não era apenas por capturar Spartacus, ele queria “matar a lenda”. Mas suas atitudes tiveram um efeito contrário. Interessante notar como o cruel Crassus se rende ao poder de sedução da mulher quando vê Varinia, levando-a para viver com ele. Por mais cruel que seja, um homem jamais resiste aos encantos femininos.

E finalmente, não podemos deixar de destacar o homem responsável por este grande épico. Stanley Kubrick dirige “Spartacus” com a firmeza costumeira, trabalhando nos pequenos detalhes para criar cenas absolutamente inesquecíveis. Repare, por exemplo, o plano deslumbrante da caminhada dos escravos, já livres, filmado de cima de um monte, ou o curioso ponto de vista de Spartacus enquanto aguarda ansioso para lutar na arena, olhando pela fresta da madeira. Kubrick ainda comanda duas seqüências absolutamente sensacionais. A primeira delas é a rebelião dos gladiadores e a conseqüente fuga do local onde eram treinados, filmada com muito vigor e realismo. Ainda mais impressionante é a espetacular seqüência da batalha final, com movimentos orquestrados de mais de oito mil figurantes, movimentos de câmera extremamente ágeis e um ritmo alucinante completamente coerente com o momento, tornando a cena bastante realista. Um exemplo de grande direção. Destaca-se nesta seqüência o excelente trabalho de som que trabalha em pequenos detalhes, como o barulho das espadas, e em grande escala, através dos gritos da multidão.

A bela e triste cena final emociona, quando Spartacus, à beira da morte, conhece seu filho, que viverá livre como ele sonhou. O triste desfecho resume bem o fio condutor da trama. A luta de um homem para conseguir ser livre, viver normalmente e ter uma família. E exatamente por retratar esta batalha focando o drama de um homem só que “Spartacus” se torna bastante humano. O espectador se identifica com o drama que vê na tela, o que não aconteceria se apenas acompanhasse milhares de homens lutando em campo aberto, sem saber as motivações de cada um. As razões do conflito ficam claras e o espectador sabe o que está em jogo.

“Spartacus” não é o grande trabalho da vida de Stanley Kubrick, que faria depois pelo menos duas obras-primas da história do cinema. Mas nem por isso deixa de ser um grande filme, lindamente fotografado, com uma estória apaixonante e envolvente e, pra variar, extremamente bem dirigido. Contando ainda com excelentes atuações, o longa garante a diversão e prova que as grandes produções podem sim oferecer bom entretenimento, sem ofender a inteligência do espectador.

Texto publicado em 29 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

BEN-HUR (1959)

(Ben-Hur)

 

Videoteca do Beto #39

Vencedores do Oscar #1959

Dirigido por William Wyler.

Elenco: Charlton Heston, Jack Hawkins, Haya Harareet, Stephen Boyd, Hugh Griffith, Martha Scott, Cathy O’Donnell, Sam Jaffe, Finlay Currie, Frank Thring, Terence Longdon, George Relph e André Morell.

Roteiro: Karl Tunberg, baseado em livro de Lew Wallace.

Produção: Sam Zimbalist.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Grandiosidade. Esta é a palavra que resume os números megalomaníacos do épico “Ben-Hur”, superprodução dirigida por William Wyler e estrelada por Charlton Heston, que utilizou milhares de figurantes em aproximadamente trezentas locações, felizmente, para contar uma bela estória de forma bastante competente. Com cores vivas e um visual deslumbrante, o longa narra a trajetória de um jovem judaico que vive uma verdadeira odisséia na Judéia dominada por romanos nos tempos de Jesus Cristo – que, aliás, cruza seu caminho em momentos cruciais de sua vida.

O ano é 26 d.C., a cidade é Jerusalém. Lá vive Judah Ben-Hur (Charlton Heston), um rico mercador judeu que reencontra, após muitos anos, seu amigo de infância Messala (Stephen Boyd), agora retornando ao local como o chefe das legiões romanas que comandam a cidade. Após divergirem em questões políticas, nasce um ódio recíproco e Messala condena o judeu a viver como escravo em um navio romano de guerra, mesmo sabendo da inocência do amigo. Muitos anos depois, após sobreviver milagrosamente ao período de escravidão, Ben-Hur voltará para buscar sua vingança, de uma forma que somente o destino poderia lhe proporcionar.

