O BEBÊ DE ROSEMARY (1968)

(Rosemary’s Baby)

 

Videoteca do Beto #42

Dirigido por Roman Polanski.

Elenco: Mia Farrow, John Cassavetes, Ruth Gordon, Sidney Blackmer, Maurice Evans, Ralph Bellamy, Victoria Vetri, Patsy Kelly, Elisha Cook Jr., Emmaline Henry, Charles Grodin, Hanna Landy, Phil Leeds, Marianne Gordon e Tony Curtis. 

Roteiro: Roman Polanski, baseado em livro de Ira Levin. 

Produção: William Castle e Dona Holloway. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando escrevi sobre “O Iluminado”, clássico do suspense dirigido por Stanley Kubrick, afirmei que a utilização de crianças como elemento chave do suspense é um artifício interessante, já que são teoricamente inofensivas, e por isso, quando envolvidas no suspense aumentam consideravelmente o medo provocado no espectador. Sendo assim, o que dizer então da utilização de um bebê que ainda se encontra no ventre de sua mãe? A aterrorizante busca pela verdade de uma mulher grávida que pensa ter sido vitima de bruxaria é o fio condutor deste excelente “O Bebê de Rosemary”, dirigido pelo ótimo Roman Polanski.

O jovem casal Guy (John Cassavetes) e Rosemary (Mia Farrow) se muda para um prédio antigo e ao chegar lá, se depara com vizinhos estranhos, porém muito receptivos. Algum tempo depois, Rosemary engravida e passa a ter estranhas visões, ao mesmo tempo em que seu marido, de forma suspeita, começa a se envolver cada vez mais com estes vizinhos, despertando dúvidas assustadoras em Rosemary.

Logo no elegante travelling inicial, Roman Polanski nos joga pra dentro do prédio onde toda a ação acontecerá. Em seguida, através das histórias contadas para o casal por Hutch (Maurice Evans) sobre o edifício para o qual eles estão se mudando, o diretor começa a criar o clima ideal para o suspense, aumentando gradualmente a expectativa no espectador. Quando Guy e Rosemary finalmente se mudam para o edifício e conhecem o casal de idosos Minnie Castlevet (Ruth Gordon) e Roman Castlevet (Sidney Blackmer), somos lentamente apresentados a diversos indícios que levantam dúvida sobre a idoneidade dos Castlevet. Muito receptivos, e até mesmo intrometidos, eles se mostram pessoas ao mesmo tempo encantadoras e assustadoras. A conversa sobre religião, logo no primeiro jantar na casa deles, é o primeiro claro sinal que reforçará os pensamentos futuros de Rosemary sobre bruxaria. Muitos outros indícios viriam com o passar do tempo, como o suicídio de Terry (Victoria Vetri), a moça que vivia com os Castlevet e, principalmente, o amuleto que é dado para Rosemary (e que pertencia a Terry), despertando desconfiança pelo mau cheiro e pela misteriosa erva que carrega dentro. Outro claro indicativo acontece quando, logo após conversar com Roman a respeito da dificuldade para conseguir um importante papel numa peça e ouvir “Tenho certeza de que os conseguirá” como resposta, o ator contratado fica cego e Guy é escolhido seu substituto. Finalmente, vale observar também como durante os pesadelos de Rosemary podemos escutar a mesma estranha reza, vinda do apartamento dos Castlevet, que antecedeu a morte de Terry. Seria apenas coincidência? Finalmente, a frase dita por Roman assim que soube da gravidez dela (“1966, o ano um!”) colabora ainda mais para os pensamentos da moça.

E que pensamentos são estes? Ora, Rosemary, na noite em que fica grávida, é assolada por visões no mínimo preocupantes. A composição da perturbadora cena em que o bebê é gerado é perfeita, repleta de imagens distorcidas que lembram um pesadelo. A mistura confusa – com o teto da Capela Sistina (símbolo católico), pessoas conhecidas e outras jamais vistas por Rosemary, um porão escuro com uma lareira que remete ao inferno, uma cama e a imagem da besta – acaba gerando dúvida sobre a realidade ou não destas imagens. Seria um pesadelo ou realmente aconteceu? Coincidentemente, após as conversas entre Guy e Roman, o ator começa a ter sucesso na carreira, ao mesmo momento em que finalmente deseja ter um bebê. A dúvida e a desconfiança começam a perambular pela mente da moça. Mas acertadamente, o excelente roteiro do próprio Polanski (baseado em livro de Ira Levin) não deixa claro se Rosemary realmente passou por tudo aquilo ou se ela está enlouquecendo. Como durante a gravidez é normal que as mulheres fiquem mais sensíveis, esta segunda possibilidade é plausível. Repare que nos momentos cruciais da narrativa – como a própria a noite em que o bebê é gerado – jamais podemos ter certeza se ela está tendo um pesadelo ou se o que vemos é realidade. Até mesmo os pequenos detalhes colaboram para criar esta dúvida, como o fato de Rosemary não comer todo o mousse de chocolate e os arranhões em seu corpo no dia seguinte ao “pesadelo”. Para os adeptos da teoria maligna de Rosemary, até mesmo a cor vermelha da roupa dela naquela noite pode simbolizar a união inconsciente com o demônio, o que revela uma escolha inteligente de Anthea Sylbert, responsável pelos figurinos. A trilha sonora de Christopher Komeda lembra uma canção de ninar, apresentando muitas variações do mesmo tema durante o filme. Já a Direção de Fotografia de William A. Fraker envolve os personagens em ambientes sombrios, além de trabalhar bem no contraste entre os apartamentos de Rosemary (claro e limpo) e dos Castlevet (bagunçado e escuro), revelando também o bom trabalho de Direção de Arte de Joel Schiller. Quando Rosemary e Guy fazem amor pela primeira vez no filme, Fraker mergulha os dois na completa escuridão, talvez refletindo o tortuoso caminho que ela seguiria na próxima vez em que os dois se relacionassem sexualmente.

Explorando muito bem a constante dúvida que o espectador sente ao testemunhar a busca de Rosemary pela verdade, Polanski acerta também na escolha do elenco, fundamental para o sucesso da trama. A atuação de Mia Farrow é muito boa, deixando as dúvidas e receios de Rosemary transparecer em seu semblante. Frágil e desconfiada, sua interpretação colabora com este sentimento ambíguo que o espectador sente durante praticamente todo o longa e sua determinação em defender seu bebê é tocante. As rezas estranhas escutadas através da parede e os quadros retirados quando Rosemary visita os Castlevet aumentam sua desconfiança, reforçada ainda pelo fato de Roman dizer que já viajou o mundo inteiro (“Diga um lugar e direi se já estive lá”), já que um bruxo não pode ficar muito tempo no mesmo local arriscando ser descoberto. O Guy de John Cassavetes é uma pessoa misteriosa. Bem humorado, como notamos quando faz piada sobre plantação de maconha e sobre os espíritos de duas irmãs no apartamento, ele mantém uma boa química com Rosemary no início. Por outro lado, seu fracasso profissional começa a afastá-lo da esposa, e curiosamente, aproximá-lo do casal de idosos, colaborando para a desconfiança de Rosemary. Observe como os dois reagem de maneira fria à gravidez, já refletindo o afastamento do casal. A alegria dela é contida, porém perceptível, ao passo em que Guy, apesar de feliz, não demonstra a empolgação esperada de um pai. Por outro lado, repare como ele corre para contar aos Castlevet assim que sabe da notícia da gravidez, gerando ainda mais desconfiança na garota. Finalmente, o fantástico casal Castlevet é interpretado por Ruth Gordon e Sidney Blackmer, com destaque para a belíssima atuação de Gordon como Minnie Castlevet. Intrometida e falastrona, ela nos deixa constantemente na dúvida sobre suas reais intenções enquanto faz amizade com o casal, fazendo com que o espectador jamais saiba se Minnie realmente é uma bruxa ou se simplesmente gosta deles. Ao mesmo tempo em que é receptiva e calorosa com Guy e Rosemary, a Sra. Castlevet demonstra um suspeito interesse no primeiro bebê da moça, ao dizer repetidas vezes que ela é jovem e com certeza vai ter “muitos” bebês ainda.

A descoberta lenta e tensa dos sinais – novamente, mérito do ótimo roteiro – leva Rosemary a procurar ajuda com outro médico. Porém, o diagnostico dele de que ela está delirando nos devolve a dúvida. E agora? Estaria ela realmente imaginando tudo aquilo ou seria um complô generalizado contra a indefesa garota? A excelente seqüência final em que Rosemary descobre toda a verdade, entrando pelos fundos do armário de sua casa com uma faca na mão, é esplendidamente bem conduzida por Polanski. Lentamente somos apresentados aos detalhes da casa, como os quadros sinistros e o berço negro, que confirmam a teoria de Rosemary. E o grande clímax acontece quando Rosemary finalmente se encontra com o filho, retirado de seus braços antes mesmo que ela pudesse ver seu rosto. O choque é tão grande que ela não consegue conter o espanto – e Mia Farrow dá um show nesta cena. Entretanto, após o susto e as conversas com Guy e Roman, ela volta ao berço e olha para o filho com os olhos encantados de mãe. E a dúvida volta: estaria ela ainda delirando quando entrou no local ou teria se conformado com a realidade? Eu fico com a segunda opção. Ainda assim, vale ressaltar que o longa jamais mostra o bebê de Rosemary, o que permite diversas interpretações diferentes e abre espaço para a imaginação do espectador fluir.

Extremamente bem conduzido, de forma a gerar pensamentos ambíguos em cada espectador, “O Bebê de Rosemary” revela-se um excelente filme de terror que não utiliza cenas violentas como forma de assustar o espectador. Polanski cria uma situação aterrorizante, capaz de causar pânico sem a necessidade de utilizar recursos artificiais como a trilha sonora para isto. É a situação em que os personagens estão envolvidos que causa temor, o que é muito mais interessante. A dúvida gerada em torno dos pensamentos e visões de Rosemary e a ambigüidade de sua atitude final elevam ainda mais a qualidade da obra. Por isso, independente de qual seja sua interpretação final, o espectador ficará satisfeito com o que viu. 

Texto publicado em 03 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (1967)

(The Graduate)

 

Videoteca do Beto #41

Dirigido por Mike Nichols.

Elenco: Anne Bancroft, Dustin Hoffman, Katharine Ross, William Daniels, Murray Hamilton, Elizabeth Wilson, Brian Avery, Walter Brooke, Norman Fell, Alice Ghostley e Richard Dreyfuss.

Roteiro: Calder Willingham e Buck Henry, baseado em livro de Charles Webb.

Produção: Mike Nichols e Lawrence Turman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O momento de transição da juventude para a vida adulta é o fio condutor desta deliciosa e importante comédia dirigida por Mike Nichols, que teve papel fundamental na história do cinema na época de seu lançamento ao abordar um tema corajoso para o período. Extremamente bem conduzido por Nichols, “A primeira noite de um homem” ainda foi responsável pelo lançamento de uma dos grandes atores de Hollywood, o talentoso Dustin Hoffman, se estabelecendo como uma comédia de humor refinado, capaz de causar grande empatia com o público em geral.

Após se formar na faculdade, Benjamin Braddock (Dustin Hoffman) retorna para casa, completamente indeciso quanto ao seu futuro. Em meio à festa de recepção, uma amiga de meia-idade de seus pais (Anne Bancroft) pede para que o garoto a leve pra casa, somente para seduzi-lo assim que eles chegam à residência. Os problemas só aumentam quando Benjamin se interessa pela filha dela, a bela Elaine Robinson (Katharine Ross).

Para entender corretamente o papel histórico de “A primeira noite de um homem” é preciso contextualizar seu lançamento. O cinema vivia em 1967 o fim da era dos grandes estúdios. O público ansiava por filmes mais baratos, que retratassem a realidade e focassem em personagens de carne e osso, ao invés dos politicamente corretos seres humanos da era anterior de Hollywood. Ou seja, personagens que tivessem dúvidas, dilemas e que enfrentassem dificuldades, o que causaria a empatia e a identificação com o espectador. E o longa de Mike Nichols atendia perfeitamente este anseio geral. O roteiro inventivo de Calder Willingham e Buck Henry (baseado em livro de Charles Webb) explora muito bem os inúmeros problemas criados pelo envolvimento entre o jovem Benjamin e a Sra. Robinson, provocando diversas situações inusitadas. Aproveita ainda as inúmeras possibilidades que a situação oferece para fazer excelentes piadas, como quando a Sra. Robinson pergunta se Benjamin não se esqueceu de nada e ele responde que gostaria de agradecê-la pelo que está fazendo, somente para ouvir em seguida: “O número do quarto. Eu preciso saber”. Existem muitos outros momentos bem humorados que vale a pena citar, como a cena em que Elaine sugere o Hotel Taft e Benjamin quase bate o carro, seguida pela engraçada seqüência em que os funcionários do Hotel cumprimentam o rapaz (“Olá Sr. Gladstone!”). Além disso, o roteiro aborda um tema comum à maioria dos jovens: a dúvida e o medo que sentimos quando deixamos os estudos para finalmente entrar na vida adulta. Pra completar, a empatia que o filme provoca no público se consolida através da deliciosa trilha sonora de Dave Grusin e Paul Simon, repleta de músicas leves e marcantes, que chegam até mesmo a ter um tom melancólico.

Entre o elenco, vale destacar a maravilhosa atuação de Dustin Hoffman. Na época com trinta anos, mas vivendo um personagem com vinte e um, Hoffman demonstra muito bem o nervosismo e a tensão de Benjamin através da respiração ofegante e do olhar nunca fixo. Repare sua empolgação quando ouve a Sra. Robinson contar que Elaine foi concebida em um Ford (“Um Ford!”). Anne Bancroft também tem uma excelente atuação como a madura e decidida Sra. Robinson. Ciente da inexperiência do rapaz, ela não economiza nos artifícios para seduzi-lo e consegue o que deseja. Vale observar a perfeita composição da personagem, através da sexy voz rouca, dos olhares nada tímidos e dos sensuais movimentos femininos, como as passadas de mão no cabelo. Fechando os destaques principais, Katharine Ross vive Elaine com bastante charme, além de transmitir com competência o dilema vivido pela garota, que ama Benjamin, mas não sabe como lidar com a estranha situação que o relacionamento envolve. Vale citar ainda Murray Hamilton como o inocente Sr. Robinson, que leva muito tempo até perceber o caso existente entre sua esposa e o jovem rapaz, comprometendo (como era de se esperar) a intenção das duas famílias de casar Benjamin e Elaine.

Tecnicamente, “A primeira noite de um homem” também é bastante eficiente. A começar pela direção de fotografia de Robert Surtees, que reflete o estado psicológico de Benjamin, por exemplo, quando está em paz consigo mesmo na piscina, através de um visual colorido e iluminado, onde os raios do sol refletem na água e transmitem uma sensação de tranqüilidade, que era exatamente o que ele sentia no momento. Sam O’Steen, por sua vez, quase rouba a cena com sua espetacular montagem, que cria momentos absolutamente inesquecíveis, como os vários clipes que aparecem durante o longa, além da interessante transição da piscina para o quarto de Hotel onde Benjamin está com a Sra. Robinson, que demonstra a passagem de muitos meses na vida deles (“Nos encontramos há meses e nunca conversamos”). Quando Benjamin vive sua primeira experiência sexual, o belo clipe e a linda trilha sonora simbolizam muito bem este importante momento na vida daquele jovem. Em seguida, o close em seu olhar fixo para a TV confirma: aquele é um momento de extrema satisfação e realização pessoal.

E finalmente chegamos ao grande destaque do longa. A impecável direção de Mike Nichols é perceptível logo nas primeiras cenas, quando o diretor utiliza muitos closes no rosto de Hoffman e dos convidados, demonstrando como o rapaz se sentia intimidado naquele ambiente, sufocado pelas pessoas à sua volta. Na casa dos Robinson, Nichols cria o plano em que Benjamin diz célebre frase “Sra. Robinson, você está tentando me seduzir!”, e a concepção visual da cena é perfeita, com as pernas dela envolvendo o rapaz completamente, como se estivesse arrastando-o para sua armadilha sexual. Mas a criatividade de Nichols não para por aí. Observe a forma criativa com que o diretor nos mostra as sensações de Benjamin quando está com a roupa de mergulhador, até mesmo contando com o som para indicar a respiração dele, claramente embaraçado com a situação. Repare sua inteligência ao compor o plano em que Benjamin conta a verdade para Elaine, onde tudo é indicado através dos olhares, sem a necessidade de dizer qualquer palavra. Em outro momento, quando Benjamin vai até a universidade atrás de Elaine, o zoom out o diminui em cena, demonstrando visualmente sua fraqueza naquele instante, além de indicar o quanto ele estava perdido no meio daquelas pessoas. Novamente o momento é acompanhado de um belo clipe e de uma linda canção. Mais adiante, Nichols reforça sua criatividade no plano em que observamos a angústia de Elaine ao perceber que Benjamin, em segundo plano e do lado de fora do ônibus, corre para alcançá-la. Finalmente, repare como o diretor ilustra sensações e sentimentos através de pequenos detalhes, como no momento em que Benjamin está se barbeando e faz uma pequena pausa com uma pergunta de sua mãe, demonstrando seu desconforto com aquela situação. Esta percepção do diretor se torna ainda mais evidente nos momentos de tristeza de Benjamin, quando o rapaz procura olhar para o aquário, como se fosse um daqueles peixes, triste por estar preso em uma situação sem saída. Curiosamente, nos momentos felizes ele normalmente está relaxado dentro da piscina, como se Benjamin estivesse se adaptando à nova realidade e se conformando com ela.

O final engraçado e alto astral fecha muito bem esta comédia leve que aborda um tema corajoso para a época, onde os filmes não costumavam demonstrar os problemas normalmente enfrentados pelas pessoas. A sensação de bem estar predomina no espectador, que acompanha o drama do jovem garoto e sofre junto com ele até o alegre desfecho da narrativa. Mérito da excelente direção de Nichols, das ótimas atuações do elenco e do belo roteiro. Por tudo isso, adicionado ainda ao contexto histórico e a importância que teve em seu lançamento, “A primeira noite de um homem” se confirma como uma deliciosa comédia, extremamente inteligente e agradavelmente próxima da realidade.

Texto publicado em 31 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

SPARTACUS (1960)

(Spartacus)

 

Videoteca do Beto #40

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Kirk Douglas, Laurence Olivier, Peter Ustinov, Jean Simmons, Charles Laughton, Tony Curtis, John Gavin, Nina Foch, John Ireland, Herbert Lom, John Dall, Charles McGraw, Joanna Barnes, Harold Stone, Woody Strode e Peter Brocco.

Roteiro: Dalton Trumbo, baseado em livro de Howard Fast.

Produção: Edward Lewis.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Extremamente atraente visualmente, o épico de Stanley Kubrick “Spartacus” é também um drama bastante humano sobre a luta de um escravo contra a opressão do imponente império Romano. Mesmo sem a costumeira liberdade artística que conseguiria alguns anos depois, Kubrick consegue realizar um excelente trabalho, construindo seqüências maravilhosas e narrando uma história extremamente cativante com a habitual competência.

Um escravo chamado Spartacus (Kirk Douglas), condenado à morte por morder um guarda, é comprado por um agente de gladiadores e levado para ser treinado como tal. Ao ser colocado na arena para servir de espetáculo para dois casais romanos e ser poupado por seu oponente, Spartacus vê crescer dentro de si a fúria contra o império romano, que explode de vez quando sua amada Varinia (Jean Simmons) é vendida e levada para Roma. Sua revolta rapidamente se transforma numa verdadeira rebelião contra Roma, que tomará proporções épicas e terminará de forma trágica para a maioria dos envolvidos.

Os gladiadores em “Spartacus” eram homens treinados somente para matar. Seus corpos esculpidos eram capazes de impressionar as mulheres romanas, arrancando sorrisos e olhares nada discretos por parte delas. Por outro lado, estes homens intuitivamente não estabeleciam relações de amizade entre si, pois sabiam que um dia poderiam ter que se enfrentar na arena. Exatamente quando descobre esta particularidade, Spartacus acaba mudando o conceito, e o gladiador que o contestou numa conversa sobre o assunto é justamente aquele que não consegue matá-lo na arena, mesmo com o oponente completamente dominado, justamente por causa da pequena conexão criada entre eles. Esta conexão se transforma então num sentimento muito maior, existente entre todos os gladiadores e escravos, quando Spartacus, ao ver sua amada ser vendida e levada para Roma, inicia sua rebelião.

Como podemos perceber, o bom roteiro de Dalton Trumbo (baseado em livro de Howard Fast) é repleto de momentos extremamente marcantes, como a emocionante frase repetida por todos os prisioneiros (“Eu sou Spartacus!”), após a sangrenta batalha entre romanos e escravos. Além disso, é dono de uma coragem ímpar para sua época, como podemos notar no diálogo entre Crassus (Laurence Olivier) e Antoninus (Tony Curtis) sobre ostras e caracóis, claramente contendo um subtexto homossexual (lembre-se, o filme é de 1960). O jogo de interesses pelo poder também é muito bem retratado no longa, reforçando a qualidade do roteiro de Trumbo. Notável também é o resultado alcançado pela direção de fotografia de Russell Metty (supervisionada tão de perto por Kubrick que Metty pediu para não ser creditado), que destaca cores áridas na primeira parte do filme (marrom, amarelo e bege) refletindo o clima quente e seco em que os escravos viviam, e posteriormente, alterna de cores fortes nas belas planícies para o mergulho nas sombras dentro dos ambientes pouco iluminados da época. O bom trabalho de montagem de Robert Lawrence alterna com consistência entre as seqüências de ação (treinamento, guerra), romance (Spartacus e Varinia) e até mesmo as sutilezas políticas nos bastidores do senado romano. Além disso, a montagem cria um grande momento quando os dois líderes (Spartacus e Crassus) estão discursando para os seus seguidores. A perfeita ambientação à época do império romano se consolida através da boa direção de arte de Eric Orbom e dos belos figurinos da dupla Valles e Bill Thomas, tornando aquele universo bastante crível. A bela trilha sonora de Alex North completa o ótimo trabalho técnico, alternando entre momentos leves e sentimentalistas (quando a cena envolve Varinia) e acordes rápidos e fortes (durante o treinamento), alcançando seu ápice durante a batalha final, em tom triunfal.

Mas Spartacus não é apenas um esplendor técnico. As atuações mantém o bom nível do longa, a começar por Kirk Douglas, que encarna Spartacus, o escravo que virou líder da rebelião, com grande vigor. Sua firmeza na condução de milhares de pessoas demonstra seu extinto nato de liderança, e Douglas é competente ao transmitir a firmeza necessária ao personagem. O ator também se mostra competente nos momentos sutis, como quando diz que Antoninus tem grande valor e que ele tem sede de saber (“Um animal aprende a lutar, mas recitar coisas bonitas… Sou livre e não sei ler, quero aprender tudo. Quero saber de onde vem o vento…”). Nas palavras de Varinia, Spartacus era forte o suficiente para ser fraco, demonstrando sentimentos e se mostrando alguém bastante humano, como fica claro quando tem a oportunidade de salvar sua pele e da sua família, mas ao invés disso, manda embora quem fez a oferta, extremamente ofendido pela idéia de deixar os outros escravos para trás. Além disso, o romance entre Spartacus e Varinia só é verossímil devido à excelente química do casal. O interesse de Spartacus por Varinia era verdadeiro (“Eles a machucaram?”), e ela sente isto. A paixão nasce quando ele a trata como uma pessoa, uma mulher de verdade, e não uma escrava sexual que está ali para servi-lo. Esta paixão será o estopim da revolta de Spartacus, que iniciará sua luta contra Roma no momento em que ver Varinia deixar os portões da cidade. Jean Simmons é a parceira ideal para Douglas, vivendo Varinia com sensualidade e sensibilidade. Seus grandes momentos acontecem justamente quando contracena com o escravo, criando empatia com o espectador, como em seu reencontro com Spartacus após ser levada para Roma, o momento em que conta que está grávida e a triste despedida do casal.

Completando o elenco, Charles McGraw é bem firme como Marcellus, o ex-gladiador que agora é treinador (“Teria o visual de Maximus, de Gladiador, sido inspirado nele?”). Peter Ustinov também está muito bem como o esperto agente de escravos Lentulus Batiatus. Repare como ao pressentir que o local estava em ebulição, ele foge sem pestanejar, largando tudo para trás, momentos antes da rebelião se consumar. Charles Laughton tem uma grande atuação como o senador Gracchus, que faz questão de deixar bem claro qual é o único meio de se manter vivo no sujo universo do senado romano (“Em Roma, a dignidade encurta a vida mais que a doença”). E finalmente, Laurence Olivier cria um Marcus Crassus absolutamente temível, alternando repentinamente seu senso de humor, por exemplo, quando está com Varinia. Sua crueldade fica evidente quando finalmente chega ao poder. Sua sede não era apenas por capturar Spartacus, ele queria “matar a lenda”. Mas suas atitudes tiveram um efeito contrário. Interessante notar como o cruel Crassus se rende ao poder de sedução da mulher quando vê Varinia, levando-a para viver com ele. Por mais cruel que seja, um homem jamais resiste aos encantos femininos.

E finalmente, não podemos deixar de destacar o homem responsável por este grande épico. Stanley Kubrick dirige “Spartacus” com a firmeza costumeira, trabalhando nos pequenos detalhes para criar cenas absolutamente inesquecíveis. Repare, por exemplo, o plano deslumbrante da caminhada dos escravos, já livres, filmado de cima de um monte, ou o curioso ponto de vista de Spartacus enquanto aguarda ansioso para lutar na arena, olhando pela fresta da madeira. Kubrick ainda comanda duas seqüências absolutamente sensacionais. A primeira delas é a rebelião dos gladiadores e a conseqüente fuga do local onde eram treinados, filmada com muito vigor e realismo. Ainda mais impressionante é a espetacular seqüência da batalha final, com movimentos orquestrados de mais de oito mil figurantes, movimentos de câmera extremamente ágeis e um ritmo alucinante completamente coerente com o momento, tornando a cena bastante realista. Um exemplo de grande direção. Destaca-se nesta seqüência o excelente trabalho de som que trabalha em pequenos detalhes, como o barulho das espadas, e em grande escala, através dos gritos da multidão.

A bela e triste cena final emociona, quando Spartacus, à beira da morte, conhece seu filho, que viverá livre como ele sonhou. O triste desfecho resume bem o fio condutor da trama. A luta de um homem para conseguir ser livre, viver normalmente e ter uma família. E exatamente por retratar esta batalha focando o drama de um homem só que “Spartacus” se torna bastante humano. O espectador se identifica com o drama que vê na tela, o que não aconteceria se apenas acompanhasse milhares de homens lutando em campo aberto, sem saber as motivações de cada um. As razões do conflito ficam claras e o espectador sabe o que está em jogo.

“Spartacus” não é o grande trabalho da vida de Stanley Kubrick, que faria depois pelo menos duas obras-primas da história do cinema. Mas nem por isso deixa de ser um grande filme, lindamente fotografado, com uma estória apaixonante e envolvente e, pra variar, extremamente bem dirigido. Contando ainda com excelentes atuações, o longa garante a diversão e prova que as grandes produções podem sim oferecer bom entretenimento, sem ofender a inteligência do espectador.

Texto publicado em 29 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

BEN-HUR (1959)

(Ben-Hur)

 

Videoteca do Beto #39

Vencedores do Oscar #1959

Dirigido por William Wyler.

Elenco: Charlton Heston, Jack Hawkins, Haya Harareet, Stephen Boyd, Hugh Griffith, Martha Scott, Cathy O’Donnell, Sam Jaffe, Finlay Currie, Frank Thring, Terence Longdon, George Relph e André Morell.

Roteiro: Karl Tunberg, baseado em livro de Lew Wallace.

Produção: Sam Zimbalist.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Grandiosidade. Esta é a palavra que resume os números megalomaníacos do épico “Ben-Hur”, superprodução dirigida por William Wyler e estrelada por Charlton Heston, que utilizou milhares de figurantes em aproximadamente trezentas locações, felizmente, para contar uma bela estória de forma bastante competente. Com cores vivas e um visual deslumbrante, o longa narra a trajetória de um jovem judaico que vive uma verdadeira odisséia na Judéia dominada por romanos nos tempos de Jesus Cristo – que, aliás, cruza seu caminho em momentos cruciais de sua vida.

O ano é 26 d.C., a cidade é Jerusalém. Lá vive Judah Ben-Hur (Charlton Heston), um rico mercador judeu que reencontra, após muitos anos, seu amigo de infância Messala (Stephen Boyd), agora retornando ao local como o chefe das legiões romanas que comandam a cidade. Após divergirem em questões políticas, nasce um ódio recíproco e Messala condena o judeu a viver como escravo em um navio romano de guerra, mesmo sabendo da inocência do amigo. Muitos anos depois, após sobreviver milagrosamente ao período de escravidão, Ben-Hur voltará para buscar sua vingança, de uma forma que somente o destino poderia lhe proporcionar.

O visual deslumbrante de “Ben-Hur” é resultado de um trabalho técnico em conjunto da mais alta qualidade. A começar pela perfeccionista Direção de Arte da dupla Edward C. Carfagno e William A. Horning, que trabalha detalhadamente em cada uma das muitas locações que o longa utiliza, conferindo bastante realismo e ambientando perfeitamente o espectador à trama. Colaboram também os belíssimos figurinos de Elizabeth Haffenden, que têm ainda função narrativa, por exemplo, durante a corrida de bigas (ou quadrigas, já que eram puxadas por quatro cavalos). Observe como o cavalo de Judah é branco e sua roupa é azul ao passo que Messala utiliza cavalos negros e roupas pretas, claramente simbolizando o lado bom e o lado mau da disputa. Além disso, a biga grega utilizada por Messala reforça ainda mais sua crueldade junto ao espectador. Já a direção de fotografia de Robert Surtees aproveita ao máximo a beleza da região para criar um esplendor visual repleto de cores vivas e intensas. Como podemos perceber na cena crucial para o destino de Judah, o som também é importante, avisando que a telha está solta momentos antes dela cair em cima dos romanos e selar seu destino. Finalmente, a marcante trilha sonora pontua diversos momentos do longa de forma magnífica e é mérito de Miklós Rózca.

Ainda na parte técnica, note como a narrativa dá alguns saltos longos na estória de forma sutil e elegante, graças à boa montagem de John D. Dunning e Ralph E. Winters. Repare, por exemplo, como logo após ser preso, Ben-Hur é questionado por Arrius sobre há quanto tempo ele é um escravo remador. A resposta (três anos) indica a passagem do tempo (no filme passaram-se apenas alguns minutos). Em outro momento, logo após chegar a Roma, Arrius diz que Ben-Hur é o melhor corredor de bigas que ele tem, com cinco vitórias em cinco anos. Por outro lado, a montagem estende demais o terceiro ato. Após o grande clímax (a vitória de Judah contra Messala) o longa leva muito tempo para resolver o conflito derradeiro (a lepra da família Hur). Felizmente, esta resolução acontece de forma arrebatadora, o que ameniza o problema. A narrativa também cruza de forma interessante com diversos acontecimentos bíblicos, utilizando a história de Jesus (o filme inicia com o nascimento dele e termina com sua crucificação) como pano de fundo para contar a estória de vingança de Judah Ben-Hur. Observe como o inteligente roteiro de Karl Tunberg (baseado em livro de Lew Wallace) insere na narrativa diversas cenas que servem para nos situar cronologicamente na estória, como a chegada de José e Maria à Judéia, o sermão de Jesus no monte, a escolha de Pilatos para comandar a região e, finalmente, a crucificação. Num destes momentos, aliás, acontece o tocante primeiro encontro entre Judah e Jesus. Repare como o rosto de Jesus não é mostrado (algo que se repetiria durante toda a narrativa), já que ele, neste caso, é apenas um coadjuvante na estória. Por outro lado, este homem tem profundo impacto na vida de Judah, como o segundo e ainda mais marcante encontro entre eles mostrará. O roteiro escapa ainda do maniqueísmo ao retratar Arrius como um romano bom, evitando assim o pensamento generalista de que todos romanos são pessoas cruéis e sem coração.

E se os dois encontros entre Ben-Hur e Jesus são emocionantes, é porque as atuações são igualmente convincentes. Charlton Heston tem uma atuação bastante enérgica, explorando muito bem sua força física, mas obtendo sucesso também nos momentos dramáticos, como quando revê a mãe e a irmã assoladas pela lepra, e posteriormente, quando as vê curadas, além dos citados encontros com Jesus Cristo. Jack Hawkins cria um Quintus Arrius incrivelmente ambíguo, capaz de enxergar entre os escravos alguém com potencial para suprir a falta que sentia de seu filho, preenchendo este vazio em sua vida. Stephen Boyd mantém o bom nível das atuações como o cruel Messala. Inicialmente amistoso e até mesmo demonstrando sentimentos por Ben-Hur, sua paixão se transforma em ódio de forma proporcional, o que faz dele um inimigo temível. O primeiro diálogo entre os amigos sugere a existência de um romance, que fica ainda mais evidente quando entrelaçam os braços para tomar vinho. Ele não mede esforços para vingar-se de Judah e não perdoa até mesmo a família Hur na primeira chance que tem de prendê-los. Completando o elenco, Hugh Griffith merece destaque como o Xeique Ilderim, que cuida dos cavalos como se fossem suas esposas e garante momentos de bom humor, como quando aposta com Messala que vencerá a corrida.

William Wyler conduz a narrativa com extrema competência, criando seqüências absolutamente inesquecíveis. A batalha naval que culmina com a fuga de Ben-Hur é sensacional. Extremamente realista, flui em um ritmo alucinante, que é mérito também da excelente montagem, e nos brinda com imagens marcantes, como a das centenas de escravos remando e a invasão dos inimigos romanos no navio. Já a incrivelmente bem orquestrada cena da corrida de bigas é o ponto alto do filme, prendendo o espectador de forma única e criando uma série de imagens absolutamente incríveis. Toda a cena é visualmente perfeita, repleta de planos magníficos e carregada de adrenalina. É impossível não se envolver na competição e torcer pelo sucesso de Ben-Hur e a forma como Wyler conduz a corrida é responsável por isso. O diretor alterna entre planos distantes que mostram a grandiosidade do local, com arquibancadas lotadas e a enorme pista de corrida, e planos inacreditavelmente realistas, muito próximos dos cavalos e dos competidores, praticamente nos jogando dentro da arena e nos fazendo sentir a emoção da corrida. Apesar de aparecer apenas por alguns instantes durante a chegada de Judah, a cidade de Roma apresentada em “Ben-Hur” também é incrivelmente imponente e grandiosa, refletindo o poder daquele império na época. Finalmente, Wyler conduz muito bem os momentos mais importantes dramaticamente, como o reencontro entre Ben-Hur e Messala, quando Judah entra no palácio dizendo “Você está errado Messala!” com o rosto encoberto nas sombras e os dois reencontros opostos entre Ben-Hur e sua família (o primeiro carregado de tristeza e de dor, e o segundo repleto de alegria).

A mensagem de paz e amor de Jesus toca o coração de Judah, que finalmente se convence que a violência só gera mais violência. A forma como Jesus reagiu a toda a dor que sofreu causou grande impacto em Ben–Hur e o interessante final, com o sangue dele sendo lavado pela água da chuva, seguido pelo plano que encerra o longa, com um pastor liderando as ovelhas (que claramente simboliza Jesus Cristo), deixa clara a ligação entre a fé no cristianismo e a cura das doenças da família Hur. A vingança não resultou em redenção para o jovem Judah Ben-Hur, que só encontrou realmente a paz quando olhou na face de um homem infinitamente mais bondoso que ele próprio.

Utilizando a história mais famosa de todos os tempos como pano de fundo, “Ben-Hur” brinda o espectador com um espetáculo visual de enorme escala para narrar a vida do jovem que volta à sua terra natal em busca de vingança, e acaba encontrando a verdadeira paz interior. Dirigido magistralmente por William Wyler e contando ainda com ótimas atuações, prova definitivamente que as superproduções podem ter enorme valor, desde que utilizem seus recursos para contar belas histórias.

Texto publicado em 27 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

CREPÚSCULO DOS DEUSES (1950)

(Sunset Boulevard)

 

Videoteca do Beto #38

Dirigido por Billy Wilder.

Elenco: William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Nancy Olson, Fred Clark, Lloyd Gough, Jack Webb, Franklyn Farnum, Larry J. Blake, Chales Dayton, Cecil B. DeMille, Buster Keaton, H.B. Warner e Ray Evans.

Roteiro: Charles Brackett, D.M. Marshman Jr. e Billy Wilder.

Produção: Charles Brackett.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Os bastidores de Hollywood são escancarados diante do público nesta maravilhosa produção dirigida por Billy Wilder, que mistura com competência ficção e realidade. Os jogos de interesses, a forma como as estrelas que a própria Hollywood produz são abandonadas e esquecidas e o impacto que este abandono provoca nestas pessoas são retratados de forma singular em “Crepúsculo dos Deuses”. O longa mostra também como neste meio as pessoas podem se sujeitar a qualquer coisa em troca de sucesso, fama ou apenas uma vida confortável.

Joe Gillis (William Holden) é um roteirista praticamente falido que foge de credores que tentam recuperar seu veículo por falta de pagamento. Acidentalmente, acaba se refugiando numa decadente mansão, cuja proprietária chamava-se Norma Desmond (Gloria Swanson), uma estrela do cinema mudo há tempos longe da fama. Ao saber que Gillis é roteirista, Norma contrata-o para revisar o roteiro que ela escreveu, acreditando ser esta a oportunidade de devolvê-la ao estrelato. Diante desta chance dada pelo destino, Gillis decide aceitar a proposta, e passa a descobrir através de conversas com o mordomo Max (Erich von Stroheim) as razões para que Norma ainda se considere uma estrela, ao mesmo tempo em que desenvolve um carinho especial pela também candidata a roteirista Betty Schaefer (Nancy Olson).

“Crepúsculo dos Deuses” revela seu final logo na primeira cena, através de uma intrigante narração póstuma – descobriremos ser a voz de Gillis somente no terceiro ato – que mantém um tom de ironia e sarcasmo (“Pobre coitado! Sempre quis ter uma piscina”), numa seqüência que nos levará até o corpo de um homem morto numa piscina. Esta tomada, aliás, é um dos raros planos estilísticos de Wilder, que procura priorizar a condução firme da narrativa e sempre valorizou mais o roteiro que o aspecto visual em seus filmes. Em todo caso, neste plano Wilder tem o cuidado de não mostrar detalhadamente o rosto do jovem morto na água. Enquanto buscamos entender as razões daquele assassinato, a excelente montagem de Doane Harrison e Arthur P. Schmidt mantém o bom ritmo da narrativa, dividindo claramente os acontecimentos em três etapas. Primeiro observamos a busca de Gillis pelos dólares que precisa para saldar as dívidas. Depois, acompanhamos seu envolvimento com Norma (e a fortuna que ela trazia). E finalmente, seremos cúmplices de sua tentativa frustrada de largar aquela vida. Portanto, Gillis é o personagem central da narrativa e servirá de fio condutor para que Wilder explore ao máximo os bastidores da indústria de Hollywood, ao mesmo tempo em que estuda a fundo os efeitos do esquecimento e do distanciamento da fama na mente de uma estrela abandonada. Priorizar o roteiro, no entanto, não significa descuidar completamente do visual. A excepcional Direção de Arte de Hans Dreier e John Meehan capricha em cada detalhe, como é notável no interior da enorme e envelhecida mansão de Norma, e a fotografia escura (Direção de John F. Steinz) utiliza na maior parte do tempo ambientes fechados e cenas noturnas, refletindo o clima sombrio em que as ações se passam.

O momento de parar a carreira e deixar pra trás todo o glamour e fortuna que trazem é provavelmente o mais complicado na vida de qualquer artista. Olhando por outra perspectiva, é comparável ao momento em que jogadores de futebol, por exemplo, deixam os holofotes e penduram as chuteiras. Salvo raras exceções, deixar a atenção da mídia e o carinho do público pra trás é sempre doloroso para quem viveu a maior parte da vida lado a lado com o sucesso. No meio do cinema, ainda existe a possibilidade de continuar trabalhando, mesmo sem o glamour de outrora, até o fim de seus dias. Mas nem sempre foi assim. Na época da transição do cinema mudo para o cinema falado, muitos atores e atrizes perderam o emprego e deixaram, repentinamente, os holofotes da fama. Este era o caso de Norma Desmond. E conviver com a solidão imposta pela aposentadoria, enclausurada dentro de sua enorme mansão, não foi a melhor escolha para ela. Norma enlouqueceu, jamais aceitando a realidade, até por culpa de seu mordomo (e ex-marido, que também era diretor e a revelou para o mundo), que escrevia cartas e entregava pra Norma, como se fossem de seus fãs.

A grande atuação de Gloria Swanson como Norma Desmond tem uma explicação bastante especial (além do talento da atriz, é claro), já que ela própria era uma atriz inativa há vinte anos, que viveu seus dias de glória, assim como a personagem, nos tempos do cinema mudo. Até mesmo o filme que é exibido em sua mansão é verdadeiro (“Queen Kelly”, de 1929), e curiosamente, dirigido por Erich Von Stroheim, que em “Crepúsculo dos Deuses” interpreta (muito bem por sinal) o mordomo Max, também um diretor já aposentado. Exibir “Queen Kelly”, aliás, é bastante simbólico, pois este filme foi praticamente o responsável pelo fim da carreira de ambos. Convencida, direta, freqüentemente com olhar superior e rangendo os dentes, Norma é o retrato da auto-idolatria. Esta aparente autoconfiança, no entanto, escondia a enorme depressão que sentia por ter deixado os dias de glórias no passado e chegado ao fim de sua carreira (“Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos”). Seus gritos e maneirismos exagerados eram apenas uma forma de esconder a tristeza e melancolia que a afligia por ter sido esquecida pelo público, imprensa e pela própria Hollywood. Por isso, a grande cena do retorno de Norma aos estúdios da Paramount é ao mesmo tempo cômica e tocante. Ela se sente novamente uma estrela, mesmo que por apenas alguns segundos, antes de voltar à realidade novamente. Mas Norma nunca aceitou a realidade totalmente, preferindo viver a fantasia criada por seu mordomo, e até mesmo em seu último ato antes de ser presa, interpreta diante das tão sonhadas câmeras a personagem que sonhava viver em sua volta ao cinema (“Sr. DeMille, estou pronta para o meu close”).

William Holden está confortavelmente bem como Joe Gillis, o roteirista desconhecido (“As platéias não pensam em quem escreve o filme. Pensam que os atores fazem o que dá na cabeça”) que encontra em Norma a chance de ter a fortuna que sonhava. “Os melhores roteiros foram escritos de barriga vazia”, diz seu agente durante a perseguição de Gillis aos dólares que tanto necessitava para manter seu carro. Desesperado, ele aceitaria qualquer coisa, e acaba caindo nos braços de Norma. Irônico em diversos momentos (“Ela leu o roteiro?”, pergunta ao ouvir Norma falar sobre uma astróloga e horóscopos), Gillis sabia que aquela era a chance que tinha de conviver com o luxo e a vida confortável que Hollywood prometia e por isso, aceitou viver aquela mentira. Mas até o momento em que faz esta revelação à Betty Schaefer (“Fiz um contrato de longo prazo”), interpretada com muito charme por Nancy Olson, não sabemos exatamente quais eram seus pensamentos e sentimentos, especialmente por causa do pequeno romance que vive com a garota. Esta ambigüidade dos personagens, também presente em Schaefer – que apaixonada por Gillis, desiste por um instante de se casar com o amado noivo Artie Green (Jack Webb) – é um dos vários pontos positivos do excelente roteiro de Charles Brackett, D.M. Marshman Jr. e Billy Wilder, que espalha por toda a narrativa uma série de frases marcantes (muitas já citadas ao longo desta crítica), além de abusar da metalingüística. A ambigüidade de Gillis exibe outra face quando após dispensar Betty, ele volta somente para fazer as malas e largar tudo àquilo que acabou de dizer ser a razão de sua estadia na mansão. Completando o elenco, o diretor Cecil B. DeMille (“Os Dez Mandamentos”) interpreta a si próprio e seu reencontro com Norma é extremamente simbólico, já que assim como no longa, DeMille e Swanson haviam trabalhado juntos nos tempos de glória da atriz na vida real e aquela era realmente a volta dela aos estúdios da Paramount. Em outra cena, Norma joga cartas com três atores aposentados do cinema mudo, chamados de “bonecos de cera” por Gillis. Os três (Buster Keaton, H.B. Warner e Ray Evans) também eram atores verdadeiros realmente aposentados e que interpretam a si próprios.

Como podemos notar, “Crepúsculo dos Deuses” exerce a metalingüística com extrema competência para criticar com acidez o mundo dos sonhos de Hollywood, mostrando sem pudor o que significou para a capital do cinema mundial aposentar suas estrelas do cinema mudo. Conduzido por um roteiro extremamente consistente e corajoso que ele próprio ajudou a escrever, Billy Wilder entrega ao espectador uma obra sombria, com gosto amargo, que desde os primeiros minutos demonstra sua enorme qualidade, e em seu trágico e melancólico final confirma a expectativa, se firmando como uma obra de primeira grandeza.

Texto publicado em 25 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

A MISSÃO (1986)

(The Mission)

 

Videoteca do Beto #37

Dirigido por Roland Joffé.

Elenco: Robert De Niro, Jeremy Irons, Ray McAnally, Aidan Quinn, Cherie Lunghi, Ronald Pickup, Chuck Low, Liam Neeson, Daniel Berrigan e Monirak Sisowath.

Roteiro: Robert Bolt.

Produção: Fernando Ghia e David Puttnam.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

As belíssimas paisagens da divisa entre Brasil, Argentina e Paraguai, capitaneadas por uma incrível cachoeira em meio à floresta, são o pano de fundo para a história da chegada de espanhóis e portugueses em território indígena, onde os jesuítas tocavam o projeto das missões, criando comunidades e vivendo em harmonia com os povos nativos. A forma como as decisões políticas e os interesses econômicos determinaram o fim das missões e o meio violento utilizado para este fim é o que poderemos testemunhar no bom filme dirigido por Roland Joffé. “A que preço este continente foi dominado, colonizado e encontrou o progresso?” é a reflexão que surge na mente do espectador quando o último plano do filme desaparece na tela.

“A Missão” narra à história do padre Gabriel (Jeremy Irons), um jesuíta de bom coração que luta para defender os interesses indígenas ao lado de Fielding (Liam Nesson), e ao mesmo tempo tenta convertê-los para o cristianismo, no final do século XVIII. Gabriel passa a enfrentar problemas com o mercenário mercador de escravos Rodrigo Mendoza (Robert De Niro), mas vê a oportunidade de guiá-lo em sua redenção quando, após matar o próprio irmão Felipe (Aidan Quinn) num duelo pelo amor da jovem Carlotta (Cherie Lunghi), Rodrigo sequer consegue continuar vivendo. Decidido a se regenerar, e como forma de pagar penitencia pelo peso de seu passado, o mercenário se torna padre e parte para viver na missão jesuíta, junto aos índios que perseguia. Os problemas começam quando os interesses econômicos na região entram em conflito com a missão jesuíta.

Não é difícil imaginar a dificuldade que os primeiros europeus encontraram quando chegaram ao continente sul-americano, ao se deparar com os povos nativos da região. Imagina-se também o choque cultural provocado nestes povos, ao perceberem que não estavam sozinhos e serem invadidos por pessoas de culturas tão diferentes. Por isso, quando vemos a forte cena em que um padre, amarrado em uma cruz, desce uma cachoeira para encontrar a morte, podemos imaginar os motivos que causaram este terrível fim. Mesmo assim, os chamados jesuítas tiveram sucesso em suas missões, se estabelecendo na região e convivendo pacificamente com os povos indígenas.

Roland Joffé é preciso na criação de planos incrivelmente belos, enquadrando perfeitamente as lindas paisagens do local. Conduzindo a narrativa com segurança, o diretor consegue manter um bom ritmo, falhando apenas na confusa seqüência final, quando o combate se inicia. A sutileza do diretor é perceptível na cena em que Rodrigo mata seu irmão Felipe, onde a câmera sequer mostra o irmão morto, fixando a imagem no rosto de Rodrigo e captando o impacto daquela ação em sua mente, já que este momento mudaria sua vida para sempre. Joffé também é competente na condução de uma das mais belas cenas do filme, quando padre Gabriel toca flauta para fazer contato com os índios, mostrando o poder da musica como linguagem universal, rompendo a barreira do idioma e permitindo a comunicação entre povos distintos. Esta cena, aliás, é marcada pela linda música tema composta por Ennio Morricone, que é o destaque da bela trilha sonora do filme.

O roteiro de Robert Bolt pode parecer bastante maniqueísta, ao retratar praticamente todos os europeus como vilões sem coração e todos os índios e jesuítas como pessoas boas. Porém, o filme escapa do maniqueísmo ao utilizar um inteligente artifício narrativo. Toda a história é contada sob o ponto de vista de Altamirano (Ray McAnally), que amargurado, generaliza em seu relato, transformando todos os europeus em pessoas más e todos os índios em pessoas boas. Além disso, o próprio arrependimento do narrador e a mudança de Rodrigo ao longo da narrativa reforçam este argumento. O roteiro também aborda de forma convincente como o jogo de interesses políticos determinou as ações tomadas na região, sem eximir de culpa o governo espanhol, português e a igreja. Fica claro para o espectador que a igreja trabalhou muito mais para fins políticos do que para defender a mensagem divina de amor e paz. Finalmente, Bolt teve o cuidado de desenvolver muito bem dois personagens antagônicos, que caminham juntos durante certo momento da narrativa, somente para tomar caminhos distintos em defesa da mesma causa no final. Obviamente, estamos falando de Rodrigo Mendoza e padre Gabriel. Por outro lado, ao não conseguir criar empatia com nenhum dos índios, o roteiro parece diminuir o impacto da terrível seqüência final, mas de certa forma, ajuda a entender o problema como algo generalizado, e não concentrado em um único personagem. Assim, o espectador sofre, mas não por um único índio por quem tenha criado empatia, e sim por todos eles, o que é mais tocante.

A citada cena em que Gabriel faz contato com os índios através da música serve também para iniciar a ligação do espectador com o bom padre, que será importante durante toda a narrativa. Irons está muito bem nesta cena, demonstrando a tensão misturada com coragem que sentia no momento, com o olhar atento para todos os lados e os gestos minimamente calculados. A grande atuação de Jeremy Irons cresce ainda mais no terceiro ato, quando Gabriel sofre o dilema entre defender os nativos utilizando a força e respeitar os ensinamentos cristãos de paz e amor. Mesmo sofrendo (e o ator é competente na transmissão deste sentimento), se mantém firme em sua fé, como podemos notar em sua importante conversa com Rodrigo, quando este pede para ser abençoado. Irons demonstra bem a insegurança de Gabriel, afinal de contas, o padre também é um ser humano. Mesmo assim, decide seguir pelo caminho do amor, nem que pague com a vida por isso.

Quem também decide pagar com a vida para defender os índios, só que de uma forma diferente e mais violenta, é Rodrigo Mendoza. Inicialmente apresentado como um homem cruel, capturando índios e negociando-os, ele se transforma completamente após a tragédia que destrói sua vida.  Após matar seu irmão, que havia se interessado por Carlotta (a mulher com quem Mendoza se relacionava), desiste de viver, sendo convencido por Gabriel a seguir com os Jesuítas para a missão, aceitando apenas como forma de penitência. Porém, sua transformação ao longo da trama é notável, graças ao bom desempenho do sempre competente Robert De Niro. A cena em que ele desaba num choro sentido diante dos índios é extremamente comovente e exemplifica muito bem o bom trabalho do ator. Rodrigo é um personagem muito importante na trama, e a câmera de Joffé traduz isso algumas vezes. Observe, por exemplo, como em dois momentos distintos, ao ouvir palavras mentirosas ou agressivas dos europeus, a câmera se aproxima dele (primeiro através de um close, depois através de um travelling para a esquerda), realçando seu incomodo com o que ouvia. Repare também o simbolismo óbvio na cena em que um pequeno índio encontra e entrega para Rodrigo sua espada perdida. O menino sabia que no íntimo Rodrigo queria lutar. As palavras não precisam ser ditas, o gesto resume tudo. Observe também como através da expressão facial e do olhar, De Niro transmite todo o sentimento do personagem na cena. Completando os destaques no elenco, Aidan Quinn tem uma participação discreta e pequena como Felipe Mendoza, enquanto Liam Nesson tem uma atuação discreta e competente na pele de Fielding, crescendo nos momentos finais, quando ajuda Rodrigo a liderar os índios contra a invasão européia.

O bom trabalho de direção de fotografia de Chris Menges é o destaque na parte técnica, explorando com competência a absurda beleza das cachoeiras, dos rios e da floresta local. Repare como a fotografia é dessaturada quando a ação se passa nas vilas e cidades, mudando para uma imagem muito mais viva na floresta e na comunidade dos índios e jesuítas, refletindo o estado de paz e pureza do local, em oposição à sujeira e aridez da vida na cidade. Também tem função narrativa quando o exército europeu chega ao local retirando mulheres e crianças, utilizando uma paleta escura e até mesmo a chuva para refletir a tristeza que os nativos sentiam. Os figurinos de Enrico Sabbatini e a direção de arte de John King e George Richardson são responsáveis pela competente ambientação à época, enquanto a montagem de Jim Clark é responsável pelos belos clipes que embalam a adaptação de Rodrigo ao meio indígena. Clark também cria boas elipses, como quando escutamos alguém comentar com Gabriel que Rodrigo havia assassinado o irmão há seis meses, logo depois da cena do duelo.

Mostrando claramente os interesses políticos de Espanha, Portugal e da igreja católica na região sul-americana, e como este interesse foi determinante para que os nativos fossem dizimados, abrindo espaço para a chegada destas nações e a construção da civilização que vemos hoje em dia, “A Missão” não chega a emocionar como poderia, mas cumpre um papel histórico importante. Além disso, mostra como duas pessoas podem defender a mesma causa de formas distintas, de acordo com o que acreditam, e nos tocar da mesma forma. Respondendo à pergunta inicial deste texto, o próprio narrador Altamirano deixou sua opinião: o preço da colonização foi muito alto.

Texto publicado em 19 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

9 ½ SEMANAS DE AMOR (1986)

(Nine 1/2 Weeks)

 

Videoteca do Beto #36

Dirigido por Adrian Lyne.

Elenco: Mickey Rourke, Kim Basinger, Margaret Whitton, David Margulies, Christine Baranski, Karen Young, William De Acutis, Dwight Weist e Roderick Cook.

Roteiro: Sarah Kernochan, Zalman King e Patricia Louisianna Knop, baseado em livro de Elizabeth McNeill.

Produção: Mark Damon, Antony Rufus Isaacs, Sidney Kimmel e Zalman King.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Tramas baseadas em cenas eróticas andam na perigosa linha entre o agradável e o ridículo, dependendo da forma como o assunto é abordado. Por isso, filmes com alto teor erótico e relações pouco convencionais correm o risco de se tornarem um enorme fracasso (não pelo sexo, já que o grande público adora o apelo sexual), ainda mais em uma sociedade hipócrita como a nossa. Felizmente, “9 ½ Semanas de Amor” consegue um resultado satisfatório, já que humaniza seus personagens, estudando as alterações provocadas em suas mentes através dos jogos sexuais em que se envolvem. Acerta, portanto, ao separar os experimentos sexuais do casal, vividos entre quatro paredes, da personalidade humana de cada um, algo infinitamente mais importante e valioso.

A bela e sexy Elizabeth (Kim Bassinger) trabalha em uma galeria de arte e vê sua vida mudar quando conhece o misterioso John (Mickey Rourke), com quem acaba rapidamente se envolvendo. O casal inicia então a pratica de jogos sexuais, que gradativamente vão se tornando mais perigosos e acabam complicando o relacionamento até um ponto difícil de ser controlado.

O diretor Adrian Lyne consegue criar uma atmosfera muito sensual – utilizando o caprichado jogo de luz e sombras do diretor de fotografia Peter Biziou – em cenas extremamente eróticas que sugerem muito mais do que mostram, como o strip-tease de Elizabeth. Em outros momentos, é praticamente possível sentir os toques do casal e a sensação provocada por eles, graças aos muitos closes utilizados por Lyne, como por exemplo, no gelo pingando ou nas frutas tocando os lábios da garota, além dos closes no rosto dos personagens, que colaboram para demonstrar a excitação de ambos. Além disso, o som contribui captando pequenos detalhes, como o barulho de uma lata sendo aberta. Este erotismo mais sugerido que explicito é essencial para o sucesso das cenas, pois deixa a imaginação do espectador fluir. Lyne escorrega, porém, na desnecessária cena da perseguição do casal na chuva, que serve apenas como desculpa do roteiro para a tórrida (e acrobática) cena de sexo que segue, inclusive pecando pela falta de realismo durante a briga com os baderneiros.

Escrito por Sarah Kernochan, Zalman King e Patricia Louisianna Knop (baseado em livro de Elizabeth McNeill), o roteiro acerta ao mostrar a vida social de ambos, que trabalham normalmente durante o dia e enfrentam problemas usuais, deixando claro para o espectador que os jogos eróticos do casal funcionam apenas como uma fuga consciente da realidade. Interessante notar também como ambos participam de forma consensual, simplesmente atendendo aos seus mais profundos desejos eróticos. John quer ter o controle, Elizabeth quer se entregar, e ambos vivem estas fantasias da forma que desejam. Finalmente, o roteiro acerta ao apresentar Elizabeth como uma mulher carente afetivamente devido à recente separação, o que poderia tranquilamente facilitar sua entrega a uma relação com um homem misterioso e enigmático como John. A montagem (crédito para Caroline Biggerstaff, Ed Hansen, Tom Rolf e Mark Winitsky) alterna corretamente entre os sensuais jogos, que lentamente vão evoluindo para algo mais perigoso, e o dia-a-dia do casal, que tem uma vida social normal. Esta fluidez funciona como um lembrete ao espectador de que eles não podem ser julgados como “doentes” simplesmente por não praticarem o sexo da forma que se convencionou chamar “normal”. John e Elizabeth se entregam aos desejos sem medo e ninguém pode julgar o que fazem entre quatro paredes, pois esta é uma questão intima e que deve ser respeitada. Infelizmente, o roteiro escorrega em seu final moralista, praticamente castigando o casal por ter se envolvido daquela forma.

Como dito, a Elizabeth de Kim Bassinger é uma mulher carente afetivamente. Separada, não consegue encontrar alguém que satisfaça seus desejos e lhe complete, como fica claro quando a amiga sugere que faça um anúncio no jornal para encontrar um companheiro. Bassinger inicia sua atuação de forma inexpressiva e muito fria. Gradualmente, consegue melhorar sua performance, se soltando ao longo da trama e até mesmo alcançando um bom desempenho dramático no triste terceiro ato, quando se mostra mais forte do que poderíamos imaginar. Ao testemunhar a relação do casal, algumas questões podem surgir na cabeça do espectador. Porque Lizzy aceita tudo que John pede? Seria a paixão, a curiosidade ou o mistério em torno dele capaz de fazer esta mulher (aparentemente bem resolvida profissionalmente, mas carente afetivamente) se entregar desta forma? Questões absolutamente pessoais. A verdade é que outra pergunta é cabível: Quem pode julgar a entrega dela aos desejos que sente? A verdade é que um dos grandes acertos de “9 ½ Semanas de Amor” é justamente mostrar Elizabeth como uma mulher, e não como um objeto do desejo masculino, ao mostrar seus questionamentos e a forma como esta relação afeta sua vida. Observe como no inicio da relação não é raro ver Elizabeth com o olhar perdido no horizonte enquanto trabalha na galeria, provavelmente sonhando com os encontros noturnos com John. Seus sentimentos, porém, se transformam em revolta, simbolizada na cena em que agride uma mulher e sai pela noite para vingar-se de forma reativa e pouco racional, mostrando que John foi longe demais. Ela não suportou (e nem deveria) o caminho que a relação seguiu e tomou a decisão que julgou correta, terminando o relacionamento. A empatia do publico com o casal é outro mérito de Bassinger, já que num filme como este, é essencial a química entre o casal principal. E os dois conseguem sucesso nesta tarefa, graças também ao ótimo Mickey Rourke. Quando John deixa Elizabeth presa na roda gigante e sai para tomar um café, está também sinalizando sua preferência por situações em que tenha o domínio psicológico. A relação que se estabelece entre os dois posteriormente, onde John comanda Elizabeth durante os jogos sexuais, mas em troca lhe entrega todo o seu amor e carinho até mesmo em pequenos gestos – como preparar o café da manhã (“você não lava pratos, eu te visto, te dou banho…”) – pode soar estranha para a maioria das pessoas, mas para eles era algo prazeroso e excitante. Rourke mantém um ar misterioso, muito coerente com o personagem. Seu John é um homem seguro, direto e pouco aberto quanto à sua vida particular. Só sabemos que teve outra mulher através de uma foto que Elizabeth encontra em seu guarda-roupa e ele só se abre pra falar da família quando ela já está de partida. Seu jeito sutil consegue magnetizar Elizabeth, que vai fundo na relação até não suportar mais, no limite da linha entre o jogo e a realidade. É justamente quando John cruza esta linha que Elizabeth se rebela e, mesmo sabendo que iria sofrer, mostra força para deixá-lo. Pra ela, ele cruzou o limite do aceitável ao começar a envolver outras pessoas num relacionamento que até então se resumia a jogos entre quatro paredes e exclusivamente entre o casal. Elizabeth manteve o respeito próprio e a dignidade, não aceitando aquilo, pois apesar de se entregar aos jogos, também queria uma relação estável. Além disso, o que parecia apenas um simples jogo erótico estava começando a soar como algo doentio da parte de John. É exatamente esta linha de limite determinada por Elizabeth que salva o filme de se transformar num simples thriller erótico, analisando os efeitos deste envolvimento na vida daquela mulher.

O longa conta também com uma empolgante trilha sonora que diverte em diversos momentos, como no animado clipe com cenas do casal embalado pela excelente “Slave to Love”. O único problema da trilha é tentar criar tensão em algumas cenas onde deveria ter um tom mais sexy, como no momento em que John venda os olhos de Elizabeth pela primeira vez. Esta tentativa de criar suspense, induzindo ao pensamento de que John poderia representar algum perigo, acaba tirando um pouco do alto teor erótico, o que é uma pena. Em contrapartida, observe como quando John passa gelo pelo corpo dela, o tema romântico funciona melhor, deixando a cena mais leve e agradável.

Recheado de cenas eróticas, mas nunca chegando a ser vulgar, “9 ½ Semanas de Amor” mostra uma faceta interessante ao não se resumir apenas aos simples jogos sensuais do casal, fazendo um interessante estudo do efeito psicológico que aquela relação causa, principalmente em Elizabeth. Moralista ou não, o final deixa a mensagem de que independente da relação que tenha, a pessoa sempre poderá encontrar força para sair dela se assim desejar. Por isso, mesmo apresentando os problemas citados, o filme consegue um resultado agradável.

Texto publicado em 14 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

O FEITIÇO DE ÁQUILA (1985)

(Ladyhawke)

 

Videoteca do Beto #35

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Matthew Broderick, Rutger Hauer, Michelle Pfeiffer, Leo McKern, John Wood, Alfred Molina, Giancarlo Prete, Loris Loddi, Alessandro Serra, Nicolina Papetti, Charles Borromel e Ken Hutchinson.

Roteiro: Edward Khmara, Michael Thomas, Tom Makiewicz e David Webb Peoples, baseado em estória de Edward Khmara.

Produção: Richard Donner e Lauren Shuler Donner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O tema universal do amor impossível é o fio condutor deste simpático “O Feitiço de Áquila”, aventura medieval interessante e consideravelmente criativa dirigida pelo subestimado Richard Donner. Sua premissa inteligente já seria suficiente para garantir doses respeitáveis de drama e romantismo, mas este pequeno conto medieval vai além, apresentando uma estória encantadora, com boas atuações e uma direção competente. Por isso, mesmo apresentando pequenos defeitos, consegue envolver o espectador de maneira bastante agradável.

No século XII, a pequena cidade européia de Áquila é o palco para uma incrível história de amor. Ao perceber que sua amada Isabeau (Michelle Pfeiffer) está apaixonada pelo líder de sua guarda – o cavaleiro Navarre (Rutger Hauer) – o Bispo de Áquila (John Wood), enlouquecido de ciúme, lança uma terrível maldição sobre o casal. Durante o dia ela se transforma em um falcão e durante a noite ele se transforma em um lobo, impedindo assim que o casal consiga viver o seu amor. Mas a fuga de Phillipe Gaston (Matthew Broderick) da prisão da cidade e a inesperada ajuda do Padre Imperius (Leo McKern) será a luz de esperança que o casal precisava para finalmente poder ser feliz.

A premissa de “O Feitiço de Áquila” é muito interessante e inegavelmente criativa. O casal Navarre e Isabeau funciona como uma metáfora para o sol e a lua, que assim como os dois pombinhos (ou seria falcão e lobo?), nunca se encontram. Desta forma, o sempre atraente tema do amor impossível toma formas ainda mais dramáticas, impossibilitando até mesmo o contato físico entre os dois amantes. Os animais em que ambos se transformam também foram cuidadosamente escolhidos, já que o falcão é um conhecido símbolo de beleza, enquanto o lobo é um animal normalmente solitário – além do fato de ambos serem monogâmicos, como o próprio Navarre diz em certo momento. Até mesmo o uivo triste do lobo se encaixa perfeitamente ao lamento eterno de Navarre, o que se revela outra interessante sacada do inteligente roteiro de Edward Khmara, Michael Thomas, Tom Makiewicz e David Webb Peoples, baseado em estória de Edward Khmara.

Com um bom roteiro nas mãos, Richard Donner consegue imprimir um ritmo ágil à narrativa, mantendo a atenção do espectador constantemente, sem por isso deixar de criar uma crescente expectativa para o esperado reencontro do casal. Dentro da proposta do filme faz um excelente trabalho, deixando a narrativa se desenvolver de forma leve e divertida. Infelizmente, os vilões (no caso, a guarda do Bispo) não conseguem representar uma série ameaça, soando patéticos sempre que tentam atacar Phillipe e Navarre, o que impede que tenhamos a sensação de que a missão do casal corra realmente algum perigo. Além disso, as cenas de luta são pouco verossímeis, dando a sensação de que Phillipe e Navarre são super-heróis. E quando finalmente acontece o grande momento do reencontro do casal, por mais que seja uma bela cena, não consegue atender à expectativa criada devido à falta de emoção dos atores. Felizmente, o foco principal da narrativa se mantém na impossibilidade do casal se encontrar e o sofrimento que isto representa, e neste aspecto, Donner consegue sucesso absoluto.

Outro fator que conquista a simpatia do espectador é a presença do engraçado Phillipe Gaston, mais conhecido como “o rato”. Matthew Broderick surpreende com uma excelente atuação desde o primeiro momento em que surge no meio da lama, fugindo da prisão de Áquila. Alegre, com ótimo timing cômico e bastante solto, ele é o elo entre o espectador e o casal, sendo responsável também pelas melhores piadas do filme, como a brincadeira que faz com o cavalo “Golias” ao dizer que precisa lhe contar a história de Davi. Rutger Hauer consegue transmitir a angústia de Navarre na maior parte do tempo, além de mostrar a frieza esperada de um homem amargurado como ele. Firme no papel do “mocinho que salvará a princesa”, consegue sucesso nas cenas de combate, mas falha no momento mais importante dramaticamente, que é o reencontro com Isabeau. Mesmo assim, consegue fazer com que o espectador torça pelo sucesso de sua jornada e se identifique com o drama do casal. Merece grande destaque a excelente atuação de Leo McKern como o arrependido Padre Imperius. Observe como ele transmite toda a amargura do personagem, na bela cena em que conta a triste história da origem do feitiço para Phillipe. Notável também é a imponente figura do Bispo, interpretado de forma cruel por John Wood, e que representa o poder da Igreja católica naquele período. Vale observar como Donner constantemente filma o bispo por baixo, de forma que ele sempre pareça grande na tela, simbolizando seu poder. Finalmente, chegamos à personagem que dá nome ao filme (no original, em inglês). Michelle Pfeiffer, com sua beleza estonteante, cai muito bem no papel da donzela que embala os sonhos de Navarre (e até mesmo de Phillipe, como ele mesmo confessa). Carismática, consegue transmitir emoção durante os angustiantes segundos em que vê o amado como humano, e seu triste semblante ao se transformar em falcão novamente é tocante. Suas aparições noturnas, normalmente envolta em sombras, acentuam ainda mais o brilho de seu olhar e de sua beleza. Por outro lado, ainda que demonstre mais emoção que Hauer, Pfeiffer também falha no momento alto do romance, quando os dois finalmente se reencontram. Felizmente, sua alegria espontânea no último plano do filme recupera parte de seu prestígio e esta pequena escorregada não impede que o espectador se satisfaça com o final feliz do casal.

“O Feitiço de Áquila” conta também com um bom trabalho técnico, especialmente pela citada agilidade da narrativa, que é mérito também da boa montagem de Stuart Baird. Os figurinos de Nanà Cecchi e a bela direção de arte de Ken Court e Giovanni Nataluci conferem realismo à cidade medieval, repleta de montanhas nevadas, masmorras, castelos e catedrais belíssimas, enquanto a direção de fotografia de Vittorio Storaro explora muito bem as lindas paisagens da região. Além disso, Storaro capta com precisão os lindos momentos em que o sol surge e desaparece no horizonte, que também tem importante função narrativa, destacando o marcante contraste entre a noite e o dia. A trilha sonora acelerada e moderna de Andrew Powell não é coerente com a época retratada, se redimindo na linda cena do vôo do falcão sobre o rio, com um tom melancólico e belo. Os efeitos especiais não conseguem alcançar o realismo necessário nas transformações do casal, apelando para truques de montagem, mas nem por isso comprometem o resultado final. De certa forma, exige algo a mais da imaginação do espectador, o que é sempre bom.

Mesmo com os problemas citados, “O Feitiço de Áquila” consegue manter seu encanto. O duelo de cavaleiros dentro da Igreja funciona enquanto os cavalos estão em cena. Quando a luta passa a ser corpo a corpo, a falta de realismo demonstrada em todo o filme volta a aparecer, com escapadas exageradas de Navarre. Curioso notar também como todos na igreja ficam simplesmente olhando, como se fosse um espetáculo e não uma briga que colocaria em risco a vida do bispo, que até então não apresentava motivos para ser odiado por aquelas pessoas. De todo modo, o duelo final tem emoção e se estabelece como um grande momento do longa. Nada comparado, porém, a mais bela cena do filme, que acontece no breve encontro entre Navarre e Isabeau durante a transição da noite para o dia. Enquanto o sol lentamente espalha seus raios pela superfície, podemos testemunhar em câmera lenta os breves segundos em que os amantes podem se ver ainda como humanos, antes que Isabeau se transforme em falcão novamente. A montagem joga imagens na tela que simbolizam sua transformação, enquanto a câmera lenta tem a importante função de prolongar este prazeroso momento para o espectador, por mais que em tempo real ele dure apenas alguns segundos. Um grande momento, capaz de emocionar ao mais frio dos espectadores.

A terrível maldição que assola o casal é repleta de simbolismo e é um prato cheio para provocar lágrimas nos casais apaixonados. “Sempre juntos, eternamente separados” é a frase dita por Phillipe Gaston, que representa muito bem o drama vivido pelo casal. O previsível final feliz neste caso é muito bem-vindo e agrada em cheio ao espectador, que testemunha durante quase todo o tempo o sofrimento quase palpável de Navarre e Isabeau, aliviado apenas pela simpatia do divertido Gaston. Mesmo com pequenos problemas, “O Feitiço de Áquila” é simpático o suficiente para atrair a atenção do espectador e a linda história de amor que o embala é inegavelmente envolvente.

Texto publicado em 12 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

ENTRE DOIS AMORES (1985)

(Out of Africa)

 

Videoteca do Beto #34

Vencedores do Oscar #1985

Dirigido por Sydney Pollack.

Elenco: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Joseph Thiaka, Stephen Kinyanjui, Michael Gough, Suzanna Hamilton, Rachel Kempson, Graham Crowden, Leslie Phillips, Shane Rimmer, Mike Bugara, Job Seda e Mohammed Umar.

Roteiro: Kurt Luedtke, baseado nas memórias de Isak Dinesen.

Produção: Sydney Pollack.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A história real de um romance vivido no Quênia entre uma dinamarquesa da alta classe social e um solitário caçador inglês embala este belo filme dirigido por Sydney Pollack. Baseado nas memórias de Isak Dinesen (no filme a baronesa Karen Blixen-Finecke), “Entre dois amores” retrata muito bem como duas pessoas podem se amar, mesmo tendo enormes diferenças entre si. Mostra também como, por outro lado, estas mesmas diferenças podem prejudicar uma relação que tinha tudo para dar certo.

Karen Blixen (Meryl Streep) é uma rica dinamarquesa que decide morar em uma fazenda no Quênia com o barão Bror Blixen-Finecke (Klaus Maria Brandauer), com quem se casou por conveniência para desfrutar dos benefícios que o casamento lhe garantiria em sua família. O problema é que este casamento entre amigos não é o suficiente para segurar Bror, que simplesmente não consegue viver na fazenda, saindo para caçar constantemente. Pra piorar a situação, pouco tempo depois o barão decide participar da guerra. Sozinha, Karen trabalha pra tocar a vida na fazenda e se adaptar ao novo lar. A situação começa a mudar quando conhece o aventureiro aristocrata inglês Denys Finch Hatton (Robert Redford), por quem se apaixona e tem uma relação amorosa que marca sua vida para sempre.

“Entre dois amores” é um festival de lindas imagens. Os belos planos que exploram a beleza da região, acompanhados de elegantes movimentos de câmera e travellings que sobrevoam as lindas paisagens, são capazes de tirar o fôlego do espectador. O diretor Sydney Pollack – sempre com enquadramentos perfeitos que poderiam se transformar em lindos quadros – apresenta uma direção segura e competente também nas raras seqüências de ação, como nas caçadas em meio à savana africana. Mas Pollack deixa claro que a África (neste caso o Quênia) não é feita somente de belezas naturais, contrapondo com precisão o luxo dos britânicos à miséria dos africanos logo na chegada de Karen ao local, graças ao excelente trabalho de direção de arte do trio Colin Grimes, Cliff Robinson e Herbert Westbrook e aos figurinos de Milena Canonero. Além disso, Pollack consegue criar momentos de incrível realismo e tensão em todas às vezes que envolve os temíveis leões, criando cenas fantásticas e incrivelmente bem montadas. A primeira cena em que uma leoa aparece, colocando a vida de Karen em perigo, é capaz de causar um frio na espinha do espectador. Por outro lado, o diretor também demonstra sensibilidade e capricha nas cenas românticas, com destaque para o primeiro vôo de Denys e Karen, a mais bela cena do filme. Um momento sublime, repleto de imagens de tirar o fôlego, acompanhado pela lenta e linda trilha sonora de John Barry. As imagens não necessitam de palavras para criar um espetáculo visual de primeira grandeza.

Complementando a excelente direção de Pollack, destaca-se o belo trabalho de montagem (crédito para Pembroke J. Herring, Sheldon Kahn, Fredric Steinkamp e William Steinkamp), perceptível no clipe em que Karen conta histórias pela primeira vez, onde o fogo da vela e da fogueira simboliza a passagem do tempo, mostrando também a capacidade de prender a atenção dos visitantes que ela tem. Outra transição interessante acontece quando Karen sabe da doença de Berkeley (Michael Kitchen) e na cena seguinte já vemos o enterro dele. A montagem também confere um ritmo lento, porém agradável à narrativa, o que é essencial num épico de longa duração. Interessante notar como os momentos ao lado de Denys parecem passar mais rápido que os demais, o que se revela bastante coerente, já que a estória é narrada sob o ponto de vista de Karen, obviamente entediada quando distante dele.

A cena em que Karen corre perigo diante de uma leoa marca também o momento de seu reencontro com Denys já no Quênia, após terem se conhecido durante a viagem de trem. O bom roteiro de Kurt Luedtke constrói lentamente o romance entre eles, desenvolvendo com calma os personagens e conferindo consistência para o ponto alto das atuações de Streep e Redford, quando finalmente os conflitos aparecem. Neste momento, suas motivações ficam claras para o espectador, pois sabemos que ela quer um casamento oficial, ao passo que ele deseja “apenas” ser feliz com ela, sem assinar papel e se prender às responsabilidades. “Eu viveria a vida inteira com alguém. Um dia de cada vez.”, explica Denys. Luedtke também acerta ao respeitar a cultura dos nativos africanos, mostrando sua resistência aos costumes ingleses e o sentido de liberdade existente nas tribos da região (especialmente os Masai), notável quando Denys diz que eles não pensam no futuro, vivem somente o presente. Por isso, se são presos morrem. Não conseguem pensar que um dia sairão da prisão. Outra sutileza do roteiro aparece na belíssima resposta de Denys ao Barão (“Devia ter perguntado antes Denys”. “Eu perguntei, ela disse sim”), que obviamente se referia à autorização dele para que Denys ficasse com Karen. A resposta diz muito sobre o personagem, que não entende que as pessoas pertençam a alguém. Em sua visão, todos são livres.

Denys, aliás, é um personagem fascinante, interpretado com competência por Redford, que oferece uma atuação sem excessos, coerente com o simples e idealista aventureiro. Inicialmente, ele parece não dar muita bola para Karen, o que só serve para chamar ainda mais a atenção dela. Por outro lado, a presenteia com uma caneta e uma bússola, o que dá sinais de seu possível interesse. Exímio caçador e profundo conhecedor da região, Denys é um homem livre, que sente prazer nas coisas simples da vida, como uma noite estrelada ou a paisagem das savanas. Seu jeito de viver passa a sensação de que jamais deixaria de fazer algo que gosta para ficar com Karen. Este, pelo menos, é o pensamento dela, o que não a encoraja largar o casamento de fachada, pois se sente insegura. Entretanto, ele é responsável pelos momentos mais marcantes da vida dela. Redford também se sai bem nos momentos cômicos, como nas duas cenas em que brinca com a palavra “Xô” dita por Karen. Klaus Maria Brandauer convence como o Barão Bror Blixen-Finecke, deixando sempre claro que realmente é casado por conveniência, traindo a esposa constantemente e sem fazer questão de esconder isto dela. Sua sinceridade é espantosa, mas como ela mesma propôs o “acordo”, não faria sentido reclamar. E finalmente, Meryl Streep confirma seu enorme talento, numa atuação marcante (repare o perfeito sotaque britânico). Seu casamento de conveniência começa a fazê-la infeliz e sua obrigação de tomar as rédeas da fazenda transforma Karen numa mulher forte, porém extremamente carente afetivamente. Ao conhecer Denys, seu coração balança. Ela sonha viver ao lado dele, mas infelizmente Denys não é este tipo de homem. Curiosamente, ele também não se adapta à vida na fazenda, mas diferentemente de Bror, demonstra carinho quando está com Karen. Durante uma festa de ano novo, o primeiro embate entre a ambição de Karen e a simplicidade de Denys acontece, assim como o primeiro beijo. Posteriormente, a realista discussão na fazenda entre o casal, a respeito do casamento e do compromisso que ele traz, mostra a filosofia do aventureiro em oposição à necessidade dela de sentir que o possui. Ela nunca o teve da forma que queria, mas sempre teve o seu amor e carinho. O problema é que Karen gostava de se sentir segura, como se um papel de casamento fosse garantir que Denys era dela. Ele era dela de fato, mas porque queria, e não porque um papel o obrigava. Só que Karen não entendia desta forma.

O triste e belo final da história é também uma lição. Karen foi forte o suficiente para se adaptar em um país totalmente diferente de seu local de origem. Conheceu pessoas maravilhosas, demonstrou seu lado mais nobre ao se preocupar em deixar seus empregados com algum lugar para viver, mas fracassou na tentativa de compreender o homem que mais amou na vida. Por outro lado, Karen viveu ao lado dele seus momentos mais marcantes, e com certeza, também marcou a vida dele, como Denys deixa claro ao dizer que ela fez sua vida solitária perder a graça.

Contando com duas grandes atuações, “Entre dois amores” capta com precisão a experiência de duas pessoas que se apaixonam lentamente, vivem esta imensa paixão, mas jamais conseguem compreender a natureza um do outro. Lindamente fotografado e dirigido com competência, seu ritmo lento parece prolongar sua duração, mas esta impressão é amenizada pelas lindas paisagens e a bela história de amor que narra. Por isso, se estabelece como um filme sensível, poético e inegavelmente belo.

Texto publicado em 07 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

DE VOLTA PARA O FUTURO (1985)

(Back to the Future) 

 

 

Videoteca do Beto #33

Dirigido por Robert Zemeckis.

Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Crispin Glover, Thomas F. Wilson, Claudia Wells, Mark McClure, Wendie Jo Sperber, George DiCenzo, Lee McCain, James Tolkan e Billy Zane.

Roteiro: Robert Zemeckis e Bob Gale.

Produção: Neil Canton e Bob Gale. Produção Executiva de Steven Spielberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A curiosidade comum à maioria dos filhos sobre a época em que seus pais eram jovens é o fio condutor desta produção absolutamente encantadora dirigida por Robert Zemeckis e produzida por Steven Spielberg. Como eles eram? O que faziam? Será que tinham os mesmos dilemas, dúvidas e preocupações? Como se divertiam? Todas estas respostas são apresentadas ao jovem McFly de forma maravilhosa, explorando ao máximo um roteiro incrivelmente inteligente e original. “De Volta para o Futuro” é uma obra-prima da ficção que mostrou a cara dos anos oitenta como poucas obras fizeram.

A trama do filme é criativa e eficiente. O jovem Marty McFly (Michael J. Fox) aciona acidentalmente uma máquina do tempo criada pelo seu amigo e cientista Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd), retornando ao ano de 1955, onde conhece seu pai, ainda jovem, e posteriormente sua mãe. O problema é que ela acaba se apaixonando por ele e, conseqüentemente, colocando em risco sua própria existência. Desta forma, Marty deverá criar uma maneira para que seus pais se encontrem e fiquem juntos, evitando alterar o curso da história e permitindo o seu próprio nascimento.

Lendo assim, da forma que está, parece complicado. Mas o roteiro perfeito escrito por Robert Zemeckis e Bob Gale faz com que tudo se torne mais simples. Sem nenhum furo, ele consegue fazer com que todas as cenas tenham importância na trama, normalmente apresentando elementos que refletem em outros instantes da narrativa. Não é raro encontrar em uma mesma cena dois ou três elementos que podem ter importância em eventos futuros (ou refletirem atitudes do passado). Note, apenas como exemplo, como o verso do papel onde Jennifer (Claudia Wells) anota seu telefone será de suma importância para que Marty consiga voltar aos anos oitenta posteriormente. Além disso, o roteiro não perde as excelentes oportunidades criadas pela viagem no tempo e oferece piadas impagáveis, como aquela em que Marty toca “Johnny B. Goode”, fazendo com que o primo de Chucky Berry ligue imediatamente pra ele, e logo em seguida, quando Marty toca guitarra com o marcante estilo roqueiro de ser e assusta a platéia, somente para dizer que “eles não estava preparados para aquilo ainda, mas os filhos deles iriam adorar”. Genial.

É claro que a competente direção de Robert Zemeckis também tem muita importância. A começar pelo travelling inicial, que nos mostra os muitos relógios do Dr. Brown (ou “Doc”) simbolizando o tempo, tão importante na narrativa, e as noticias no jornal, rádio e televisão, que servem para nos situar no ano de 1985. Além disso, é perceptível já no primeiro plano do filme a enorme criatividade do Dr. Brown, através da parafernália criada para dar comida ao seu cachorro (não por acaso chamado Einstein) e fazer café. Vale à pena observar também como ao chegar ao centro da cidade, em 1955, Zemeckis diminui Marty em um plano geral que, além de mostrar como era a cidade na época (destacando o ótimo trabalho de direção de arte de Todd Hallowell), ilustra como Marty está perdido naquele local. O diretor cria outro plano excepcional na primeira vez em que pai e filho, agora com a mesma idade, aparecem juntos, colocando-os lado a lado. Este plano é de um simbolismo imenso. Podemos comparar as gerações e até mesmo a personalidade de cada um deles, além de observar o misto de encanto e susto do garoto ao ver o pai tão jovem. Zemeckis também tem mérito na criativa forma utilizada para viajar no tempo. O uso do carro, que lembra uma nave espacial, é genial, pois permite que ele viaje junto e sirva para voltar novamente ao presente.

Outro segredo da enorme empatia que o filme cria no espectador está na química perfeita entre o jovem Marty e o cientista “Doc”. Mérito das excelentes atuações de Michael J. Fox, que esbanja jovialidade e simpatia, e Christopher Lloyd, com seu jeito maluco e exagerado que casa muito bem com o personagem (seu visual se inspirou em Einstein, que dá nome ao seu já citado cachorro). Sempre inquieto, seu olhar arregalado e sua energia refletem muito bem a ansiedade do criativo cientista, sempre em busca de novas descobertas. Já o jovem Marty é o elo perfeito entre o filme e o público. É maravilhoso acompanhar, através do olhar dele, como seus pais eram jovens normais, que tinham paixões, dilemas, dúvidas e até mesmo vícios. Sua família problemática (tio preso, pai recatado e sufocado pelo chefe, mãe alcoólatra e irmãos inúteis) colabora com nossa imediata identificação com o personagem, além é claro do inegável carisma de Fox. E aqui o filme também cria conexões com o passado, já que a forma de agir no presente apenas reflete atitudes tomadas na juventude do casal. Repare como Lorraine McFly (Lea Thompson) recorda com nostalgia a forma que conheceu George (Crispin Glover), que nem sequer presta atenção, pois está ligado no programa de televisão. O desempenho do casal, aliás, merece grande destaque. Crispin Glover oferece um ótimo desempenho como o fracassado George, deixando claro como os traumas da juventude refletiam em sua vida de adulto. Por outro lado, a excelente atuação de Lea Thompson cresce muito durante a juventude de Lorraine. Observe a forma apaixonada com que ela olha para Marty, com a fala ofegante, demonstrando ansiedade ao pedir que ele a convide para o baile. Em outro momento, seu sorriso mistura embaraço e satisfação, ao ouvir Marty falar sobre a possibilidade de um dia ela e George terem filhos. E mesmo quando representa Lorraine já adulta ela não compromete, primeiro passando uma imagem de mãe conservadora, e depois, como reflexo das mudanças no passado, se mostrando uma mãe moderna e muito mais feliz. Lorraine era uma garota como outra qualquer, impulsiva, apaixonada e romântica. Como muitos jovens, tinha vícios (fumava e bebia, o que provoca um choque em Marty), porém, como a maioria dos adultos, pedia ao filho que não tivesse. Lorraine fazia tudo que posteriormente, já como adulta e mãe, proibia os filhos de fazer. Esta atitude, que normalmente é uma forma de tentar proteger os filhos, acaba tendo um efeito contrário em muitos casos, e é interessante notar como até mesmo este tema o filme aborda de forma inteligente e divertida. Finalmente, merece destaque o excepcional desempenho de Thomas F. Wilson como o cruel Biff.

Somente para não deixar passar batido, vale a pena destacar a excepcional maquiagem, notável tanto nos jovens atores, quando estes estão interpretando os pais de Marty, como no envelhecimento de Christopher Lloyd (repare seu pescoço e suas rugas no rosto). A bela trilha sonora é mérito de Chris Hayes e Alan Silvestri. Destaca-se também a excelente montagem de Harry Keramidas e Arthur Schmidt, que mantém um ritmo perfeito para o filme, misturando momentos de ficção, humor, aventura, ação e drama, sempre na medida certa. Existem momentos de ação, aliás, que deixam o espectador grudado na cadeira, como a perseguição em que Marty foge e, acidentalmente, “inventa” o skate e a seqüência angustiante que marca sua volta para 1985 (observe a inteligente transição feita através do plano do relógio). Além disso, o final coerente com as atitudes de Marty no passado (seus pais estão muito bem na vida e Biff é empregado de George), ainda deixa em aberto a seqüência da trilogia.

Explorando com muito talento a enorme curiosidade que os filhos têm de saber como eram os pais na juventude, o filme aproveita para deixar algumas mensagens interessantes. A mais importante delas é a de que as atitudes da juventude ecoam no resto de sua vida. George, por exemplo, era um jovem sem autoconfiança e isto refletia num adulto completamente indefeso e submisso. Pequenas mudanças de atitude no passado mudariam todo o curso de sua história, como o filme mostraria mais pra frente.

Sempre fico me perguntando o que eu faria se tivesse a oportunidade de viajar no tempo. Qual seria minha escolha, a nostalgia do passado ou o mistério do futuro? Mais divertido ainda é pensar que meu primeiro filho, que hoje está na barriga da mamãe, poderia voltar no tempo e testemunhar a enorme alegria que sua chegada nos proporcionou. Viajar nesta interessante premissa é só uma das muitas possibilidades que “De Volta para o Futuro” oferece. Experimente, por exemplo, rever o filme, observando pequenos detalhes que passaram batidos na primeira vez. Será sempre uma experiência divertida e reveladora. Clássico absoluto dos anos oitenta, esta maravilhosa aventura brinda o espectador com uma das idéias mais criativas já exploradas pelo cinema. Com personagens fascinantes, estimula nossa imaginação e nos diverte de uma forma intensa, inteligente e absolutamente inesquecível.

Texto publicado em 05 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira