CIDADE DOS ANJOS (1998)

(City of Angels)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #183

Dirigido por Brad Silberling.

Elenco: Nicolas Cage, Meg Ryan, Dennis Franz, Andre Braugher, Colm Feore, Rhonda Dotson, Sarah Dampf, Joanna Merlin, Robin Bartlett e Nigel Gibbs.

Roteiro: Dana Stevens, baseado em roteiro de Wim Wenders, Peter Handke e Richard Reitinger para o filme “Asas do Desejo / Der Himmel über Berlin.

Produção: Charles Roven e Dawn Steel.

Cidade dos Anjos[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Versão americana inspirada na obra-prima alemã “Asas do Desejo”, “Cidade dos Anjos” não consegue tocar o espectador com a mesma sensibilidade do original. No entanto, avaliar o filme de Brad Silberling sob este prisma seria injusto, já que, mesmo trabalhando dentro do modelo tradicional de Hollywood, o diretor consegue um excelente resultado, conquistando o espectador através da beleza de suas imagens e da força da narrativa. Se não sentimos o drama do protagonista com a mesma intensidade, também não podemos dizer que não somos envolvidos pela trajetória dele.

Como dito, a roteirista Dana Stevens inspirou-se no trabalho de Wim Wenders, Peter Handke e Richard Reitinger em “Asas do Desejo” (“Der Himmel über Berlin”, em alemão) para narrar à história de Seth (Nicolas Cage), um anjo enviado para ajudar aqueles que estão prestes a morrer que acaba se apaixonando por Maggie (Meg Ryan), uma cirurgiã centrada e racional que passa a questionar o próprio trabalho após perder um paciente numa cirurgia. Na medida em que Maggie abre espaço para novas interpretações sobre a vida e a morte, Seth sente que pode se aproximar dela e abre caminho para que um improvável relacionamento se concretize.

Estabelecendo desde o início a natureza angelical de seu protagonista, o diretor Brad Silberling faz questão de nos apresentar também aos benefícios daquela condição especial, trazendo Seth e seu amigo Cassiel (Andre Braugher, em boa atuação) sentados em cima de uma placa admirando o visual e falando sobre as coisas que eles não conseguem sentir. Assim, desde cedo à narrativa já evidencia o dilema que atormentará Seth: manter-se na privilegiada condição de anjo ou entregar-se aos prazeres e perigos da vida humana. Obviamente, nem o protagonista nem o espectador sabem que ele poderá ter esta escolha, já que somente depois que o divertido Nathaniel Messinger entra em cena é que esta alternativa será apresentada ao personagem. Completamente à vontade no papel, Dennis Franz interpreta Messinger com competência, conferindo graça ao anjo glutão que decidiu deixar a eternidade para trás para sentir os encantos e as dores da vida humana, servindo também como uma espécie de guia espiritual de Seth.

Seth e seu amigo CassielDivertido Nathaniel MessingerAnjo glutãoPara ampliar esta experiência sensorial tão desejada por Seth, Silberling insere planos que realçam as atividades corriqueiras que tornam a nossa condição humana tão especial. Assim, prazeres simples como comer uma pera ou sentir o toque de outra pessoa ganham uma nova dimensão na câmera do diretor e tornam-se objetos de desejo para Seth, que revela sua curiosidade num diálogo com o amigo Cassiel e em seu fascínio diante da habilidade do escritor Ernest Hemingway em descrever sensações que ele jamais pôde sentir. Ele queria sentir o vento, sentir o mar, sentir a dor, sentir o calor… Enfim, Seth queria sentir.

Através de lindos travellings que vagam pela cidade acompanhando pessoas indo para o trabalho, passeando e até mesmo a polícia atuando, o diretor realça a vida acontecendo naturalmente enquanto os anjos perambulam pelo local. Auxiliado pela fotografia naturalista de John Seale, o diretor evidencia o contraste entre o realismo do ambiente hospitalar e o encanto de instantes deslumbrantes como quando os anjos se reúnem para acompanhar o pôr do sol e as lindas sequências em que eles sentam em prédios ou objetos altos para olhar a cidade, nos presenteando com planos plasticamente belíssimos. Da mesma forma, o diretor trabalha bem na construção da aura sobrenatural que ronda os anjos, especialmente em planos que trazem todos olhando para o mesmo lugar, como quando Seth e Maggie deixam a Biblioteca juntos pela primeira vez. Esta sensação é reforçada ainda pela ousada escolha da figurinista Shay Cunliffe, que subverte o clichê e traz os anjos vestidos de preto ao invés do clássico branco.

Comer uma peraAnjos se reúnem para acompanhar o pôr do solTodos olhando para o mesmo lugarColaborando no contraste entre o realismo do hospital e a aura mágica que ronda os anjos, a trilha sonora de Gabriel Yared traz composições instrumentais dissonantes, intercaladas com belas canções como a linda “Angel” e o mega sucesso “Iris”, do grupo The Goo Goo Dolls. Assim, Silberling e sua equipe conseguem criar a atmosfera desejada em “Cidade dos Anjos”, fisgando o espectador pra dentro de uma narrativa clássica sobre o amor impossível. Além disso, a evolução lenta do romance ajuda a desenvolver melhor os personagens e seus dilemas, o que é mérito também da montagem de Lynzee Klingman, que investe o tempo necessário na construção do clima que permitirá a aproximação entre Seth e Maggie.

Desta forma, Silberling pode trabalhar na construção dos personagens com calma, nos aproximando mais deles através do uso constante do close-up e criando a empatia necessária para que o espectador torça pelo sucesso do romance. Observe, por exemplo, como a tensão durante o momento crítico da primeira cirurgia, a tristeza da família após Maggie dar a notícia do falecimento do paciente e a reação sensível dela soam extremamente realistas, tocando o espectador e fazendo com que os questionamentos da cirurgiã soem convincentes. Ao ver aquela médica numa posição de fragilidade e angústia, a empatia da plateia é quase imediata. Obviamente, o talento de Meg Ryan é essencial nesta composição da personagem. Cada vez menos confiante e questionando sua visão cética sobre a vida, Maggie lentamente cede espaço para o conflito interno que a atormenta, abrindo espaço também para a aproximação de Seth.

Momento crítico da primeira cirurgiaFragilidade e angústiaExpressão tranquilaAdotando uma expressão tranquila, Nicolas Cage transmite a paz que se espera de um anjo, numa atuação minimalista e bastante contida que foge de seu estilo tradicional e prova sua qualidade como ator. Através da expressão corporal e da voz contida, Cage ilustra muito bem a aflição de Seth diante da impossibilidade de viver aquele amor, assim como sua dúvida após descobrir que pode mudar sua condição. Captando muito bem as expressões dos atores, Silberling aproveita também para rechear a narrativa com planos simbólicos, como quando Maggie beija o namorado em sua casa e o diretor movimenta a câmera em direção a Seth, que se encontra atrás das grades da cozinha dela, num plano que ilustra o instante em que ele percebe que está apaixonado e, portanto, “aprisionado por ela”.

Em certo momento, o dilema de Seth parece simples de ser resolvido, mas basta refletir um pouco a respeito para compreender a complexidade daquela mudança drástica, já que ele deixaria para trás o conforto e a segurança de ser anjo para arriscar-se numa vida completamente nova, desconhecida e, o que é pior, finita. E é justamente neste sacrifício que reside à força do romance de “Cidade dos Anjos”. Quando Seth finalmente cria coragem e revela a verdade pra ela, chegamos ao esperado conflito entre o casal. Embaladas pela trilha melancólica, as cenas seguintes afundam os personagens na noite chuvosa, num visual obscuro que reflete a tristeza de ambos. E então, Maggie afirma que não quer mais ver Seth, concretizando o clichê do conflito e encaminhando a narrativa para o esperado final feliz. A partir daí, já esperamos que Seth desista da vida de anjo e corra atrás dela, o que realmente acontece, numa cena linda visualmente em que ele literalmente “cai” para tornar-se humano.

Atrás das gradesNoite chuvosaEle literalmente caiApós passar pelas esperadas dificuldades de alguém que acaba de ter contato com a sensibilidade humana, Seth finalmente reencontra Maggie e começa a viver o tão idealizado romance – e a empolgação de Cage, agora claramente mais agitado e vibrante, ilustra muito bem a excitação do personagem neste novo cenário. E é justamente aí que “Cidade dos Sonhos” começa a fugir do clichê básico do gênero, apesar da tradicional cena de sexo na frente da lareira. Em um dos elegantes travellings de Silberling, acompanhamos Maggie pedalando sua bicicleta pelas montanhas feliz da vida, acompanhada por uma trilha sonora suave e em seguida pela câmera lenta que torna a sequência ainda mais bela. Só que, de repente, a expressão no rosto dela indica que algo saiu errado e o caminhão que surge à sua frente traz o acidente que levará Maggie à morte e a plateia ao choque. O final feliz está descartado e o plongè que diminui o destruído Seth diante do túmulo dela, a chuva e a trilha triste só realçam a tragédia.

Tradicional cena na frente da lareiraMaggie pedalando pelas montanhasExpressão no rosto dela indica que algo saiu erradoPra terminar de arrancar as últimas gotas de lágrima de parte da plateia, Seth afirma que “preferia tocá-la, beijá-la e senti-la apenas uma vez do que passar a eternidade sem fazê-lo”. E se o espectador concordar com ele, o sucesso de “Cidade dos Anjos” está garantido.

Apesar de seguir clichês básicos dos romances, Silberling tem coragem de fugir do esperado final feliz e apostar num desfecho ironicamente trágico, que nos faz refletir sobre a efemeridade da vida humana e a nossa impotência diante dela. Enriquecido ainda por atuações competentes e por um visual marcante, “Cidade dos Anjos” confirma-se como um romance eficiente e belo.

Cidade dos Anjos foto 2Texto publicado em 03 de Fevereiro de 2014 por Roberto Siqueira

AMOR ALÉM DA VIDA (1998)

(What Dreams May Come)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #182

Dirigido por Vincent Ward.

Elenco: Robin Williams, Cuba Gooding Jr., Max von Sydow, Annabella Sciorra, Jessica Brooks Grant, Josh Paddock e Rosalind Chao.

Roteiro: Ronald Bass, baseado em livro de Richard Matheson.

Produção: Barnet Bain e Stephen Simon.

Amor Além da Vida[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em certo momento de “Amor Além da Vida”, a esposa do protagonista questiona como ele poderia ser capaz de perdoá-la após ter contribuído para a morte dos filhos, a dele próprio e ainda ter se suicidado. Sua resposta: “Porque você é uma pessoa tão maravilhosa que me faz querer trocar o céu pelo inferno só para estar ao seu lado”. Este tipo de frase perigosa, que caminha no limite entre o brega e o poderoso, pode definir bem o longa de Vincent Ward. Durante boa parte do tempo, o diretor explora muito bem o potencial dramático da história, nos levando por um caminho já conhecido, é verdade, mas enriquecido por um visual belíssimo e por momentos interessantes como este.

Escrito por Ronald Bass, baseado em livro de Richard Matheson, “Amor Além da Vida” tem início quando Chris Nielsen (Robin Williams) conhece a bela Annie (Annabella Sciorra) num lago europeu. Felizes, eles se casam e constituem família, até que um terrível acidente tire a vida de seus dois filhos. Após superar a fase mais traumática, o casal reencontra a alegria de viver, mas outro acidente automobilístico provoca a morte de Chris, deixando Annie solitária e profundamente deprimida. Enquanto Chris tenta compreender e se adaptar ao paraíso, Annie comete suicídio. Impossibilitado de ver a esposa, Chris decide então tentar resgatá-la ao lado do amigo Albert (Cuba Gooding Jr.) e de um misterioso guia (Max von Sydow), que insiste em alertá-lo para o perigo da missão.

A vida após a morte sempre representou um mistério e um território perigoso para os roteiristas, já que é praticamente impossível não encontrar furos em quase todas as teorias a respeito e, o que é pior, quase sempre o longa pode encontrar rejeição por parte daqueles que não compartilham da mesma visão sobre o tema. Assim, tanto Ronald Bass como o diretor Vincent Ward são inteligentes o bastante para focarem muito mais no relacionamento do casal protagonista em detrimento de mirabolantes explicações que buscassem tornar aquele universo mais verossímil. Trabalhando na dinâmica do relacionamento entre Chris e Annie desde o início, o diretor busca criar empatia entre o casal e a plateia, o que é essencial para que a narrativa funcione dramaticamente.