O visual deslumbrante de “Ben-Hur” é resultado de um trabalho técnico em conjunto da mais alta qualidade. A começar pela perfeccionista Direção de Arte da dupla Edward C. Carfagno e William A. Horning, que trabalha detalhadamente em cada uma das muitas locações que o longa utiliza, conferindo bastante realismo e ambientando perfeitamente o espectador à trama. Colaboram também os belíssimos figurinos de Elizabeth Haffenden, que têm ainda função narrativa, por exemplo, durante a corrida de bigas (ou quadrigas, já que eram puxadas por quatro cavalos). Observe como o cavalo de Judah é branco e sua roupa é azul ao passo que Messala utiliza cavalos negros e roupas pretas, claramente simbolizando o lado bom e o lado mau da disputa. Além disso, a biga grega utilizada por Messala reforça ainda mais sua crueldade junto ao espectador. Já a direção de fotografia de Robert Surtees aproveita ao máximo a beleza da região para criar um esplendor visual repleto de cores vivas e intensas. Como podemos perceber na cena crucial para o destino de Judah, o som também é importante, avisando que a telha está solta momentos antes dela cair em cima dos romanos e selar seu destino. Finalmente, a marcante trilha sonora pontua diversos momentos do longa de forma magnífica e é mérito de Miklós Rózca.

Ainda na parte técnica, note como a narrativa dá alguns saltos longos na estória de forma sutil e elegante, graças à boa montagem de John D. Dunning e Ralph E. Winters. Repare, por exemplo, como logo após ser preso, Ben-Hur é questionado por Arrius sobre há quanto tempo ele é um escravo remador. A resposta (três anos) indica a passagem do tempo (no filme passaram-se apenas alguns minutos). Em outro momento, logo após chegar a Roma, Arrius diz que Ben-Hur é o melhor corredor de bigas que ele tem, com cinco vitórias em cinco anos. Por outro lado, a montagem estende demais o terceiro ato. Após o grande clímax (a vitória de Judah contra Messala) o longa leva muito tempo para resolver o conflito derradeiro (a lepra da família Hur). Felizmente, esta resolução acontece de forma arrebatadora, o que ameniza o problema. A narrativa também cruza de forma interessante com diversos acontecimentos bíblicos, utilizando a história de Jesus (o filme inicia com o nascimento dele e termina com sua crucificação) como pano de fundo para contar a estória de vingança de Judah Ben-Hur. Observe como o inteligente roteiro de Karl Tunberg (baseado em livro de Lew Wallace) insere na narrativa diversas cenas que servem para nos situar cronologicamente na estória, como a chegada de José e Maria à Judéia, o sermão de Jesus no monte, a escolha de Pilatos para comandar a região e, finalmente, a crucificação. Num destes momentos, aliás, acontece o tocante primeiro encontro entre Judah e Jesus. Repare como o rosto de Jesus não é mostrado (algo que se repetiria durante toda a narrativa), já que ele, neste caso, é apenas um coadjuvante na estória. Por outro lado, este homem tem profundo impacto na vida de Judah, como o segundo e ainda mais marcante encontro entre eles mostrará. O roteiro escapa ainda do maniqueísmo ao retratar Arrius como um romano bom, evitando assim o pensamento generalista de que todos romanos são pessoas cruéis e sem coração.

E se os dois encontros entre Ben-Hur e Jesus são emocionantes, é porque as atuações são igualmente convincentes. Charlton Heston tem uma atuação bastante enérgica, explorando muito bem sua força física, mas obtendo sucesso também nos momentos dramáticos, como quando revê a mãe e a irmã assoladas pela lepra, e posteriormente, quando as vê curadas, além dos citados encontros com Jesus Cristo. Jack Hawkins cria um Quintus Arrius incrivelmente ambíguo, capaz de enxergar entre os escravos alguém com potencial para suprir a falta que sentia de seu filho, preenchendo este vazio em sua vida. Stephen Boyd mantém o bom nível das atuações como o cruel Messala. Inicialmente amistoso e até mesmo demonstrando sentimentos por Ben-Hur, sua paixão se transforma em ódio de forma proporcional, o que faz dele um inimigo temível. O primeiro diálogo entre os amigos sugere a existência de um romance, que fica ainda mais evidente quando entrelaçam os braços para tomar vinho. Ele não mede esforços para vingar-se de Judah e não perdoa até mesmo a família Hur na primeira chance que tem de prendê-los. Completando o elenco, Hugh Griffith merece destaque como o Xeique Ilderim, que cuida dos cavalos como se fossem suas esposas e garante momentos de bom humor, como quando aposta com Messala que vencerá a corrida.

William Wyler conduz a narrativa com extrema competência, criando seqüências absolutamente inesquecíveis. A batalha naval que culmina com a fuga de Ben-Hur é sensacional. Extremamente realista, flui em um ritmo alucinante, que é mérito também da excelente montagem, e nos brinda com imagens marcantes, como a das centenas de escravos remando e a invasão dos inimigos romanos no navio. Já a incrivelmente bem orquestrada cena da corrida de bigas é o ponto alto do filme, prendendo o espectador de forma única e criando uma série de imagens absolutamente incríveis. Toda a cena é visualmente perfeita, repleta de planos magníficos e carregada de adrenalina. É impossível não se envolver na competição e torcer pelo sucesso de Ben-Hur e a forma como Wyler conduz a corrida é responsável por isso. O diretor alterna entre planos distantes que mostram a grandiosidade do local, com arquibancadas lotadas e a enorme pista de corrida, e planos inacreditavelmente realistas, muito próximos dos cavalos e dos competidores, praticamente nos jogando dentro da arena e nos fazendo sentir a emoção da corrida. Apesar de aparecer apenas por alguns instantes durante a chegada de Judah, a cidade de Roma apresentada em “Ben-Hur” também é incrivelmente imponente e grandiosa, refletindo o poder daquele império na época. Finalmente, Wyler conduz muito bem os momentos mais importantes dramaticamente, como o reencontro entre Ben-Hur e Messala, quando Judah entra no palácio dizendo “Você está errado Messala!” com o rosto encoberto nas sombras e os dois reencontros opostos entre Ben-Hur e sua família (o primeiro carregado de tristeza e de dor, e o segundo repleto de alegria).

A mensagem de paz e amor de Jesus toca o coração de Judah, que finalmente se convence que a violência só gera mais violência. A forma como Jesus reagiu a toda a dor que sofreu causou grande impacto em Ben–Hur e o interessante final, com o sangue dele sendo lavado pela água da chuva, seguido pelo plano que encerra o longa, com um pastor liderando as ovelhas (que claramente simboliza Jesus Cristo), deixa clara a ligação entre a fé no cristianismo e a cura das doenças da família Hur. A vingança não resultou em redenção para o jovem Judah Ben-Hur, que só encontrou realmente a paz quando olhou na face de um homem infinitamente mais bondoso que ele próprio.

Utilizando a história mais famosa de todos os tempos como pano de fundo, “Ben-Hur” brinda o espectador com um espetáculo visual de enorme escala para narrar a vida do jovem que volta à sua terra natal em busca de vingança, e acaba encontrando a verdadeira paz interior. Dirigido magistralmente por William Wyler e contando ainda com ótimas atuações, prova definitivamente que as superproduções podem ter enorme valor, desde que utilizem seus recursos para contar belas histórias.

Texto publicado em 27 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

CREPÚSCULO DOS DEUSES (1950)

(Sunset Boulevard)

 

Videoteca do Beto #38

Dirigido por Billy Wilder.

Elenco: William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Nancy Olson, Fred Clark, Lloyd Gough, Jack Webb, Franklyn Farnum, Larry J. Blake, Chales Dayton, Cecil B. DeMille, Buster Keaton, H.B. Warner e Ray Evans.

Roteiro: Charles Brackett, D.M. Marshman Jr. e Billy Wilder.

Produção: Charles Brackett.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Os bastidores de Hollywood são escancarados diante do público nesta maravilhosa produção dirigida por Billy Wilder, que mistura com competência ficção e realidade. Os jogos de interesses, a forma como as estrelas que a própria Hollywood produz são abandonadas e esquecidas e o impacto que este abandono provoca nestas pessoas são retratados de forma singular em “Crepúsculo dos Deuses”. O longa mostra também como neste meio as pessoas podem se sujeitar a qualquer coisa em troca de sucesso, fama ou apenas uma vida confortável.

Joe Gillis (William Holden) é um roteirista praticamente falido que foge de credores que tentam recuperar seu veículo por falta de pagamento. Acidentalmente, acaba se refugiando numa decadente mansão, cuja proprietária chamava-se Norma Desmond (Gloria Swanson), uma estrela do cinema mudo há tempos longe da fama. Ao saber que Gillis é roteirista, Norma contrata-o para revisar o roteiro que ela escreveu, acreditando ser esta a oportunidade de devolvê-la ao estrelato. Diante desta chance dada pelo destino, Gillis decide aceitar a proposta, e passa a descobrir através de conversas com o mordomo Max (Erich von Stroheim) as razões para que Norma ainda se considere uma estrela, ao mesmo tempo em que desenvolve um carinho especial pela também candidata a roteirista Betty Schaefer (Nancy Olson).

“Crepúsculo dos Deuses” revela seu final logo na primeira cena, através de uma intrigante narração póstuma – descobriremos ser a voz de Gillis somente no terceiro ato – que mantém um tom de ironia e sarcasmo (“Pobre coitado! Sempre quis ter uma piscina”), numa seqüência que nos levará até o corpo de um homem morto numa piscina. Esta tomada, aliás, é um dos raros planos estilísticos de Wilder, que procura priorizar a condução firme da narrativa e sempre valorizou mais o roteiro que o aspecto visual em seus filmes. Em todo caso, neste plano Wilder tem o cuidado de não mostrar detalhadamente o rosto do jovem morto na água. Enquanto buscamos entender as razões daquele assassinato, a excelente montagem de Doane Harrison e Arthur P. Schmidt mantém o bom ritmo da narrativa, dividindo claramente os acontecimentos em três etapas. Primeiro observamos a busca de Gillis pelos dólares que precisa para saldar as dívidas. Depois, acompanhamos seu envolvimento com Norma (e a fortuna que ela trazia). E finalmente, seremos cúmplices de sua tentativa frustrada de largar aquela vida. Portanto, Gillis é o personagem central da narrativa e servirá de fio condutor para que Wilder explore ao máximo os bastidores da indústria de Hollywood, ao mesmo tempo em que estuda a fundo os efeitos do esquecimento e do distanciamento da fama na mente de uma estrela abandonada. Priorizar o roteiro, no entanto, não significa descuidar completamente do visual. A excepcional Direção de Arte de Hans Dreier e John Meehan capricha em cada detalhe, como é notável no interior da enorme e envelhecida mansão de Norma, e a fotografia escura (Direção de John F. Steinz) utiliza na maior parte do tempo ambientes fechados e cenas noturnas, refletindo o clima sombrio em que as ações se passam.

O momento de parar a carreira e deixar pra trás todo o glamour e fortuna que trazem é provavelmente o mais complicado na vida de qualquer artista. Olhando por outra perspectiva, é comparável ao momento em que jogadores de futebol, por exemplo, deixam os holofotes e penduram as chuteiras. Salvo raras exceções, deixar a atenção da mídia e o carinho do público pra trás é sempre doloroso para quem viveu a maior parte da vida lado a lado com o sucesso. No meio do cinema, ainda existe a possibilidade de continuar trabalhando, mesmo sem o glamour de outrora, até o fim de seus dias. Mas nem sempre foi assim. Na época da transição do cinema mudo para o cinema falado, muitos atores e atrizes perderam o emprego e deixaram, repentinamente, os holofotes da fama. Este era o caso de Norma Desmond. E conviver com a solidão imposta pela aposentadoria, enclausurada dentro de sua enorme mansão, não foi a melhor escolha para ela. Norma enlouqueceu, jamais aceitando a realidade, até por culpa de seu mordomo (e ex-marido, que também era diretor e a revelou para o mundo), que escrevia cartas e entregava pra Norma, como se fossem de seus fãs.

A grande atuação de Gloria Swanson como Norma Desmond tem uma explicação bastante especial (além do talento da atriz, é claro), já que ela própria era uma atriz inativa há vinte anos, que viveu seus dias de glória, assim como a personagem, nos tempos do cinema mudo. Até mesmo o filme que é exibido em sua mansão é verdadeiro (“Queen Kelly”, de 1929), e curiosamente, dirigido por Erich Von Stroheim, que em “Crepúsculo dos Deuses” interpreta (muito bem por sinal) o mordomo Max, também um diretor já aposentado. Exibir “Queen Kelly”, aliás, é bastante simbólico, pois este filme foi praticamente o responsável pelo fim da carreira de ambos. Convencida, direta, freqüentemente com olhar superior e rangendo os dentes, Norma é o retrato da auto-idolatria. Esta aparente autoconfiança, no entanto, escondia a enorme depressão que sentia por ter deixado os dias de glórias no passado e chegado ao fim de sua carreira (“Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos”). Seus gritos e maneirismos exagerados eram apenas uma forma de esconder a tristeza e melancolia que a afligia por ter sido esquecida pelo público, imprensa e pela própria Hollywood. Por isso, a grande cena do retorno de Norma aos estúdios da Paramount é ao mesmo tempo cômica e tocante. Ela se sente novamente uma estrela, mesmo que por apenas alguns segundos, antes de voltar à realidade novamente. Mas Norma nunca aceitou a realidade totalmente, preferindo viver a fantasia criada por seu mordomo, e até mesmo em seu último ato antes de ser presa, interpreta diante das tão sonhadas câmeras a personagem que sonhava viver em sua volta ao cinema (“Sr. DeMille, estou pronta para o meu close”).

William Holden está confortavelmente bem como Joe Gillis, o roteirista desconhecido (“As platéias não pensam em quem escreve o filme. Pensam que os atores fazem o que dá na cabeça”) que encontra em Norma a chance de ter a fortuna que sonhava. “Os melhores roteiros foram escritos de barriga vazia”, diz seu agente durante a perseguição de Gillis aos dólares que tanto necessitava para manter seu carro. Desesperado, ele aceitaria qualquer coisa, e acaba caindo nos braços de Norma. Irônico em diversos momentos (“Ela leu o roteiro?”, pergunta ao ouvir Norma falar sobre uma astróloga e horóscopos), Gillis sabia que aquela era a chance que tinha de conviver com o luxo e a vida confortável que Hollywood prometia e por isso, aceitou viver aquela mentira. Mas até o momento em que faz esta revelação à Betty Schaefer (“Fiz um contrato de longo prazo”), interpretada com muito charme por Nancy Olson, não sabemos exatamente quais eram seus pensamentos e sentimentos, especialmente por causa do pequeno romance que vive com a garota. Esta ambigüidade dos personagens, também presente em Schaefer – que apaixonada por Gillis, desiste por um instante de se casar com o amado noivo Artie Green (Jack Webb) – é um dos vários pontos positivos do excelente roteiro de Charles Brackett, D.M. Marshman Jr. e Billy Wilder, que espalha por toda a narrativa uma série de frases marcantes (muitas já citadas ao longo desta crítica), além de abusar da metalingüística. A ambigüidade de Gillis exibe outra face quando após dispensar Betty, ele volta somente para fazer as malas e largar tudo àquilo que acabou de dizer ser a razão de sua estadia na mansão. Completando o elenco, o diretor Cecil B. DeMille (“Os Dez Mandamentos”) interpreta a si próprio e seu reencontro com Norma é extremamente simbólico, já que assim como no longa, DeMille e Swanson haviam trabalhado juntos nos tempos de glória da atriz na vida real e aquela era realmente a volta dela aos estúdios da Paramount. Em outra cena, Norma joga cartas com três atores aposentados do cinema mudo, chamados de “bonecos de cera” por Gillis. Os três (Buster Keaton, H.B. Warner e Ray Evans) também eram atores verdadeiros realmente aposentados e que interpretam a si próprios.

Como podemos notar, “Crepúsculo dos Deuses” exerce a metalingüística com extrema competência para criticar com acidez o mundo dos sonhos de Hollywood, mostrando sem pudor o que significou para a capital do cinema mundial aposentar suas estrelas do cinema mudo. Conduzido por um roteiro extremamente consistente e corajoso que ele próprio ajudou a escrever, Billy Wilder entrega ao espectador uma obra sombria, com gosto amargo, que desde os primeiros minutos demonstra sua enorme qualidade, e em seu trágico e melancólico final confirma a expectativa, se firmando como uma obra de primeira grandeza.

Texto publicado em 25 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira