ESCOLA DE ROCK (2003)

(School of Rock)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #112

Dirigido por Richard Linklater.

Elenco: Jack Black, Joan Cusack, Joey Gaydos Jr., Robert Tsai, Angelo Massagli, Kevin Clark, Maryam Hassan, Caitlin Hale, Cole Hawkins, Brian Falduto, Mike White, Adam Pascal, Lucas Papaelias, Chris Stack, Sarah Silverman, Lucas Babin, Jordan-Claire Green e Miranda Cosgrove.

Roteiro: Mike White.

Produção: Scott Rudin.

Escola de Rock[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Se para muita gente o rock n’ roll é sinônimo de diversão, “Escola de Rock” é certamente um dos filmes que conseguem captar esta essência com precisão, transmitindo para a plateia a energia de um verdadeiro show de rock através de sua narrativa ágil e de seus personagens extremamente carismáticos. Encabeçado pelo ótimo Jack Black, o longa dirigido pelo talentoso Richard Linklater é tão leve e despretensioso que nem parece que possui tantas qualidades, mas ao examiná-lo com paciência o espectador notará que sua aura envolvente é fruto do trabalho árduo de pessoas muito competentes.

Escrito especialmente para Jack Black por seu amigo Mike White, “Escola do Rock” começa quando Dewey Finn (Black) é expulso de sua banda devido ao seu comportamento polêmico e acaba sendo obrigado a procurar outro emprego. Assim, quando uma escola telefona procurando seu amigo Ned Schneebly (Mike White) no apartamento em que eles vivem junto com a namorada de Ned chamada Patty (Sarah Silverman), ele não hesita em aceitar o emprego no lugar dele, assumindo as aulas de uma rígida escola de ensino fundamental como professor substituto.

Diretor eficiente, Richard Linklater nos insere na atmosfera de “Escola de Rock” já durante a criativa apresentação dos créditos iniciais, quando um plano-sequência acompanhado pela música agitada ao fundo nos leva até o palco onde o personagem de Jack Black se apresenta sem sucesso. Empregando seus costumeiros elegantes movimentos de câmera, o diretor prende nossa atenção através de uma narrativa ágil que praticamente não nos permite notar o tempo passar, o que é mérito também do ritmo perfeito empregado pela montadora Sandra Adair, que mantém o foco nas divertidas aulas do professor, deixando as pequenas subtramas envolvendo a diretora da escola e os amigos de Dewey em segundo plano, além é claro de construir transições muito interessantes como quando saímos de Dewey caído no palco para ele deitado na cama logo no início.

Neste instante, muitas informações a respeito do personagem são passadas somente através do visual, com seu quarto repleto de LPs e CDs de rock, além dos pôsteres e faixas de bandas como “Black Sabbath” e “The Who” que surgem espalhados pelo apartamento (design de produção de Jeremy Conway). Observe ainda como as fortes cores que predominam no apartamento como preto, marrom e vermelho contrastam com a clara sala de aula, na qual predomina o branco e onde a luz consegue preencher o aconchegante ambiente com muito mais facilidade, o que obviamente é mérito do diretor de fotografia Rogier Stoffers. E finalmente, os uniformes sóbrios dos alunos em tons de azul e branco e as roupas engraçadas do protagonista criam um contraste evidente que, não à toa, só deixará de existir no ato final, quando o professor finalmente surgirá no palco vestido como eles (figurinos de Karen Patch).

Créditos iniciaisQuarto deleUniformes sóbriosRepleta de clássicos do rock que vão de AC/DC à Black Sabbath, a trilha sonora de Craig Wedren só poderia ser mesmo empolgante, incluindo ainda excelentes sacadas como a escolha da música “Substitute”, do “The Who”. Os fãs de rock vão vibrar também com as menções a gênios como Jimi Hendrix e Neil Peart nas lições de casa aplicadas pelo professor, que, além de engraçadas, são muito apropriadas para cada instrumentista.

Professor Dewey que é interpretado por um Jack Black solto e divertido, que se mostra muito a vontade num papel feito sob medida pra ele. Afinal, suas expressões marcantes e exageradas caem muito bem na pele do roqueiro improvisado como professor, responsável por muitos dos momentos hilários do longa, como quando ele aponta três dedos para Theo (Adam Pascal) e manda ele ler nas entrelinhas ou na empolgante primeira vez em que ele toca na sala de aula com os alunos e arranca os primeiros riffs de Zack (Joey Gaydos Jr.). No entanto, o engraçado Dewey demonstra também uma surpreendente capacidade de liderança ao dividir as tarefas entre os alunos, colocando cada um na função correta (e ajustando aqueles que se oferecem para outras áreas), num exemplo perfeito de motivação que orgulharia muitos palestrantes por aí. E o que dizer do ótimo momento em que Dewey hesita antes de cantar sua própria canção para os alunos, numa demonstração de falta de confiança graciosa e divertida?

Encarnando a diretora durona da escola, Joan Cusack tem ótimos momentos, como quando toma cerveja toda desajeitada num bar e em seguida curte a música que adora ao lado de Dewey ou quando desabafa no carro sobre o quanto a pressão do cargo mudou seu jeito de ser, além do engraçado instante em que ela revela aos pais que seus filhos sumiram – e graças a sua expressão realçada pelo close de Linklater, nós praticamente sentimos o desespero dela quando é pressionada pelos pais na escola. Por sua vez, o verdadeiro Ned Schneebly interpretado pelo roteirista Mike White é inerte, alguém totalmente passivo diante das ações de Dewey e da detestável namorada dele Patty, vivida por Sarah Silverman.

Ainda que quase todo o elenco adulto se saia bem, inegavelmente o grande mérito de Linklater está na direção do elenco mirim, que dá um verdadeiro show coletivo de talento e carisma através de personagens adoráveis como o tímido Zack vivido por Joey Gaydos Jr., os complexados Lawrence de Robert Tsai (“Não sou maneiro”, diz) e Tomika de Maryam Hassan (“Eles vão rir de mim porque sou gorda”), o descolado Freddy interpretado por Kevin Clark e que muda seu penteado para o estilo punk rock, além das adoráveis Marta (Caitlin Hale) e Michelle (Jordan-Claire Green), do inteligente Leonard (Cole Hawkins) e da determinada Summer (Miranda Cosgrove). No entanto, o grande destaque das atuações mirins fica mesmo para Brian Falduto, que cria um afeminado Billy com tanta perfeição e graça que fica impossível não rir em quase todas as vezes que ele aparece.

Expressões marcantesCurte a músicaElenco mirimCriando um pequeno conflito que serve para desmascarar Dewey e deixar a plateia aflita, o roteiro parte para a resolução do problema no empolgante clímax, quando os pais se apressam para chegar ao local do show e acompanham a sensacional apresentação dos filhos, captada com perfeição por Linklater. Com o auxilio de seu montador, ele transita num ritmo perfeito entre os vários integrantes da banda e a vibração da plateia, compondo uma apresentação belíssima e vibrante, fechando a ótima sequência com a polêmica votação e o público emocionado pedindo BIS. O final metalinguístico já na escola de rock oficial com Dewey falando diretamente com a plateia apenas fecha com chave de ouro este filme delicioso e empolgante.

Captando a essência do rock sob o filtro do olhar inocente das crianças, Richard Linklater realizou um filme memorável, que conta também com a estupenda atuação de Jack Black e do elenco infantil para se tornar ainda melhor. E assim como os pais dos alunos e a diretora da escola, você não precisa necessariamente ser roqueiro para se encantar com o desempenho deles.

Escola de Rock foto 2Texto publicado em 14 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

QUASE FAMOSOS (2000)

(Almost Famous)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #111

Dirigido por Cameron Crowe.

Elenco: Patrick Fugit, Billy Crudup, Frances McDormand, Kate Hudson, Philip Seymour Hoffman, Jason Lee, Zooey Deschanel, Michael Angarano, Anna Paquin, Fairuza Balk, Noah Taylor, John Fedevich, Jimmy Fallon e Rainn Wilson.

Roteiro: Cameron Crowe.

Produção: Ian Bryce e Cameron Crowe.

Quase Famosos[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Precocemente convidado para escrever numa das revistas mais conceituadas do universo do rock, Cameron Crowe não demorou a estrear também no cinema, primeiro como roteirista do ótimo “Picardias Estudantis” e depois realizando entre outros filmes o bom “Jerry Maguire”. No entanto, seu grande momento atrás das câmeras foi mesmo em “Quase Famosos”, uma espécie de autobiografia nada disfarçada que narra de maneira apaixonada suas experiências nos bastidores do rock nos tempos de revista Rolling Stone.

Obviamente escrito pelo próprio Crowe, o roteiro de “Quase Famosos” narra a trajetória de William Miller (Patrick Fugit), um jovem de apenas 15 anos que é contratado pela revista Rolling Stone para escrever sobre a turnê da promissora banda Stillwater, mas, para o desespero de sua mãe (Frances McDormand), acaba envolvendo-se não apenas com os integrantes da banda, mas também com um universo de sexo, drogas e garotas ousadas, dentre as quais se destaca a bela Penny Lane (Kate Hudson).

Em certo momento de “Quase Famosos”, um personagem diz que “ser fã é amar tanto uma banda que chega a doer”, naquela que talvez seja a frase que, dentre os inúmeros bons diálogos do roteiro, melhor capte o espírito nostálgico do longa. Inspirado na própria trajetória que levou Crowe a ser precocemente contratado como crítico da famosa revista Rolling Stone e aproximar-se de bandas mitológicas como o Led Zeppelin (a favorita de Crowe), a narrativa comandada pelo diretor exala criatividade desde a apresentação dos créditos iniciais e demonstra não apenas sua paixão pela música, mas também por todo o universo que a cerca. E ainda que espalhe momentos cômicos por toda a narrativa, a abordagem de Crowe é na maior parte do tempo repleta de encanto.

Compensando o excesso de informações mastigadas através desta abordagem extremamente sensível, Crowe reverencia o rock na maior parte do tempo, seja através da excelente trilha sonora repleta de bandas do primeiro time como o próprio Zeppelin, The Who e Black Sabbath, seja na própria abordagem visual, começando pela fotografia de John Toll, que até utiliza cenas noturnas e ambientes fechados em muitos momentos para ilustrar a luta daquele grupo para sair das sombras e ganhar projeção, mas jamais deixa as cores tão marcantes naquela época de lado, conferindo um brilho especial às cenas diurnas e às muitas sequências nostálgicas embaladas por músicas (que lembram videoclipes e escancaram a origem do diretor), como por exemplo, quando Penny volta pra casa de avião enquanto William corre pelo aeroporto ou na belíssima cena em que todos cantam “Tiny Dancer” no ônibus, assim como na encantadora cena em que as garotas se juntam para tirar a virgindade de William.

Apresentação dos créditos iniciaisCenas noturnasTiny DancerAinda na parte técnica, enquanto a montagem de Joe Hutshing e Saar Klein confere um bom ritmo a narrativa, intercalando a turnê da banda com as cenas envolvendo a mãe de William, os editores da Rolling Stone e o crítico Lester Bangs interpretado por Philip Seymour Hoffman, os figurinos de Betsy Heimann e o design de produção de Clay A. Griffith, Clayton Hartley e Virginia L. Randolph nos transportam para a época da narrativa através das roupas coloridas e do próprio ônibus escolhido para acompanhar a turnê. Finalmente, o ótimo design de som cria o ambiente perfeito nos shows através das reações do público e dos diálogos entre os integrantes da banda, caprichando até mesmo nos pequenos detalhes, como quando ouvimos um diálogo no backstage e, ao fundo, o som do show do Black Sabbath.

No entanto, Crowe faz ainda mais bonito na direção de atores. Vivendo a mãe opressora que proíbe muitos prazeres da vida aos seus filhos, Frances McDormand evita que Elaine Miller se torne uma personagem detestável e unidimensional ao conferir humanidade a ela através da forma como se preocupa com o bem estar do filho e da empatia que cria com o jovem William. Equilibrando-se entre o rosto inocente e o sorriso carismático, o jovem Patrick Fugit tem sucesso na difícil tarefa de compor o tímido personagem central da narrativa, criando empatia com os integrantes da banda e, especialmente, com a bela Penny Lane – o momento em que o pequeno William volta para pegar a camiseta que causou uma briga na banda é muito divertido. Através da visão encantada dele, temos acesso aos bastidores do cotidiano de uma banda menor e somos levados pelas estradas na árdua busca por um lugar ao sol, por isso, a empatia entre o personagem e a plateia é essencial para o sucesso do longa.

Carismática, sensual e descolada, a Penny Lane de Kate Hudson é o elo entre o protagonista e a banda, funcionando como o alicerce daquela complexa cadeia – e não à toa, a ausência dela provoca turbulências ainda maiores entre os músicos. Compondo a personagem com sensibilidade, Hudson destaca-se na cena em que Penny sofre uma crise no quarto após ser desprezada pelo guitarrista Russel, o mais carismático integrante do Stillwater interpretado por Billy Crudup, que é também o pivô das constantes brigas motivadas pelos egos inflados dele e do vocalista Jeff Bebe, vivido por Jason Lee – um conflito muito comum nas bandas de rock, diga-se. Infelizmente, a forte influência de empresários também se tornou comum e “Quase Famosos” aborda o tema quando os integrantes da banda são convencidos a viajar de avião para fazer mais shows – algo que Crowe realça num plano no qual vemos o ônibus ficando para trás enquanto o avião decola ao fundo. Ironicamente, é durante uma tempestade que coloca em risco um voo da banda que eles aproveitam para lavar a roupa suja e escancarar seus problemas, o que não soluciona todos eles, mas ao menos faz com que a maioria dos músicos se sinta melhor.

Se preocupa com o bem estar do filhoRosto inocenteCarismática Penny LaneFechando o elenco, Philip Seymour Hoffman encarna bem o crítico alternativo que orienta o jovem William, destilando seu veneno contra tudo que lhe desagrada e revelando importantes informações a respeito da indústria da música. Seu apartamento bagunçado e cheio de LPs diz muito sobre ele, assim como as dicas que ele dá ao garoto, que terão reflexo no futuro, quando William sentirá na pele a dificuldade de criticar o trabalho da banda após fazer amizade com eles.

Viagem interessante pelos bastidores de uma banda de rock sob o olhar de um fã, “Quase Famosos” é uma verdadeira homenagem a este gênero que encanta gerações há décadas. Sem jamais soar ácido demais e sem por isso deixar de expor o universo polêmico no qual conviveu, Cameron Crowe realizou um ótimo trabalho, capaz de agradar roqueiros e cinéfilos com a mesma eficiência. E olha que estes dois grupos são muito exigentes – e eu faço parte de ambos!

Quase Famosos foto 2Texto publicado em 13 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

ALTA FIDELIDADE (2000)

(High Fidelity)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #110

Dirigido por Stephen Frears.

Elenco: John Cusack, Iben Hjejle, Todd Louiso, Jack Black, Lisa Bonet, Catherine Zeta-Jones, Joan Cusack, Tim Robbins, Chris Rehmann, Ben Carr, Lili Taylor, Natasha Gregson Wagner e Harold Ramis.

Roteiro: D.V. DeVincentis, Steve Pink, John Cusack e Scott Rosenberg, baseado em livro de Nick Hornby.

Produção: Tim Bevan e Rudd Simmons.

Alta Fidelidade[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Amadurecer nunca foi fácil. Desde os primeiros momentos da vida em que somos obrigados a deixar fases deliciosas para trás e encarar novas e pesadas responsabilidades (como ir para a escola, por exemplo), o processo de amadurecimento do ser humano pode ser complicado e difícil dependendo da maneira como encaramos cada etapa. Pra piorar, os tempos modernos trouxeram tecnologias maravilhosas que, por outro lado, permitem que retornemos a este passado delicioso sempre que possível, seja jogando aquele videogame que amávamos, assistindo aquele seriado ou desenho ou até mesmo ouvindo as mesmas músicas de antes. Isto não é necessariamente algo ruim, mas pode tornar-se um problema sério quando esta facilidade nos impede de seguir adiante. E é justamente este o caso do protagonista deste ótimo “Alta Fidelidade”, um longa sensível a respeito da dificuldade de um homem de encarar as responsabilidades que surgem pela frente.

Escrito a oito mãos por D.V. DeVincentis, Steve Pink, John Cusack e Scott Rosenberg com base em livro homônimo de Nick Hornby, “Alta Fidelidade” narra o cotidiano de Rob Gordon (John Cusack), o dono de uma pequena loja de discos em Chicago que está se separando da namorada Laura (Iben Hjejle). Fanático por música, ele passa seus dias vendendo discos e discutindo o cenário musical com seus dois funcionários Dick (Todd Louiso) e Barry (Jack Black), mas o fim do relacionamento faz com que ele reflita sobre os inúmeros relacionamentos frustrados que teve na vida.

Repleto de diálogos interessantes como aquele em que Rob e Barry discutem os significados da palavra “ainda”, o roteiro de “Alta Fidelidade” traz pequenas joias como a pouco romântica, porém verdadeira proposta de casamento de Rob, que foge completamente dos clichês. Além disso, o texto parece um verdadeiro presente para os fãs da música, trazendo inúmeras referências a bandas famosas e outras desconhecidas do grande público, além das interessantes listas criadas pelos personagens (como sabemos, criar listas é uma brincadeira capaz de viciar nove entre dez fãs de música e de cinema também!), que estão espalhadas por toda a narrativa.

A criatividade não para por aí. Se num primeiro momento somos levados a enxergar Rob como uma vítima, nossa expectativa é completamente subvertida quando ele revela as quatro coisas ruins que fez para Laura, quebrando a imagem de pobre homem sofrido e dando os primeiros sinais do quanto ele fugia de um relacionamento sério – algo que sua mãe já havia indicado antes numa conversa telefônica. Em seguida, as explicações dele para cada acontecimento escancaram seus medos e angustias, tornando o personagem mais humano diante dos nossos olhos, ainda que não justifique suas ações.

Prendendo a atenção do espectador através do carisma dos personagens, o diretor Stephen Frears e seu montador Mick Audsley saltam no tempo sempre num ritmo ágil e sem jamais tornar a trama confusa, apostando nos flashbacks que trazem as fracassadas experiências amorosas do protagonista e ousando quebrar a quarta parede praticamente o filme inteiro ao permitir que o protagonista fale diretamente com o expectador, o que, auxiliado pelo carisma de Cusack e pelos closes e planos fechados de Frears que acompanham Rob constantemente, ajuda a criar empatia entre o personagem e a plateia.

Até mesmo os aspectos técnicos são usados para externar os sentimentos do protagonista. Deixando as janelas quase sempre fechadas ou apenas parcialmente abertas, o diretor de fotografia Seamus McGarvey cria um visual sombrio que, reforçado pelas cores sem vida que decoram o apartamento dele, conferem um ar de esconderijo ao local – afinal, é ali que Rob se esconde do mundo adulto ao seu redor, com seus LPs dispostos em ordem alfabética no apartamento e seus pôsteres de bandas na parede (design de produção de David Chapman e Therese Deprez). Finalmente, a trilha sonora recheada de canções maravilhosas de Howard Shore acerta ao retratar os diversos sentimentos conflitantes do protagonista, saltando de músicas empolgantes para baladas intimistas com facilidade.

Num papel difícil e crucial para o sucesso do longa, Cusack está muito bem, carregando a narrativa com facilidade e muita desenvoltura. Com sua expressão de derrotado e seu comportamento quase recluso, Rob é alguém difícil de lidar, escondendo-se atrás do humor autodepreciativo como forma de evitar falar abertamente sobre sua falta de coragem para encarar um relacionamento com seriedade. Se suas mudanças de penteado e no estilo das roupas são notáveis ao longo das experiências amorosas (figurinos de Laura Bauer), seu comportamento praticamente mantém-se o mesmo, o que o leva a acreditar que todos seus relacionamentos são apenas versões distorcidas do primeiro. Obcecado por explicações, Rob torna-se quase paranoico enquanto busca superar o fim de suas relações amorosas, sem perceber que os relacionamentos em si são também a razão de sua paranoia, já que ele não suporta a ideia de manter um compromisso duradouro com alguém.

Janelas parcialmente abertasExpressão de derrotadoMudanças de penteadoA gama de personagens interessantes e verdadeiros, porém, não se restringe ao protagonista. Sempre reservada e centrada, Laura surge como um verdadeiro porto seguro para aquele homem, soando quase sempre como adulta diante daquele homem tão juvenil – e neste sentido, as expressões sérias e o tom de voz controlado da atriz Iben Hjejle são essenciais para a construção desta imagem. E enquanto Todd Louiso se sai bem como o tímido e antissocial Dick, falando com dificuldades e evitando olhar diretamente para as pessoas, Jack Black diverte-se como o vendedor de discos fanático por música que quase rouba a cena sempre que aparece, ainda que abuse do overacting em alguns momentos. Saindo-se muito bem na maior parte do tempo, Black demonstra desenvoltura também no palco, quando seu Barry finalmente demonstra que também pode ser um pouco eclético.

Além da sempre engraçada e espalhafatosa Liz de Joan Cusack, vale citar também as participações de Catherine Zeta-Jones, que demonstra sua forte presença na pele de Charlie; Bruce Springsteen, que aparece rapidamente durante um pensamento de Rob; e Tim Robbins, que em pouco tempo consegue fazer seu Ian Ray ser ao mesmo tempo educado e irônico. Além disso, Robbins participa da cena mais engraçada do filme, na qual acompanhamos os desfechos imaginados por Rob para o fim de uma conversa com Ray.

Reservada e centrada LauraVendedor de discos fanáticoEducado e irônicoVerdadeira declaração de amor pela música, “Alta Fidelidade” é acima de tudo um estudo sobre um homem com enorme dificuldade de encarar o amadurecimento que todos nós temos que passar um dia. E por mais que continuemos amando nossos discos da adolescência (ok, nossos CDs ou compilações em mp3), é bem mais fácil quando sabemos encarar o momento de deixar a rebeldia adolescente para trás e dar novos passos adiante na longa e árdua caminhada da vida adulta.

Alta Fidelidade foto 2Texto publicado em 12 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

THE WONDERS – O SONHO NÃO ACABOU (1996)

(That Thing You Do!)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #109

Dirigido por Tom Hanks.

Elenco: Tom Everett Scott, Liv Tyler, Johnathon Schaech, Steve Zahn, Ethan Embry, Tom Hanks, Charlize Theron, Obba Babatundé, Giovanni Ribisi, Chris Ellis, Alex Rocco, Bill Cobbs, Kevin Pollak, Jonathan Demme e Colin Hanks.

Roteiro: Tom Hanks.

Produção: Jonathan Demme, Gary Goetzman e Edward Saxon.

The Wonders - O sonho não acabou[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após vencer dois Oscar de melhor ator e participar de mais dois sucessos de público e crítica, Tom Hanks decidiu que era hora de tentar se dar bem também atrás das câmeras. Mas, diferentemente de outros atores que se mostraram tão ou mais competentes na nova função, Hanks não conseguiu o mesmo sucesso e nem mesmo o fato de ser um dos atores mais queridos de Hollywood o ajudou. Ainda assim, “The Wonders – O sonho não acabou” está longe de ser um fracasso, narrando à ascensão meteórica de uma banda fictícia de maneira leve e bastante agradável.

Projeto pessoal de Hanks, que além de dirigir escreveu também o roteiro, “The Wonders” tem início quando o jovem Guy Patterson (Tom Everett Scott) aceita substituir o baterista de uma banda num concurso local e, ao alterar o ritmo da canção, acaba ajudando a criar um hit instantâneo que, com o auxilio de um empresário da Play-Tone Records (Tom Hanks), rapidamente levará os quatro rapazes para o topo das paradas de sucesso. No entanto, os conflitos entre eles começam a ameaçar o futuro do grupo.

Conto de fadas que se desintegra na mesma velocidade em que foi construído, “The Wonders – o sonho não acabou” narra a trajetória (tão comum até hoje) de uma banda de um sucesso só, permitindo ao espectador acompanhar de perto a formação e a decadência do grupo sem jamais deixar de lado o tom leve que marca a narrativa desde o princípio. Até mesmo visualmente isto fica evidente. Observe, por exemplo, como mesmo inicialmente realçando o lado obscuro dos locais fechados em que a banda se apresenta como restaurantes e igrejas, simbolizando o estilo underground daquelas apresentações, a fotografia de Tak Fujimoto progressivamente cede espaço para tons mais alegres e estes locais dão espaço aos iluminados e amplos palcos da turnê a céu aberto e das apresentações na televisão, que simbolizam o momento em que a banda está sob os holofotes.

Aliás, a própria época retratada ajuda nesta abordagem mais alegre e até mesmo inocente. Ainda que seja de conhecimento geral o espírito livre e o universo regado de sexo, drogas e álcool das grandes bandas do período, o universo retratado aqui está mais voltado para o lado politicamente correto (digamos que, sem querer causar polêmica – até porque gosto das duas bandas -, está mais para Beatles do que para Rolling Stones). Esta impressão é reforçada também pelos figurinos de Colleen Atwood, que capricha nas roupas comportadas da banda e do próprio público em geral, além dos carros que andam nas ruas e dos aparelhos eletrônicos vendidos na loja dos Patterson que nos transportam para os anos 60 com precisão (design de produção de Victor Kempster).

Claramente inspirados nos Beatles (as constantes menções aos “Fab4” evidenciam isto), os quatro rapazes conseguem o sucesso muito rapidamente, mas a assinatura do primeiro contrato já expõe as diferentes maneiras de pensar de cada integrante da banda que causariam a ruptura no futuro. “The Wonders” abre ainda um pequeno espaço para abordar o complexo universo do mundo da música através dos interesses da gravadora, que tentam determinar os caminhos que a banda deverá seguir, criando conflito com o inteligente e pretensioso Jimmy, interpretado sem grande brilho por Johnathon Schaech.

Iluminados e amplos palcos da turnêRoupas comportadas da bandaTalentoso e egocêntrico vocalistaMas se Jimmy é o talentoso e egocêntrico vocalista, o Lenny de Steve Zahn faz o papel do engraçadinho da turma (sem grande sucesso, diga-se), ao passo em que o baixista apenas complementa a banda (e por isso o personagem de Ethan Embry sequer tem um nome). Por tudo isso, fica claro muito cedo que Guy é o cérebro do grupo e o mais capacitado para enxergar os caminhos que eles deviam seguir para alcançar o sucesso. Interpretado com carisma por Tom Everett Scott (o que é essencial para que o sucesso dele com as garotas se justifique), Guy trabalha com seu exigente e autoritário pai na loja da família durante o dia e toca bateria a noite. Assim, substituir um integrante machucado acaba se transformando numa chance de mudar radicalmente sua vida – e que ele aproveita bem. Ao mudar o ritmo da canção, Guy torna a primeira apresentação da banda num festival em algo empolgante e muda os rumos daquelas pessoas, mas lentamente ele acaba deixando de lado sua namorada Tina, interpretada por ninguém menos que Charlize Theron, para dedicar-se à banda, numa ilustração perfeita do quanto é difícil manter um relacionamento quando se vive na estrada desta forma, ainda que a frieza do relacionamento deles seja evidente desde o princípio.

Assim, uma das maneiras mais comuns de estabelecer um relacionamento com um artista é mesmo fazer parte do grupo, algo que a inteligente Faye de Liv Tyler não demora a perceber. Personagem com papel fundamental na trajetória da banda, Faye acaba funcionando como o ponto de equilíbrio que, quando abalado, coloca todos em perigo. Assim, quando o egoísta Jimmy a trata mal na frente de todos e ela finalmente rompe com ele, a banda naturalmente também se desfaz. Ao menos, Jimmy abre caminho para o óbvio romance entre Guy e Faye. Vale citar ainda as rápidas participações do diretor Jonathan Demme como um diretor de cinema e de Bill Cobbs, que vive o simpático cantor de jazz Del Paxton.

Liderando o grupo com naturalidade, Tom Hanks tem uma atuação discreta e eficiente como o empresário Sr. White, mas sua presença sempre acaba chamando a atenção de todos. Ciente disto, Hanks evita que seu personagem roube a cena ao deixá-lo muitas vezes fora de campo, o que permite focar mais na dinâmica do relacionamento da banda. Discreto também atrás das câmeras, Hanks conduz o filme com segurança, mantendo viva a energia de uma narrativa naturalmente jovial, pecando apenas no tom excessivamente romântico da cena final. Um dos queridinhos da América, o diretor/ator boa praça deixa sua impressão digital através de uma narrativa leve e descontraída, que mesmo trazendo os bastidores de uma grande banda, aborda na maior parte do tempo um universo clean, livre de drogas e quase sem álcool, mas que por outro lado capta muito bem a euforia de tocar numa banda de sucesso, com todo o glamour da fama e com centenas de mulheres desesperadas atrás deles.

Cérebro do grupoPonto de equilíbrioPrimeira execução da música na rádioCuriosamente, as grandes cenas de “The Wonders” não funcionam com base no aspecto cômico. As apresentações enérgicas do grupo, a ansiedade dos pais deles antes da primeira aparição na televisão e a empolgação durante ela estão entre os melhores momentos do longa, assim como a primeira execução da música na rádio, captada com precisão pela agitada câmera de Hanks que, com o auxilio do montador Richard Chew, cria uma sequência emocionante enquanto acompanhamos os integrantes da banda recebendo a notícia com uma alegria contagiante. A montagem de Chew, aliás, é importante para manter o ritmo agradável do longa, acelerando a narrativa de maneira inteligente, por exemplo, através de um clipe que resume boa parte da turnê deles.

E são justamente estes bons momentos que fazem não apenas a aventura daqueles jovens valer a pena, como também servem para que “The Wonders” funcione. Assim como a banda fictícia que inspirou a trama, o filme não dura muito tempo na memória do espectador, mas aqueles momentos que passamos juntos são repletos de energia e felicidade.

The Wonders - O sonho não acabou foto 2Texto publicado em 11 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

THE DOORS (1991)

(The Doors)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #108

Dirigido por Oliver Stone.

Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kyle MacLachlan, Frank Whaley, Kevin Dillon, Kathleen Quinlan, Michael Wincott, Michael Madsen, Billy Idol, Sean Stone, Wes Studi, Kelly Hu, Mimi Rogers, Jennifer Rubin e Crispin Glover.

Roteiro: Randall Jahnson e Oliver Stone.

Produção: Bill Graham, Sasha Harari e A. Kitman Ho.

The Doors[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dizem que Val Kilmer precisou de alguns meses para se recuperar psicologicamente após viver o lendário Jim Morrison neste interessante “The Doors”, biografia de um dos maiores frontman da história do rock dirigida pelo polêmico e competente Oliver Stone. Verdade ou não, o fato é que o ator se entregou de corpo e alma numa atuação de encher os olhos, que salta da tela e faz os fãs vibrarem enquanto acompanham a trajetória do ídolo sendo retratada na telona. No entanto, Stone não ousou ir além e entregou um filme que retrata Morrison apenas sob este prisma de ídolo, sem jamais se aprofundar na pessoa existente debaixo daquela capa. O resultado é um filme que agrada em cheio aos fãs de The Doors (como eu), mas que deixa a sensação de que faltou alguma coisa para aqueles que estavam interessados em conhecer um pouco mais do ícone (também como eu).

Trazendo a básica trajetória de ascensão e decadência de um astro do rock, o roteiro de Randall Jahnson e do próprio Oliver Stone narra a vida de Jim Morrison (Val Kilmer) desde a criação da lendária banda The Doors ao lado de Ray Manzarek (Kyle MacLachlan), Robby Krieger (Frank Whaley) e John Densmore (Kevin Dillon), passando pelo enorme sucesso, pelo relacionamento com Pamela Courson (Meg Ryan), pelo uso compulsivo de drogas e álcool e chegando a decadência que levaria o vocalista a morte precoce ainda aos 27 anos de idade.

O tom escolhido por Stone para levar a trajetória da banda às telonas fica evidente logo no início, quando o vocalista pergunta para a plateia se “estão todos aí”, como na abertura de um show. A partir de então, o que temos é um verdadeiro presente para os fãs que, justamente por se preocupar demais em agradá-los, acaba pecando um pouco pela falta de ousadia.

Tecnicamente, “The Doors” tem muitos acertos. A reconstituição dos anos 60, por exemplo, é excelente, graças aos carros antigos, a decoração dos bares e casas de show e as roupas e acessórios típicos da época como os óculos coloridos e as bandanas, o que é mérito do design de produção de Barbara Ling e dos figurinos de Marlene Stewart. Além disso, a câmera inquieta do diretor passeia pelas festas e apresentações com destreza, ilustrando a euforia das pessoas naqueles ambientes. Aliás, o grande mérito da direção de Stone é justamente captar o espírito livre da época e a energia dos shows da banda com incrível precisão, o que é ótimo para sugar o espectador pra dentro da narrativa.

Para isto, o diretor conta também com a ágil montagem de David Brenner e Joe Hutshing, que reflete a personalidade agitada do vocalista, mas peca pelo excesso ao prolongar demais a narrativa em certos momentos, tornando o filme um pouco arrastado e cansativo por alguns instantes. Ainda assim, os montadores merecem elogios por criarem transições elegantes como aquela em que saímos do olho do índio que atormenta Morrison para vê-lo cantando The End ao vivo em Los Angeles. E por falar nos shows, vale citar também o ótimo design de som, que cria a atmosfera perfeita nos permitindo ouvir com clareza os gritos da plateia, as conversas entre a banda e cada instrumento que é tocado no palco.

Como era de se esperar, a trilha sonora obviamente é deliciosa, recheada de clássicos da banda que nos fazem vibrar na poltrona durante a projeção. E não podemos negar que é muito empolgante acompanhar o processo de criação de clássicos eternos do rock como Light my Fire, assim como é muito interessante a maneira como Stone usa a câmera para nos colocar dentro das viagens de ácido deles, como na sequência do deserto, na qual sentimos as mesmas sensações alucinógenas dos integrantes do The Doors. O banquete para os fãs se complementa com as confusões no palco, as prisões por relatar um ataque da polícia e por insinuar mostrar a genitália em um show, as brigas de Morrison com Pam e com a banda e o uso abusivo de drogas e álcool. Neste sentido, não temos do que reclamar, está tudo lá. Até mesmo a origem do nome da banda é explicada, para o deleite dos fãs.

Decoração dos baresViagens de ácidoConfusões no palcoEsta abordagem respeitosa ao ícone se confirma através do visual do longa. Observe como a fotografia de Robert Richardson abusa de tons dourados que destacam cores como amarelo e laranja, realçando a imagem icônica do personagem – algo ainda mais intenso quando Stone emprega planos em ângulo baixo e contra a luz que buscam engrandecê-lo na tela, criando esta aura de ídolo tão desejada pelo diretor. Em outros momentos, Richardson abusa dos tons em vermelho, realçando a aura pecaminosa que normalmente é associada ao rock, especialmente quando acompanhamos os abusos do vocalista. Mas esta abordagem excessivamente respeitosa é também prejudicial (voltaremos a ela em instantes).

Entretanto, o grande destaque do longa é mesmo a atuação visceral de Val Kilmer. Caracterizado com enorme competência, o ator lembra bastante o verdadeiro Jim Morrison em vários momentos através do cabelo, das calças apertadas e de acessórios como os óculos pequenos e arredondados. Mas a força de sua atuação está mais na atitude do que na aparência, já que Kilmer encarna Morrison com muita intensidade, mostrando força no palco (o que é essencial, já que é justamente sua performance hipnótica no palco chama a atenção de uma gravadora e dá início ao sucesso avassalador da banda) e um comportamento excêntrico fora dele, causado pelo excesso de uso de drogas e álcool.

Ousado e criativo, Jim Morrison é uma verdadeira força da natureza, capaz de escrever a mais bela poesia e de estragar um almoço entre amigos com a mesma facilidade, num comportamento imprevisível que Kilmer demonstra muito bem em momentos interessantes como uma entrevista para a imprensa britânica, que evidencia a dualidade de sua mente genial e conturbada. Traumatizado por lembranças da infância que inspiraram a criação da canção Riders on the Storm, Morrison precisa se sentir admirado, como fica evidente nas noites de sexo com Patricia e Pam, mas a origem de seu trauma jamais fica muito clara, o que nos permite interpretar que aqueles índios eram apenas um símbolo dos demônios internos dele.

Vivendo ao seu lado, a carismática Meg Ryan compõe uma Pam alegre e espirituosa, mas que nem por isso deixa de ter suas crises provocadas pelos excessos da vida do casal – que, aliás, são responsáveis pelas brigas homéricas entre eles. Também obrigados a aguentar os excessos de seu frontman, os outros integrantes da banda são interpretados de maneira discreta por MacLachlan, Whaley e Dillon, enquanto Kathleen Quinlan se encarrega de dar vida à jornalista Patricia Kennealy, que rouba a atenção de Morrison por um período, e Michael Madsen diverte-se na pele do amigo do vocalista Tom Baker. Mas o fato é que todos empalidecem diante da presença marcante de Kilmer. Finalmente, vale citar a participação rápida do diretor Oliver Sonte como o professor de cinema da UCLA.

Tons douradosPerformance hipnóticaPam alegre e espirituosaAstro decadente e incapaz de enxergar isto, Jim Morrison para um show para ofender o público, cria o caos ao incitar a plateia contra a polícia e quase é preso novamente, mas ao começar um dos grandes hits da banda, a velha energia está lá, intacta, como acontece com as grandes bandas da história do rock – e Stone capta isto com precisão com sua câmera agitada que nos coloca no meio da multidão que pula ensandecida acompanhando Morrison pelo local. Neste terceiro ato, aliás, é impressionante notar também a transformação física de Val Kilmer, que passa do astro jovem e magro do início para o barrigudo e decadente vocalista do ato final.

Artista de alto nível, Jim Morrison foi um verdadeiro gênio, um dos grandes nomes da história da música, assim como o “The Doors” foi uma das bandas mais respeitáveis do rock, com sua discografia repleta de canções excepcionais. Mas isto todos nós já sabemos. A pergunta que fica ao final de “The Doors” é: e o homem? Quem foi verdadeiramente Jim Morrison? Quais eram seus anseios, suas angústias, suas dúvidas? As respostas que temos após mais de duas horas de projeção são muito poucas, o que deixa a sensação de que o longa foi dirigido por um fã, que não ousou desconstruir o mito e investigar a fundo o lado falho e humano do quase intocável ídolo do rock.

Mesmo assim, sua energia e a sensacional atuação de Val Kilmer são suficientes para agradar. Mas poderíamos ter recebido algo mais. E esta é uma sensação que nós jamais temos ao ouvir as músicas da banda e que, certamente, as pessoas jamais sentiam ao comparecer aos shows deles. Morrison e seus companheiros entregavam tudo no palco. Infelizmente, Stone não fez o mesmo.

The Doors foto 2Texto publicado em 10 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

GÊNIO INDOMÁVEL (1997)

(Good Will Hunting)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #174

Dirigido por Gus Van Sant.

Elenco: Matt Damon, Robin Williams, Ben Affleck, Stellan Skarsgård, Minnie Driver, Casey Affleck, Cole Hauser e John Mighton.

Roteiro: Matt Damon e Ben Affleck.

Produção: Lawrence Bender.

Gênio Indomável[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Matt Damon e Ben Affleck ainda eram apenas jovens em início de carreira quando surpreenderam o mundo do cinema com o excelente e complexo roteiro deste “Gênio Indomável”, longa eficiente dirigido por Gus Van Sant e que conta ainda com atuações inspiradas do próprio Damon e de Robin Williams. Com um protagonista fascinante e outros personagens igualmente interessantes, não é difícil se envolver rapidamente pela narrativa e se importar com a trajetória daqueles personagens tão humanos e, por isso, tão repletos de defeitos e qualidades.

O longa acompanha a trajetória de Will Hunting (Matt Damon), um jovem com facilidade assustadora para resolver equações matemáticas que vive no subúrbio e trabalha como servente de uma importante universidade. Após resolver um complexo problema deixado no quadro negro, o garoto chama a atenção do premiado professor Gerald Lambeau (Stellan Skarsgård), mas uma briga de rua acaba levando-o a prisão. O professor então faz um acordo para conseguir sua libertação, assumindo a responsabilidade pelo garoto e comprometendo-se a ajudá-lo a resolver seus problemas emocionais através do auxilio de um psiquiatra. Depois de algumas tentativas frustradas, cabe ao terapeuta Sean Maguire (Robin Williams) a árdua missão de tentar compreender aquele rapaz.

Escrito por Damon e Affleck, o excelente roteiro de “Gênio Indomável” tem o mérito de trazer em sua estrutura narrativa muito bem desenvolvida uma coleção de diálogos marcantes, como quando Sean relembra como conheceu a amada esposa e em sua divertida recordação sobre as idiossincrasias do casal, sendo responsável também por criar e desenvolver personagens ambíguos e complexos como Will e o próprio Sean. Da mesma forma, mesmo personagens secundário como Chuckie (Ben Affleck), Skylar (Minnie Driver) e o professor Gerald Lambeau ganham espaço suficiente para demonstrarem suas características e se humanizarem diante do espectador, o que só enriquece a narrativa e os aproxima da plateia. Assim, o espectador se vê fisgado pela trama e interessado nos personagens antes mesmo que se de conta de como isto ocorreu.

Ciente de que a força da narrativa se concentra no roteiro e no elenco, a equipe técnica liderada por Gus Van Sant evita chamar muito a atenção, fazendo um trabalho discreto e eficiente. Assim, o diretor de fotografia Jean Yves Escoffier busca realçar tons dourados na maior parte do tempo, especialmente quando Will está raciocinando, numa ilustração visual do quão valioso é o dom daquele garoto iluminado. O amarelo, aliás, está presente em muitas cenas, seja através dos objetos selecionados pelo design de produção de Melissa Stewart para enfeitar o consultório de Sean ou mesmo dos figurinos de Beatrix Aruna Pasztor (repare a camisa de Sean na primeira conversa com Will, por exemplo).

Tons douradosObjetos no consultório de SeanCamisa de Sean na primeira conversa com WillPor sua vez, a trilha sonora de Danny Elfman ressalta o clima melancólico do longa através de suas lindas músicas e de composições instrumentais inspiradas, ao passo em que a montagem de Pietro Scalia imprime um bom ritmo ao transitar entre as sessões e o cotidiano nada glamoroso de Will, alternando também no uso de cortes secos – como ocorre durante um jantar entre Lambeau e Sean no qual de repente surgem os amigos de Will lutando – e transições elegantes, como na sequência em que Will explica porque não trabalharia para a ASN, quando ele começa a falar na empresa e, com seu rosto em close-up, continua o discurso, mas agora já no consultório de Sean.

Cotidiano nada glamorosoWill explica porque não trabalharia para a ASNRosto em close-upVoltando ao elenco, enquanto o dispensável Morgan de Casey Affleck é o bobo da turma, com perguntas idiotas e comportamento infantil, Damon e Affleck (ainda muito jovens) compõem personagens mais complexos, comportando-se como verdadeiros adolescentes às vezes, mas criando um laço de amizade convincente graças à boa química existente entre eles. Criando empatia também com Minnie Driver e especialmente com Robin Williams, Damon tem um desempenho memorável como o genial e emocionalmente descontrolado Will, falando sempre de maneira rápida, mas com clareza e convicção, como na ótima cena do bar em que ele conhece e impressiona Skylar, se impondo intelectualmente diante de um desconhecido e conquistando a garota através de sua rara inteligência. Vivendo um típico underdog, Damon surge sempre reativo, usando sua agressividade como um mecanismo de defesa para tentar afastar o sofrimento causado pela traumática infância.

Genial e emocionalmente descontroladoConhece e impressiona SkylarSempre reativoSomente alguém com talento e conhecimento de causa poderia ser capaz de furar o bloqueio psicológico criado por Will. Numa interpretação contida e minimalista, Robin Williams tem a chance de comprovar seu talento na composição de personagens com grande força dramática, saindo-se muito bem como o terapeuta Sean, o único capaz de compreender o rebelde genial. Com um desempenho sublime, Williams dá um show em diversos momentos, como na bela conversa no parque, na qual a sinceridade de Sean deixa Will sem palavras, ou no instante em que dá sinais de descontrole quando Will menciona sua falecida esposa, transmitindo com precisão o quanto sofre pela morte dela através de sua expressão contida que lentamente cede lugar à explosão furiosa de raiva. Este é o trauma que ele não consegue superar, por isso, Sean e Will se entendem e compreendem um ao outro. Eles são muito parecidos, apenas estão em momentos distintos da vida.

Interpretação contida e minimalistaSinceridade de Sean deixa Will sem palavrasSinais de descontroleJá a simpática Skylar de Minnie Driver raramente consegue transpor a couraça de defesa de Will, mas nem por isso ela desiste dele e o casal até consegue criar empatia em momentos divertidos como a paquera num bar que gera o primeiro beijo. No entanto, as diferenças sociais entre eles (ele, órfão do subúrbio, ela, herdeira de uma boa quantia de dinheiro) acabam gerando uma forte discussão, na qual os dois atores se saem muito bem. Enquanto Driver demonstra o quanto Skylar sofre por não conseguir conter o ímpeto de Will, Damon demonstra de maneira seca o quanto ele pode ser agressivo quando é acuado. Will é um personagem complexo, que tem medo de se relacionar e se ferir e, por isso, é incapaz de dizer que a ama – o que nos leva a tocante cena em que ela segura o choro ao falar com ele por telefone sem conseguir arrancar as três palavras mais desejadas entre os casais.

Paquera num barForte discussãoTocante cena em que ela segura o choroFechando os destaques do elenco, o paternal professor Lambeau vivido por Stellan Skarsgård encontra em Will aquilo que ele não conseguiu ser. Ainda que tenha o reconhecimento de todos por seus conhecimentos matemáticos, ele não conquistou o respeito de quem mais importava: ele mesmo. Frustrado ao ver tanto potencial desperdiçado, Lambeau não consegue esconder sua decepção – e a expressão constantemente abatida de Skarsgård transmite muito bem este sentimento. Na visão dele (e do próprio Chuckie, melhor amigo de Will), é uma pena ver um garoto tão brilhante desperdiçando sua vida. Mas Sean não vê da mesma forma, o que nos leva a uma interessante reflexão sobre o conceito de “sucesso”. Premiado e bem sucedido, Lambeau jamais conseguiu alcançar a paz e a felicidade plena que Sean alcançou enquanto viveu ao lado da mulher amada.

Na condução deste elenco talentoso, Gus Van Sant dirige “Gênio Indomável” com discrição, empregando raros movimentos de câmera ousados, como a câmera lenta que alivia o início da primeira briga de rua dos garotos, tirando parte do impacto que só aparece mesmo no final da cena, além de alguns poucos travellings, como numa conversa entre Sean e Lambeau num bar e especialmente nas tomadas aéreas da cidade. Em todo caso, o diretor tem todo o mérito por extrair boas atuações de grande parte do elenco.

Paternal professor LambeauPrimeira briga de ruaConversa entre Sean e Lambeau num barMas é mesmo no excepcional roteiro de Damon e Affleck que reside o grande trunfo de “Gênio Indomável”. Assim, o final redondo amarra muito bem as pontas soltas da narrativa, concluindo o arco dramático de Will e Sean de maneira plenamente satisfatória na emocionante cena em que o terapeuta convence o garoto que “ele não tem culpa”. Ambos reconheceram suas deficiências. Ambos foram corajosos o suficiente para enfrentá-las. E o mais interessante é que isto acontece de maneira tão sutil que eles sequer percebem o quanto estão mudando.

Sutileza talvez seja a palavra que melhor defina “Gênio Indomável”. Assim como Will Hunting não nota o instante em que começa a mudar, o espectador também não percebe o momento em que é fisgado pela narrativa. Simplesmente acontece.

Gênio Indomável foto 2Texto publicado em 06 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

ESQUECERAM DE MIM 3 (1997)

(Home Alone 3)

2 Estrelas 

Videoteca do Beto #173

Dirigido por Raja Gosnell.

Elenco: Alex D. Linz, Olek Krupa, Rya Kihlstedt, Lenny von Dohlen, David Thornton, Scarlett Johansson, Haviland Morris, Kevin Kilner, Marian Seldes, Seth Smith e Christopher Curry.

Roteiro: John Hughes.

Produção: Hilton Green e John Hughes.

Esqueceram de Mim 3[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Se “Esqueceram de mim” era um filme que dependia exclusivamente da predisposição do espectador em aceitar sua premissa absurda para funcionar e “Esqueceram de mim 2” já apresentava um claro desgaste desta fórmula, imagine então o que acontece neste “Esqueceram de mim 3” que, além de apostar exatamente na mesma estrutura narrativa e nos mesmos elementos utilizados nos filmes anteriores, ainda se ressente da falta do carisma de Macaulay Culkin. Assim, se o longa anterior se salvava justamente por se apoiar no carisma do então jovem astro, este terceiro filme da franquia não consegue escapar do fracasso.

Escrito novamente por John Hughes, “Esqueceram de mim 3” tem início quando um grupo de criminosos escondem um valioso chip de computador dentro de um carrinho de brinquedo que, por acidente, acaba parando nas mãos do pequeno Alex (Alex D. Linz), um jovem que costuma ficar sozinho em casa durante o dia enquanto sua mãe (Haviland Morris) trabalha. Após descobrirem o paradeiro do chip, os ladrões terão que enfrentar as armadilhas do garoto para recuperar o importante objeto.

Ao contrário do que ocorria nos longas anteriores, “Esqueceram de mim 3” sugere uma narrativa mais sombria em seus minutos iniciais através da trama envolvendo o chip capaz de ativar um míssil, o que, convenhamos, está bem longe de ser uma premissa infantil. No entanto, engana-se quem pensa que isto significa um sopro de criatividade e uma tentativa de revigorar a fórmula que consagrou o primeiro filme da franquia, ainda que a fotografia de Julio Macat também seja claramente mais obscura, apostando em conjunto com os figurinos de Jodie Tillen em cores sem vida e ressaltando o predomínio da neve naquela época do ano de maneira mais ostensiva.

Contudo, os escorregões não passam tanto pelo aspecto visual, mas sim pelas derrapadas do roteiro de Hughes, que parece incapaz de inovar, apostando novamente numa narrativa que se passa na época do Natal, nos problemas entre o protagonista e a família e em coincidências difíceis de engolir, como a confusão pouco verossímil envolvendo sacolas iguais e a maneira como eles conseguem um voo de última hora para Chicago – ao menos o Papagaio que conversa normalmente é tão absurdo que chega a ser simpático. Por outro lado, a trilha sonora de Nick Glennie-Smith acertadamente mantém as músicas joviais e o tema principal da série, trazendo ainda uma empolgante composição que acompanha a preparação da defesa da casa, mantendo outra tradição da franquia.

Fotografia mais obscuraConfusão envolvendo sacolasPapagaioDa mesma forma, o diretor Raja Gosnell e seus montadores Malcolm Campbell, Bruce Green e David Rennie não conseguem evitar que a narrativa se torne arrastada, perdendo-se em alguns momentos ao investir, por exemplo, um longo tempo nas sequências em que o garoto chama a polícia e ninguém acredita nele. Ao menos, o diretor tem méritos por repetir uma estratégia adotada por Chris Columbus, apresentando alguns brinquedos de Alex (design de produção de Henry Bumstead) que serão essenciais no ato final, acertando também na empolgante sequência em que acompanhamos o carrinho do garoto através de uma câmera amarrada sobre ele, ainda que ocasionalmente tenhamos a sensação de que o brinquedo está sendo pilotado pelo MacGyver, conseguindo quebrar madeiras, correr mais que as pessoas e até mesmo pular as cercas entre as casas.

Garoto chama a políciaBrinquedos de AlexO carrinho do garotoEstes pequenos acertos não apagam, porém, sua falta de habilidade na direção de atores, o que permite que Olek Krupa, Rya Kihlstedt, Lenny von Dohlen e David Thornton encarnem seus ladrões, que teoricamente deveriam ser mais profissionais que os personagens de Pesci e Stern, de maneira extremamente caricata, em atuações que tentam soar mais perigosas, mas acabam sendo patéticas. Pra piorar, o menino Alex D. Linz não tem nem de perto o carisma de Culkin, ainda que seu personagem Alex consiga criar empatia com a mãe interpretada por Haviland Morris. Ela que também chega a irritar ao desconfiar constantemente do garoto por achar que tudo não passa de pura imaginação dele, mas esta é uma atitude justificável diante da falta de provas concretas e da fase da vida que ele está atravessando. Fechando o elenco, vale destacar a presença de Scarlet Johansson ainda bem jovem no papel de Molly, a irmã do protagonista.

PatéticosSem carismaEmpatiaAo menos, a melhor tradição da franquia é mantida e a tentativa de invadir a casa é mais uma vez repleta de momentos engraçados, apostando novamente no humor puramente físico para agradar. Só que, infelizmente, desta vez isto não é suficiente para salvar o filme do desastre. A fórmula muito desgastada de John Hughes já não colava mais.

Esqueceram de Mim 3 foto 2Texto publicado em 27 de Agosto de 2013 por Roberto Siqueira

COP LAND (1997)

(Cop Land)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #172

Dirigido por James Mangold.

Elenco: Sylvester Stallone, Harvey Keitel, Ray Liotta, Robert De Niro, Peter Berg, Janeane Garofalo, Robert Patrick, Michael Rapaport, Annabella Sciorra, Noah Emmerich, Cathy Moriarty, John Spencer, Frank Vincent, Malik Yoba e Arthur J. Nascarella.

Roteiro: James Mangold.

Produção: Cathy Konrad, Ezra Swerdlow e Cary Woods.

Cop Land[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Durante mais de uma década, Sylvester Stallone tornou-se mundialmente famoso por seus papéis em filmes de ação que exalavam testosterona e nos quais os personagens só conheciam um meio de resolver seus problemas. Assim, quando o astro aceitou participar deste ótimo “Cop Land”, pela primeira vez em muitos anos seus fãs tiveram a oportunidade de vê-lo num papel diferente do usual, num desafio interessante que se tornaria ainda mais complexo graças aos excepcionais atores que contracenariam com ele. O curioso é que o responsável pelo roteiro que cativou atores do calibre de Stallone, De Niro e Keitel foi o estreante James Mangold, responsável também pela direção deste eficiente thriller policial, injustamente ignorado pela crítica em seu lançamento.

A narrativa se passa na pequena cidade de Garrison, habitada majoritariamente por policiais que trabalham na vizinha Nova York durante o dia e voltam para suas famílias à noite. Tudo corre aparentemente bem até que o jovem Superboy (Michael Rapaport) se envolve num tiroteio e acaba assassinando dois criminosos, colocando em xeque a reputação da família, encabeçada por seu tio Ray (Harvey Keitel). Uma discussão entre policiais e paramédicos quanto às provas do crime leva o Tenente Moe Tilden (Robert De Niro) a investigar o local, até então administrado pelo pacato xerife Freddy (Sylvester Stallone).

Sob a aparente tranquilidade que paira na pequena Garrison, existe uma complexa rede de intrigas e corrupção que lentamente é revelada pelo bom roteiro de Mangold, repleto de personagens ambíguos que se tornam ainda mais interessantes graças ao bom desempenho do elenco em geral. Esta aura de mistério é reforçada já nos segundos iniciais de “Cop Land”, quando a câmera do diretor passeia pela cidade enquanto a narração sombria de Robert De Niro nos apresenta ao local e aos personagens. Conduzindo com paciência a narrativa, Mangold explora o potencial de seu elenco com inteligência, aplicando zooms que nos aproximam lentamente dos personagens e closes que buscam realçar suas expressões e reações nas calorosas discussões que permeiam a narrativa. Além disso, o diretor mostra talento na composição visual de algumas cenas, como no lindo plano em que Freddy contempla a bela ponte que liga Garrison à Nova York na noite do suposto suicídio de Superboy e na espetacular sequência do tiroteio final.

Passeia pela cidadeCalorosas discussõesEspetacular sequência do tiroteioÉ evidente que o ótimo trabalho do diretor de fotografia Eric Edwards é essencial neste aspecto, abusando de cores frias como o azul e explorando muito bem o visual predominantemente noturno de “Cop Land”, mergulhando os personagens nas sombras em diversos momentos para ilustrar o caráter nebuloso daquele grupo de pessoas misteriosas. Quem também tenta colaborar na criação desta atmosfera é Howard Shore, mas sua trilha sonora acaba exagerando no tom em alguns momentos, como na cena em que policiais discutem com paramédicos na ponte após o sumiço de Superboy, mas por outro lado Shore acerta em cheio na escolha das músicas que tocam no velho toca-discos de Freddy, refletindo muito bem seu estado de espírito melancólico em cenas belíssimas como aquela em que Liz (Annabella Sciorra) vai até sua casa para conversar com ele.

Cores frias como o azulPersonagens nas sombrasLiz vai até sua casaSurgindo barrigudo e movimentando-se lentamente, Stallone compõe um personagem muito interessante e bem distante dos vigorosos personagens de seus filmes de ação, numa atuação contida que confirma seu talento já demonstrado em “Rocky, um Lutador”. Observe como o ator fala sempre num tom de voz baixo, evita olhar diretamente para as pessoas e sempre parece acuado diante da presença marcante dos outros policiais, numa postura claramente defensiva e totalmente coerente com o personagem. Discreto como seu uniforme (figurinos de Ellen Lutter), Freddy parece perambular pela cidade, fechando os olhos para possíveis conflitos e evitando chamar a atenção; e até mesmo seu escritório bagunçado (design de produção de Lester Cohen) evidencia o quanto a frustração por não conseguir ser policial em Nova York afetou sua vida. Ele pouco se importa com o que acontece ao seu redor.

Barrigudo e movimentando-se lentamenteSempre parece acuadoDiscreto como seu uniformePor tudo isso, Freddy configura-se o xerife ideal para que Ray continue comandando a cidade e, com suas expressões marcantes, Keitel compõe um antagonista assustador, que parece capaz de fazer qualquer coisa para manter o controle do local idealizado e fundado por ele, criando um personagem corrupto e detestável, é verdade, mas que jamais soa caricato ou unidimensional graças ao desempenho do ator. Assim, por mais que aos nossos olhos suas atitudes soem absurdas, Ray acredita que está agindo corretamente – e, o que é mais importante, nós acreditamos nele, ainda que não concordemos com suas ações.

Antagonista assustadorCorrupto e detestávelAcredita que está agindo corretamenteQuem também merece destaque é Ray Liotta na pele de Figgsy, um dos poucos policiais em quem Freddy consegue confiar e que surge sempre agitado, num indício claro do quanto seu envolvimento naquele ambiente hostil o incomoda. Servindo como apoio para o xerife, Liotta destaca-se em dois momentos especiais. O primeiro no diálogo expositivo no bar que explica a origem da surdez de Freddy, a razão de seus traumas e sua ligação com a bela Liz, e o segundo após a morte de Mônica (Mel Gorham), quando surge devastado ao constatar que sua amada estava morta – e saberíamos depois que sua dor intensa tinha mais motivos do que poderíamos imaginar naquele instante. Finalmente, Robert De Niro impõe respeito logo em sua primeira participação (fisicamente falando, já que é dele o prólogo), com seu tom de voz firme e expressões marcantes dominando completamente uma discussão, tornando todos os outros frequentadores da sala em meros coadjuvantes. A escolha de De Niro é acertada, pois somente um ator com sua capacidade poderia tornar a importância do Tenente Moe na narrativa em algo crível com tão pouco tempo na tela, já que ele é vital na mudança de comportamento de Freddy que culminará na resolução da narrativa.

Origem da surdez de FreddySurge devastadoImportância do Tenente MoeAos poucos, vai tornando-se óbvio que Superboy não morreu naquela noite e, de maneira inteligente, o roteiro jamais tenta criar um desnecessário mistério envolvendo seu desaparecimento. Assim, o foco da narrativa vai mesmo para a mudança de Freddy, que lentamente desperta de seu sono profundo e passa a enxergar tudo que ocorre ao seu redor (ou a se importar com ele), nos levando ao sensacional acerto de contas que Mangold conduz em câmera lenta, nos permitindo acompanhar cada detalhe do feroz tiroteio como se estivéssemos ali, ao lado de Freddy – e o ótimo design de som também é muito importante neste momento, distorcendo nossa percepção sonora do ambiente e nos forçando a compartilhar o que o personagem, agora ferido na outra orelha, provavelmente ouve. Após a solução do caso, Freddy surge novamente na margem do rio diante da bela ponte, mas agora numa cena diurna, bem iluminada e que ilustra a limpeza promovida por ele no local.

Acerto de contasFeroz tiroteioFerido na outra orelhaRecheado com boas atuações e apostando numa trama envolvente, “Cop Land” é um thriller interessante, surpreendentemente conduzido por um diretor estreante, mas que já demonstrava talento desde seu trabalho inicial. E se já estávamos acostumados a ver De Niro e Keitel oferecendo atuações dramáticas de impacto, Stallone só comprovou o quanto sua carreira poderia ter sido ainda mais marcante caso suas escolhas fossem um pouco mais ousadas.

Cop Land foto 2Texto publicado em 20 de Agosto de 2013 por Roberto Siqueira

CONTATO (1997)

(Contact)

5 Estrelas 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #171

Dirigido por Robert Zemeckis.

Elenco: Jodie Foster, Matthew McConaughey, Jena Malone, David Morse, Tom Skerritt, James Woods, John Hurt, Angela Bassett, Rob Lowe, Jake Busey, William Fichtner, Sami Chester e Geoffrey Blake.

Roteiro: James V. Hart e Michael Goldenberg, baseado em romance de Carl Sagan e argumento de Ann Druyan.

Produção: Steve Starkey e Robert Zemeckis.

Contato[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Completamente esquecida com o passar dos anos, a obra-prima “Contato” é um dos pontos altos da excepcional carreira de Robert Zemeckis, abordando em sua narrativa envolvente temas complexos que podem render debates acalorados entre cientistas e religiosos. Sem jamais pender claramente para um lado ou para o outro, o longa estrelado por Jodie Foster tampouco foge de polêmicas e, apoiando-se no raciocínio lógico, espalha frases de efeito capazes de provocar reflexão nos dois lados, justamente por tratar o assunto com a seriedade e, o que é mais importante, a serenidade que ele merece. Como se não bastasse, ainda nos oferece uma protagonista tão complexa e fascinante quanto às próprias questões que levanta.

Baseado no livro homônimo de Carl Sagan e roteirizado com extrema competência por James V. Hart e Michael Goldenberg, “Contato” narra a história de Eleanor Arroway (Jodie Foster), uma astrônoma que descobre um sinal vindo do espaço com instruções para a construção de uma enorme máquina, que poderia possibilitar o contato com vida inteligente fora do planeta Terra. Disputando espaço com o também cientista David Drumlin (Tom Skerritt) e despertando o interesse amoroso do pastor Palmer Joss (Matthew McConaughey), Eleanor (ou Ellie) terá ainda que superar diversas barreiras políticas para conseguir realizar seu sonho e ser enviada na arriscada missão.

Introduzindo seus costumeiros movimentos de câmera estilizados desde a interessante abertura do filme, quando acompanhamos o som viajando pelo espaço (e pela história) através de um lento zoom out que dá a exata noção da nossa insignificância diante da magnitude do universo e ainda insere um conceito essencial para a compreensão de um momento chave da narrativa, Robert Zemeckis encontra em “Contato” a oportunidade ideal para comprovar sua habilidade não apenas na condução de narrativas envolventes, mas também na construção de uma atmosfera fascinante e na composição de cenas plasticamente belíssimas. Assim, não são raros os momentos capazes de encher nossos olhos, seja pela beleza da imagem, seja pelo apuro técnico, como no plano-sequência que acompanha Ellie chegando ao centro de controle após ouvir os sinais captados no espaço – que reflete com precisão a excitação dela e a urgência do momento – ou na triste sequência da morte do pai dela, captada com grande sensibilidade pela câmera lenta e pelos movimentos suaves do diretor, demonstrando respeito pela dor da personagem ao mesmo tempo em que frisa na mente do espectador uma passagem impactante que terá reflexos diretos no comportamento dela no futuro.

Som viajando pelo espaçoEllie chegando ao centro de controleMorte do pai delaObviamente, Zemeckis conta com sua equipe técnica neste processo, a começar pelo notável trabalho do diretor de fotografia Don Burgess, que investe num visual mais “clean”, quase asséptico em alguns momentos, mas que nem por isso deixa de abusar das luzes e cores quando necessário, como na psicodélica sequência da viagem da protagonista (voltaremos a ela em instantes). Da mesma forma, a montagem de Arthur Schmidt é crucial para que “Contato” mantenha um ritmo fluído, estabelecendo uma atmosfera tensa capaz de manter-nos interessados o tempo todo. Por sua vez, os aparatos científicos criativos e realistas concebidos pelo design de produção de Ed Verreaux e as roupas espaciais desenvolvidas pela figurinista Joanna Johnston ajudam na imersão do espectador na narrativa, enquanto a trilha sonora econômica de Alan Silvestri surge apenas em momentos especiais, como quando amplia a tensão no primeiro teste da máquina construída com base nas mensagens vindas do espaço.

Visual cleanPsicodélica sequência da viagemAparatos científicosE se o trabalho técnico é formidável, o elenco de “Contato” não fica atrás, apresentando um desempenho homogêneo e muito competente desde os primeiros minutos, quando acompanhamos o relacionamento da pequena Ellie vivida por Jena Malone com seu afável pai interpretado por David Morse. Na fase adulta, é Jodie Foster quem assume o papel da obstinada Ellie, comportando-se de maneira sempre racional, é verdade, mas sem ofuscar sua natureza agitada e questionadora, demonstrando em seu olhar a determinação da personagem na busca por evidências da existência de vida em outro planeta. Além de sua curiosidade natural como cientista, este comportamento encontra base também na trágica infância dela, já que é natural que alguém que perdeu a mãe no próprio parto e o pai aos nove anos de idade não queira estar só, ainda mais se considerarmos sua descrença na existência de um ser superior, um caminho sempre mais fácil e reconfortante para o ser humano.

Pequena EllieAfável paiObstinada EllieParadoxalmente, esta luta para provar que não estamos sozinhos no universo (“Seria um grande desperdício de espaço”, diz o pai dela) não significa, por exemplo, que ela queira constituir família – e o fato de não ter filhos nem marido só facilita sua decisão de largar tudo e correr atrás de seu sonho, o que não impede que ela se sinta apreensiva momentos antes de embarcar na jornada. Personagem intrigante e ambígua, Ellie destaca-se dos demais até mesmo nas roupas que veste, surgindo muitas vezes vestida de vermelho num ambiente dominado por cores sóbrias como azul e cinza. Inteligente e dona de um raciocínio lógico inabalável, ela mantém-se fiel (com o perdão do trocadilho) às suas convicções mesmo quando isto pode atrapalhar a realização de seu maior sonho.

ApreensivaMuitas vezes vestida de vermelhoRaciocínio lógico inabalávelQuem destoa do tom sério da maioria dos personagens é o religioso Joss, que surge como alguém mais relaxado e tranquilo na pele de Matthew McConaughey, mas que nem por isso deixa de se posicionar com firmeza quando necessário, como quando questiona David logo no primeiro contato numa festa. Ao contrário de Ellie, ele acredita em Deus, mas diferentemente de alguns fanáticos religiosos que cruzam a narrativa, mantém uma postura equilibrada na maioria das vezes, mostrando que é possível conviver pacificamente, mesmo com visões distintas de um tema tão misterioso. Inteligente, Joss tenta proteger Ellie dos riscos da missão, mas respeita a decisão dela por boa parte do tempo; e o fato de eles ficarem juntos logo de cara revela-se um grande acerto do roteiro, por permitir que o lado mais interessante da narrativa seja desenvolvido com tranquilidade ao invés de investir muito tempo no desenvolvimento do romance deles.

Religioso JossQuestiona David logo no primeiro contatoJuntos logo de caraFuncionando como um rival direto na luta de Ellie pela realização do sonho de ir para o espaço, o antagonista David Drumlin interpretado com sarcasmo por Tom Skerritt chega a nos irritar em certos instantes, como quando fala no lugar dela numa importante conferência para a imprensa – e a decepção no rosto de Foster neste instante é impactante, assim como chama à atenção a inteligência de Zemeckis na composição do plano que contrapõe os dois cientistas. No entanto, David revela alguma humanidade quando demonstra ter ciência do quanto sua escolha havia sido injusta, ainda que isto não amenize sua desgastada imagem diante dela. Quem também oferece um desempenho enérgico que cumpre seu papel mesmo distanciando o personagem da plateia é James Woods, que cria um Kitz ameaçador ao ponto de levar a protagonista as lágrimas no interrogatório final.

Antagonista DavidDecepção no rostoKitz ameaçadorMas nem só de inimigos vive Ellie e, entre seus amigos cientistas, vale destacar o simpático Kent de William Fichtner, que ilustra muito bem as dificuldades provocadas pela cegueira e, curiosamente, o quanto sua deficiência permitiu que ele desenvolvesse uma audição aguçada que, por sua vez, o auxilia muito no trabalho. E finalmente, vale mencionar a presença marcante de John Hurt como o excêntrico bilionário S.R.Hadden, que tem participação fundamental na narrativa e, como de costume, rouba a cena sempre que surge para salvar a protagonista (numa curiosa representação física do artifício narrativo conhecido como deus-ex-machina).

Sem se limitar ao aspecto visual e ao desenvolvimento dos personagens, Zemeckis extrai todo o potencial do excelente roteiro de “Contato”, narrando uma história fascinante tanto estruturalmente quanto tematicamente. Abusando da criatividade (o método empregado para decifrar a mensagem é sensacional), “Contato” traz ainda interessantes elementos para discussão. Observe, por exemplo, como os militares só pensam na possibilidade de conflito com os extraterrestres, assim como os políticos só pensam nas consequências que o vazamento de informações pode provocar em seus governos, esquecendo-se da importância daquelas descobertas na vida das pessoas em geral. No entanto, o debate central está no embate entre ciência e religião, notável ao longo de toda a narrativa.

Simpático KentExcêntrico bilionário S.R.HaddenMétodo empregado para decifrar a mensagemApós a descoberta de um sinal que poderia mudar os rumos da humanidade, multidões se dirigem ao local para explorar a descoberta de todas as formas, demonstrando o impacto daquela descoberta na sociedade e levantando diversos pontos interessantes para discussão e reflexão. Até que ponto nós queremos realmente saber a verdade? Caso seja religioso, você gostaria de saber, repentinamente, que tudo que ouviu desde a infância não passa de uma invenção? Não surpreende, portanto, o comportamento irracional de alguns fanáticos religiosos, assim como é compreensível (ainda que imperdoável) a atitude trágica de um líder religioso (Jake Busey) que quer impedir o progresso daquele experimento cientifico apenas para manter o controle de sua igreja sobre a sociedade.

Sociedade esta que, num país dominado pelo cristianismo como os EUA, demonstra um preconceito escancarado contra o ateísmo (o Brasil católico também), como fica evidente na avaliação de Ellie pela comissão, num dos raros momentos em que Joss deixa sua fé falar mais alto que a razão – e, na verdade, podemos interpretar a desprezível pergunta dele como uma tentativa, ainda que desesperada, de segurá-la, jogando-a contra a comissão e frustrando seu sonho, mas é mais provável que ele de fato quisesse se certificar da falta de fé dela no Divino, já que para os religiosos, não acreditar em Deus é praticamente um crime e não apenas uma questão de cunho pessoal.

Multidões se dirigem ao localAtitude trágica de um líder religiosoAvaliação de Ellie pela comissãoAssim, chegamos ao tenso momento em que o citado líder religioso tenta impedir a evolução dos testes, provocando a impressionante explosão da primeira máquina, na qual ficam evidentes os espetaculares trabalhos de design de som e efeitos visuais. Essencial no trabalho de Ellie e no filme em geral, o som destaca-se também em outros instantes, como quando a máquina começa a funcionar e podemos ouvir claramente cada parte daquela enorme estrutura se movimentando. Mas o grande momento de “Contato” é mesmo a espetacular viagem de Ellie pelo tempo/espaço, repleta de planos belíssimos que se apoiam nos efeitos visuais de tirar o fôlego para encantar a protagonista e a plateia (“Eles deveriam ter enviado um poeta”, diz ela). Nesta longa sequência, o olhar encantado dela reflete o nosso próprio olhar diante da magnitude do que vemos – e se Foster transmite muito bem a emoção da personagem em sua expressão tocante, Zemeckis confirma novamente sua capacidade de conduzir sequências visualmente complexas com uma facilidade assustadora.

Impressionante explosão da primeira máquinaViagem de Ellie pelo tempo espaçoPlanos belíssimosApós seu retorno, “Contato” traz ainda uma genial inversão de papéis, com a cientista tendo que provar algo sem ter nenhuma evidencia e a comissão formada majoritariamente por pessoas religiosas (ou, ao menos, que afirmam crer em Deus) assumindo o papel dos céticos, tão ligado aos cientistas. E com exceção de um único instante em que uma integrante do governo afirma que as gravações estáticas duraram 18 horas (talvez o único pecadilho do impecável roteiro), na maior parte do tempo o próprio espectador se questiona se ela realmente passou por aquela experiência ou se ela imaginou tudo aquilo. A resposta, como em quase tudo na vida, está dentro de cada um de nós. E justamente por isso é que não devemos assumir as nossas crenças como verdades universais.

Empolgante em todos os aspectos – narrativa, temática e visualmente -, “Contato” é competente tanto como entretenimento quanto pela capacidade de provocar profundas reflexões filosóficas e existenciais. No fim das contas, esta obra-prima de Robert Zemeckis mostra que é possível conviver pacificamente mesmo com visões tão distintas sobre o mesmo tema; e que cada um, à sua maneira, continuará buscando a verdade sobre os mistérios do universo.

Contato foto 2Texto publicado em 14 de Agosto de 2013 por Roberto Siqueira

BOOGIE NIGHTS – PRAZER SEM LIMITES (1997)

(Boogie Nights)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #170

Dirigido por Paul Thomas Anderson.

Elenco: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, Heather Graham, Don Cheadle, John C. Reilly, Luis Guzmán, William H. Macy, Alfred Molina, Philip Seymour Hoffman, Melora Walters, Thomas Jane, Philip Baker Hall e Joanna Gleason.

Roteiro: Paul Thomas Anderson.

Produção: Paul Thomas Anderson, Lloyd Levin, John Lyons e Joanne Sellar.

Boogie Nights – Prazer sem Limites[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Paul Thomas Anderson tinha apenas um filme no currículo quando “Boogie Nights – Prazer sem Limites” chegou aos cinemas, chamando a atenção não apenas pelos virtuosismos técnicos e narrativos do diretor/roteirista, mas também por seu elenco igualmente numeroso e talentoso. Abordando um universo nada convencional e trazendo inúmeros personagens interessantes, o longa sinalizava claramente que um grande diretor estava chegando para ficar, confirmando ainda o enorme talento de atores como Mark Wahlberg, Julianne Moore, John C. Reilly, William H. Macy e Philip Seymour Hoffman, além é claro do veterano Burt Reynolds.

Escrito pelo próprio Anderson, “Boogie Nights” narra a trajetória de ascensão e queda de Eddie Adams (Mark Wahlberg), um jovem que é descoberto pelo grande cineasta pornô Jack Horner (Burt Reynolds) e acaba se tornando o grande astro do meio, já sob o nome artístico de Dirk Diggler. Lá, ele conhece a famosa Amber Waves (Julianne Moore), uma das muitas pessoas extravagantes que frequentam as agitadas festas recheadas com muito álcool e cocaína, além é claro do próprio sexo. Mas esta vida de excessos obviamente não permitiria que eles saíssem ilesos daquilo tudo.

O primeiro grande desafio de “Boogie Nights” começa no próprio roteiro, que consegue a proeza de criar uma estrutura narrativa interessante e desenvolver bem seus muitos personagens através de linhas narrativas paralelas que eventualmente se cruzam durante a trama. Além disso, Anderson tem o mérito de criar empatia com a plateia mesmo num universo claramente distante da maioria dos espectadores e que normalmente é visto com reservas pelo público através de personagens que fogem de estereótipos e se tornam mais humanos aos nossos olhos graças também ao talento dos atores.

Mas se o roteiro chama a atenção, atrás das câmeras Anderson não fica atrás, dando um show de direção com seus movimentos elegantes como o belíssimo plano-sequência que passeia pelos personagens espalhados na casa noturna e nos ambienta àquele submundo logo na abertura do longa. Movimento de câmera sempre chamativo, o plano-sequência (que viria a se tornar uma marca registrada do diretor) surge em outros diversos momentos de “Boogie Nights”, como na primeira festa na casa de Jack e na excelente sequência em que acompanhamos a trajetória de Bill (William H. Macy) na noite em que ele mata sua mulher e se suicida. O diretor é competente também na utilização de técnicas mais simples, como os closes em objetos que muitas vezes enfatizam a sensibilidade aguçada daqueles personagens, os inúmeros planos que trazem o uso explícito de cocaína e ilustram a trajetória de autodestruição daquele grupo e os planos fechados que realçam o espanto das pessoas diante dos atributos físicos de Eddie que garantem seu sucesso na indústria pornográfica.

Passeia pelos personagensPrimeira festa na casa de JackNoite em que ele mata sua mulherContando com a ajuda do diretor de fotografia Robert Elswit, Anderson cria um universo colorido que, além de ilustrar a intensidade com que aquelas pessoas viviam e enxergavam o mundo, ainda mostra-se coerente com a época em que se passa à narrativa. No entanto, o diretor e seu diretor de fotografia são inteligentes o bastante para mudar este aspecto quando necessário, como na briga de Eddie com sua mãe em que os personagens surgem mergulhados nas sombras, ampliando a sensação sufocante do momento. Repare ainda como a imagem surge granulada em alguns instantes, especialmente quando vemos as filmagens dos controversos longas dirigidos por Jack – numa alusão a natureza “B” destas produções -, e compare com as cenas ultra coloridas e repletas de luzes na casa noturna e nas festas.

Briga de Eddie com sua mãeFilmagens dos controversos longasLuzes na casa noturnaColoridos também são os figurinos de Mark Bridges, que reforçam o visual bem anos 70, assim como a fantástica trilha sonora de Michael Penn é muito coerente com a época, com suas músicas animadas e chamativas. Realçando traços da personalidade de Eddie através da decoração de seu quarto repleto de pôsteres de carros, mulheres e Bruce Lee, o design de produção de Bob Ziembicki mantém a coerência na nova casa dele, com cômodos chamativos e nada discretos como o quarto oriental que escancara sua admiração pelo ícone das artes marciais, inteligentemente demonstrada anteriormente e que refletiria também em sua carreira como ator depois que ele viesse a ganhar poder e passasse a interferir na trama das produções.

Coloridos figurinosPôsteres de carros, mulheres e Bruce LeeQuarto orientalEssencial num filme com tantas linhas narrativas paralelas, a montagem de Dylan Tichenor consegue evitar que a narrativa se torne confusa, mantendo o espectador interessado no que acontece mesmo com tantos personagens e ainda nos brindando com elegantes transições como aquela que sai de Jack sentado na cadeira observando o desempenho de Eddie e vai para a mãe do garoto sentada na cadeira esperando sua chegada.

E já que falamos em desempenho, a grande atuação de praticamente todo o elenco de “Boogie Nights” dificulta muito a tarefa de apontar destaques. Mesmo atores com participações menores chamam a atenção, como é o caso de William H. Macy na pele de Bill, o pobre homem constantemente humilhado pela esposa que encontra uma maneira trágica de solucionar a situação. John C. Reilly confirma seu talento como o acelerado Reed e Philip Seymour Hoffman está excelente como o afeminado Scotty J., demonstrando com sutileza sua atração por Dirk através do olhar e da expressão corporal quanto está diante dele, destacando-se ainda na cena do carro novo em que tenta beijar o amigo a força e se arrepende logo em seguida.

Bill constantemente humilhado pela esposaAcelerado ReedAfeminado Scotty J.Entre os personagens com mais tempo em cena, Burt Reynolds tem presença marcante como o centrado Jack Horner, o cérebro que faz toda aquela engrenagem funcionar e que sonha em realizar um filme pornográfico significante, mas que tem dificuldade para compreender os caminhos que a indústria seguiria após tantos anos de sucesso. Quase sempre ao seu lado, Julianne Moore dá vida a doce e sensual Amber com muita competência, comovendo a plateia quando assume sua verdadeira identidade e demonstra o quanto Maggie sofre por não poder ver seu filho, especialmente na cena da audiência que culmina em seu choro devastador. Tanto ela quanto a Patinadora vivida por Heather Graham são pessoas carentes que encontram consolo uma na outra, mas Amber é mais complexa, exalando este lado terno e maternal com a mesma naturalidade com que lida com o vício em cocaína e o sexo profissional. E no centro de todo este turbilhão está Mark Wahlberg, que constrói o astro Dirk com precisão, passando do garoto simpático e carismático que conquista as pessoas em volta para um egocêntrico e nojento superstar de maneira convincente.

Centrado Jack HornerDoce e sensual AmberAstro DirkNum momento brilhante, Anderson expõe a decadência geral daquelas pessoas através de duas ações paralelas que dialogam entre si, com Jack e a Patinadora espancando um homem na rua exatamente da mesma forma que um grupo de jovens faz com Dirk, como se fosse um acerto de contas entre os pilares da discussão que levou a destruição da bem sucedida parceria entre eles – um momento, aliás, que exemplifica bem a violência gráfica que permeia a narrativa. Além disso, o diretor também brinda a plateia com cenas extremamente tensas, como o assalto à loja de Donut´s e especialmente a angustiante negociação na casa de um traficante, na qual a música alta, os explosivos e os próprios diálogos deixam personagens e plateia com os nervos à flor da pele. E finalmente, a conversa de Dirk com o espelho exatamente como fez Jake La Motta em “Touro Indomável” faz uma referência óbvia à outra trajetória de ascensão e queda.

Jack e a Patinadora espancando um homemGrupo de jovens agride DirkAssalto à loja de Donut´sApós tantas menções ao órgão sexual do garoto, Paul Thomas Anderson finalmente revela a razão de seu sucesso naquela indústria, numa cena explícita que poderia soar gratuita, mas que neste caso – com o perdão do trocadilho – se encaixa perfeitamente à narrativa. Mas se a superficialidade é algo inerente às produções pornográficas, “Boogie Nights” tem muito mais a dizer do que sua embalagem chamativa faz parecer, trazendo reflexões a respeito de questões delicadas como a dependência química e o abuso de menores, além de tratar os excessos dos personagens e suas consequências de maneira ambígua.

Se por um lado temos a maneira preconceituosa como a sociedade vê aquele mundo na audiência de Maggie e na tentativa frustrada de conseguir crédito para abrir uma loja de aparelhos de som de um ator pornô (Don Cheadle), por outro vemos como aquela vida de excessos pode realmente ser muito prejudicial – e o momento mais emblemático neste sentido é quando Maggie é acusada em juízo de usar drogas e prontamente nega, sabendo que a verdade neste caso só a afastaria ainda mais do filho. É como se “Boogie Nights” erguesse um painel com os prós (glamour, dinheiro, carrões, sexo fácil, festas) e contras (baixa escolaridade, preconceito, afastamento da família, dificuldade para sair do ramo, vício em drogas) deste complexo e desconhecido universo.

Angustiante negociação na casa de um traficanteTentativa frustrada de conseguir créditoMaggie é acusada em juízo de usar drogasClaramente influenciado por cineastas geniais como Martins Scorsese (no aspecto visual) e Robert Altman (na estrutura narrativa), Paul Thomas Anderson fincou de vez o pé na indústria de Hollywood com o belíssimo trabalho feito em “Boogie Nights”, demonstrando capacidade para conduzir um grande elenco e extrair excelentes atuações de praticamente todos eles. O resultado é um filme simultaneamente delicioso e sombrio, que aborda um segmento polêmico da indústria sem jamais soar panfletário ou careta, mas que nem por isso esconde os riscos que oferece para aqueles que decidem se aventurar nele.

Boogie Nights – Prazer sem Limites foto 2Texto publicado em 09 de Junho de 2013 por Roberto Siqueira