Obviamente, a boa química existente entre Robin Williams e Annabella Sciorra colabora bastante neste sentido, já que o espectador acredita no amor dos personagens e, consequentemente, na dor deles quando as tragédias surgem em suas vidas. Ainda assim, inicialmente temos a sensação de que a perda dos filhos não interferiu tanto na relação deles, já que um salto de quatro anos na narrativa não nos permite acompanhar a fase mais traumática pós-acidente, que seria revelada somente depois através do uso de flashbacks. É somente após a morte de Chris que sentimos o peso da dor que paira sobre Annie – e só então somos apresentados ao lado depressivo da moça, até então escondido sob aquela carcaça de felicidade.

Lado depressivo da moçaEncantadora garotaCarismático amigoOscilando bem entre a encantadora garota que surge no lago e a sofrida mulher que não consegue superar a perda dos filhos, Sciorra oferece uma performance sensível, que transmite muito bem os fortes sentimentos da personagem e lhe garante destaque mesmo num elenco recheado com nomes importantes como Cuba Gooding Jr., que mesmo com seus costumeiros momentos de exagero se sai bem como o carismático amigo que recepciona Chris no paraíso, além é claro de Max von Sydow, que tem uma marcante participação na sombria sequência da busca por Annie.

No entanto, o destaque do elenco fica mesmo para Robin Williams, que também oferece uma atuação sensível e poderosa, transitando entre o encantamento na chegada ao paraíso e a desilusão após saber do suicídio da esposa. Expressivo, ele transmite com competência a dor do personagem no belo discurso sobre o homem que seu filho poderia ter sido, assim como é muito convincente a sua devoção diante da esposa na sequência em que ele tenta resgatá-la no inferno. O tempo inteiro, nós acreditarmos em seu sofrimento sem jamais temos a sensação de que ele desistirá de Annie, e isto é mérito do ator.

Encantamento na chegada ao paraísoDesilusão após saber do suicídio da esposaDiscurso sobre o homem que seu filho poderia ter sidoEmocionante também é o seu reencontro com a filha Marie que, por outro lado, serve também para revelar um importante artifício narrativo que esvazia a próxima revelação da trama. Assim, quando Chris começa a refletir sobre as próprias palavras e recorda que só seria capaz de enfrentar o inferno com determinada pessoa ao lado, fica evidente que Albert na verdade é o seu filho – ao que parece, nem assim o diretor confia na inteligência do espectador, já que ele faz questão de inserir planos rápidos do rosto de Cuba Gooding Jr. instantes antes da “revelação”. Mesmo previsível, o momento tem seu impacto devido à carga emocional naturalmente envolvida no reencontro entre pai e filho.

Alternando entre o presente no paraíso e o passado que revela detalhes importantes da vida do protagonista, a montagem de David Brenner e Maysie Hoy também transita entre o pós-vida de Chris e a vida terrena de sua esposa até o instante em que o suicídio dela é anunciado e altera radicalmente o tom da narrativa, numa mudança que terá reflexo quase que imediato também na belíssima fotografia do português Eduardo Serra, que passa a adotar tons obscuros que transformam os ótimos cenários concebidos pelo design de produção de Eugenio Zanetti em locais extremamente sombrios.

Presente no paraísoVida terrena de sua esposaLocais extremamente sombriosInicialmente buscando realçar as lindas paisagens do colorido paraíso, a fotografia oscila de acordo com o andamento da narrativa, transmitindo através do visual os sentimentos pretendidos pelo diretor. Observe, por exemplo, como a cor roxa, normalmente associada ao misticismo ou vista como símbolo de espiritualidade, magia e mistério, predomina em todas as cenas após a morte de Chris, simbolizando sua luta para superar o trauma e encontrar a paz (para os católicos, o roxo tem o significado de melancolia e penitência). Apoiado pela ótima fotografia e pelos excepcionais efeitos visuais que dão vida aos quadros que fizeram parte da história do casal, o diretor trabalha muito bem na composição dos planos, criando um filme visualmente belíssimo.

Esta marcante construção visual das cenas gera imagens que ficam na memória mesmo após o término do longa, como o terrível mar de rostos no inferno e a bagunçada e obscura casa em que Chris reencontra Annie, o que só reforça o ótimo trabalho de design de produção de Zanetti. A cena na casa, aliás, também escancara o eficiente design de som que nos ambienta ao paraíso e ao inferno com precisão. Observe, por exemplo, como os pequenos barulhos são ampliados nesta cena, como o som de uma porta batendo ou o movimento corporal dos personagens, numa distorção da realidade que torna aquele local ainda mais sombrio e amplia a sensação de incômodo no espectador. E finalmente, vale mencionar a bela trilha sonora de Michael Kamen, que surge melancólica quando deve ser, mas também evocativa quando o momento pede por isso.

Lindas paisagensCor roxaTerrível mar de rostosÉ uma pena, portanto, que, após nos levar por cenários tão deslumbrantes e nos envolver completamente, o desfecho de “Amor além da vida” seja tão previsível e clichê, seguindo o mesmo caminho já percorrido por tantos e tantos filmes semelhantes anteriormente. Mas ainda que sua história de amor não fuja do convencional, a maneira como ela é contada, seu visual arrebatador, as boas atuações e a direção eficiente garantem um bom resultado.

Assim, “Amor Além da Vida” está longe de ser aquele quadro intrigante que nos permite extrair inúmeros significados. Mas, enquanto passamos por ele, não podemos conter o impulso de ao menos dar uma olhadinha, tamanha a sua beleza plástica. E quando vamos embora, seguimos sem refletir a respeito, mas a beleza daquelas imagens permanece um bom tempo conosco.

Amor Além da Vida foto 2Texto publicado em 27 de Janeiro de 2014 por Roberto Siqueira

ALÉM DA LINHA VERMELHA (1998)

(The Thin Red Line)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #181

Dirigido por Terrence Malick.

Elenco: Sean Penn, Adrien Brody, Jim Caviezel, George Clooney, John Cusack, Woody Harrelson, Ben Chaplin, Jared Leto, Elias Koteas, John Travolta, Nick Nolte, John C. Reilly, Miranda Otto, Nick Stahl, Thomas Jane, Will Wallace, John Savage, Mark Boone Junior, Tim Blake Nelson e Dash Mihok.

Roteiro: Terrence Malick, baseado em livro de James Jones.

Produção: Robert Michael Geisler, Grant Hill e John Roberdeau.

Além da Linha Vermelha[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Como reunir num mesmo elenco em papéis que variam do protagonista com mais tempo de tela a mais rápida das participações nomes na época já estabelecidos como Sean Penn, George Clooney, Woody Harrelson, John Travolta, John Cusack, John C. Reilly e Nick Nolte, incluindo ainda promessas que se confirmariam depois como Adrien Brody e Jim Caviezel, entre outros? A resposta atende pelo nome de Terrence Malick, um dos diretores mais reclusos e low profile da história de Hollywood, mas também dono de uma filmografia muito interessante e de um respeito ímpar no meio cinematográfico. Assim, astros como Clooney e Travolta não pensaram duas vezes antes de abrirem mão de seus cachês milionários para terem pequenas participações neste belíssimo “Além da Linha Vermelha”, um drama que remete a questões existencialistas e filosóficas no meio do caos da guerra.

Aliás, chamar “Além da Linha Vermelha” de um filme de guerra é extremamente reducionista. Estabelecendo o tom poético que acompanhará a narrativa logo na abertura através da fotografia de John Toll que realça os raios solares que vazam pelas árvores e da trilha sonora erudita de Hans Zimmer que acompanha a sequência, Malick utiliza ao longo das quase três horas de filme diversas imagens de animais silvestres, da água dos rios e das árvores espalhadas pela ilha de Guadalcanal onde acontece o combate, numa estratégia que se confirmará até o último plano e que busca estabelecer um paralelo entre o lado selvagem da natureza e o lado selvagem do ser humano que aflora em situações como aquela – e esta opção fica ainda mais clara quando, no meio do conflito, o diretor insere um plano de um filhote de pássaro se arrastando pela lama, simbolizando a luta pela sobrevivência que marca nossa passagem por este mundo desde o dia em que nascemos.

Raios solares vazam pelas árvoresAnimais silvestresPássaro se arrastando pela lamaMas se a fotografia na maior parte do tempo realça o verde da região e aposta em cenas diurnas e bastante ensolaradas, alguns momentos pontuais das batalhas surgem dominados pela fumaça que emana das chamas em meio aquela mistura de lama e sangue, criando um visual acinzentado e melancólico que ilustra o sentimento de aflição dos personagens. Por outro lado, Toll utiliza cores quentes quando Bell (Ben Chaplin) relembra os momentos ao lado da esposa distante (Miranda Otto), simbolizando o conforto que este sentia ao lembrar-se do lar e da companheira – o que torna a carta fria enviada por ela ainda mais impactante, num momento triste em que a câmera distante de Malick respeita o personagem, ao mesmo tempo em que evidencia através do som e das reações dele como cada palavra soa como uma facada naquele homem destroçado.

Fumaça que emana das chamasBell relembra os momentos ao lado da esposaCarta fria enviada por elaEsbanjando elegância, Malick conduz a narrativa sem pressa, priorizando a parte estética sem deixar de trabalhar na dinâmica entre os personagens. Observe, por exemplo, como sua câmera passeia pelos soldados no navio antes do desembarque na ilha, o que ajuda a nos familiarizar com eles – obviamente, a escolha de atores famosos colabora ainda mais neste sentido e permite que o diretor ganhe algum tempo. Para aumentar esta identificação entre o espectador e os personagens, Malick emprega a câmera subjetiva em vários instantes, nos colocando na mesma posição dos soldados, especialmente durante os conflitos com os japoneses em que somos jogados pra dentro da mata que cobre os montes. Da mesma forma, a câmera agitada que acompanha a perseguição dentro do rio já no ato final transmite muito bem o senso de urgência que o momento exige.

Câmera passeia pelos soldados no navioCâmera subjetivaPerseguição dentro do rioNo entanto, Malick não se apoia apenas nas imagens para criar uma narrativa envolvente, explorando também o potencial do som para aumentar o realismo das cenas. Assim, o excepcional design de som nos permite ouvir cada pequeno detalhe, desde as fortes ondas no mar, passando pelo barulho dos barcos que levam os soldados à ilha e, especialmente nos conflitos, nos permite distinguir as bombas explodindo, os tiros e os gritos agonizantes dos combatentes. Ao ver o resultado violento daquelas ações e ouvir os gritos de dor dos soldados que agonizam e morrem, temos o horror da guerra em seu estado mais cru. Repare também como a respiração ofegante deles durante a subida do morro confere imenso realismo à narrativa, demonstrando simultaneamente o cansaço e o medo que sentem. Com o auxilio do design de som, as atuações convincentes que tornam as feridas mais doloridas e sua câmera agitada, Malick torna as sequências de combate extremamente realistas, o que faz cenas como o primeiro embate contra os japoneses e o ataque do pelotão ao bunker soarem ainda mais tensas – e a aflição palpável no rosto do coronel Staros (Elias Koteas) durante sua oração na noite anterior ao ataque na colina já nos alertava para a crueldade do que estava por vir.

Contando ainda com os figurinos de Margot Wilson e o design de produção de Jack Fisk para nos ambientar ao local através dos uniformes dos soldados americanos e japoneses, das poucas roupas e simples cabanas dos nativos, dos pesados armamentos e dos imponentes navios, Malick cria um cenário assustador e realista que confere peso aos pensamentos e reflexões dos personagens. Da mesma forma, o ritmo contemplativo empregado em boa parte do tempo pelos montadores Leslie Jones, Saar Klein e Billy Weber ajuda, por contraste, a estabelecer o perigo eminente que paira sobre um ambiente de guerra através de instantes de interrupção abrupta, como no primeiro ataque dos japoneses. Mas, na maior parte do tempo, os longos planos sem cortes e o ritmo lento reforçam o tom poético pretendido por Malick.

Uniformes dos soldados americanosPoucas roupas e simples cabanas dos nativosImponentes naviosVariando entre papéis de destaque e participações especiais, o fabuloso elenco de “Além da Linha Vermelha” se dá ao luxo de contar com astros como John Travolta (general Quintard) e George Clooney (capitão Charles Bosche) em papéis bem pequenos, relegando ainda atores como o ótimo John C. Reilly (sargento Storm), John Savage (sargento McCrom), Woody Harrelson (soldado Keck), Jared Leto (tenente Whyte) e Adrien Brody (soldado Fife) ao mero papel de coadjuvantes. Assim, quem ganha espaço na narrativa é Jim Caviezel, que com sua expressão quase sempre tranquila dá a sensação de que Witt apenas flutua sobre aquele ambiente hostil, observando e tentando entender tudo aquilo sem jamais se sentir parte daquele universo. Repare, por exemplo, seu sorriso contido após a morte de Keck, como se estivesse aliviado ao ver o parceiro deixando aquele mundo de sofrimento e dor. Através das reflexões dele e do soldado Bell vivido por Ben Chaplin nós podemos captar a essência da narrativa. Ambos buscam refúgio em lugares distantes daquela dura realidade e ambos veem estes refúgios serem destruídos ao longo do tempo, seja na degradação dos habitantes da aldeia melanésia ou na traição da esposa. No fim das contas, estamos todos sozinhos neste mundo.

Expressão quase sempre tranquilaSorriso contido após a morte de KeckDegradação dos habitantes da aldeia melanésiaPor outro lado, Sean Penn demonstra com a precisão costumeira a transformação do tenente Welsh, que inicialmente se posiciona ao lado do exército, mas ao longo da narrativa vai lentamente compreendendo a imbecilidade daquilo (“É tudo sobre propriedade!”, diz questionando a guerra). Ao final da jornada, enquanto o novo tenente Bosche interpretado por Clooney faz seu discurso, Welsh questiona em pensamento tudo que ouve da boca do novo líder, consolidando sua transformação após tudo que viu. Já o autoritário Tenente-coronel Tall interpretado de maneira explosiva por Nick Nolte enxerga no exército a sua chance de obter algum destaque (“Esta é a minha guerra!”), dando ordens e se envolvendo pessoalmente na batalha com tamanha paixão que chega a ser comovente a sua entrega. Ainda que discordemos de seu pensamento, jamais deixamos de acreditar em sua convicção, já que o personagem parece mesmo acreditar nos absurdos que diz.

Transformação do tenente WelshWelsh questiona em pensamento tudo que ouveAutoritário Tenente-coronel TallNem por isso, os outros soldados são obrigados a aceitar suas imposições, ainda que nem todos tenham a coragem do coronel Staros de externar seu pensamento. Conferindo humanidade ao coronel, Elias Koteas demonstra firmeza quando sente que é necessário ao não obedecer à ordem de ataque frontal que poderia dizimar seu pelotão. Já o soldado Gaff interpretado por John Cusack não chega a se pronunciar, mas seu olhar desafiador no diálogo pós conquista do Bunker evidencia que ele não concorda com a ideologia de seu líder.

Estes duelos ideológicos ajudam a construir a principal mensagem de “Além da Linha Vermelha”, quase sempre opondo visões distintas sobre o conflito, como no primeiro diálogo entre Witt e Welsh e na última conversa entre Tall e Staros, que escancara os estilos diferentes de liderança deles. Mas apesar dos diálogos terem importância, são mesmo os pensamentos dos personagens que nos fazem refletir a respeito. Normalmente acompanhadas por uma trilha sonora suave, as reflexões de Witt, Bell, Welsh e outros soldados abordam questões filosóficas e existenciais (De onde vem este demônio interior? De onde vem o amor?), remetendo a um tema central na filmografia de Malick: o questionamento sobre a existência ou não de um ser superior. Existiria uma divindade capaz de controlar tudo que ocorre em nossa natureza implacável ou estamos mesmo solitários neste mundo, jogados a mercê de nossos destinos num lugar hostil em que precisamos lutar constantemente para sobreviver?

Coronel StarosOlhar desafiadorAtaque à aldeia dos soldados japonesesSimultaneamente, Malick realça a reflexão sobre o horror da guerra em momentos como o ataque à aldeia dos soldados japoneses, uma sequência cruel que se transforma em poesia através da câmera lenta do diretor, das reações dos soldados e da belíssima trilha sonora que a embala. Mesmo nos colocando dentro de um cenário terrível de guerra, ele consegue criar poesia. É a degradação do coletivo e do indivíduo. Ainda que lute ao lado de centenas ou milhares de outros semelhantes, o ser humano busca mesmo é sentir-se bem consigo mesmo. Ele busca a sua paz interior.

Apostando numa ousada abordagem contemplativa e introspectiva, Terrence Malick realiza um estudo sensível sobre os efeitos da guerra no ser humano, o que por si só já seria suficiente para tornar este “Além da Linha Vermelha” num filme minimamente interessante. O elenco homogêneo, a excepcional parte técnica e as reflexões que a narrativa propõe, porém, deixam claro que ele queria muito mais do que isto. E conseguiu.

Além da Linha Vermelha foto 2Texto publicado em 19 de Janeiro de 2014 por Roberto Siqueira

VIDAS EM JOGO (1997)

(The Game)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #180

Dirigido por David Fincher.

Elenco: Michael Douglas, Sean Penn, Deborah Kara Unger, James Rebhorn, Peter Donat, Carroll Baker, Anna Katarina, Armin Mueller-Stahl e Spike Jonze.

Roteiro: John D. Brancato e Michael Ferris.

Produção: Ceán Chaffin e Steve Golin.

Vidas em Jogo[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Somente um diretor talentoso como David Fincher pode transformar a implausível premissa deste “Vidas em Jogo” num thriller tão interessante. Não concorda? Pois então pare e pense por alguns minutos na complexidade do jogo criado pela empresa CRS e nas inúmeras possibilidades de rumos que a história poderia tomar dependendo das ações do “alvo” e você perceberá que nem o melhor planejamento do mundo poderia evitar colocar em risco toda a empreitada. Mudemos a pergunta então: pode um roteiro com um potencial tão grande para o fracasso se transformar num filme interessante? Nas mãos de um grande diretor a resposta sempre será: “sim”.

Escrito por John D. Brancato e Michael Ferris, “Vidas em Jogo” nos apresenta ao milionário Nicholas Van Orton (Michael Douglas), um acionista bem sucedido que ganha um inusitado presente de aniversário de seu irmão Conrad (Sean Penn): um cartão com os dados de contato de uma empresa especializada em entretenimento. Desconfiado, ele comparece ao local, preenche todos os formulários e realiza os testes físicos e psíquicos, mas sua inscrição é rejeitada. No entanto, após esbarrar com a garçonete Christine (Deborah Kara Unger) em seu restaurante favorito, coisas estranhas começam a acontecer e ele repentinamente percebe que está sendo envolvido em algo muito maior.

Bastam poucos minutos para que o espectador tenha acesso a algumas informações essenciais a respeito de Nicholas Van Orton. Seu escritório milimetricamente planejado, sua imponente casa (design de produção de Jeffrey Beecroft) e suas roupas finas e elegantes (figurinos de Michael Kaplan) evidenciam que estamos diante de alguém muito rico, enquanto as lembranças de sua infância e uma rápida conversa com a ex-esposa escancaram sua fragilidade emocional. Assim, não demora muito para que o vulnerável protagonista dispa-se da roupa de homem bem sucedido e apresente sua faceta frágil e humana, conquistando a empatia da plateia tão fundamental para o sucesso da narrativa.

Vivendo uma versão menos gananciosa e mais contida de seu personagem mais famoso no cinema, Michael Douglas novamente encarna um acionista bem sucedido, com a diferença de que aqui seu Nicholas Van Orton (ou Nick) é também um personagem claramente afetado por um forte trauma da infância: a perda do pai. Falando quase sempre num tom de voz baixo, Nick lentamente vai perdendo o controle da situação e a oscilação em seu tom de voz indica isto com precisão. Conforme a narrativa avança, o acionista se transforma numa pessoa constantemente tensa, que deixa sua zona de conforto para enfrentar situações inusitadas e extremamente perigosas que o levam ao limite extremo – e o ator demonstra tudo isto muito bem em seu semblante cada vez mais pesado. Irmãos muito diferentes, Nick preza pela discrição e pelo bom senso, enquanto o bon vivant Conrad não hesita em chamar a atenção de um restaurante lotado apenas porque deseja fumar. Mesmo surgindo poucas vezes em cena, Sean Penn tem participação fundamental em “Vidas em Jogo”, soando convincente especialmente quando seu Conrad mostra-se totalmente desesperado numa conversa no carro do irmão, enganando não apenas o protagonista como também o próprio espectador.

Acionista bem sucedidoSemblante cada vez mais pesadoDesesperadoAinda mais importante é a competente participação de Deborah Kara Unger como Christine, a misteriosa garçonete demitida que acompanha boa parte da trajetória do protagonista e que, em diversos momentos, direciona a linha de raciocínio dele e da plateia. Soando simultaneamente convincente e misteriosa, Unger se sai muito bem num papel difícil que poderia arruinar o projeto nas mãos de alguém menos talentosa, já que a dúvida que sua personagem gera no espectador é fundamental para o sucesso da narrativa. Assim, quando ela diz rispidamente para Nick acordar e perceber que foi pego num golpe, nós acreditamos nela – e o chá seguido pela notícia das contas zeradas nos faz cair de vez na armadilha preparada pela CRS. Encarnando um funcionário da CRS de maneira convincente, James Rebhorn é outro que mantém a aura de mistério que ronda a narrativa com precisão.

O engenhoso roteiro envolve praticamente todos os personagens numa aura misteriosa que torna tudo muito suspeito, chegando a pecar pelo excesso de planejamento, o que não prejudica totalmente a qualidade do filme, mas torna alguns momentos bastante implausíveis, como quando um taxi é atirado no rio com o protagonista dentro. E se ele não se lembrasse da maçaneta ou sofresse uma grave lesão na queda? Existiam mergulhadores de plantão, mas valeria o risco? Momentos como este existem em profusão em “Vidas em Jogo”, o que pode irritar espectadores mais céticos. Se pensarmos friamente, seria necessário envolver praticamente a cidade inteira para que o tal jogo funcionasse corretamente; e, o que é ainda mais complicado, seria necessário antever praticamente todos os passos de Nick e preparar-se para eventuais mudanças de rota. Como evitar o desastre então? A resposta está na maneira como a narrativa é conduzida.

Convincente e misteriosaAura de mistérioTaxi é atirado no rioEmpregando seus costumeiros planos simétricos e movimentos elegantes de câmera, David Fincher parece bem mais contido e discreto na maior parte do tempo, o que não impede que ele altere o ritmo drasticamente quando necessário, como na empolgante fuga de Nick e Christine da CRS em que um cachorro quase os alcança e nas eletrizantes perseguições noturnas pelas ruas da cidade. Obviamente, o visual obscuro obtido pela fotografia de Harris Savides colabora bastante para ampliar a tensão nestes instantes. Utilizando imagens desgastadas de arquivo para revelar as trágicas lembranças da infância de Nick, Savides prioriza cores sóbrias durante a maior parte do tempo, destacando-se pelo excelente uso das sombras nas predominantes cenas noturnas para realçar a aura de mistério da narrativa, reforçada ainda pela trilha sonora dissonante de Howard Shore.

Empolgante fuga de Nick e ChristineVisual obscuroTrágicas lembrançasContando ainda com a montagem dinâmica de James Haygood para conferir um ritmo crescente que ilustra a mente cada vez mais conturbada do protagonista, Fincher conduz a narrativa com destreza, construindo um suspense eficiente através de escolhas inteligentes. Observe, por exemplo, como o sorriso discreto de um dos homens no bar indica que Nick havia sido fisgado pelo jogo, funcionando também como uma discreta dica para o espectador. A conversa com o apresentador do telejornal logo em seguida confirma que ele já estava envolvido no jogo – e neste instante, o espectador também já está completamente envolvido pela narrativa. A estratégia é clara. Fincher nos coloca sempre na mesma posição do protagonista. O tempo inteiro, nós temos acesso às mesmas informações que ele e compartilhamos das mesmas dúvidas e angústias do personagem, numa escolha, aliás, que não é comum em suspenses. Normalmente, o suspense é potencializado quando sabemos algo que o personagem não sabe, mas neste caso, nós não temos nenhuma informação além das que Nick já tem. Assim, somos forçados a montar aquele quebra cabeça sob a perspectiva dele, o que é essencial para que “Vidas em Jogo” funcione.

Após cairmos em inúmeras armadilhas e nos envolvermos completamente com o drama de Nick, somos levados a chocante sequência final no prédio da CRS, na qual a tragédia completa parece se configurar, mas uma reviravolta interessante revela o grande truque por trás das cortinas e garante o final feliz. O problema é que este final, apesar de impactante, soa um tanto implausível quando passamos a pensar mais a respeito. Ainda assim, graças ao ótimo trabalho de Fincher e do seu elenco, o longa funciona bem.

Sorriso discretoConversa com o apresentador do telejornalChocante sequência finalConfirmando a teoria de que um bom diretor pode salvar um roteiro por mais falhas que este tenha, David Fincher fez deste “Vidas em Jogo” um thriller empolgante, capaz de manter o espectador tenso na maior parte do tempo, ainda que, quando repensamos a narrativa de uma maneira mais lógica, esta tensão possa se transformar em questionamentos e gerar certa frustração.

Vidas em Jogo foto 2Texto publicado em 25 de Novembro de 2013 por Roberto Siqueira

TITANIC (1997)

(Titanic)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #179

Vencedores do Oscar #1997

Dirigido por James Cameron.

Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Billy Zane, Kathy Bates, Frances Fisher, Gloria Stuart, Bill Paxton, Bernard Hill, David Warner, Victor Garber, Jonathan Hyde, Suzy Amis, Danny Nucci e Ioan Gruffudd.

Roteiro: James Cameron.

Produção: James Cameron e Jon Landau.

Titanic[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não é difícil entender as razões do sucesso avassalador de “Titanic”, superprodução grandiosa de James Cameron que alcançou números impressionantes nas bilheterias e ainda igualou o recorde de “Ben-Hur” ao levar 11 estatuetas do Oscar. Também não é tão complicado entender porque, ao longo do tempo, o filme ganhou a antipatia de parte do público e até mesmo de alguns cinéfilos, tamanha foi a sua exposição ao longo dos anos (pense, por exemplo, quantas vezes na sua vida você já ouviu tocar sua famosa música tema em algum lugar). Mas o fato é que, mesmo com seus pecadilhos aqui e ali, o longa estrelado pelos então jovens astros Leonardo DiCaprio e Kate Winslet é mesmo um grande filme, destes que merecem serem lembrados eternamente e, não à toa, conquistou seu lugar cativo na história do cinema.

Escrito pelo próprio Cameron, “Titanic” narra a história de amor entre Jack (Leonardo DiCaprio), um jovem quase nômade que ganha sua passagem numa partida de pôquer, e Rose (Kate Winslet na juventude e Gloria Stuart na velhice), a noiva do rico Cal (Billy Zane) que viaja ao lado de sua mãe (Frances Fisher) em busca de uma nova e promissora vida. Mas o destino de todos eles e dos mais de dois mil passageiros do transatlântico muda completa e tragicamente quando o imponente navio se choca com um iceberg.

Usando a busca por um artefato raro no que restou do Titanic no fundo do mar como ponto de partida, o roteiro de James Cameron nos traz o típico romance já visto inúmeras vezes anteriormente (“A Dama e o Vagabundo”, por exemplo) entre a menina rica cansada da vida aborrecida que leva e o menino pobre e cheio de vida. No entanto, Cameron sabe muito bem que no seu cinema (e no cinema de maneira geral), a forma é muito mais importante do que o conteúdo. Assim, sua preocupação não está apenas na história que será contada, mas na maneira pela qual aquela história será contada. Não que o diretor/roteirista não se preocupe com a estruturação de sua narrativa. Observe, por exemplo, como ele insere dicas que serão essenciais no clímax de “Titanic”, como a explicação técnica do naufrágio que permite ao espectador antecipar como o navio afundará (sabemos, por exemplo, que ele se partirá ao meio, o que aumenta a tensão no ato final). Repare também como a primeira conversa entre Jack e Rose faz questão de mencionar a temperatura da água, o que também será importante após o naufrágio, assim como o roteiro também tem o cuidado de mencionar a famosa frase “Nem Deus afunda o Titanic”, dando às plateias mais jovens a dimensão do tamanho daquela tragédia para a época.

Busca por um artefato raroExplicação técnica do naufrágioPrimeira conversa entre Jack e RoseTransitando com elegância do presente para o passado através dos escombros do navio que se transformam no imponente transatlântico e fazendo o caminho inverso através do olho de Winslet que de repente se transforma no de Stuart, a montagem de Conrad Buff, Richard A. Harris e Cameron é essencial para que o longa não se torne enfadonho ao longo de suas três horas de projeção (egocêntrico, Cameron faz questão de colocar seu nome, mas todo bom diretor participa do processo de montagem dos filmes). Assim, Cameron e seus montadores investem um bom tempo na construção lenta daquele romance, sedimentando a empatia pelo casal na plateia e permitindo que a narrativa respire, o que é crucial para que o espectador sinta toda a escalada dramática da tragédia com intensidade durante o segundo e terceiro atos. A partir do momento em que o espectador realmente se identifica e se importa com Rose e Jack, a tragédia também tocará a plateia com a mesma intensidade e, desde então, o sucesso de “Titanic” está garantido.

Imponente transatlânticoOlho de WinsletOlho de StuartÉ claro que existem os excessos. O escorregão dela na proa do navio, por exemplo, é desnecessário, assim como toda a sequência em que Cal persegue o casal, que culmina na cena em que eles tentam salvar um garoto e quase morrem afogados. Este melodrama todo surge também quando Jack é incriminado por roubo, o que também soa desnecessário, mas por outro lado cria o cenário para a tensa busca de Rose por ele, nos permitindo passear pelo navio enquanto ele afunda e ver alguns detalhes do processo internamente. Assim, aqueles longos corredores brancos se tornam aterrorizantes quando as luzes começam a falhar e a água começa a subir, chegando a níveis insuportáveis de tensão graças também ao design de som que cria com precisão os barulhos daquele gigante que se desfaz e à trilha sonora que emula a batida acelerada de um coração neste instante.

Cal persegue o casalLongos corredores brancosÁgua começa a subirO espetacular design de som, aliás, nos permite notar desde os pequenos movimentos nos talheres durante um jantar até o barulhento impacto da água durante o naufrágio, sendo essencial na imersão do espectador naquele ambiente. Enquanto isto, o ótimo James Horner cria uma trilha sonora grandiosa, alcançando a escala épica exigida pela história sem jamais deixar de lado o romantismo que emana da narrativa, inserindo trechos da melodia da música tema “My heart will go on” (imortalizada na voz de Celine Dion) e encontrando espaço ainda para criar variações interessantes que incluem elementos tipicamente irlandeses nas sequências que se passam na terceira classe e composições agitadas que embalam os momentos de tensão.

O trabalho técnico formidável liderado pelo perfeccionista Cameron segue com a reconstituição precisa das roupas usadas na época (figurinos de Deborah L. Scott), que servem também para diferenciar as classes sociais que embarcaram no navio, além é claro dos objetos utilizados na decoração dos ambientes e até mesmo das louças e talheres utilizados nos luxuosos jantares (design de produção de Peter Lamont). Assim, “Titanic” mostra-se um verdadeiro deleite para os olhos, um esplendor visual que ganha contornos épicos através dos planos belíssimos do transatlântico navegando pelo oceano tanto durante os dias ensolarados como sob a luz das estrelas ao anoitecer.

Reconstituição precisa das roupasDecoração dos ambientesTalheres utilizados nos luxuosos jantaresEssencial na criação deste visual marcante, a fotografia de Russell Carpenter prioriza tons azulados em diversos momentos do presente, transmitindo a melancolia que a história evoca e a nostalgia de Rose, transitando com precisão para o visual vivo e iluminado durante o início da viagem que realça não apenas o brilho e o luxo do navio, como também a empolgação daquele jovem casal que se conhece. Já no ato final, os tons mais escuros e o predomínio das cenas noturnas ajudam a criar na plateia a mesma sensação de angústia dos personagens.

Tons azuladosVisual vivo e iluminadoTons mais escurosPersonagens que são interpretados por um elenco heterogêneo, encabeçado por dois nomes que despontavam na época. Ainda bem jovem, mas já dono de grande talento (conforme atestam “Gilbert Grape” e “Diário de um Adolescente”), Leonardo DiCaprio vive Jack com a intensidade e a empolgação que se espera de um jovem que consegue embarcar naquele luxuoso navio, conseguindo ainda uma ótima química com Kate Winslet, o que é essencial para o sucesso do romance. Winslet, por sua vez, confere carisma e vivacidade a jovem Rose, mostrando-se inteligente para compreender o ambiente em que está inserida e, ao mesmo tempo, passional o bastante para se atirar de cabeça num verdadeiro romance impossível. São deles alguns dos momentos mais icônicos do longa, como o lindo primeiro beijo ao pôr-do-sol na proa do navio (“Estou voando Jack”, diz ela) e o famoso grito “Eu sou o rei do mundo!”. A coleção de lindas cenas continua quando Jack desenha Rose nua e especialmente na clássica cena em que a mão dela indica o sexo e o romance alcança seu clímax, segundos antes do impacto no Iceberg que mudaria aquela história para sempre.

Lindo primeiro beijoJack desenha Rose nuaMão dela indica o sexoRose seguiria sua vida, constituiria família e viveria muito ainda, até que finalmente encontrasse coragem para embarcar novamente no Titanic. Aos 86 anos, Gloria Stuart tem uma atuação sensível e emocionante, transmitindo o quanto aquelas lembranças eram importantes para Rose através de seu olhar, participando ainda da desnecessária narração que mastiga alguns acontecimentos para o público. Ainda entre os destaques, Kathy Bates diverte-se na pele da espirituosa e divertida Molly, ao passo que Bill Paxton está apenas discreto como o caçador de tesouros Brock Lovett.

Atuação sensível e emocionanteEspirituosa e divertida MollyCaçador de tesouros Brock LovettInfelizmente, “Titanic” também tem sua porção de personagens unidimensionais e odiáveis, como o canalha Cal de Billy Zane que, além de atormentar a vida do casal principal, ainda é capaz de usar uma criança abandonada a seu favor no ato final. Já Frances Fisher encarna a Sra. Ruth de maneira tão gélida e impassível que por vezes chegamos a duvidar que ela seja mesmo a mãe de Rose, salvando-se apenas por demonstrar preocupação genuína ao ver a filha voltar para o transatlântico enquanto este afunda e pelo pequeno momento de humanidade quando tenta justificar sua maneira de agir e seu interesse financeiro acima da própria vontade (“Somos mulheres, nossas escolhas nunca foram fáceis”). E finalmente, não posso deixar de mencionar alguns dos oficiais que agem de maneira irracional, segurando a terceira classe já durante o naufrágio e não utilizando toda a capacidade dos botes, chegando ao ápice quando um deles atira num dos amigos de Jack e suicida-se depois, o que ao menos demonstra remorso.

Canalha CalGélida e impassívelAtira num dos amigos de JackE por falar em ápice, chegamos então aos momentos que fizeram de “Titanic” um longa tão impactante. Conduzida de maneira vigorosa por Cameron, a cena do acidente é tensa o bastante para envolver o espectador, com a câmera trêmula do diretor nos colocando dentro do ambiente e criando uma sensação de urgência sem que, por isso, deixemos de ter a exata noção de tudo que acontece na tela. O desespero e o egoísmo durante o naufrágio e o verdadeiro comportamento de manada que toma conta das pessoas após o acidente simboliza o ser humano em seu estado mais cru, em momentos captados com precisão pelos closes e planos fechados de Cameron que buscam valorizar as expressões de medo e angústia das pessoas.

Cena do acidenteComportamento de manadaExpressões de medo e angústiaMas o diretor sabe ser sutil também. Em certo momento do naufrágio, um plano geral mostra os fogos de artifício estourando no centro da tela com o navio pequeno ao fundo, dando a exata noção da insignificância daquele transatlântico diante da magnitude do oceano. E se a banda tocando até o último instante é o mais puro símbolo do melodrama que permeia “Titanic”, a linda sequência embalada por uma das músicas da banda exemplifica muito bem como Cameron sabe utilizar isto a seu favor, quando vemos um casal de idosos esperando a morte e uma mãe contando histórias para os filhos enquanto a água invade aqueles compartimentos. Da mesma forma, o tocante momento em que o capitão Smith (Bernard Hill, em boa atuação) se recolhe desolado para esperar o fim torna o personagem ainda mais interessante.

Fogos de artifícioBanda tocando até o último instanteMãe contando histórias para os filhosObviamente, se toda a produção preza pelo primor técnico, a impactante cena do naufrágio é a cereja do bolo de “Titanic”. Colocando o espectador dentro do navio enquanto vemos as pessoas caindo na água e sua estrutura desmoronando, Cameron e sua equipe criam um momento tão sublime tecnicamente e poderoso dramaticamente que é praticamente impossível não reconhecer seus méritos. Assim, a força devastadora da água preenche a tela com tanta verossimilhança que o espectador praticamente se encolhe na poltrona, buscando segurar-se em algo enquanto aquele gigante se prepara para finalmente afundar. Após o naufrágio, a fotografia azulada e a boa atuação do elenco transmite com precisão a histeria coletiva que toma conta do local, nos fazendo em seguida quase sentir o frio que os personagens sentem no meio do oceano. E então o momento que levou milhões de espectadores às lágrimas chega e Jack finalmente se torna apenas uma lembrança para Rose.

Impactante cena do naufrágioGigante se prepara para finalmente afundarHisteria coletivaO final delicado e sensível nos mostra rapidamente a vida que Rose levou através de algumas fotografias e nos permite uma última visita ao mais famoso transatlântico da história, recriado com precisão nesta obra grandiosa, tecnicamente perfeita e dramaticamente poderosa, com alguns excessos é verdade, mas que jamais chegam a prejudicar sua qualidade soberba. James Cameron pode ser egocêntrico e megalomaníaco. Certamente, os criadores do “Titanic” também eram. Mas, ironicamente, a junção entre o primeiro e a história trágica do segundo criaram um dos filmes mais emblemáticos dos anos 90 e, certamente, um dos grandes da história do cinema em todos os tempos.

Titanic foto 2Texto publicado em 17 de Novembro de 2013 por Roberto Siqueira

O MUNDO PERDIDO: JURASSIC PARK (1997)

(The Lost World: Jurassic Park)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #178

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Jeff Goldblum, Julianne Moore, Pete Postlethwaite, Richard Attenborough, Vince Vaughn, Arliss Howard, Vanessa Lee Chester, Camilla Belle, Peter Stormare, Richard Schiff, Joseph Mazzello e Mark Pellegrino.

Roteiro: David Koepp, baseado em livro de Michael Crichton.

Produção: Gerald R. Molen e Colin Wilson.

O Mundo Perdido - Jurassic Park[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Preocupado com a possibilidade da franquia “Jurassic Park” seguir o mesmo caminho de “Tubarão” (ou seja, ser deturpada nas mãos de pessoas menos talentosas), Steven Spielberg decidiu dirigir a continuação “O Mundo Perdido: Jurassic Park” quatro anos após o primeiro filme assombrar o mundo com seus efeitos visuais espetaculares e sua história envolvente. No entanto, as semelhanças entre o primeiro e o segundo filme se restringem apenas aos efeitos visuais assombrosos, já que apesar de contar com algumas cenas marcantes, esta sequência é bastante inferior tanto nos aspectos narrativos quanto no carisma de seus personagens.

Escrito novamente por David Koepp baseado em livro que o próprio Spielberg pediu para Michael Crichton escrever, “O Mundo Perdido: Jurassic Park” tem início quando o Dr. Ian Malcolm (Jeff Goldblum) é chamado para conversar com John Hammond (Richard Attenborough) e descobre que sua namorada, a Dra. Sarah (Julianne Moore), havia sido enviada para uma ilha conhecida como “Sítio B”, vizinha daquela onde o antigo Parque dos Dinossauros se localizava e que era utilizada na criação dos animais. Acompanhado de uma equipe, ele chega ao local com a missão de estudar os dinossauros, mas outra equipe comandada por Roland Tembo (Pete Postlethwaite) invade a ilha com a intenção de capturá-los e levá-los para San Diego, onde um novo Parque seria inaugurado.

Expondo o que aconteceu entre o final do primeiro filme e o ponto de partida deste segundo através de um diálogo expositivo nada orgânico, David Koepp constrói um arremedo de narrativa que se transforma numa boa aventura graças ao talento de Spielberg atrás das câmeras. Ainda assim, o roteirista resgata alguns pontos interessantes do longa original, como as tiradas engraçadas de Ian que, por outro lado, acabam tirando um pouco da humanidade do personagem em alguns instantes, como por exemplo quando ele pede ironicamente três cheeseburgers pendurado num penhasco – e, pra piorar, é acompanhado na piada pelos outros dois personagens que se encontram à beira da morte. Em parte, a culpa é também de Jeff Goldblum, que desta vez ganha mais espaço na narrativa, mas não consegue reverter os problemas do roteiro e convencer como um pai ou namorado realmente preocupado.

Pra piorar, Koepp tenta conferir profundidade dramática ao protagonista através de conflitos que jamais convencem com sua filha Kelly (Vanessa Lee Chester) e a namorada Sarah, o que, somado ao comportamento deles em situações de alto risco, cria personagens rasos e inverossímeis, dificultando nossa identificação com aquele grupo. Ao menos, Spielberg corrige parcialmente esta falha ao criar cenas tensas o bastante para nos envolver, independente do grau de envolvimento que temos com os personagens. Quem também ajuda é Julianne Moore, que compõe a Dra. Sarah com mais competência, convencendo como alguém realmente apaixonada pelo que faz – repare sua expressão de alegria ao constatar que a mamãe T-Rex estava mesmo à procura do filhote. Sua personagem serve também para apresentar ao espectador conceitos e características importantes dos dinossauros, o que aumenta a tensão quando eles surgem por já sabermos os atributos mortais do Velociraptor e do T-Rex, por exemplo.

Três cheeseburgersFilha KellyExpressão de alegriaQuem também tem a função de deixar a plateia mais tensa são os caçadores cruéis e unidimensionais liderados pelo odiável Roland Tembo (Pete Postlethwaite), que ao menos tem raros momentos de humanidade, como quando pede pra ninguém contar pra Kelly que um homem tinha morrido ou quando lamenta a perda de um parceiro de equipe e diz que está cansado de andar ao lado da morte.

Mas, com o perdão do trocadilho infame, nem tudo está perdido. É fácil notar, por exemplo, que esta continuação é mesmo dirigida por Spielberg, já que o diretor demonstra sua habilidade na construção de narrativas capazes de prender nossa atenção desde os primeiros instantes, criando expectativa através do ataque à menina na Ilha no qual vemos os pequenos dinossauros cercando a garota, ouvimos seus gritos e acompanhamos a reação apavorada de seus pais, mas não vemos as consequências violentas daquele ato – infelizmente, o diretor já dava sinais da falta de coragem que marcaria sua fase seguinte ao fazer questão de ressaltar que a garota estava viva. Assim, o espectador mal pode esperar o reencontro com os gigantes animais jurássicos. Quando finalmente nos deparamos com eles, Spielberg novamente faz questão de primeiro ressaltar o olhar maravilhado dos personagens, para somente depois nos permitir admirar os imponentes dinossauros concebidos pelos impecáveis efeitos visuais da Stan Winston Studio – que, por sua vez, não apresentam grande evolução quando comparados ao primeiro filme (este sim um fenômeno na área). Finalmente, o diretor também constrói alguns planos interessantes e muito funcionais, como aquele em que vemos os Velociraptors se aproximando do grupo que caminha pela selva segundos antes do ataque arrasador.

Ataque à meninaOlhar maravilhado dos personagensVelociraptors se aproximandoAlém dos efeitos visuais, Spielberg conta também com o auxilio de sua equipe premiada por “A Lista de Schindler”, começando pelo diretor de fotografia Janusz Kaminski, que cria um visual sombrio e sufocante ao explorar muito bem o predomínio de cenas noturnas e as muitas chuvas que permeiam a narrativa. Da mesma forma, a montagem ágil de seu parceiro Michael Kahn confere um dinamismo interessante ao longa, o que é essencial numa aventura. E finalmente, se a trilha sonora de John Williams também aumenta a tensão em diversos instantes, acertando ainda ao utilizar a ótima música tema somente em momentos pontuais para evitar o desgaste da mesma, o ótimo design de som é parte fundamental no processo de dar vida aos dinossauros, tornando tudo ainda mais real aos olhos da plateia.

No entanto, a salvação de “O Mundo Perdido: Jurassic Park” está mesmo nas mãos de Steven Spielberg. Criando cenas de impacto que vão desde pequenos sustos – como no ataque repentino à base de operações durante a apresentação do projeto do Parque em San Diego – a momentos de alta tensão, o diretor confirma seu talento em sequências eletrizantes, como aquela em que acompanhamos Kelly e Sarah cavando simultaneamente aos Velociraptors que tentam invadir o esconderijo do qual elas tentam sair – numa cena, aliás, que reserva outro susto monumental ao espectador.

Cenas noturnas e as muitas chuvasAtaque repentino à base de operaçõesKelly e Sarah cavando simultaneamente aos VelociraptorsE se os “Raptors” garantem boas cenas, o que dizer então do T-Rex, que agora surge acompanhado e, portanto, duas vezes mais perigoso. Indicando novamente sua aproximação através da água (desta vez, uma poça faz a função do copo no primeiro filme), Spielberg conduz o ataque ao acampamento com maestria, gerando suspense ao trabalhar com elementos aparentemente inofensivos. Repare que, momentos antes, Sarah comenta sobre o sangue do filhote que não secou em sua blusa, o que nos faz grudar na cadeira enquanto o T-Rex cheira a blusa pendurada na cabana, gerando a correria histérica que resulta numa das raras mortes violentas do longa dentro de uma cachoeira.

Indicando aproximação através da águaSarah comenta sobre o sangue do filhoteT-Rex cheira a blusa pendurada na cabanaMas é mesmo a primeira aparição dos T-Rex que novamente se garante como o melhor momento do longa. Trabalhando mais uma vez com a noite, a chuva forte e agora agregando o telefone que toca sem parar e os gritos do filhote de T-Rex de dentro do trailer, Spielberg prepara o cenário ideal para a aparição do astro principal. Assim, o som indica a aproximação enquanto as árvores balançam e um carro arremessado confirma a fúria do predador, que surge com seu olhar penetrante na lateral do trailer, acompanhado por outro olhar que provoca a surpresa dos personagens e da plateia: eles vieram em casal. A sequência eletrizante continua com a entrega do filhote e o ataque que deixa o trailer pendurado no penhasco, chegando ao auge quando Sarah cai sobre o vidro, num momento de pura tensão que só termina quando o veículo finalmente despenca morro abaixo após deslizar pelo terreno. Após a cena de tirar o fôlego, a morte violenta de Eddie Carr (Richard Schiff) funciona como um sarcástico alívio cômico, assim como ocorria no primeiro filme com o homem sentado no vaso sanitário, só que desta vez com os animais brincando com o corpo dele.

Olhar penetranteTrailer pendurado no penhascoSarah cai sobre o vidroInfelizmente, o terceiro ato de “O Mundo Perdido: Jurassic Park” soa totalmente desnecessário, com o T-Rex surgindo na cidade de San Diego apenas para garantir alguns gritos e sustos a mais. Ao menos, garante uma boa piada quando um garoto diz para os pais que “tem um dinossauro no quintal”, mostrando ainda a curiosidade mórbida das pessoas que correm olhando para o T-Rex, num comportamento estranho do ser humano captado com precisão por Spielberg que nós voltaríamos a ver em “Guerra dos Mundos”.

No fim das contas, a continuação de “O Parque dos Dinossauros” funciona exatamente como o “Sítio B”, ou seja, seria muito mais assustadora e interessante se permanecesse apenas na imaginação dos fãs. No entanto, assim como seu terceiro ato, “O Mundo Perdido” é uma continuação desnecessária, porém divertida.

O Mundo Perdido - Jurassic Park foto 2Texto publicado em 27 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira

MELHOR É IMPOSSÍVEL (1997)

(As good as it gets)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #177

Dirigido por James L. Brooks.

Elenco: Jack Nicholson, Helen Hunt, Greg Kinnear, Cuba Gooding Jr., Skeet Ulrich, Shirley Knight, Yeardley Smith, Lupe Ontiveros, Missi Pyle, Maya Rudolph, Lawrence Kasdan, Julie Benz, Harold Ramis, Kathryn Morris, Todd Solondz e Jesse James.

Roteiro: Mark Andrus e James L. Brooks.

Produção: James L. Brooks, Bridget Johnson e Kristi Zea.

Melhor é Impossível[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Recordista de indicações ao Oscar, Jack Nicholson levou seu terceiro prêmio após sua brilhante atuação neste “Melhor é Impossível”, que, com seus personagens simultaneamente problemáticos e agradáveis, conquista o espectador quase que da mesma maneira como o protagonista conquista a personagem brilhantemente interpretada por Helen Hunt. Assim, não são raros os momentos graciosos que são quebrados por alguma grosseria e vice-versa, numa mistura eficiente de instantes dramaticamente densos e outros recheados de humor negro; e é ao balancear estes polos opostos com tanto cuidado que o longa dirigido por James L. Brooks alcança seu sucesso.

Escrito pelo próprio Brooks ao lado de Mark Andrus, “Melhor é Impossível” narra o cotidiano do obsessivo-compulsivo e preconceituoso escritor Melvin Udall (Jack Nicholson), um homem repleto de cinismo e sarcasmo que adora tirar uma onda com seu vizinho homossexual Simon (Greg Kinnear) e que faz questão de ser sempre atendido pela mesma garçonete no restaurante onde almoça todos os dias. A garçonete é Carol (Helen Hunt), uma mãe solteira que se desdobra para cuidar do filho, que sofre com uma grave doença respiratória.

Desenvolvendo muito bem seus personagens, o roteiro de “Melhor é Impossível” ajuda a humanizar cada um deles, demonstrando aos poucos as qualidades e defeitos de pessoas que facilmente poderiam tornar-se caricatas e odiáveis em mãos menos cuidadosas – e na pele de atores menos talentosos. Neste caso, o que ocorre é exatamente o contrário. Os personagens conquistam o espectador justamente por escancararem seus defeitos de maneira tão humana, o que naturalmente os aproximam da plateia.

Atrás das câmeras, Brooks faz um trabalho discreto e eficiente que busca valorizar as atuações através do uso de planos americanos e closes, empregando ainda o zoom para realçar momentos de impacto dramático e saindo-se muito bem na condução de cenas fortes como aquela em que um grupo de jovens de rua espanca Simon (numa rápida participação dos atores Skeet Ulrich e Jamie Kennedy, de “Pânico”, na qual se destaca o ótimo trabalho de maquiagem que torna realistas os machucados no rosto dele na cena seguinte no hospital). Igualmente discreta, a fotografia de John Bailey aposta em cenas diurnas e filtros que realçam cores leves, ao passo em que a gostosa trilha sonora de Hans Zimmer apresenta um tema principal inspirado, mas que também surge apenas em momentos pontuais. Desta forma, quem acaba chamando mais a atenção é o trabalho do montador Richard Marks, que transita muito bem entre o drama de Carol com a doença do filho, as rotinas de Melvin e o trabalho de Simon e Frank, integrando os personagens de maneira orgânica e mantendo a narrativa sempre atraente e fluída.

Planos americanosGrupo de jovens de rua espanca SimonCores levesNo entanto, é inegável que o grande atrativo de “Melhor é Impossível” é mesmo o seu elenco talentoso e inspirado, que oferece performances simultaneamente divertidas e tocantes. Vivendo um personagem preconceituoso e (desculpe o termo) escroto, Nicholson tem um desempenho excepcional, saindo-se muito bem na difícil tarefa de conquistar a empatia da plateia mesmo na pele de alguém tão desprezível. Destilando veneno em muitas de suas frases sarcásticas, Melvin poderia tornar-se ainda mais irritante por sofrer de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), o que faz com que ele sente sempre na mesma mesa do restaurante, evite pisar nas linhas do chão, deteste ser tocado por outras pessoas, organize milimetricamente os sabonetes da mesma marca em seu armário e feche a porta do apartamento cinco vezes. E se ainda assim nós gostamos dele, grande parte do mérito é mesmo do lendário ator.

Senta sempre na mesma mesaEvita pisar nas linhas do chãoOrganiza milimetricamente os sabonetesPersonagem complexo, Melvin consegue ser egoísta e egocêntrico e, ao mesmo tempo, é capaz de agir com surpreendente gentileza e encantar Carol com a bela frase “Você me faz querer ser um homem melhor”, somente para, minutos depois, estragar tudo com outra frase detestável. Este comportamento imprevisível fica ainda mais claro quando ele choca uma fã na editora, escancarando a intrigante diferença entre o autor sensível e o ser humano desprezível que conflitam dentro dele.

Mas se Nicholson surge solto e diverte-se no papel, Hunt não fica atrás, demonstrando excelente química com o consagrado ator numa atuação sensível e poderosa. Externando os traumas ocasionados por relacionamentos passados (“Não vou dormir com você!”, diz ela para Melvin), Carol emociona pela maneira como admite sua carência num belíssimo diálogo com a mãe, num dos grandes momentos da atuação de Hunt, que se destaca ainda na reação dramaticamente poderosa de Carol após Melvin mencionar seu filho no restaurante, que dá os primeiros sinais de sua vulnerabilidade e, especialmente, quando demonstra a alegria genuína da personagem diante do médico que oferece tratamento para seu filho, num momento tocante. Lentamente, Carol vai reencontrando a felicidade, algo simbolizado até mesmo por suas roupas (figurinos de Molly Maginnis), que evoluem lentamente das cores sem vida de seu uniforme para o vestido vermelho e chamativo que ela usa durante um jantar.

Belíssimo diálogo com a mãeReação dramaticamente poderosaAlegria genuínaCom seus trejeitos e a forte tendência para o overacting, Cuba Gooding Jr. diverte-se como Frank, o amigo engraçado e falastrão de Simon que se impõe fisicamente diante de Melvin, enquanto Kinnear demonstra muito bem a sensibilidade de Simon, emocionando em momentos especiais como quando vê seu rosto desfigurado pela primeira vez num espelho ou quando, com a ajuda de Carol, se empolga após conseguir romper o bloqueio criativo. Aliás, sua bagunçada casa reflete não apenas sua mente agitada (essencial em sua profissão), mas também sua instabilidade emocional, o que ressalta o bom design de produção de Bill Brzeski.

Amigo engraçado e falastrãoSensibilidade de SimonBagunçada casaQuem também tem participação importante na narrativa é o cachorro de Simon, explorado com competência pela câmera de Brooks, como no close que capta sua reação após Melvin receber a notícia que terá que devolvê-lo – numa das primeiras cenas que escancaram a fragilidade daquele homem solitário, que se esconde sob aquela capa de cinismo e sarcasmo. E fechando o elenco, temos a simpática mãe de Carol interpretada por Shirley Knight e a participação do diretor Lawrence Kasdan como o Dr. Green.

Quando o casal se desentende e se separa durante a viagem, sabemos que estamos perto do final conciliador, típico das comédias românticas. Mas até mesmo este clichê funciona muito bem em “Melhor é Impossível”, justamente pela maneira sincera e coerente que os personagens se comportam, buscando a reaproximação sem exigir que o outro mude completamente. E o que é mais interessante, o espectador sabe que eles continuarão exibindo os mesmos defeitos, e mesmo assim nós torcemos pelo sucesso daquela relação. Afinal, somos mesmo assim, repletos de defeitos e virtudes e eternamente buscando alguém que nos compreenda em toda nossa complexidade e vulnerabilidade.

Cachorro de SimonSimpática mãe de CarolCasal se desentendeFilme com alma e coração, “Melhor é Impossível” beneficia-se das atuações de alto nível para tocar o espectador sem jamais pender para o melodrama ou soar piegas, divertindo e emocionando com a mesma eficiência. Não é o caso de dizer que melhor que isso é impossível. Mas quase.

Melhor é Impossível foto 2Texto publicado em 20 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira

LOS ANGELES – CIDADE PROIBIDA (1997)

(L.A. Confidential)

5 Estrelas 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #176

Dirigido por Curtis Hanson.

Elenco: Guy Pearce, Kevin Spacey, Russell Crowe, James Cromwell, Kim Basinger, David Strathairn, Danny DeVito, Graham Beckel, Ron Rifkin, Paul Guilfoyle, Matt McCoy, Simon Baker, Brenda Bakke, Jeremiah Birkett, Karreem Washington e Salim Grant.

Roteiro: Brian Helgeland e Curtis Hanson, baseado em romance de James Ellroy.

Produção: Curtis Hanson, Arnon Milchan e Michael Nathanson.

Los Angeles - Cidade Proibida[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Impecável em praticamente todos os aspectos, o neo-noir “Los Angeles – Cidade Proibida” não conseguiu superar o colossal sucesso de “Titanic” e nem mesmo ressuscitou este que é um dos gêneros mais interessantes do cinema norte-americano. Nada disso, porém, diminui o fato de que o longa dirigido por Curtis Hanson e estrelado por um elenco tão talentoso é, sem dúvida alguma, uma das obras mais marcantes de sua época, funcionando como um thriller moderno e intrigante ao mesmo tempo em que homenageia o noir de maneira brilhante.

Escrito pelo próprio Hanson ao lado de Brian Helgeland e baseado em livro de James Ellroy, “Los Angeles – Cidade Proibida” se passa nos anos 50 e acompanha o cotidiano da polícia após a prisão do chefe do crime organizado local. Numa noite conhecida como “Natal Sangrento”, diversos policiais agridem alguns prisioneiros mexicanos e acabam flagrados pela imprensa, gerando uma investigação que leva o policial Ed Exley (Guy Pearce) a ser promovido, justamente por delatar seus companheiros de profissão. Assim, o policial Bud White (Russell Crowe) e o detetive Jack Vincennes (Kevin Spacey) acabam afastados de suas funções, mas todos eles terão seus caminhos cruzados numa investigação que envolverá o alto escalão policial – entre eles, o capitão Dudley (James Cromwell) – e pessoas importantes ligadas a um esquema de prostituição no qual as mulheres se parecem com estrelas de cinema – entre elas, a bela Lynn (Kim Basinger).

Surgindo como um verdadeiro noir moderno logo em seus primeiros minutos, “Los Angeles – Cidade Proibida” traz praticamente todas as principais características do gênero. Assim, temos o crime movendo a narrativa, as cenas predominantemente noturnas, os personagens ambíguos e a loira fatal. E ainda que a fotografia de Dante Spinotti tenha cores quentes e cenas diurnas especialmente em seu segundo ato, esta paleta de cores surge sempre dessaturada, criando um visual que não apenas homenageia o gênero como também remete à época em que se passa a narrativa com precisão. Esta sensação é reforçada também pelo ótimo design de produção de Jeannine Oppewall, que reconstitui a Los Angeles dos anos 50 com precisão através dos carros que circulam pelas ruas, da decoração dos ambientes e das armas utilizadas pelos policiais, além é claro da ótima trilha sonora de Jerry Goldsmith, repleta de Jazz e músicas típicas da Califórnia, mas também com composições instrumentais sombrias que pontuam bem certas cenas, como quando Ed chega ao Nite Owl e anda pelo lugar após o massacre – e aqui vale observar como a câmera subjetiva de Hanson amplia o suspense consideravelmente.

Paleta de cores dessaturadaLos Angeles dos anos 50Ed chega ao Nite OwlMas o fato é que grande parte da narrativa se passa predominantemente à noite, o que permite ao diretor criar um visual sombrio que remete diretamente ao universo obscuro daqueles personagens. Vestidos normalmente com ternos sóbrios (figurinos de Ruth Myers), os policiais tentam manter a boa imagem perante a população, mas, como em todo bom noir, nem tudo em “Los Angeles – Cidade Proibida” é exatamente o que parece ser. O mérito, neste caso, é também do excelente roteiro que funciona perfeitamente tanto em sua estrutura como no desenvolvimento dos personagens, que se tornam ainda mais interessantes graças ao bom desempenho geral do elenco.

Fisgando a atenção do espectador desde sua eficiente introdução, “Los Angeles” escancara sua eficiência narrativa logo na cena seguinte, quando rapidamente somos apresentados aos personagens Bud, Jack e Ed e, de maneira clara, conhecemos algumas de suas principais características. Obviamente, a fluidez da narrativa se deve também a montagem ágil de Peter Honess, que confere um ritmo empolgante aquela investigação intrigante e imprevisível. No entanto, esta agilidade não impede que Hanson tenha o cuidado de criar um pequeno suspense na apresentação de Lynn, demorando alguns segundos para revelar a excelente maquiagem que transforma Kim Basinger numa sósia de Veronica Lake. As prostitutas que se parecem com atrizes famosas de Hollywood, aliás, garantem um dos raros momentos de alívio cômico através da excelente piada envolvendo Lara Turner (Brenda Bakke).

Universo obscuroTernos sóbriosApresentação de LynnDa mesma forma, Hanson trabalha muito bem alguns temas abordados pelo longa, apoiando-se na ambiguidade dos personagens e de suas atitudes para levantar interessantes questões. Observe, por exemplo, como a corrupção na polícia se torna um problema bem mais denso e complexo quando observamos que os policiais podem agir de maneiras semelhantes em situações diferentes e nos induzir a concordar ou não com seus atos. Se num instante um policial planta provas para justificar a prisão de alguém que é notoriamente culpado, este senso de justiça perde totalmente o sentido quando vemos outros policiais usando o mesmo artifício em benefício próprio. No entanto, a burocracia da justiça pode levar a sensação de impunidade e nos induzir ao erro de achar que algumas atitudes são justificáveis e outras não. No fim das contas, a pergunta é: É possível ser sempre correto?

A princípio, Ed Exley parece pensar que sim. Guiando-se por um senso de justiça que o leva até mesmo a passar por cima do sentimento de camaradagem tão valorizado entre os policiais, Guy Pearce compõe Ed como um personagem determinado a limpar a sujeira do departamento de polícia, o que o leva a subir na carreira na mesma proporção em que ganha inimigos dentro do ambiente de trabalho. As razões para este comportamento encontram base ainda em sua infância, mas Ed se vê obrigado a reavaliar conceitos na medida em que a narrativa avança – e um close em seu rosto após ele finalmente atirar em uns criminosos indica o momento em que ele começa a mudar de comportamento.

Já calejado e distante do sentimento que o levou a ser policial, o cínico Jack Vincennes se aproveita da situação para ganhar projeção, mas lentamente ele também apresenta seu outro lado, numa transição que o ótimo Kevin Spacey demonstra muito bem quando, arrependido, deixa os 50 dólares que recebeu num bar e tenta evitar que um jovem ator saia com um promotor local, mas chega tarde demais e encontra o garoto já assassinado – a expressão de decepção em seu rosto é marcante neste momento.

Momento em que Ed começa a mudarCínico Jack VincennesBud o policial durãoTraumatizado pela morte violenta da mãe, Bud é o policial durão que resolve tudo na base da pancada, mas assim como os outros personagens, ele também não se resume a esta avaliação superficial, demonstrando descontentamento diante desta situação e uma vontade enorme de provar que também é inteligente. Explorando seu porte físico sem se esquecer de seu talento dramático, Russel Crowe chama a atenção pela maneira como equilibra sua atuação entre as reações explosivas e momentos sensíveis como quando, envergonhado, evita o olhar de Ed após um policial informar que alguém tinha batido em Lynn. Curiosamente, é justamente ele quem vive a relação mais sensível de “Los Angeles”, demonstrando interesse pela bela Lynn desde o primeiro momento, o que não o impede de agir irracionalmente quando descobre que ela tinha dormido com Ed. Lynn e Bud tornam-se confidentes e a empatia entre Crowe e Basinger é essencial neste processo.

Fechando os destaques do elenco, James Cromwell vive o inteligente e experiente Capitão Dudley, um profundo conhecedor do ambiente em que está inserido que revela sua outra faceta na surpreendente e impactante morte de Jack, enquanto a voz de Danny DeVito cai muito bem no repórter Sid Hudgens, que funciona também como uma espécie de narrador que, por pertencer ao ambiente diegético, surge de maneira orgânica e evita a artificialidade comum neste tipo de artifício narrativo.

Inteligente e experiente Capitão DudleyRepórter Sid HudgensTensa sequência do interrogatórioOrgânicas também são as reviravoltas eletrizantes de “Los Angeles”, a começar pela tensa sequência do interrogatório dos suspeitos Sugar Ray (Jeremiah Birkett), Ty Jones (Karreem Washington) e Louis (Salim Grant), na qual acompanhamos Bud lentamente perdendo o controle através de suas mãos que pressionam uma cadeira até que ele finalmente exploda e arranque a informação à força dos interrogados. Na medida em que a narrativa avança, os mistérios do coeso roteiro vão se resolvendo e as camadas ocultas dos personagens são reveladas, levando a parcerias aparentemente improváveis entre Ed e Jack e, posteriormente, entre Ed e Bud.

Mas é mesmo a sacada genial envolvendo “Rollo Tomasi” que confirma o excelente trabalho de Hanson e Helgeland, informando muito de maneira econômica e de quebra explicando também a origem da obstinação de Ed pela justiça. Observe atentamente a condução da cena e repare que somente Ed e Jack estão na sala quando ele conta a história da morte do pai. Assim, quando Dudley pede para Ed investigar quem é “Rollo Tomasi”, tanto o personagem quanto o espectador sofrem o impacto da revelação (num artifício do roteiro conhecido como pista e recompensa que funciona muito bem aqui), já que estas foram exatamente as últimas palavras de Jack Vincennes. Genial.

Rollo TomasiHistória da morte do paiDudley pede para Ed investigar quem é “Rollo Tomasi”Mergulhado nas sombras, o clímax no Victory Motel é sensacional, não apenas por confrontar os personagens com seus demônios mais íntimos como também por entregar ao espectador um tiroteio de tirar o fôlego, no qual podemos notar também o excepcional design de som que nos permite ouvir cada passo, tiro e movimento brusco com clareza. Após ser considerado o herói da noite, Ed afirma ter ciência de sua situação (“Eles me usam e eu os uso”), numa conclusão perfeita e coerente com o personagem. Saber como se comportar naquele meio é essencial para sua sobrevivência. Sem a mesma sagacidade (ou o mesmo estômago), Bud prefere seguir outro caminho. Nas palavras de Lynn: “Alguns homens nasceram para ganhar o mundo, outros para fugirem para o Arizona com uma prostituta”.

E é nesta complexidade dos personagens que reside o maior trunfo de “Los Angeles – Cidade Proibida”, uma obra-prima excepcional que só comprova como nenhum gênero sairá de moda enquanto houver pessoas competentes e inteligentes o bastante para explorá-lo. Afinal, independente do gênero, o que o verdadeiro cinéfilo quer mesmo é assistir um bom filme.

Los Angeles - Cidade Proibida foto 2Texto publicado em 14 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira

JACKIE BROWN (1997)

(Jackie Brown)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #175

Dirigido por Quentin Tarantino.

Elenco: Pam Grier, Samuel L. Jackson, Robert Forster, Bridget Fonda, Michael Keaton, Robert De Niro, Michael Bowen, Chris Tucker e Lisa Gay Hamilton.

Roteiro: Quentin Tarantino, baseado em romance de Elmore Leonard.

Produção: Lawrence Bender.

Jackie Brown[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após surgir como um sopro de criatividade numa indústria carente de novidades com “Cães de Aluguel” e consolidar-se como um grande roteirista e diretor em “Pulp Fiction” – hoje reconhecido como um dos filmes mais importantes dos anos 90 -, Quentin Tarantino viu crescer consideravelmente a expectativa por seu próximo trabalho. Assim, não foram poucos os fãs que se decepcionaram, pois apesar de trazer muitos dos elementos marcantes do diretor e de contar com boas atuações, o consenso geral era de que Tarantino parecia ser menos Tarantino em “Jackie Brown”. Não é pra tanto, mas o fato é que ainda que a expectativa seja algo sempre prejudicial, o longa realmente não está no mesmo nível de seu antecessor. Nem por isso, deixa de ser um grande trabalho de um diretor amadurecido, é verdade, mas ainda completamente apaixonado pelo cinema.

Pela primeira vez baseando-se em material de outra pessoa (no caso, um romance de Elmore Leonard), Tarantino nos apresenta a personagem título “Jackie Brown” (Pam Grier), uma comissária de uma companhia aérea mexicana de segunda linha que tenta compensar o baixo salário ajudando o perigoso traficante Ordell Robbie (Samuel L. Jackson) a trazer dinheiro do exterior, mas é pega por policiais (Michael Bowen e Michael Keaton) no aeroporto e, em troca de sua liberdade, concorda em ajudá-los a desmontar o esquema internacional de tráfico de armas. No processo, ela contará com a ajuda de Max (Robert Forster), um fiador conhecido pelo traficante, por seu comparsa Louis (Robert De Niro) e pelos policiais – e que, por sua vez, acaba se apaixonando por ela.

Ainda que superficialmente “Jackie Brown” pareça seguir a mesma linha dos filmes anteriores de Tarantino, sua narrativa mais linear (com exceção do ato final), menos intrincada e recheada por um tom mais realista foge bastante do hiper-realismo marcante de “Pulp Fiction”, responsável por situações tão surreais que amenizavam os efeitos da violência gráfica das cenas. E se a violência também era marcante em “Cães de Aluguel”, aqui ela não surge com tanta força, assim como o humor negro aparece apenas em raras ocasiões. No entanto, se por um lado Tarantino desta vez prefere conduzir a narrativa de uma maneira, digamos, um pouco mais sóbria, por outro nós temos alguns personagens mais bem desenvolvidos dramaticamente que o de costume, como é o caso da protagonista e, especialmente, do fiador Max.

Nem por isso, podemos dizer que Tarantino abandona completamente seu estilo. Explorando novamente o submundo do crime, seu roteiro muito bem estruturado entrelaça aquele grupo de pessoas interessadas no paradeiro daquela enorme quantia de dinheiro sempre de maneira atraente. Além disso, o diretor não abandona seus diálogos inteligentes sobre coisas prosaicas, como na primeira cena na casa de Ordell onde o traficante e seu amigo Louis são apresentados ao espectador enquanto discutem sobre armas, assim como marcam presença as músicas sempre divertidas, o fetiche por pés femininos e as referências à cultura pop, como quando os personagens comentam cenas do filme “O Matador”, de John Woo, ou quando mencionam Demi Moore, a banda The Delfonics e as lojas de conveniências 7-Eleven. Tarantino também aposta novamente na divisão em capítulos, trazendo ainda elementos não diegéticos como o mapa que indica o trajeto do voo da cidade mexicana até Los Angeles.

Discutem sobre armasPés femininosMapa indica o trajeto do vooNa direção de atores, Tarantino acerta ao permitir composições mais humanas, o que não evita que Samuel L. Jackson atue da maneira histriônica de sempre, mas que cai bem na pele de Ordell, com seu jeito engraçado e pausado de pronunciar os palavrões e as frases cuidadosamente elaboradas pelo diretor/roteirista. Criando uma espécie de vilão carismático, Jackson se destaca especialmente na discussão com Louis, num instante carregado de tensão por sabermos que Ordell pode atirar a qualquer instante – e isto de fato acontece, num dos raros momentos em que a violência gráfica típica de Tarantino surge em “Jackie Brown”, seguida pelo humor negro característico do diretor quando acompanhamos o criminoso saindo andando tranquilamente pelas ruas como se nada tivesse acontecido.

No entanto, dois personagens conseguem algo raro na curta filmografia de Tarantino até então e chegam e emocionar o espectador. Escolhida por ser uma das grandes musas do gênero homenageado em “Jackie Brown” (o blaxploitation), Pam Grier é a primeira a realizar tal feito quando Jackie fala sobre o futuro e externa sua preocupação com a velhice, com um zoom lento realçando sua forte atuação da mesma forma em que a câmera que fica em seu rosto o tempo inteiro destaca sua expressão apavorada quando ela sai da loja de roupas logo após a entrega do “dinheiro” para Melanie (Bridget Fonda) – observe também como a trilha sonora amplia a tensão nesta cena. Compondo uma personagem ambígua que conquista a empatia da plateia mesmo cometendo os crimes que comete, Grier confere humanidade à protagonista através de pequenos momentos, como quando ensaia como pegar a arma na gaveta antes da chegada de Ordell ao escritório de Max.

Vilão carismáticoJackie fala sobre o futuroApavoradaMax que é certamente o personagem mais interessante e complexo de “Jackie Brown”. Demonstrando inteligência e coragem logo nas primeiras negociações com Ordell, o personagem interpretado com competência e sensibilidade por Robert Forster parece incapaz de abandonar a rotina ao qual se submeteu por tantos anos – e que certamente é a responsável por sua expressão sempre cansada e abatida. No entanto, ao ver Jackie ele não apenas se apaixona por ela, como também parece finalmente refletir a respeito de sua vida, mas isto não é suficiente para que tenha a coragem de largar tudo e ir com ela para a Espanha na tocante cena final, captada com precisão pela câmera de Tarantino que, deixando o personagem fora de foco em seu momento de arrependimento, parece respeitar sua dor diante da plateia. Se o crime é o fator que move a narrativa, o romance entre eles é o alicerce, só que enquanto Jackie é pura determinação, ele é apenas resignação – e esta diferença é crucial para que eles não fiquem juntos.

Fechando o elenco, temos um Robert De Niro contido, que passa quase despercebido na maior parte do filme, já que seu Louis nada mais é do que um criminoso velho e ultrapassado, que tenta sobreviver mesmo sem a agilidade e velocidade de raciocínio do passado. Quase sempre carrancudo e calado, ele chama a atenção da bela Melanie, mas curiosamente o ato sexual rápido e seco entre eles acaba afastando-os ao ponto de Louis finalmente mostrar o quanto é perigoso ao atirar na garota após ela irritá-lo no estacionamento do Shopping, numa rara cena em que o absurdo da situação nos faz rir ao invés de chocar, algo também típico de Tarantino.

Expressão cansada e abatidaCriminoso velho e ultrapassadoBela MelanieCom a câmera nas mãos, o diretor até utiliza o plano-sequência algumas vezes, insere seu clássico plano de dentro do porta-malas de um veículo e emprega um travelling cheio de estilo para nos revelar o carro de Ordell virando a esquina e parando a poucos metros da casa de Beaumont Livingston (Chris Tucker) na noite de seu assassinato, num momento em que a música diegética é essencial para nos indicar que se trata do mesmo carro. Entretanto, de maneira geral sua direção é mais discreta, o que não quer dizer que ele não nos presenteie com cenas marcantes, como quando Ordell visita Jackie na casa dela, apagando as luzes seguidamente e tornando aquela conversa já naturalmente tensa em algo ainda mais eletrizante. Auxiliado por sua montadora e amiga Sally Menke, Tarantino utiliza muito bem a tela dividida nesta cena, fazendo com que o espectador perceba no mesmo instante que Ordell a presença de uma arma salvadora nas mãos de Jackie. No entanto, Menke não consegue evitar que o filme perca um pouco o ritmo em determinados momentos do segundo ato, mas comprova seu talento e importância na sensacional sequência da entrega “pra valer” do dinheiro (voltaremos a ela em instantes).

Carro de Ordell virando a esquinaOrdell visita JackieArma salvadoraA escuridão que amplia a tensão na casa de Jackie surge em diversas outras ocasiões, já que o diretor de fotografia Guillermo Navarro aposta no predomínio de cenas noturnas, escondendo os personagens nas sombras em muitos momentos – uma estratégia reforçada pelo uso constante de fades que escurecem a tela completamente por alguns segundos. Já as cenas diurnas confirmam a opção de Tarantino por não tentar glamourizar a vida em Los Angeles como na maioria dos filmes. Ainda que o sol predomine, a imagem que temos é de uma cidade normal, ocupada por pessoas quase sempre a margem da sociedade.

Confirmando seu talento para construir cenas de impacto desde o teste da entrega do dinheiro, Tarantino nos brinda com uma sequência espetacular na entrega “pra valer”, que finalmente se divide sob três perspectivas diferentes (outra marca do diretor) e nos permite acompanhar como cada integrante se comportou no momento chave da narrativa, levando-nos ao confronto final no qual Ordell é surpreendido por Ray (Keaton, em atuação divertida na pele de um personagem que ele repetiria um ano depois em “Irresistível Paixão”, de Steven Soderbergh) no escritório totalmente escuro de Max.

Entrega pra valerTrês perspectivas diferentesOrdell é surpreendido por RayUtilizando o relacionamento afetivo entre Jackie e Max como fio condutor de sua narrativa mais sóbria, “Jackie Brown” é talvez o filme que mais destoa em tom e abordagem na filmografia de Tarantino, o que não significa necessariamente que seja um filme menor. Na verdade, Tarantino tentou criar algo diferente e, ainda que tropece aqui ou ali, conseguiu um excelente resultado.

Jackie Brown foto 2Texto publicado em 30 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

GÊNIO INDOMÁVEL (1997)

(Good Will Hunting)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #174

Dirigido por Gus Van Sant.

Elenco: Matt Damon, Robin Williams, Ben Affleck, Stellan Skarsgård, Minnie Driver, Casey Affleck, Cole Hauser e John Mighton.

Roteiro: Matt Damon e Ben Affleck.

Produção: Lawrence Bender.

Gênio Indomável[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Matt Damon e Ben Affleck ainda eram apenas jovens em início de carreira quando surpreenderam o mundo do cinema com o excelente e complexo roteiro deste “Gênio Indomável”, longa eficiente dirigido por Gus Van Sant e que conta ainda com atuações inspiradas do próprio Damon e de Robin Williams. Com um protagonista fascinante e outros personagens igualmente interessantes, não é difícil se envolver rapidamente pela narrativa e se importar com a trajetória daqueles personagens tão humanos e, por isso, tão repletos de defeitos e qualidades.

O longa acompanha a trajetória de Will Hunting (Matt Damon), um jovem com facilidade assustadora para resolver equações matemáticas que vive no subúrbio e trabalha como servente de uma importante universidade. Após resolver um complexo problema deixado no quadro negro, o garoto chama a atenção do premiado professor Gerald Lambeau (Stellan Skarsgård), mas uma briga de rua acaba levando-o a prisão. O professor então faz um acordo para conseguir sua libertação, assumindo a responsabilidade pelo garoto e comprometendo-se a ajudá-lo a resolver seus problemas emocionais através do auxilio de um psiquiatra. Depois de algumas tentativas frustradas, cabe ao terapeuta Sean Maguire (Robin Williams) a árdua missão de tentar compreender aquele rapaz.

Escrito por Damon e Affleck, o excelente roteiro de “Gênio Indomável” tem o mérito de trazer em sua estrutura narrativa muito bem desenvolvida uma coleção de diálogos marcantes, como quando Sean relembra como conheceu a amada esposa e em sua divertida recordação sobre as idiossincrasias do casal, sendo responsável também por criar e desenvolver personagens ambíguos e complexos como Will e o próprio Sean. Da mesma forma, mesmo personagens secundário como Chuckie (Ben Affleck), Skylar (Minnie Driver) e o professor Gerald Lambeau ganham espaço suficiente para demonstrarem suas características e se humanizarem diante do espectador, o que só enriquece a narrativa e os aproxima da plateia. Assim, o espectador se vê fisgado pela trama e interessado nos personagens antes mesmo que se de conta de como isto ocorreu.

Ciente de que a força da narrativa se concentra no roteiro e no elenco, a equipe técnica liderada por Gus Van Sant evita chamar muito a atenção, fazendo um trabalho discreto e eficiente. Assim, o diretor de fotografia Jean Yves Escoffier busca realçar tons dourados na maior parte do tempo, especialmente quando Will está raciocinando, numa ilustração visual do quão valioso é o dom daquele garoto iluminado. O amarelo, aliás, está presente em muitas cenas, seja através dos objetos selecionados pelo design de produção de Melissa Stewart para enfeitar o consultório de Sean ou mesmo dos figurinos de Beatrix Aruna Pasztor (repare a camisa de Sean na primeira conversa com Will, por exemplo).

Tons douradosObjetos no consultório de SeanCamisa de Sean na primeira conversa com WillPor sua vez, a trilha sonora de Danny Elfman ressalta o clima melancólico do longa através de suas lindas músicas e de composições instrumentais inspiradas, ao passo em que a montagem de Pietro Scalia imprime um bom ritmo ao transitar entre as sessões e o cotidiano nada glamoroso de Will, alternando também no uso de cortes secos – como ocorre durante um jantar entre Lambeau e Sean no qual de repente surgem os amigos de Will lutando – e transições elegantes, como na sequência em que Will explica porque não trabalharia para a ASN, quando ele começa a falar na empresa e, com seu rosto em close-up, continua o discurso, mas agora já no consultório de Sean.

Cotidiano nada glamorosoWill explica porque não trabalharia para a ASNRosto em close-upVoltando ao elenco, enquanto o dispensável Morgan de Casey Affleck é o bobo da turma, com perguntas idiotas e comportamento infantil, Damon e Affleck (ainda muito jovens) compõem personagens mais complexos, comportando-se como verdadeiros adolescentes às vezes, mas criando um laço de amizade convincente graças à boa química existente entre eles. Criando empatia também com Minnie Driver e especialmente com Robin Williams, Damon tem um desempenho memorável como o genial e emocionalmente descontrolado Will, falando sempre de maneira rápida, mas com clareza e convicção, como na ótima cena do bar em que ele conhece e impressiona Skylar, se impondo intelectualmente diante de um desconhecido e conquistando a garota através de sua rara inteligência. Vivendo um típico underdog, Damon surge sempre reativo, usando sua agressividade como um mecanismo de defesa para tentar afastar o sofrimento causado pela traumática infância.

Genial e emocionalmente descontroladoConhece e impressiona SkylarSempre reativoSomente alguém com talento e conhecimento de causa poderia ser capaz de furar o bloqueio psicológico criado por Will. Numa interpretação contida e minimalista, Robin Williams tem a chance de comprovar seu talento na composição de personagens com grande força dramática, saindo-se muito bem como o terapeuta Sean, o único capaz de compreender o rebelde genial. Com um desempenho sublime, Williams dá um show em diversos momentos, como na bela conversa no parque, na qual a sinceridade de Sean deixa Will sem palavras, ou no instante em que dá sinais de descontrole quando Will menciona sua falecida esposa, transmitindo com precisão o quanto sofre pela morte dela através de sua expressão contida que lentamente cede lugar à explosão furiosa de raiva. Este é o trauma que ele não consegue superar, por isso, Sean e Will se entendem e compreendem um ao outro. Eles são muito parecidos, apenas estão em momentos distintos da vida.

Interpretação contida e minimalistaSinceridade de Sean deixa Will sem palavrasSinais de descontroleJá a simpática Skylar de Minnie Driver raramente consegue transpor a couraça de defesa de Will, mas nem por isso ela desiste dele e o casal até consegue criar empatia em momentos divertidos como a paquera num bar que gera o primeiro beijo. No entanto, as diferenças sociais entre eles (ele, órfão do subúrbio, ela, herdeira de uma boa quantia de dinheiro) acabam gerando uma forte discussão, na qual os dois atores se saem muito bem. Enquanto Driver demonstra o quanto Skylar sofre por não conseguir conter o ímpeto de Will, Damon demonstra de maneira seca o quanto ele pode ser agressivo quando é acuado. Will é um personagem complexo, que tem medo de se relacionar e se ferir e, por isso, é incapaz de dizer que a ama – o que nos leva a tocante cena em que ela segura o choro ao falar com ele por telefone sem conseguir arrancar as três palavras mais desejadas entre os casais.

Paquera num barForte discussãoTocante cena em que ela segura o choroFechando os destaques do elenco, o paternal professor Lambeau vivido por Stellan Skarsgård encontra em Will aquilo que ele não conseguiu ser. Ainda que tenha o reconhecimento de todos por seus conhecimentos matemáticos, ele não conquistou o respeito de quem mais importava: ele mesmo. Frustrado ao ver tanto potencial desperdiçado, Lambeau não consegue esconder sua decepção – e a expressão constantemente abatida de Skarsgård transmite muito bem este sentimento. Na visão dele (e do próprio Chuckie, melhor amigo de Will), é uma pena ver um garoto tão brilhante desperdiçando sua vida. Mas Sean não vê da mesma forma, o que nos leva a uma interessante reflexão sobre o conceito de “sucesso”. Premiado e bem sucedido, Lambeau jamais conseguiu alcançar a paz e a felicidade plena que Sean alcançou enquanto viveu ao lado da mulher amada.

Na condução deste elenco talentoso, Gus Van Sant dirige “Gênio Indomável” com discrição, empregando raros movimentos de câmera ousados, como a câmera lenta que alivia o início da primeira briga de rua dos garotos, tirando parte do impacto que só aparece mesmo no final da cena, além de alguns poucos travellings, como numa conversa entre Sean e Lambeau num bar e especialmente nas tomadas aéreas da cidade. Em todo caso, o diretor tem todo o mérito por extrair boas atuações de grande parte do elenco.

Paternal professor LambeauPrimeira briga de ruaConversa entre Sean e Lambeau num barMas é mesmo no excepcional roteiro de Damon e Affleck que reside o grande trunfo de “Gênio Indomável”. Assim, o final redondo amarra muito bem as pontas soltas da narrativa, concluindo o arco dramático de Will e Sean de maneira plenamente satisfatória na emocionante cena em que o terapeuta convence o garoto que “ele não tem culpa”. Ambos reconheceram suas deficiências. Ambos foram corajosos o suficiente para enfrentá-las. E o mais interessante é que isto acontece de maneira tão sutil que eles sequer percebem o quanto estão mudando.

Sutileza talvez seja a palavra que melhor defina “Gênio Indomável”. Assim como Will Hunting não nota o instante em que começa a mudar, o espectador também não percebe o momento em que é fisgado pela narrativa. Simplesmente acontece.

Gênio Indomável foto 2Texto publicado em 06 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira